Abandono.

8 Farois Acesos.


Notas iniciais
Boa leitura!!!! E desculpem a demora! Mas agora vai passar a ser assim (testes, escola...). Desculpem.

As aulas terminaram.

Jena ficou em casa com febre. Liguei-lhe umas quantas vezes á hora de almoço para saber como ela estava e, pelos vistos, nada bem. Segundo ela, o pior é a dor de cabeça. Mandei-lhe as melhoras.

Continua a chover, o céu quase negro e a maioria dos alunos está com uma cara enfadonha, nada alegre. Suponho que possa dizer o mesmo de mim própria...

Aventuro-me pela estrada deserta. Ando aos ziguezagues enquanto canto desafinada e oiço música com os meus fones brancos.

She's piling boxes infront of the door

tryin' to block it

"Daddy please, daddy don't leave, daddy no, stop it! "

Goes in her pocket

pulls out a tiny necklace locket

it's got a picture

"This'll keep you safe daddy, take it with you"

I look up, it's just me standin' in the mirror

these fuckin' walls must be talkin

coz man I can hear 'em

Oiço a voz de Eminem enquanto caminho e, não posso negar, é como se ele estivesse a cantar para mim. Cada frase, cada entoação, o timbre... Quem me dera que eles estivessem aqui. É como se fosse uma espécie de despedida, um "lamento" antes da sua partida. Se pudesse voltar atrás, juro, pôr-me-ia à frente do camião para ir junto com eles. Mas não, eu estava na escola à espera que alguém me viesse buscar e daria tudo, mas tudo para lhes entregar este pendente que seguro ao pescoço desde a sua morte. Uma foto de ambos num concerto, não me lembro de quem era o espetáculo nem quando foi, só sei que a mãe o levava para todo o lado. Mas por alguma razão, naquele dia, encontrei-o em cima da bancada da cozinha...

Retiro os fones e respiro fundo com o rosto altivo. Sinto um pingo de chuva escorregar pelo meu pescoço e descer pelas minhas costas deixando um arrepio gelado por onde passa. Apresso o passo e observo a rapidez com que, de uns leves salpicos, uma mistura de vento, pó e água aparece.

Começo a correr. Não vejo nada... Só falta um pouco para chegar a casa e sinto o pó a arranhar-me o rosto. Estou encharcada, os cabelos colados a todo o corpo, a visão turva. Vejo dois faróis acesos a vir na minha direção e sorrio. É agora... Finalmente. As lágrimas escorregam furiosas misturando-se com a chuva. Oiço o apitar do carro e fecho os olhos deixando umas duas ultimas gotas baterem no alcatrão da estrada.

E depois, bem depois aconteceu tudo. Mas de uma maneira completamente diferente àquela que eu previa... Eu estava do lado errado da estrada, a viatura passa por mim a uma velocidade absurda e os meus cabelos gritam vorazes para o ar poluído. Deixo-me cair de joelhos e levo as mãos à cara afastando inutilmente todos os fios que estão colados à minha pele. Tento gritar, mas a minha garganta... A minha voz não sai! Choro ainda mais, calma, sem nenhum ruido...

Por que é que me fazem isto? Será que não veem que a cada dia que passa, que a cada segundo que vejo ir embora, só fico mais... Presa?! Presa a eles, presa ao passado, presa ao que eu era antes daquela porra de acidente? Eu só quero parar. Parar de me sentir inútil e abandonada por aqueles que amava. Que ainda amo!

Ergo o punho deixando-o cair com força naquele mar negro. Uma poça formou-se no sitio onde estou e vários salpicos ressaltam para cima de mim. Repito-o vezes sem conta e já me sinto mais aliviada... Levanto-me, os joelhos doridos e as mãos marcadas pelas inúmeras pedrinhas de alcatrão. Dou dois passos para trás, cambaleando um pouco. Enxugo a testa e os olhos com os pulsos e caminho, ainda à chuva, para casa.

Viro-me para trás. Pareceu-me ver um vulto...

Abro a porta com a chave que tinha no bolso das jeans e volto a fechá-la com o pé após entrar. Vou largando as roupas pelo caminho criando um rasto até à casa de banho. Sento-me no banco de ferro já nua. Começo a pentear-me enquanto choro aos soluços. Faço uma única trança e pouso o pente junto à pia. Não cheguei a prendê-la e, frustrada, puxo-a tornando-a num emaranhado de cabelos molhados. Respiro fundo e tomo um banho de água fria. Massajo a cabeça enquanto coloco o shampoo e começo a ficar com bastante sono... Saio e, enrolada numa toalha, vou para o quarto onde me deixo cair sobre cama. O meu corpo ficou pesado de repente e antes de poder evitá-lo, adormeço.