ANTROPÓFAGO - Diário de um Canibal
10 A culpa e o desejo
Notas iniciais
Perturbei-me diante daquele sentimento de culpa. Fui afastando do corpo, aterrorizado com medo do monstro que eu havia me tornado. Já não sabia mais quem eu era ou que eu era, ou qual seria meu destino. Embora, enquanto afastava aos tropeços, tivesse consciência de um tipo assustador de memória oculta, que tornava meu avanço não totalmente casual. Eu queria Érica, a desejava, não aceitava a ideia de perdê-la para o Davi. Como eles puderam fazer isso comigo?
Deixei para trás o cheiro denso e acusador do cadáver de Clarinha, embora ainda carregasse manchado em minhas mãos o seu sangue. Adentrei a parte mais fechada da floresta, determinado a não correr o risco de ser capturado pela polícia. Caminhava entre árvores, esbarrando nas próprias pernas, até chegar a um lago tranquilo. Aos poucos, despi-me e entrei na água, deixando que as águas me lavassem de toda a sujeira. Depois de banhar-me, saí da água e me joguei de joelhos nas margens do lago. Ali, agachado ao chão, desabei em prantos.
— Por que ainda me sinto tão imundo? — soluçava entre lágrimas. — Estou me sentindo um miserável. O que tô fazendo da minha vida?
Em minha mente, parecia passar um filme de todos os crimes que havia cometido. Levantei dali e fui caminhando até a sombra acolhedora de um carvalho. Onde me acomodei e descansei, estando vários metros distante do corpo de Clarinha. Minha mente me torturava com dolorosas lembranças. Ainda ouvia os gritos e gemidos das minhas vítimas. Lembrava também do maldito dia do acidente. Minha pele deformada, encarquilhada e decadente era testemunha do meu sofrimento. Deslizava a mão pelo o rosto e sentia as cicatrizes. As lágrimas quentes lavavam silenciosamente a minha fronte, mostrando que ainda existia algo de humano em mim. Olhava os renques das árvores no alto, que se balançavam e se acenavam em uma harmonia perfeita. Os pássaros cantavam e voavam em seus galhos retorcidos em um coro deslumbrante. Tal era o quinhão que Deus me reservou, a solidão, o medo. Me sentia desapontado, enfraquecido. Sentia-me ressequido, agarrado com desespero a lembranças de um passado que insistia em retornar a minha mente.
Por onde andava a minha amada Érica?
Adormeci sob as sombras gelada das árvores e acalentado pelo o som da cantoria dos pássaros. E assim sonhava e esperava, embora sem saber o que exatamente esperava.
Sou despertado horas depois, por um bando de macacos que guinchavam e salteavam fazendo molecagem nos topos das árvores. Levanto meio troncho, e morto de fome, havia me alimentado mal o dia todo. Era estranho, mas não pensava em nada silvestre para comer, era carne humana que eu queria. Minha mente, atordoada e caótica como estava, ainda preservava o anseio frenético por sangue. E nem mesmo a culpa dolorosa que me atormentava poderia impedir meu avanço. Saí dali, ainda exausto em busca de algo para me saciar. Não sabia e nem me preocupava em saber se a minha experiência era pura insanidade, porém parecia determinado a sentir aquele sabor novamente. O regalo que estremecia a minha pele, o pecado, o proibido, o imoral. Ansiava por ver os olhares de medo, o grito espremido, e eu soberano sobre toda aquela situação.
Cerca de duas horas devem ter se passado antes que atingisse o que parecia ser minha meta. Passando por um campo aberto cheguei até uma estrada velha e abandonada, percebi então que me aproximava novamente da cidade de Braço Forte, e se era carne humana que queria, ali era o único lugar próximo que poderia encontrar. No entanto, tornou-se perigoso a minha volta, eu era alvo direto da polícia, não poderia vacilar. Cortei por entre um bambuzal que cercava o Rio da Juventude, e na outra margem avistava as casas mais periféricas da cidade, algumas feitas de madeirite, e cobertas por telhas finas de fibrocimento.
Não acreditava no que estava pretendendo fazer, a minha fome aumentava, e o meu desejo pelo o proibido superava a minha razão. No céu um crepúsculo se cobria dando adeus aos últimos raios do sol.
Faminto escondido atrás do bambuzal, eu observava algumas crianças brincado na rua, "talvez fosse melhor esperar escurecer", pensei. Antes mesmo da luz solar desaparecer por completo no horizonte, me atrevo a procurar por alimento.
Na sombra do crepúsculo galguei pelos os barrancos erodidos do rio. Então me agarrei, com perigo, às pequenas reentrâncias que me permitiram subir, indo em direção à ponte. Terrível e medonho era o meu progresso. Conforme a escuridão do alto iria aumentando, a minha ansiedade de encontrar carne humana também aumentava. Estremeci, perguntando-me a razão de estar ali.
Sofria com as acusações da consciência, mas me tornava inconsequente diante do que avistava. Antes mesmo que atravessasse para o outro lado, vi na outra margem uma linda mulher, de mais ou menos trinta e oito anos de idade. Roupas simples, esfarrapadas, cabelos ondulados e compridos, amarrados com um lenço formando um rabo de cavalo bagunçado, e uma franja caída sobre o rosto. Subia calculadamente os barrancos escorregadios do rio, carregando sobre a cabeça uma bacia com roupas recém-lavadas. Impressionante! Mesmo distante é como se eu conseguisse sentir o seu cheiro.
— É ela, eu preciso dessa mulher.
Atravessei a ponte apressadamente, às escondidas, não queria que ela se assustasse ao me ver. Algumas mães gritavam os seus filhos para dentro de casa, alertando que já estava tarde e que eles precisavam tomar banho. Apenas um garotinho ficou empinando a sua pipa. A mulher seguiu por uma rua estreita e sem asfalto, cumprimentando alguns vizinhos que encontrava pelo caminho. Os moradores, sentados no batente de suas casas, aproveitavam o final da tarde para conversar e relaxar.
Um senhor de semblante sereno, comentou ao vê-la passar:
— Finalmente terminou, hein, Catarina?
Catarina, era uma mulher de traços marcantes e expressão cansada, respondeu com um suspiro:
— Nem me fala, seu Gilmar, é roupa demais. Tudo bem, dona Jacira?
Dona Jacira, uma senhora de sorriso acolhedor, assentiu com a cabeça:
— Eu estou bem, e você, minha filha?
Catarina compartilhou suas preocupações:
— Eu estou bem também. Me enrolei o dia todo, tive que lavar roupa à noite. E ainda tenho que preparar a janta.
Jacira confortou-a com um gesto solidário:
— É assim mesmo!
Despedindo-se dos vizinhos, Catarina continuou seu caminho:
— Boa noite pra vocês!
Desci um pouco a ribanceira, escondendo-me por trás de algumas moitas de bambús, seguindo furtivamente Catarina. Ao término da rua, ela virou em outra avenida. Emergi das sombras, tirei meu punhal da cintura e continuei a segui-la de perto. Quando ela se aproximou do portão de sua casa, agachei-me e me escondi por trás de um container de entulho próximo, observando-a atentamente.
Um cachorro se aproximou de mim, rosnando ameaçadoramente. Tentei afastá-lo:
— Sai daqui, seu cachorro sarnento!
O animal latiu em resposta, forçando-me a sair de trás do container. Catarina virou-se ao ouvir o barulho, e seu rosto se contorceu em choque ao me ver.
— Meu Deus! Quem é você? — ela exclamou, deixando cair a bacia que segurava.
Senti-me paralisado, mas não tanto que não fizesse um débil esforço de atacá-la. Mas precisava ter cuidado, não poderia deixar que os vizinhos me vissem. Eu estava faminto e desejoso por um pedaço de sua carne. Meus olhos enfeitiçados fitavam de um modo horrendo em direção aquela mulher. Ela tentava abrir apressadamente o portão, mas estava nervosa e a chave enganchava na fechadura. Enquanto isso, o vira-lata continuava latindo cada vez mais alto, encorajando-se em minha direção. Eu o afastava com a faca nas mãos, mas sabia que precisava agir rápido, antes que os vizinhos percebessem minha presença.
No entanto, as latidas repentinas do cachorro alertaram os moradores, que começaram a sair de suas casas para ver o que estava acontecendo.
Pedro, um dos vizinhos, perguntou com voz firme:
— O que tá acontecendo? O que tá fazendo aí, rapaz?
Olhei para trás e fui reconhecido, a minha fama já se espalhava por aquele lugar:
— É ele, o monstro que a polícia tá atrás! — Disse uma mulher, enfurecida.
Um dos homens, tomando uma atitude, pegou uma pedra e incitou os outros:
— Não vamos deixá-lo escapar! Vamos pegá-lo!
Eu estava encurralado, com os vizinhos se aproximando, e minha única chance era encontrar uma saída rápida.
Naquele mesmo segundo, desabou sobre minha mente uma avalanche rápida de lembranças lancinantes. Reconheci, naquele segundo, tudo o que eu tinha sido. Lembrei-me das coisas que havia feito, das vítimas que sangraram em minhas mãos. Reconheci o que é mais terrível, a abominação blasfêmia que estava prestes a cometer. Eu era um monstro, uma fera malsã, calculando a maneira de atacar sua vítima, enquanto meus pés se afastavam lentamente escolhendo a direção certa a tomar.
Catarina desesperada tentava abrir apressadamente o seu portão, mas a chave parecia emperrar na fechadura. Ao lado os vizinhos corriam em minha direção, o vira lata pulguento não calava a boca e chamava a atenção de outros cachorros que respondia aos seus latidos. Corri em direção à mulher, enquanto voava atrás de mim pedras acompanhadas de gritos infortuneis.
— Vamos pegar o maldito, antes que ele alcance Catarina!
Por sorte pareciam ter péssima mira, nenhuma das pedras me acertou. Cheguei ao mesmo instante em que Catarina havia aberto o portão. O pesadelo estava prestes a acontecer.
Agarrei Catarina pelos cabelos, puxando-a para dentro de sua casa enquanto ela gritava desesperada. Tapei sua boca com a mão para silenciá-la. Sentia um prazer tão perverso com aquela situação, me estremecia com o seu cheiro, via o medo em seu olhar, o seu desespero por estar presa em meus braços. Me fascinava com tudo aquilo, tinha medo de ser pego, mas não conseguia sair dali. Joguei-a no chão e comecei a mordê-la, arrancando pedaços de sua pele com os dentes. Em um frenesi de adrenalina, desferi golpes de punhal em suas costas, extravasando toda a minha fúria. O seu sangue escorria molhando o carpete e descendo em direção a porta. Seus músculos tremiam, seu corpo se desfalecia enquanto eu arrancava a sua roupa, e me saciava com o sabor de sua carne. Aquele cheiro, aquela atmosfera proibida mexia muito comigo, me fascinava. Era loucura admitir, mas eu me sentia erotizado por tudo aquilo de uma forma tão completa que assustava até a mim mesmo. Eu era como um drogado em busca da próxima dose, e o gosto alucinante do sangue humano era minha obsessão. Viajava no êxtase de estar ali naquele momento. Meus neurônios ferviam e minha pele tremia a cada mordida que eu desferia. Nada mais me importava, a não ser aqueles míseros segundos em que eu era escravo da minha triste custódia. Era um desespero visceral, mais intenso do que o medo de ser descoberto pela polícia. Era nojento o que eu fazia, mas a sensação era alucinante. Me condenava por saber que aquela pobre mulher não tinha culpa nenhuma do meu estado, no entanto o cheiro fétido do seu sangue me atraía, me fazia perder a razão.
Os vizinhos empurraram a porta e se chocaram ao me ver ali, mergulhado no sangue de Catarina.
Jacira, abraçando um homem ao seu lado, exclamou horrorizada:
— Minha nossa senhora!
Alguns, incapazes de suportar o terror da cena, se afastaram e saíram correndo. Mesmo amedrontado, Pedro insistiu em me encarar, brandindo um porrete.
— Eu vou matar esse desgraçado! — ele gritou com voz trêmula.
Leonardo, tentando manter a calma, interveio:
— Pedro, vamos sair daqui. Temos que chamar a polícia.
Pedro chorava, com a voz embargada pela emoção:
— A Catarina, Leo... ele matou a Catarina!
Leonardo puxava o braço de Pedro, tentando afastá-lo dali:
— Eu sei, mas agora não podemos fazer mais nada. Vamos deixar a polícia cuidar dele.
Eu me ergui lentamente, ainda segurando o punhal ensanguentado, preparando-me para atacar novamente. Minha boca estava lambuzada com o sangue de Catarina, e eu me sentia envolto em uma mistura de êxtase e horror.
Recebi como resposta pedras que alguns ao longe jogavam em meu rumo, coloquei o braço na frente do rosto no intuito de protegê-lo. As pedras me feriam e me faziam perder o controle de mim mesmo. Leonardo, tentava convencer Pedro a recuar, insistia puxando-o pelo o braço.
— Vem, Pedro, vamos sair daqui!
Mas Pedro, surdo aos apelos de Leonardo, investiu contra mim com um porrete de madeira. Eu mantinha uma baixa estrutura e o corpo um pouco raquítico. No entanto brotava em mim a força de um gigante. Pela primeira vez não tive escolha, ou eu atacava ou era massacrado pela a fúria dos vizinhos de Catarina.
Agarrei-o pelo pescoço e com a faca estraçalhei todo o abdômen daquele homem, escorrendo partes dos seus órgãos para fora. Ele caiu de joelhos no chão, e com as mãos sobre a barriga, gemendo de dor. Ao ver o que eu acabara de fazer os outros se afastaram de medo. No entanto Leonardo se aproximou assustado tentando ajudar o amigo. Os outros vizinhos também abismados com a minha frenesi, soltou no chão os porretes enquanto gritavam:
— Fuja, Leonardo, ele é um monstro! — exclamou Jacira.
— O Pedro e a Catarina já eram, vamos salvar nossas vidas, fuja! — gritou Giomar.
Leonardo, horrorizado com a cena, gritou desesperado:
— Não! Meu irmão!
Fiquei a um metro de distância de olhar fixo no Leonardo, que mesmo assustado insistia em ajudar o amigo, que logo revelou que se tratava de seu irmão. Firme em minhas mãos mantinha a faca atroz, cúmplice dos meus pecados. Pedro, agonizando no chão, gaguejava tentando salvar a vida do irmão.
— Fuu... ja, ele vai... Te matar ! Sai daqui Léo, fuja! — ele clamava do chão.
Leonardo se recusava a abandonar o irmão ferido:
— Eu não vou te deixar aqui.
Fiquei paralisado diante de tudo aquilo. Era como se eu fosse vítima de um transtorno explosivo intermitente, não conseguia controlar os meus impulsos. Mas se tinha uma coisa que eu não era nessa situação toda, era vítima. Fui o culpado por cada gota de sangue que se espalhou por aquela sala, e cada gota de sangue que ainda derramaria.
Ajeitei a faca em minhas mãos e avancei implacavelmente em direção aos dois. Leonardo se afastava arrastando-se ao chão e levando o irmão junto, que ainda gemia de dor com os órgãos expostos. Agachei-me próximo aos dois, peguei um dos porretes que estavam largados no chão e o inseri com violência no corte do abdômen de Pedro, que gritava de agonia. O som de seus gritos era música para meus ouvidos, e eu forçava o porrete com tanta violência que sufocava seus últimos suspiros. Leonardo tremia, tentando desesperadamente ajudar o irmão, mas ao vê-lo morrer diante de seus olhos, decidiu fugir.
Tarde demais! Agarrei-o pela perna e comecei a apunhalá-lo, enquanto ele gritava e me chutava tentando escapar dos golpes. A vizinhança, agitada do lado de fora, gritava palavras de acusação e clamava pela polícia.
— Assassino, assassino! Polícia!
Alguns vizinhos até tentavam se aproximar, mas o medo de enfrentar minha fúria os mantinha à distância. Uma aflição desesperadora crescia em meu peito; eu precisava sair dali. Ainda sentia fome, mas diante de toda aquela carnificina, decidi que era melhor me contentar com algum animal na floresta. O mais importante naquele momento era minha fuga.
Agarrei Leonardo, pressionando a faca contra o seu pescoço. Minha intenção era usá-lo como refém, assim como havia feito com Clarinha.
— Afastem-se, e eu o mantenho vivo. Caso contrário, o matarei, assim como fiz com seu irmão.
Declarei, dirigindo-me aos vizinhos, enquanto Gilmar tentava apaziguar a situação:
— Ninguém aqui vai fazer nada contra você, mas poupe a vida de Leonardo.
Leonardo estava gravemente ferido, fraco e sem reação. A vizinhança, tomada pelo desespero, não sabia o que fazer e optou por obedecer às minhas ordens.
Desci a rua às pressas, com o braço envolto no pescoço de Leonardo e a faca pressionada abaixo de seu queixo. Qualquer movimento brusco poderia ser o seu fim. Os moradores observavam com olhares arregalados de medo.
Ao nos aproximarmos do Rio da Juventude, larguei Leonardo bruscamente, jogando-o ao chão, e me lancei nas águas, nadando com determinação na direção da correnteza.
Agora, mergulhado novamente no inferno do horror que me assombrava, uma explosão de lembranças sombrias inundava minha mente. O caos e o medo atormentavam minha consciência enquanto eu lutava para encontrar respostas sobre o destino de minha amada Érica.
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