ANTROPÓFAGO - Diário de um Canibal
7 Acerto de contas
Notas iniciais
Saí da caverna eufórico, determinado a voltar para a cidade de Braço Forte. Mal podia acreditar que finalmente poderia ver minha Érica. "Como será que ela está? Aposto que continua linda!", pensava, com o coração acelerado de expectativa.
Sem saber ao certo onde estava, comecei a andar pela mata, completamente sem rumo. A noite logo caiu, mas eu estava decidido a continuar.
Depois de horas de caminhada, encontrei uma estrada de asfalto antigo e esburacado. Ela não me parecia estranha. Ao avistar uma barriguda, uma árvore com o tronco grosso que lembrava uma barriga, tive certeza. Era a mesma estrada por onde passamos anos atrás na excursão que mudou o rumo da minha vida. Apesar do cansaço, ao ver aquela estrada, senti uma onda de ânimo. Sabia que ao segui-la, poderia finalmente chegar a Braço Forte. E talvez, reencontrar minha amada Érica.
Já era madrugada quando avistei ao longe as luzes da cidade. Apressei o passo, correndo em direção a elas. Porém, foi nesse momento que a realidade me atingiu em cheio.
Lembrei-me do monstro que havia me tornado. Seu Baltasar estava certo, o mundo não estava preparado para me ver. O remorso começou a tomar conta de mim, e aos poucos fui diminuindo os passos. Sentia-me como um leproso da época de Cristo, rejeitado pela sociedade. Era cruel o presente que a vida me oferecera. Todos do meu passado eram culpados pelo meu estado, direta ou indiretamente contribuíram para o meu fracasso, inclusive a própria Érica.
Olhando para as luzes da cidade ao longe, percebi que não poderia simplesmente chegar lá. Não daquela forma, não com a aparência que carregava. A tristeza tomou conta de mim, uma sensação de desamparo e solidão que me fez parar ali, à beira da estrada. A noite estava fria, e eu me sentia mais perdido do que nunca. O que fazer agora? Sentando-me à beira da estrada, olhei para as luzes distantes da cidade, minha Érica estava lá, mas eu não podia ir até ela.
E por que não? Por que permitiria que mais dez anos se passassem, continuando longe da minha amada?
Levantei-me determinado, as pernas doíam, mas meu coração doía ainda mais. Eu não poderia mais adiar esse reencontro. A cidade estava ali, tão próxima e ao mesmo tempo tão distante.
Ao adentrar na cidade, deparei-me com ruas desertas, típicas de uma cidadezinha pacata de poucos habitantes. A madrugada encobria tudo com seu manto escuro, enquanto todos dormiam profundamente. Apenas ao longe, um boteco mantinha suas portas abertas, com músicas bregas de Júlio Nascimento. Os poucos frequentadores ali presentes estavam tão embriagados que mal conseguiam enxergar um palmo à frente, o que era perfeito para mim, já que assim não chamaria atenção nem despertaria olhares assustados.
No entanto, ao longe, pude escutar gritos, interrompendo a tranquilidade da noite. Segui pela rua atrás da república da Dona Elizabeth em direção à fonte da gritaria. Avistei um casal envolvido em uma discussão violenta: ela à frente do carro, gritava e batia no capô, exigindo que o homem saísse, enquanto ele permanecia dentro do veículo ameaçando passar por cima dela se não se afastasse.
— Sai da minha frente! — O homem ordenava.— Passa por cima, quero ver se tem coragem de matar, a mim e ao seu filho! — A mulher, grávida aparentemente de oito ou nove meses, retrucava com determinação.
Ela era baixa, cerca de um metro e sessenta, com longos cabelos castanhos que caíam sobre seus ombros. A tensão era palpável, enquanto ela gritava e o advertia sobre as consequências de suas ações. O homem parecia visivelmente estressado, exigindo passagem.
— Sai da minha frente, Dayse. Se eu ficar, serei capaz de fazer besteira! — Ele alertou.
— Não vou sair! Eu já sei o que cê quer. Vai atrás dela, né? Da vagabunda da Érica? — Dayse acusou, com amargura na voz.
Nem todas as Marias são as mesmas, mas senti um aperto no peito ao ouvir aquele nome. Será que se tratava da minha Érica? Disfarçadamente vou me aproximando, para ouvir de perto a discussão.
— Vamos, Ricardo! Quero ver se tem coragem de passar por cima de mim! — Dayse desafiou, em meio à sua angústia.
Era ele, o maldito do Ricardo!
Observando a cena, fui invadido por diversas lembranças, um flashback dos tempos de república, quando as coisas ainda pareciam mais simples, porém já carregadas de conflitos e desentendimentos. Recordava-me vividamente dos momentos em que Ricardo e seus amigos me intimidavam, zombando de mim e buscando qualquer oportunidade para me humilhar. Davi, por outro lado, tentava me proteger daqueles abusos, confrontando Ricardo e suas atitudes imprudentes.
O nome "Érica" ressoava em minha mente como uma ferida antiga que nunca cicatrizara completamente.
Lembrei-me também do dia em que me vi envolvido em um confronto com Ricardo por causa dela, movido pela raiva e pelo ciúme diante daquela cena que presenciei entre os dois.
Meu coração acelerou ao relembrar aquele momento, quando Ricardo me revelou que havia mais entre eles do que eu imaginava.
Ricardo acelerou o carro e partiu, deixando sua mulher para trás, que o xingava e amaldiçoava. Dayse, entrou em casa batendo a porta com violência e começou a discutir sozinha.
— Eu te odeio, Ricardo! Desgraçado! — Gritava, enquanto lágrimas escorriam por seu rosto. — Não acredito que ele fez isso comigo. Ele vai me pagar! Ele me deixou aqui! Ele nunca esqueceu aquela vagabunda!
Dayse desabafava sozinha, deixando claro que Ricardo havia casado com ela, mas nunca esquecera Érica. Talvez até a mantivesse como amante. Muita coisa havia acontecido na minha ausência.
A porta estava entreaberta e me atrevi a entrar. A casa era luxuosa e bem decorada, com um hall espaçoso e iluminado por um lustre elegante. À direita, havia uma sala de estar com móveis sofisticados e tapetes macios. À esquerda, uma escada levava ao segundo andar. Mais adiante, uma porta dupla abria para a sala de jantar, com uma mesa grande e uma decoração refinada. Cada cômodo refletia o estilo de vida privilegiado de Ricardo. Aquele canalha teve sorte. Enquanto eu passei esses últimos anos abrigado em uma caverna, comendo e bebendo o que me restava, sendo obrigado a conviver com o meu corpo desfigurado, ele subia na vida. Casou, morava em uma bela casa e agora ia ter um filho. Isso não era nada justo, e eu o odiava por isso.
Dayse foi até o quarto, abriu o guarda-roupa e começou a retirar de lá todas as roupas de Ricardo, jogando-as no chão com violência, rasgando algumas com as próprias mãos enquanto desabafava toda a raiva que sentia pelo marido.
— Eu te odeio! — Gritava, rasgando algumas roupas. — Olha o que eu faço com isso aqui. Nessa casa cê não entra mais, nem que eu tenha que colocar fogo em tudo!
Eu a observava atentamente, distraído, derrubei um porta-retrato que estava sobre o criado-mudo, chamando sua atenção. Dayse se assustou e se desesperou ao olhar para o meu rosto monstruoso.
— Quem é você? Como entrou aqui? — Perguntou, assustada.
Fiquei parado, atento a cada um de seus movimentos, não podia permitir que fugisse. Com rapidez, ela correu em direção ao banheiro, e eu fui atrás. Ao entrar, ela agarrou a porta tentando fechá-la, mas eu a impedi colocando o pé na frente. Ela empurrou com toda sua força, mas eu venci, derrubando-a no chão.
— Por favor, me solte! Não faça nada comigo! — Gritava desesperada.
Agarrei-a pelos cabelos e a levei pelos cômodos da casa. Ela gritava, pedia por misericórdia, suplicava pela vida. Com uma mão segurava seus cabelos, enquanto com a outra pressionava sua boca, sufocando seus gritos. Eu precisava encontrar algo para amarrá-la.
Descendo as escadas, adentrei a cozinha e vasculhei os armários em busca de algo para amarrá-la. Abrindo as gavetas, encontrei o que procurava: uma fita resistente de alumínio. Era perfeita para o que eu tinha em mente.
Com a fita em mãos, voltei à sala arrastando Dayse comigo. Seus olhos arregalados de pavor me encaravam enquanto eu a levava até o corrimão da escada. Sem hesitação, comecei a amarrá-la firmemente ao corrimão, enrolando a fita ao redor de seus pulsos e em torno da estrutura metálica.
Estava ali, diante dela. O olhar dela, repleto de desespero e súplica, encontrava o meu, cheio de ódio e desejo de vingança. Dayse estava amarrada, suas pernas e mãos presas firmemente com a fita de alumínio que eu havia encontrado na cozinha. Sua boca estava lacrada, sufocando seus gritos. Eu não sentia compaixão. Não naquele momento. Sentia apenas a pulsante sede de justiça, de vingança contra Ricardo e tudo o que ele representava. Aquele homem que tinha tudo enquanto eu vivia na escuridão da caverna, comendo restos e convivendo com meu corpo desfigurado.
— Cê é linda! O que de interessante achou nele? Ele não passa de um babaca machista e imbecil. Por que cê casou com o Ricardo? Cê tá grávida. Dará um filho a ele, uma família. E isso não é nada justo. Eu odeio mulheres como você, que sempre procuram estar com homens que não prestam. Tem tesão em estar com paspalhões. Mulheres como você sempre humilham rapazes como eu.
Minhas palavras saíam como um rosnado, cheias de rancor e amargura. Eu desci novamente até a cozinha e peguei um amolador de facas. De volta à sala, comecei a amolar meu punhal com um ódio visível no olhar. Sentia uma sensação estranha de prazer em torturar aquela moça. O desespero dela alimentava meu desejo de vingança contra Ricardo. Eu me aproximava dela, o punhal brilhando à luz fraca da sala, o amolador de facas ecoando um som sinistro a cada passo que dava.
— Já brincou de médico? Era o meu sonho de criança, eu queria ser cirurgião. Impressionante, uma pessoa poder abrir o corpo de outro, mexer em todos os seus órgãos e depois só costurar. — Minha voz estava carregada de ironia, de um sarcasmo doentio.
Dayse continuava gemendo, seus olhos suplicantes buscavam desesperadamente uma saída, mas eu não lhe daria essa chance. Ela seria minha paciente naquele jogo de vingança, uma vítima da minha sede de justiça distorcida.
— Hoje vou realizar esse meu sonho. E você será a minha paciente. Uma pena que não temos anestesia.
Meus olhos faiscavam com um brilho maligno enquanto me aproximava ainda mais dela, o punhal pronto para cumprir seu papel. Dayse, amordaçada e imóvel, chorava e esperneava, mas não havia escapatória para ela naquele momento. Eu era o juiz, o carrasco e o executor. E naquele momento, sentindo o poder da lâmina em minha mão, eu me sentia supremo. Estava em minhas mãos à decisão de vida ou morte.
Com a faca já bem afiada, limpei com álcool e me preparei para fazer uma incisão em seu abdome. Minha intenção era fazer uma cesariana e retirar a criança que estava em seu útero. Não poderia permitir que o bebê sofresse com a mãe.
— Não se preocupe isso não vai doer. – Dizia com sarcasmo — Mentira, isso vai doer muito!
Dayse estava usando um vestido estilo ladylike aberto na frente com uma fita transpassada na cintura e a saia em formato evasê. Encostei a faca no decote do vestido e fui cortando até chegar abaixo da cintura. Depois então, com as mãos fui puxando e rasgando o resto do vestido deixando-a completamente nua. Dayse tentava entrelaçar as pernas para esconder a sua nudez. Porém eu puxava as suas pernas afastando uma da outra. Calculadamente inseri a faca um pouco acima da virilha fazendo uma incisão. Ela gemia de dor, queria gritar, mas era impossível por estar com a boca amordaçada. Lágrimas escorriam pelo o seu rosto e molhavam todo o seu seio. E quanto mais sofrimento ela sentia mais prazer me dava. O sangue escorria pelo o chão molhando o carpete. Dayse não aguentando a dor amolece todo o corpo e desfalece sobre os degraus. Fui cortando por vez cada camada de seu abdome até chegar ao útero.
Enfiei a mão pela a incisão que havia feito, e senti a criança ainda lá dentro envolvida na placenta. Com a ponta dos dedos, delicadamente perfuro a placenta e puxo a criança para fora.
Incrível, a beleza da vida!
Antes mesmo de sair por completo, já se abriu em um berro mostrando ao mundo a sua vontade de viver. Era uma menina. E mesmo com a cara de joelho era possível ver traços do Ricardo nela, sem dúvidas era sim filha dele.
Érica! Esse foi o nome que escolhi para a criança, dificilmente a mãe concordaria, mas no estado em que estava a sua opinião era impossível de se ouvir.
Cortei o cordão umbilical e desfiz o elo entre mãe e filha. Envolvi a menina em um lençol que forrava o sofá, e a levei até o quarto que os seus pais haviam preparado. Ao entrar no quarto com a criança em meus braços, fiquei encantado com todos os enfeites e pequenas roupas ali presentes. Ao ver ali suas pequenas roupas, decidi substitui o pano do sofá por uma manta. Queria evitar qualquer tipo de contaminação na criança, o que tornava complicado pelas as condições em que nos encontrávamos, e pela a forma em que foi feito o parto.
A pequena Érica não parava de chorar, então a pressionei contra meu peito e com a outra mão tentei acalmá-la com leves toques em suas costas. Nada parecia acalmá-la. Fome! Logo me lembrei.
Desci a escada apressadamente e a levei até a mãe, mas ao tocá-la percebo que estava morta.
— Pobre mulher, deve ter tido uma hemorragia por perder tanto sangue. Se essa criança não se alimentar, também não irá resistir. — Murmurei para mim mesmo
.Mesmo assim, posiciono a menina sobre os seios do cadáver da mãe e a ajudo a sugar o colostro do leite para saciar a sua fome.
— Garotinha esperta, soube abocanhar direitinho o peito da sua mãe. — Comentei, segurando a menina sobre o peito do cadáver.
Com a fome saciada, a pequena Érica adormeceu sobre o peito da mãe falecida. Peguei-a nos braços e a coloquei no bebê conforto, deixando-a ali dormindo tranquilamente.
Um sentimento de melancolia tomou conta de mim ao ver aquela criança ali, adormecida. Ainda restava algo humano em mim, apesar de tudo.
Percorri a casa com o olhar e fui assombrado pelas acusações da minha própria consciência. Que mal havia feito aquela mulher para ter um fim tão cruel? E a pobre criança, que cresceria sem a presença de sua mãe? Refleti sobre minhas ações enquanto caminhava pelos cômodos da casa. Parei diante de um espelho e encarei o monstro que se refletia nele. Queria trocar de lugar com a moça, talvez a morte fosse o meu único sossego. Mas não seria justo. Antes disso, eu precisava ver a expressão de Ricardo diante de tudo isso.
Ao olhar para o lado, avistei o celular de Dayse em cima da mesa. Peguei o aparelho e logo vi o nome 'Amor' no início da agenda. Não pensei duas vezes e fiz a ligação. Do outro lado da linha, a voz de Ricardo soou, carregada de tensão.
— O que foi? Se arrependeu do que fez e resolveu me ligar? Pra sua informação, eu não fui atrás de Érica coisa nenhuma. Simplesmente porque não tenho nada com ela.
Minha resposta foi direta, carregada de raiva.
— Você é um péssimo marido!
Houve um breve silêncio, então Ricardo perguntou, claramente alarmado:
— Quem tá falando? Onde tá a minha mulher?
No silêncio tenso da ligação, as palavras se perderam, deixando no ar o mistério do destino de Ricardo e a incerteza sobre o que ainda estava por vir.
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