AVATAR VALLEY

1 CAPÍTULO 1 – Sob a Neve


Avatar Valley parecia saída de um cartão-postal de inverno. Durante boa parte do ano, a neve cobria os telhados, as ruas e os bosques com uma camada branca que suavizava contornos e escondia imperfeições. Vista de longe, a cidade transmitia uma sensação quase irreal de tranquilidade. As montanhas que a cercavam formavam uma muralha natural de pedra e pinheiros, isolando-a do restante do mundo e reforçando a impressão de que o tempo passava de maneira diferente ali.

Nas manhãs em que os flocos caíam de forma mais mansa, quando a fumaça escapava das chaminés e as luzes amareladas ainda brilhavam atrás das janelas, Avatar Valley parecia exatamente o tipo de lugar que as pessoas procuravam quando desejavam fugir do caos das grandes cidades. Era bonita, organizada e acolhedora. Pelo menos era isso que os visitantes costumavam enxergar. Os moradores sabiam que a cidade era um pouco mais complicada do que aquilo.

Em Avatar Valley, reputação possuía valor próprio. Os sobrenomes mais antigos carregavam décadas de história. Casamentos, negócios, rivalidades e escândalos passavam de geração para geração quase como heranças familiares. As pessoas acompanhavam a vida umas das outras com uma atenção silenciosa e constante. Todos pareciam saber alguma coisa sobre todos. Algumas dessas coisas eram verdadeiras. Outras não, a diferença raramente importava.

Aparências eram preservadas com o mesmo cuidado dedicado às fachadas impecáveis das casas do centro. Os moradores sorriam durante eventos beneficentes, participavam dos festivais comunitários e cumprimentavam os vizinhos com cordialidade. Havia uma espécie de acordo invisível sustentando a cidade. Certos assuntos simplesmente não eram discutidos. Certas perguntas simplesmente não eram feitas.

No centro daquela estrutura social encontrava-se a família Klaus. Era impossível viver em Avatar Valley sem ouvir aquele sobrenome. As empresas da família movimentavam boa parte da economia local. Seu nome aparecia em placas comemorativas, doações comunitárias, reportagens e eventos públicos. Durante décadas, os Klaus acumularam riqueza suficiente para se tornarem mais do que empresários. Tinham se tornado uma instituição. Alguns moradores admiravam a família, outros desconfiavam dela. A maioria fazia as duas coisas ao mesmo tempo.

A mansão dos Klaus erguia-se em uma das áreas mais elevadas da cidade, cercada por extensos terrenos cobertos por uma leve camada alva e pinheiros antigos. Vista da avenida principal, lembrava mais uma propriedade aristocrática do que uma residência familiar. As paredes de pedra escura, as janelas altas e os jardins perfeitamente cuidados faziam dela um dos pontos mais reconhecedores de Avatar Valley. Era ali que moravam James Klaus, Melissa e Noah.

James era conhecido por praticamente todos os habitantes da cidade. Alto, elegante e dono de uma presença difícil de ignorar, costumava aparecer em reuniões empresariais, eventos comunitários e cerimônias públicas. Seu nome era frequentemente associado ao crescimento econômico da região, e muitas pessoas o enxergavam como o retrato perfeito do sucesso que Avatar Valley admirava.

Melissa ocupava um espaço diferente. Sua influência raramente era exercida em público, mas isso não a tornava menor. Respeitada nos círculos sociais mais prestigiados da cidade, ela participava de ações beneficentes, organizava recepções e transitava pelos ambientes mais exclusivos com uma naturalidade que poucas pessoas possuíam. Quem a conhecia melhor sabia que sua principal qualidade não era a elegância. Era a capacidade de observar. Melissa enxergava coisas que a maioria das pessoas deixava passar e quase nunca demonstrava isso.

O último membro da família era Noah. Mesmo antes de completar dezesseis anos, ele já era uma das figuras mais conhecidas da Avatar Valley High School. Seu sobrenome atraía atenção por si só, mas não era apenas isso. Capitão do time de hóquei, atleta respeitado e presença constante nos eventos escolares, Noah ocupava uma posição que poucos estudantes alcançavam. Professores sabiam quem ele era. Alunos mais novos o reconheciam à distância. Colegas acompanhavam suas partidas e comentavam suas decisões dentro e fora do gelo.

Naquele início de ano letivo — que, por uma antiga e peculiar tradição de Avatar Valley, começava sempre no final de novembro —, Noah Klaus ocupava exatamente o lugar que a cidade esperava que ocupasse. E, aos olhos de todos, não havia motivo para imaginar que isso mudaria. A proximidade das datas festivas não alterava o ritmo escolar; os alunos mal haviam guardado os cadernos do primeiro dia e já se viam cercados pelos preparativos do Festival de Inverno da cidade e do tradicional Baile de Inverno da escola, agendado para aquele domingo que antecedia o recesso de Natal.

Na manhã seguinte, Avatar Valley despertou sob uma fina e charmosa camada de neve. Os flocos haviam caído de maneira mansa e coreografada durante toda a madrugada, cobrindo ruas, veículos e jardins com uma uniformidade quase perfeita. O frio era nítido, mas aquela calmaria branca raramente alterava a rotina dos moradores. Em Avatar Valley, o inverno inicial não era um obstáculo. Era apenas parte da paisagem.

Na mansão dos Klaus, o dia já havia começado muito antes do nascer do sol. Funcionários cruzavam corredores silenciosos carregando bandejas, documentos e arranjos florais. O aroma de café recém-passado espalhava-se pelo primeiro andar, misturando-se ao cheiro discreto da madeira antiga e da lareira acesa na sala principal. Tudo funcionava exatamente como deveria. E isso não acontecia por acaso.

Noah desceu a escadaria principal ajustando os punhos da camisa social de seu uniforme escolar obrigatório. O som de seus passos ecoou brevemente pelo hall de entrada antes de desaparecer entre os corredores amplos da residência.

A sala de jantar já estava iluminada. James Klaus ocupava seu lugar habitual à cabeceira da mesa. Vestia um terno escuro impecável apesar do horário e analisava uma pequena pilha de documentos enquanto tomava café. Próximo ao prato principal havia um relógio de pulso, um celular e uma caneta prateada perfeitamente alinhados. Nada sobre James parecia aleatório, nem mesmo a maneira como organizava os próprios objetos.

Noah puxou a cadeira.

— Bom dia — cumprimentou Noah, sentando-se à mesa.

James ergueu os olhos apenas o suficiente para reconhecê-lo.

— Bom dia — respondeu James, voltando a atenção aos papéis.

Foi tudo. Nenhum dos dois parecia considerar aquilo estranho. Melissa entrou alguns minutos depois. Ao contrário do marido, que eventualmente não era visto em casa por estar sempre focado no trabalho, ela não carregava documentos nem demonstrava qualquer pressa. Seus movimentos possuíam uma tranquilidade quase estudada, como se nada fosse capaz de alterar seu ritmo. Sentou-se ao lado de Noah.

— Você parece cansado — comentou Melissa, servindo-se de chá.

— Eu pareço normal — retrucou Noah, sem encará-la.

— Isso não respondeu minha pergunta — disse ela calmamente, exibindo um meio sorriso.

Noah serviu-se de café.

— Dormi bem — insistiu ele.

Melissa observou o filho por alguns segundos. Não insistiu, pois sabia que insistir raramente funcionava.

— Claro que dormiu — respondeu ela, com um leve tom de ironia.

O comentário fez Noah sorrir de canto. Aquela pequena troca passou despercebida por James, ou pelo menos foi o que pareceu. Por alguns minutos, apenas o som dos talheres ocupou o ambiente. Lá fora, a neve calma e ambientada continuava caindo, e lá dentro, a mesa estava impecavelmente organizada. Frutas. Pães. Café. Chá. Tudo disposto com precisão quase excessiva; a cena parecia saída de uma revista sobre famílias influentes. Era exatamente assim que Avatar Valley enxergava os Klaus.

James fechou a pasta que estava analisando.

— O treino começa hoje? — perguntou James, fitando o filho.

— Começa — respondeu Noah.

— Quantos jogadores retornaram? — questionou o pai.

— Quase todos — informou o rapaz.

— Ótimo — limitou-se a dizer James.

Noah continuou comendo. James apoiou os antebraços sobre a mesa.

— Quero outro campeonato este ano — declarou James.

Não havia agressividade em sua voz. Nem cobrança explícita. Ainda assim, aquilo não soava como uma opinião, mas como uma ordem.

— Vamos tentar — disse Noah.

James arqueou uma sobrancelha.

— Tentar? — repetiu o pai, desaprovando o termo.

Melissa lançou um olhar discreto para o marido. Noah apoiou a xícara na mesa.

— É um esporte coletivo — justificou Noah.

— E você é o capitão — rebateu James imediatamente.

— Eu sei — murmurou o jovem.

— Então lidere — ordenou o pai.

O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi habitual. Aquele tipo de conversa já acontecera muitas vezes, talvez com palavras diferentes, mas sempre com a mesma essência. James acreditava em desempenho, resultados e eficiência. Era a lógica que utilizava nos negócios, era a lógica que se aplicava à própria família.

— Se alguém não acompanhar o ritmo — continuou James —, tire do caminho.

Melissa suspirou discretamente.

— Ainda é uma equipe escolar, James — interveio Melissa.

— E? — desdenhou ele.

— São adolescentes — lembrou a esposa.

— Justamente por isso precisam aprender cedo — encerrou James.

Melissa levou a xícara aos lábios.

— Nem tudo precisa ser tratado como uma reunião empresarial — comentou ela, em tom baixo.

— Resultados continuam sendo resultados — repetiu James, inflexível.

Ela não respondeu; sabia que aquela discussão não levaria a lugar algum. Noah também permaneceu em silêncio, não porque concordasse totalmente nem porque discordasse, mas porque crescera ouvindo aquele tipo de raciocínio. Fazia parte da paisagem da mesma forma que a neve do lado de fora.

James voltou a abrir os documentos e a conversa encerrou-se naturalmente. Poucos minutos depois, Noah levantou-se.

— Tenha um bom dia — desejou Melissa.

— Você também — respondeu Noah.

James apenas assentiu. Noah seguiu em direção à porta. Ao atravessar o hall principal da mansão, ouviu o som distante da conversa recomeçando na sala de jantar. Provavelmente negócios, projetos, investimentos — assuntos que pareciam ocupar cada espaço disponível na vida de seu pai.

Do lado de fora, o frio era nítido, mas a neve caía em flocos calmos e preguiçosos, criando uma moldura serena sobre Avatar Valley. O SUV de Noah deslizou com suavidade pela avenida principal enquanto a cidade despertava sem pressa. Algumas lojas já estavam abertas. Funcionários removiam a neve fina das calçadas. Caminhões realizavam entregas antes do aumento do movimento. Próximo à praça central, uma equipe municipal trabalhava com tranquilidade na decoração para o Festival de Inverno, agendado para o dia 22 de dezembro.

Avatar Valley parecia menor vista da estrada. Menor. Mais silenciosa. Quase inofensiva. A impressão desaparecia assim que alguém passava tempo suficiente ali.

Pouco antes de chegar à escola, Noah reduziu a velocidade para permitir que um grupo de estudantes atravessasse uma faixa de pedestres. Dois deles o reconheceram imediatamente. Um aceno. Um cumprimento. Uma rápida troca de olhares. Nada incomum. Ele respondeu com um movimento discreto da cabeça e seguiu adiante.

A Avatar Valley High School surgiu alguns minutos depois. O prédio de tijolos vermelhos destacava-se contra a paisagem branca ao redor. Mesmo depois de tantos anos, continuava sendo uma das construções mais imponentes da cidade. O estacionamento já estava quase cheio.

Noah estacionou próximo à entrada principal e desligou o motor. Antes de sair do veículo, vestiu o seu sobretudo escuro por cima do uniforme oficial da escola — uma proteção necessária contra o ar frio da manhã. Ao descer do carro, percebeu alguns olhares direcionados para ele. Não era novidade. Nunca tinha sido. Pegou a mochila do banco traseiro e atravessou o estacionamento.

— Klaus!

A voz veio de algum lugar à sua esquerda. Noah ergueu a mão em cumprimento sem sequer precisar identificar quem havia chamado. Ao redor dele, grupos se formavam próximos às entradas da escola. Atletas. Integrantes do conselho estudantil. Alunos do último ano. Os círculos sociais habituais.

Conforme caminhava, algumas conversas diminuíam brevemente. Outras mudavam de assunto. Não por intimidação. Não exatamente. Era apenas uma consequência natural da presença dele. Uma dinâmica construída ao longo dos anos.

Perto da entrada principal, um professor segurava uma pilha de pastas enquanto tentava equilibrar uma caneca de café. Ao ver Noah, abriu um sorriso.

— Pronto para mais uma temporada? — perguntou o professor, animado.

— Não tenho muita escolha — comentou Noah, com um sorriso de canto.

— Essa é a resposta de um capitão — elogiou o docente.

Noah riu brevemente.

— Vou fingir que isso foi um elogio — respondeu o jovem.

— E foi! — exclamou o professor, seguindo seu caminho.

Mais alguns passos e Noah atravessou as portas principais da escola. Ao cruzá-las, o aquecimento central tornou o ambiente acolhedor; ele desfez-se do casaco pesado e o guardou, revelando a camisa social perfeitamente alinhada do uniforme obrigatório.

O corredor estava tomado pelo movimento típico do primeiro dia de aula. Armários se abriam, mochilas esbarravam umas nas outras, professores tentavam organizar a circulação dos alunos. O som de dezenas de conversas simultâneas preenchia o ambiente. Noah caminhou sem pressa. As pessoas se afastavam o suficiente para permitir sua passagem. Era algo tão sutil que talvez um visitante nem percebesse. Mas acontecia. Sempre acontecia.

Dois alunos do primeiro ano interromperam uma conversa quando ele passou. Uma garota do segundo ano sorriu. Alguém o cumprimentou do outro lado do corredor. Outro estudante ergueu a mão pedindo confirmação para uma festa no fim de semana. Noah respondeu apenas com um gesto positivo.

A rotina parecia repetir-se exatamente como nos anos anteriores. No final do corredor principal, próximo à vitrine de troféus esportivos, Tyler Reed aguardava encostado em um armário. Novos banners haviam sido adicionados: enormes painéis em tons de azul e brancos celebravam o hóquei. Assim que viu o amigo, Tyler endireitou a postura.

— Achei que fosse chegar atrasado — comentou Tyler, desencostando-se.

— Eu nunca chego atrasado — disse Noah, no seu tom frio habitual.

— Foi exatamente por isso que comecei a me preocupar — ironizou Tyler.

Noah soltou uma breve risada. Tyler apontou para a vitrine atrás deles. Fotografias. Medalhas. Troféus. A maior parte relacionada ao hóquei.

— O treinador chegou antes das sete — comentou Tyler.

— Isso parece um problema dele — desdenhou Noah.

— Ele está convencido de que vamos ganhar o regional de novo — acrescentou o amigo.

— Ele está convencido disso desde novembro — relembrou Noah.

— Verdade — concordou Tyler.

Os dois começaram a caminhar pelo corredor. À medida que avançavam, outros jogadores juntavam-se naturalmente ao grupo. Ninguém havia combinado aquilo, simplesmente acontecia. Noah lançou um último olhar pelo corredor antes de seguir para a primeira aula.

Do outro lado da Avatar Valley High School, longe da vitrine de troféus e da movimentação que dominava os corredores centrais, Henry Dawson atravessava as portas do prédio pela primeira vez. O ar fresco da manhã ainda parecia preso às mangas de seu casaco pesado, vestido por cima do uniforme social regulamentar. Durante alguns segundos, permaneceu parado próximo à entrada acolhedora, observando o fluxo constante de estudantes que cruzavam os corredores em todas as direções.

A escola parecia muito maior do que ele lembrava das visitas de infância antes de se mudar da cidade, mas talvez fosse apenas impressão. Ou talvez o prédio realmente mudasse quando estava cheio de pessoas. Conversas ecoavam por todos os lados. Armários batiam. Professores orientavam alunos perdidos. Grupos inteiros caminhavam juntos como se já soubessem exatamente para onde estavam indo.

Henry não possuía aquela mesma segurança. Ajustou a alça da mochila no ombro e retirou da pasta uma cópia do horário das aulas. Não precisava olhar; já havia decorado tudo. Ainda assim, conferiu. Primeira aula. Número da sala. Andar correto. Horário. Depois guardou o papel novamente. Aquilo o ajudava a organizar os pensamentos. Ou pelo menos a fingir que os organizava.

Respirou fundo. É apenas uma escola. A frase parecia simples. Tentou repeti-la mentalmente mais algumas vezes. Não funcionou. Continuava parecendo muito mais do que apenas uma escola. Era o primeiro dia. Seu primeiro ano de volta a Avatar Valley aos 16 anos, um lugar cheio de rostos que já pareciam conhecer uns aos outros há uma vida inteira.

Henry odiava situações assim. Não porque não gostasse de gente, mas porque nunca soubera exatamente como se encaixar. Observava primeiro, falava depois. Às vezes nem falava. Era um hábito antigo, talvez antigo demais.

Mientras caminhava pelo corredor interno bem aquecido, tendo guardado seu casaco no armário e revelado a vestimenta padrão da escola, desviava de grupos maiores. Percebeu quantas histórias pareciam acontecer ao mesmo tempo ao seu redor. Alunos rindo. Alguém reclamando de uma prova que ainda nem existia. Um casal discutindo próximo aos armários. Uma professora carregando uma pilha de livros tão alta que mal conseguia enxergar o caminho. Era estranho. A escola parecia viva. Muito mais viva do que durante a visita de orientação meses antes. Naquela época, os corredores estavam quase vazios. Agora pareciam um organismo em movimento constante.

Henry ainda tentava decidir qual caminho seguir quando ouviu alguém chamando seu nome.

— Henry! — gritou a voz.

Virou-se imediatamente. Clara Whitfield atravessava o corredor em sua direção equilibrando uma quantidade absurda de livros nos braços. Ela desviava das pessoas sem diminuir o ritmo. Nem uma única folha caiu. Henry já tinha visto aquilo acontecer tantas vezes que não se surpreendeu.

— Você trouxe uma biblioteca inteira? — perguntou Henry, observando o volume de folhas nos braços dela.

— Eu trouxe o necessário — respondeu Clara, firme, sem parar de andar.

— Isso definitivamente não é o necessário — retrucou Henry, soltando uma risada baixa.

— Você diz isso porque não entende planejamento — rebateu ela, arqueando uma sobrancelha.

— Eu entendo planejamento — defendeu-se ele.

— Não entende — encerrou Clara, decidida.

Ela parou diante dele. Seus olhos analisaram seu rosto durante um segundo. Depois estreitaram-se.

— Você está nervoso — constatou Clara.

— Não estou — mentiu ele.

— Está sim — insistiu ela.

— Não estou — repetiu Henry.

— Henry — chamou ela, num tom que exigia sinceridade.

Ele suspirou, dando-se por vencido. Clara sorriu.

— Eu te conheço faz tempo — lembrou ela, carinhosa.

— Isso não significa nada — murmurou ele.

— Significa tudo — rebateu a garota.

Henry balançou a cabeça. Não havia argumento possível quando Clara decidia que estava certa. O problema era que normalmente ela estava.

— Você dormiu? — perguntou Clara.

— Dormi — respondeu Henry.

— Quantas horas? — quis saber ela.

— O suficiente — esquivou-se o rapaz.

— Resposta suspeita — rebateu Clara, estreitando os olhos.

— Eu dormi — enfatizou ele.

— Certo — cedeu ela, embora não estivesse convencida.

Os dois sabiam disso. Continuaram caminhando lado a lado enquanto o movimento aumentava ao redor. Pela primeira vez desde que chegara, Henry sentiu a tensão diminuir um pouco. A presença de Clara produzia aquele efeito. Ela possuía uma habilidade admirável de transformar situações desconfortáveis em algo suportável. Talvez porque falasse sem parar, ou talvez porque simplesmente não permitia que o silêncio se tornasse constrangedor. Provavelmente os dois.

— Você decorou seu horário inteiro, não foi? — indagou Clara.

— Talvez — respondeu ele, misterioso.

— Henry — repreendeu ela.

— Sim — admitiu o rapaz.

— Você decorou — celebrou ela.

— Talvez — insistiu ele, rindo.

— Isso foi um sim — determinou Clara.

— Você não tem provas — blefou Henry.

— Eu não preciso de provas — encerrou ela, piscando para ele.

Ela parecia genuinamente satisfeita com a própria conclusão. Alguns metros adiante, um grande mural colorido ocupava parte da parede principal do corredor. Cartazes de clubes estudantis, atividades extracurriculares e eventos escolares estavam espalhados por toda a superfície. Clara continuava falando sobre alguma coisa relacionada à biblioteca municipal quando Henry parou. Seus olhos haviam encontrado um anúncio específico.

CORAL DE AVATAR VALLEY INSCRIÇÕES ABERTAS. ENSAIOS ÀS TERÇAS E QUINTAS. SALA DE MÚSICA B.

A fotografia da professora Olivia Bennett ocupava um dos cantos do cartaz. Por alguns segundos, o restante do corredor pareceu desaparecer. O barulho, as conversas, a ansiedade: tudo ficou distante.

Música. Aquilo fazia sentido. Sempre fizera. Henry aproximou-se um pouco mais do mural. Sem perceber, estava sorrindo. Um sorriso quase imperceptível, mas real.

Clara observou o cartaz, depois observou Henry.

— Você vai entrar — constatou Clara, cruzando os braços.

Não foi uma pergunta.

— Talvez — ponderou Henry.

— Henry — pressionou a amiga.

— O quê? — perguntou ele, desvinculando os olhos do mural.

— Nós dois sabemos que você vai entrar — afirmou Clara, sorrindo de orelha a orelha.

Ele continuou olhando para o anúncio. Não respondeu imediatamente. Porque, pela primeira vez desde que atravessara as portas da escola naquela manhã, não estava pensando em corredores desconhecidos, horários ou alunos que nunca tinha visto. Estava pensando em música. E isso tornava tudo um pouco mais fácil.

O primeiro sinal ecoou pelo prédio, dando início oficial ao dia. Os corredores começaram a esvaziar, portas se abriram e professores chamaram os alunos para as salas. Mas, durante mais alguns segundos, Henry permaneceu diante do mural observando o cartaz. Então, guardou aquela imagem na memória e seguiu adiante com Clara.