ANTROPÓFAGO - Diário de um Canibal
4 O acidente
Notas iniciais
Estávamos nós três em cima daquela passarela de metal, sobre os dois cilindros contendo soda cáustica em estado líquido. O forte cheiro de amônia começou a fluir no ar.
— Gente, cês tão sentindo? — Perguntei, tentando conter a náusea.
— Que cheiro insuportável. O que é isso? — Davi também estava incomodado.
— Vamos sair daqui. Parece que há um vazamento de amônia. Esse lugar poderá explodir. — Érica alertou, visivelmente preocupada.
— Vamos voltar, gente. É melhor. — Insisti, sentindo o pânico crescer.
— Que voltar, Max? Temos que seguir em frente, a escada que a gente subiu tá bem mais longe. A outra aqui tá bem mais perto. — Davi estava decidido a continuar.
— Então se adiante, Davi. Esse cheiro tá ficando difícil de suportar. — Érica implorou.
De repente, o corrimão em que Érica se apoiava desandou, levando-a junto. Um grito agudo cortou o ar, e ela ficou pendurada, segurando a passarela com as mãos.
— Ahh! Por favor, me ajudem! — Ela gritava desesperada.
— Meu Deus, Érica! — Exclamei, em choque.
— Vem, Max, temos que ajudá-la! — Davi chamou, puxando-a com toda a força que tinha.
Desesperado, corri para salvar Érica. Tentei puxá-la pelo braço, mas o esforço era em vão. Minhas pernas estavam sobre o piso da passarela de metal, numa posição desconfortável que dificultava qualquer movimento. Davi, do outro lado, também se esforçava para puxá-la.
— Força, Érica! Puxa ela pra cima, Max. — Davi gritava, determinado.
— Essa posição em que estou tá muito desconfortável. Não tô conseguindo me equilibrar e puxá-la. — Eu lutava, mas as circunstâncias eram desfavoráveis.
— Gente, pelo amor de Deus, não me deixem cair! — Érica implorava, com lágrimas nos olhos.
— Eu vou te ajudar, meu amor! — Eu prometi, tentando encontrar alguma solução.
Quando parecia que finalmente estávamos fazendo progresso, o lado em que eu estava cedeu. Minhas pernas perderam o equilíbrio e tentei desesperadamente segurar na borda, como Érica havia feito. Mas era tarde demais. Minhas mãos foram pisoteadas por Érica, que se levantava e, talvez levada pela emoção do momento, correu e abraçou Davi.
Ver os dois ali abraçados me causou um sentimento estranho, como se eu estivesse sobrando naquele momento. Eles pareciam felizes juntos e nem se deram conta de que, desta vez, era eu quem estava pendurado.
Sorte ou azar? Houve vazamento do produto. Seus gases inflamáveis devem ter entrado em contato com algum tipo de metal ou material combustível, provocando uma ensurdecedora explosão. Eis que o já frágil cilindro partiu-se no meio fazendo com o que a soda que estava em seu conteúdo derramasse pelo salão, provocando incêndio. Meus braços cansados e minhas mãos massacradas pelos pés de Érica não aguentaram o peso do meu corpo, fazendo com o que eu descesse em direção às chamas, enquanto ao longe eu avistava os dois envolvidos nos braços um do outro. Minha sorte é que se o cilindro não tivesse explodido, eu mergulharia direto na soda cáustica e não teria chance nenhuma de sobreviver.
Minha pele fervia ao entrar em contato com a soda que empoçava no chão, sentia meu corpo dilacerando e minha carne espumando pelo calor do fogo que cobria todo o local; era o meu fim. Em minha mente um filme se passava, mas o tormento que a soda provocava interrompia qualquer devaneio. Ouvia vozes chamando o meu nome, pessoas gritando, chorando.
— Max!
— Max, responda! Cê tá bem?
— Max! Por favor, fale alguma coisa. Onde cê tá?
O fogo tomou conta de todo o local. As paredes de isopor se corroíam rapidamente, ampliando o inferno que se desenrolava à minha volta.
— Max! Temos que sair daqui, isso tudo vai explodir.
As vozes pareciam longe e a minha pele ainda fervia. Saí cambaleando, agachado ao chão em meio às chamas. Queria gritar, mas a voz estava sufocada; os borrifos da soda cáustica no ar estavam causando danos à minha respiração. A máscara de oxigênio que eu usava havia derretido e pregado ao meu rosto. Procurava pela porta, mas tudo estava escuro porque as luzes se apagaram com a explosão. Apenas as labaredas do fogo iluminavam o local. Érica e Davi, com sorte, provavelmente conseguiram sair durante a confusão. Eu tossia repetidamente, minha garganta queimava, mal conseguia me locomover. Finalmente, encontrei a porta e, por puro instinto, segui em frente. Minhas vias respiratórias estavam irritadas pelo contato com o produto, a tosse era incessante, e minha visão estava turva. Então, o mundo escureceu e eu desmaiei.
Acordei tempos depois sem saber ao certo onde estava. "Não, não estou mais na fábrica, que lugar esquisito é esse? Como vim parar aqui? " – foram meus pensamentos imediatos. Parecia uma caverna, de uma beleza deslumbrante. Encontrava-me deitado nas margens de um rio, completamente nu, metade do corpo mergulhado na água. Quis me levantar, apesar de sentir meu corpo todo dolorido, resultado das queimaduras que sofri, mas até para mover o braço exigia um enorme esforço.
— Não! Permaneça deitado cê tá muito ferido.
Quem disse isso? Olhei para o lado e vi um senhor, de barba grisalha comprida e roupas esfarrapadas, mexendo um suco verde em uma cuia feita de cabaça. "Será que é o tal do John Mossaíh? " Me questionei.
— Cê ainda tá muito mal, é preciso que fique em repouso. Tirei as suas roupas, pois estavam contaminadas, te banhei em água corrente para eliminar o efeito da soda. Vem, vou te ajudar a sair da água.
O homem continuou, cuidadosamente. Retirou meu corpo por completo da água e, com uma espátula improvisada da casca de alguma árvore, pegou o conteúdo verde da garrafa e passou em minha pele. Eu fiquei paralisado, sofrendo com as minhas queimaduras e indagando em minha cabeça quem seria aquele senhor?
— Isso é um creme caseiro que fiz com babosa, camomila e flor de calêndulas que encontrei aqui mesmo na floresta. Vai ajudar a aliviar as dores causadas pela queimadura. — Ele explicava enquanto cuidava de mim.
Nada fiz, apenas fiquei ali, tentando digerir o que havia acontecido. O homem passou o creme por toda a minha pele queimada. Pegou-me em seus braços e me levou a um leito feito de palhas de coqueiro. Ali me deitou, arrumou um pouco a bagunça que havia feito e pediu para eu descansar.
— Cê procure descansar, se possível durma um pouco. Eu preciso sair procurar alguma coisa pra gente comer, mas não irei demorar. Outra coisa importante, não force, tenha um repouso absoluto. Cê sofreu queimadura de terceiro grau por todo o corpo.
Sentia meu corpo arder, sem ânimo para nada. Olhava as minhas mãos e me assustava com o seu estado, imaginava logo como estava o meu rosto. O medo tomava conta de mim. De uma hora para outra me encontrei em uma caverna no meio da floresta, com a pele toda dilacerada e um anfitrião estranho de poucas falas. E o pessoal da república onde estava? Será que iriam me achar naquele lugar? Deixava-me levar pelos meus pensamentos, e já cansado, adormeci.
Acordei horas depois, ainda atordoado pela queda e pelo ambiente desconhecido ao meu redor. O senhor que me resgatara tinha montado uma fogueira, envolvido dois peixes em folhas de bananeira e os colocava sobre as chamas crepitantes. Com dificuldade, sentei-me no leito improvisado, observando seu jeito calado e misterioso. Não me sentia bem ali, cada segundo aumentava minha esperança de que alguém chegasse para me resgatar. O silêncio era perturbador, como se cada estalo das chamas fosse um eco de minha própria inquietação. Pensava em puxar conversa, porém não sabia ao certo o que dizer. Ele continuava concentrado no que fazia.
— Por que o senhor tá cuidando de mim? — Perguntei finalmente, buscando uma conexão com aquele estranho que me salvou.
O homem, sem olhar para mim, respondeu com uma voz grave e firme:
— Se eu te deixasse lá, cê morreria.
— Foi o senhor quem me tirou da fábrica de soda? — Indaguei, buscando compreender melhor aquela situação absurda em que me encontrava.
O homem permaneceu em silêncio, suas ações continuando sem interrupção.
Decidi tentar mais uma vez, cético, mas curioso.
— O senhor é o fantasma do John Mossaíh?
O homem então olhou para frente, abrindo um sorriso discreto que me surpreendeu. Lentamente, virou-se para trás em minha direção, seus olhos fixos nos meus.
— Pareço um fantasma?
Não, é claro que não. Aquela pergunta foi tola, influenciada por lendas e mitos que eu mesmo não acreditava. No entanto, desde pequeno ouvia sobre as assombrações que diziam habitar a floresta Mossaíh.
O homem retirou os peixes já assados da fogueira, colocando-os sobre uma tábua improvisada. Enquanto desenrolava as folhas de bananeira que os envolviam, eu o observei com uma certa admiração.
— O senhor parece cozinhar bem. — Comentei, buscando uma forma de quebrar o gelo entre nós.
Ele respondeu de forma ríspida:
— Quando a necessidade aperta, a gente aprende a se virar. Como cê tá se sentindo?
Minha resposta saiu sincera:
— Dolorido. Mal consigo me mexer.
O homem pareceu considerar minha situação por um momento antes de falar novamente:
— Evite ficar se mexendo, seu estado é deprimente. Gosta de peixe?
Respondi prontamente:
— Não muito. Na verdade, nunca comi nenhum tipo de carne.
Ele deu de ombros, sua atitude um tanto rude:
— Que pena, ou come isso ou vai morrer de fome.
Com isso, ele trouxe o peixe até mim, iniciando sua própria refeição com o outro. Vi como ele devorava o peixe com voracidade, como se fosse um animal faminto saciando sua necessidade básica. Fiquei olhando-o por um instante, o cheiro do peixe assado despertando minha fome. Eu precisava comer. Assim, dei a primeira mordida, surpreendendo-me com o sabor delicioso que explodiu em minha boca. Aquele peixe, preparado naquelas circunstâncias inusitadas, tornou-se um verdadeiro banquete para mim naquela noite estranha e surreal.
Os dias passavam lentamente naquela caverna isolada, onde o tempo parecia ter seu próprio ritmo. A ausência de notícias dos meus amigos doía mais do que as minhas próprias feridas. Era como se todos tivessem me esquecido, deixado para trás em meio à escuridão da floresta. Imaginei que em algum momento, algum comando de resgate viria ao meu socorro. Mas nada acontecia, o silêncio era a única resposta que eu recebia.
Sentado no alto de uma pedra, olhava pela fresta que se formava como uma janela natural para o mundo lá fora. O homem que me resgatara logo se aproximou, percebendo minha expressão pensativa.
— Esquece o mundo lá fora, ele não te pertence mais. Estamos sozinhos aqui, abandonados pelo nosso destino. — Ele disse, sua voz carregada de resignação.
Desabafei sem pensar:
— A Érica me abandonou. O homem pareceu surpreso com minha revelação.
— Quem é Érica?
— A garota que eu amo, ela me abandonou para ficar com o Davi. Ela preferiu abraçar ele do que a mim.
O homem olhou para mim com um misto de piedade e desdém.
— Olhe pra você rapaz. Cê acha que alguma mulher vai querer alguma coisa com cê? Olhe teu rosto no reflexo do lago e seja sincero consigo mesmo. Faça como eu, se conforme com o seu destino.
Sua resposta me atingiu em cheio. Me sentia miserável, abandonado não só pela Érica, mas por todos ao meu redor.
— Quem é você? Como veio parar aqui? O que esconde?
Disparei as perguntas, buscando desesperadamente algum tipo de conexão com aquele estranho que se tornara meu único companheiro naquela situação desesperadora.
O homem se afastou um pouco, como se ponderasse sobre o que dizer.
— Não escondo nada, e essa conversa já tá se alongando demais. Vem, preciso passar remédio em suas feridas.
— Por favor, eu só quero saber um pouco sobre você. Como se chama? Pelo menos o seu nome — Insisti, movido por uma curiosidade crescente.
Ele respirou fundo, mas depois, como se decidisse abrir um pouco do véu de mistério que o envolvia, sentou-se ao meu lado e começou a compartilhar sua história.
— Tudo bem. Vou saciar a sua curiosidade. Meu nome é Baltasar. Eu costumava me aventurar por aí, desbravando florestas desconhecidas. E a floresta de Mossaíh sempre me chamou atenção por conta dos seus mistérios. Eu não sei se existe algo sobrenatural envolvendo a floresta. Mas depois de entrar aqui, me vi perdido e não consegui mais achar a saída. O tempo foi passando e eu não tive outra escolha a não ser me adaptar a minha nova realidade. Eu ainda não vi fantasma nenhum por aqui, garoto. Mas acho que de uma certa forma, eu me tornei sim um fantasma.
— E porque não aproveitou a sua ida à fábrica para fugir daqui? Poderia ter ido com o pessoal da república. — Insisti, buscando entender melhor sua situação.
Baltasar parecia desconfortável com minha curiosidade crescente.
— Já tá fazendo pergunta demais, meu jovem. Venha, vamos cuidar dessas feridas.
Eu me sentia perdido, não apenas naquele lugar inóspito, mas também em meu próprio coração ferido. E enquanto meus pensamentos voltavam-se para Érica, o peso da solidão se tornava ainda mais insuportável. Eu não sabia se minha ausência lhe causaria dor, mas a certeza da sua ausência em minha vida era uma ferida que doía mais do que qualquer outra. Estava me sentindo abandonado, jogado naquele lugar sem saber como fugir. Ou melhor, sem saber para onde fugir.
Meu lado esquerdo foi o mais afetado, metade do meu rosto estava irreconhecível, marcada por cicatrizes profundas e queimaduras cruéis. Minha íris havia perdido a cor, tornando-se opaca e vazia, refletindo a ausência do que um dia foi minha visão. Os lábios estavam retorcidos em uma expressão distorcida, um sorriso desfigurado que nada tinha de alegre. Meu cabelo estava em desalinho, com fios desgrenhados caindo sobre a metade deformada do meu rosto. A pele queimada cobria a parte esquerda, criando um contraste chocante com a minha outra metade, que ainda mantinha vestígios da minha antiga aparência.
A solidão e a incerteza do futuro pesavam sobre mim como uma âncora, enquanto Baltasar cuidava das minhas feridas físicas, deixando as emocionais para que eu mesmo tentasse curar.
Seu Baltasar havia saído novamente em busca de alimentos, deixando-me sozinho na caverna. Eu estava exausto de ficar deitado sem fazer nada, sentindo-me um inútil. Cobria-me apenas com um manto fino para que não tocasse nas feridas que começavam a criar casca.
— Seu Baltasar! Seu Baltasar, o senhor tá aí? — Chamei, esperando que ele retornasse. — Seu Baltasar, tô com sede. Ele deve ter ido atrás de comida. Vou procurar alguma coisa para beber. — Anunciei, decidindo que não podia mais ficar ali sem fazer nada.
Levantei-me com esforço, cambaleando, sentindo as dores pulsarem por todo o meu corpo. Apesar de já ter passado alguns dias havia feridas ainda expostas, melecadas pelo creme caseiro do seu Baltasar. Usava apenas uma bermuda de tactel sem cueca, e mesmo assim ainda pregava em minha pele.
Mexi nos objetos improvisados, na esperança de achar um pouco de água para beber. Encontrei uma garrafa de vidro com um líquido transparente, concluí que fosse água. Porém, o forte cheiro de álcool que emanava da garrafa ao aproximá-la de minhas narinas me fez recuar. Decepcionado, deixei-a de lado e continuei minha busca.
Ouvi passos se aproximando e logo Baltasar surgiu diante de mim, seu semblante carregado de irritação ao me ver mexendo em suas coisas.
— O que tá fazendo? — Perguntou.
— Tô com sede. Só tava tentando encontrar algo para beber. — Respondi, envergonhado pela repreensão.
— Não deveria tá em pé, ainda não tá curado. E não quero cê mexendo em minhas coisas. — Ele repreendeu, seu tom brusco deixando claro que não estava contente com minha atitude.
— Tenho sede, não poderia esperar o senhor voltar. — Tentei me justificar, sentindo-me como um menino repreendido.
Baltasar suspirou, claramente irritado com a situação.
— Aqui não tem água, se quer beber vá até as bicas ali na frente. — Disse, apontando para dentro da caverna.
— Desculpe, eu não tive a intenção de ser intrometido. — Murmurei, sentindo-me envergonhado pela situação.
A caverna que nos abrigava era um lugar surpreendentemente belo, com imensos paredões esculpidos pelas águas da chuva separando-nos do mundo exterior. Pequenas frestas permitiam a entrada de luz solar, que se refletia nas paredes úmidas. Do alto, cortinas de estalactites desciam, trazendo consigo o som suave das gotas que pingavam, molhando o piso da caverna.
Eu estava muito ferido para me aventurar procurando água caverna adentro, voltei ao leito e me sentei. Seu Baltasar me olhou de rabo de olho, pegou um recipiente e foi atrás de água para saciar a minha sede. Fiquei ali amedrontado, intrigado por seu nervosismo ao me ver mexendo em suas coisas.
Os dias se tornaram anos, e os anos se acumulavam um após o outro, deixando apenas cicatrizes fortes e marcantes em minha pele enrugada e deformada. Eu me escondia da minha própria imagem, sabendo que o que veria no reflexo seria aterrador. Estava largado ali, um espectro de mim mesmo, maltrapilho, com os cabelos emaranhados e caídos sobre os ombros. A solidão era minha única companhia, um peso insuportável que eu carregava dia após dia. Desejava ardentemente acordar e perceber que tudo não passava de um pesadelo, mas a dura realidade persistia, não havia o despertar.
Encontrei-me sentado na mesma pedra em que anos atrás me sentara, repetindo o gesto de olhar para o mundo exterior através da fresta entre as pedras.
— Ainda na esperança de ser resgatado? — A voz firme de Baltasar me trouxe de volta à realidade.
— Não. Se eles quisessem me encontrar, já o teriam feito. — Respondi, deixando escapar um suspiro cansado. — Como será que estão todos? Agora já são todos adultos, não devem morar mais na república. Como será que está a minha amada Érica? Aposto que ainda mais linda.
Baltasar se aproximou com um olhar sério, suas palavras cortando como facas afiadas.
— Cê jamais deverá sair dessa caverna. Aqui é o seu lugar, o seu refúgio. Cê se transformou em um monstro, e seu rosto é assustador. A humanidade lá fora não tá preparada para lidar com alguém tão repulsivo como você.
Senti um misto de raiva e tristeza inundar meu peito diante daquelas palavras duras.
— Não adianta me olhar desse jeito. Cê sabe que é verdade. Toque o seu rosto, sinta a sua pele deformada. Como acha que as pessoas vão reagir ao te ver? E Érica... o que acha que ela fará ao se deparar com você? Cê acha mesmo que ela vai querer alguma coisa contigo?
Uma lágrima solitária escorreu pelo meu rosto enquanto eu tentava controlar a dor que me consumia.
— Érica... — Murmurei. — Eu só queria poder vê-la mais uma vez, sentir seu toque, seu beijo... Minha querida Érica, por onde cê anda que ainda não me achou?
Baltasar estava agora impassível, suas palavras carregadas de severidade.
— Isso é patético! Vou dizer uma coisa garoto, se quiser se aventurar lá fora em busca do seu amor, vá em frente. Mas não ouse voltar. Se eu cruzar com você novamente, não hesitarei em matá-lo. Cuidei de suas feridas, busquei comida todos os dias, fiz o que pude para te ajudar. Cê hoje é como um filho pra mim. Mas se não valoriza nada disso, faça como quiser. Só não diga que não foi avisado.
— Eu... eu não vou sair da caverna. — Respondi com um misto de medo e resignação.
— Saiba escolha. Agora eu preciso sair, procurar algo pra gente comer. E nada de fuçar as minhas coisas. Ouviu bem? Continue aí choramingando pelo os seus amigos que te abandonaram, vai no lago afogar suas mágoas, se enfia a caverna a dentro. Mas em hipótese alguma mexa nas minhas coisas, eu detesto gente enxerida.
Baltasar se afastou, deixando-me ali sozinho com meus pensamentos e tormentos. Ele era quem trazia a caça e as frutas para nossas refeições, sempre misterioso, sempre calado em seu canto. Aquela caverna tornara-se meu cárcere e meu refúgio, uma prisão auto imposta por minha aparência monstruosa. Eu me via obrigado a aceitar minha condição de exilado, explorando cada canto da caverna em busca de algum consolo para minha alma atormentada. Talvez fosse meu destino permanecer ali para sempre, um monstro escondido nas sombras da humanidade, condenado à solidão eterna.
Um dia, logo após a saída de Seu Baltasar, um forte temporal desabou sobre a floresta. A água da chuva caía com força, entrando com violência na caverna, lavando os paredões e esculpindo novas formas com a força de sua torrente. Preocupei-me, o vento soprava com intensidade e isso me amedrontava.Enquanto a água da chuva invadia o local, levando consigo todos os objetos que ali estavam. Subi para o interior da caverna e me escondi entre duas de suas cortinas de pedra, observando impotente a destruição causada pela tempestade.
— Meu Deus, que temporal é esse? E o Seu Baltasar? Coitado, sozinho no meio dessa tempestade. — Murmurei, preocupado com o destino do velho.
O tempo parecia se arrastar enquanto a chuva insistia em cair sem trégua. Encostei a cabeça em uma das pedras frias e adormeci, exausto. Quando finalmente acordei, a chuva havia cessado, deixando para trás apenas a destruição de sua passagem. Meu estômago doía de fome, como se estivesse oco.
Desci até o chão da caverna e comecei a recolher os objetos que sobraram, espalhados e danificados pela força da água. Arrumei o que pude, mas muitos itens eram irrecuperáveis, levados pela correnteza implacável.
— Tá tudo molhado, tudo destruído. Esse tempo que tô aqui, nunca vi uma tempestade como essa. Tô com tanta fome, e o Seu Baltasar que não chega. — Lamentei, enquanto tentava organizar o que restava.
Ao olhar ao meu redor, algo chamou minha atenção. Um isqueiro caído no chão úmido. Peguei o objeto, examinando-o com curiosidade.
— O que é isso? — Murmurei para mim mesmo, surpreso ao encontrar algo tão fora do comum naquele lugar.
E então, ao lado do isqueiro, avistei um punhal e outra garrafa de bebida alcoólica. A garrafa ainda tinha o rótulo intacto, e apesar de estar molhada, era possível ver claramente a data de fabricação. Estranhamente, essa data era de menos de um ano atrás, o que não fazia sentido, considerando que eu estava naquela caverna há mais de dez anos.
— O Seu Baltasar não tá perdido. Ele esconde alguma coisa. — Concluí, perplexo com a descoberta.
O enigma em torno do velho e da caverna parecia se tornar ainda mais complexo.
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