ANJO DA GUARDA - O Anjo Surfista

1 Finalmente sentia-me em paz... - 11 de Janeiro


Por entre a escuridão do quarto, encontrasse uma pequena luz de uma vela branca e um corpo deitado numa cama imóvel quase morto. Esse corpo morto sou eu. Embora, a minha mente mantinha-se viva sem me dar qualquer descanso.

“NÃO! JÁ PASSARAM TRÊS ANOS! TENS DE ACEITAR QUE ELE NÃO VAI VOLTAR! ELE MORREU!" Essas são as palavras que fazem eco na minha mente desde há muito tempo, como se algo dentro de mim, cheio de raiva, me as gritasse. Já devia saber lidar com a morte de alguém que amo. Desde muito novo que conheço o “sabor” da dor da perda de alguém de quem se ama. Mas da última vez foi diferente. Das seis vezes anteriores a dor não durou muito tempo, passados dois ou três meses já me era desconhecido esse sabor. No entanto, desta vez foi diferente, ainda é diferente. Como posso estar tão preso a algo que, agora, apenas existe na minha cabeça!?

"NÃO! CALA-TE! ELE AINDA ESTA VIVO!" Grita algo, ainda com mais força, dentro de mim sobrepondo-se há anterior exclamação fazendo um choque de pensamentos e sentimentos, formando uma ligeira dor de cabeça. Apesar das dores, o meu cérebro não para nem por um segundo e a pergunta repete-se: "Como posso estar tão preso a algo que, agora, apenas existe nas minhas memórias!" Quando dou por mim estou a falar sozinho, mas desta vez já era possível ouvir a minha voz, se estivesse alguém em casa ouvir-me-ia certamente.

"O avô Tomás já deve estar em casa." Ao perceber o que tinha dito começo a chorar. Não percebo… Como posso eu estar a espera que uma pessoa que já morreu tenho chegado a casa do trabalho?! No meio da guerra que estava a travar comigo mesmo as lágrimas escorriam com mais força, prometendo permanecer os meus olhos e bochechas encharcadas. Sentia-me tão só e sem esperanças da minha sanidade mental permanecer intacta.

Sem que ninguém fizesse nada, a vela branca que acendera antes de me deitar apaga-se. Nisto volto há vida física e levantando-me de um salto procurando o interruptor para ligar a luz. Mas antes que eu pode-se acender a luz a vela volta a acender-se de novo por si mesma, ou pelo menos pensava eu que assim tivesse sido. Assustado, aproximo-me da pequena vela e, por alguma razão, ela mexia-se energeticamente. Pensei que fosse da minha respiração e por isso afastei-me um bocado, permanecendo o meu olhar fixo à pequena chama. Mas esta permanecia energética e muito luminosa. Pensei que era a minha mente que me estava a pregar partidas e por isso apago a vela com sopro. Apressadamente dirijo-me para o corredor ainda um pouco assutado com aquela experiencia de doidos.

Sinto algo a tocar-me no braço esquerdo e com um olhar curioso, olho para o sítio regelado, quando reparo que nada se encontrava ali. Lentamente, ainda sem perceber que sensação tinha sido aquela, olho para a janela do fundo do corredor e vejo o quão claro o dia está. Aproximo-me da janela e olho para a praia que se encontrava mesmo a poucos metros da casa. Sentia que algo me chamava para lá e por isso, sem qualquer tipo de pretexto, dirijo-me para a praia onde encontraria o que me “chamava.”

Ao longo do caminho, conforme me aproximava da praia, ouvia uma voz dentro de mim que me chamava. Era calma e relaxante. Recordava-me do tempo em que era menino, onde o avô me chamava com aquele sorriso amável para junto da areia clara e fina. Chego perto da areia, descalcei-me e pegando nos sapatos, inspiro fundo aquele aroma salgado enquanto enterrava os pés na areia fina e seca. O cheiro a maresia traz-me à memória flashes de imagens minhas e do meu avô na praia a rir, mostrando a felicidade que agora já não me pertencia. Caminho em direção ao mar procurando o limite onde a areia se mistura com a húmida, salientando as cores das conchas perdidas nos grãos de areia. Assim que chego ao fim da areia seca, sento-me deixando os meus pés sentirem a areia molhada enquanto fito o horizonte. Era só eu e as minhas memórias naquela praia.

Pensava eu. Quando desvio o olhar para a minha direita, deparo-me com um rapaz a surfar. Observei-o cuidadosamente e fiquei espantado como era incrível a forma que ele transmitia a sua paixão e dedicação pelo surf. Cada movimento que ele se dedicava, parecia que mostrava uma pequena sequela da sua pureza interior. Fim de quase uma hora, o tal rapaz saiu do mar colocando a sua prancha na areia e de seguida fitou-me, sorrindo abertamente. Sem que me apercebe-se estava a retribuir-lhe o sorriso.

O rapaz despe a parte superior do fato e agarrando a sua prancha vem na minha direção. Ele tinha um cabelo castanho que formava pequenos caracóis definidos, a sua pele era morena que aparentava ser-lhe própria e não tingida pelo sol e os seus olhos de um azul tão intenso que custava acreditar que eram reais.

Naquele momento, ele deparava-se de pé junto de mim colocando a prancha na areia. Em seguida, enquanto se sentava ao meu lado, disse:

–O mar está lindo não é? – Ele fita o horizonte mantendo aquele sorriso brilhante. -Sim. — Sorrio acompanhando o seu olhar.

–Chamo-me Gabriel. – Ele estende-me a mão para me cumprimentar.

–Yuri. — Estendo a minha mão até à dele apertando-a harmoniosamente. Não sei o porquê, mas pela primeira vez ao fim de tantos anos, sentia-me… em Paz.