ANA
3 Ana: Parte III - Final
Notas iniciais
ANA
PARTE III
01:25 AM
Um zumbido contínuo, algo parecido como o som que as abelhas fazem, cada vez mais alto e ensurdecedor. Os olhos se abriram em uma fenda e demorou, até que a visão se focou.
Onde estou? O que está acontecendo? Pensou Ana. As lembranças a atingiram com tudo. A falta de luz, a invasão, o grito, a morte do avô, o sangue, a chuva, os cães mortos, o Porco, a podridão, tudo a atingiu como um balde de água gélida. Levantou-se rápido, com o coração disparando. Olhou para os lados. Não estava mais na sala, e sim na cozinha. Logo, o nariz começou a doer, com cuidado ela levou os dedos até ele, estava dolorido e inchado, o sangue já estava seco. O fedor de podre tinha invadido a casa toda. Tentando não fazer barulho algum, movia-se com cuidado. A sala era o cômodo ao lado, o assassino deveria estar lá, juntamente com a mãe dela e o seu padrasto.
Ana sentiu o corpo todo doer e se perguntou o porquê de ele a ter levado até a cozinha após nocauteá-la com um chute no nariz. Foi até a gaveta da pia, a abriu com cautela e com as mãos tremendo, pegou uma longa faca de cozinha. Caminhou lentamente pelo corredor, temendo que o assoalho rangesse. No fim do corredor escuro, que dava para sala, viu o Porco de costas. Aos pés dele, ao lado de uma cadeira quebrada, o padrasto de Ana jazia, com um longo corte que ia de orelha a orelha, do corte uma cascata de sangue jorrava, criando lentamente uma poça de sangue em volta do corpo do velho homem, que se debatia, olhos vidrados e lacrimejados, ele estava morrendo de forma dolorosa.
Ana prendeu o grito de pavor que quis sair de sua boca. Percebeu que o homem se dirigia até a sua mãe. Ela empunhou a faca com força e correu até aquela imensa criatura. Saltou em cima dele, berrando bestialmente, tentando atingi-lo com a faca. Ambos caíram em cima da mãe de Ana. A cadeira se quebrou, Ana e o Porco rolaram no chão, enquanto a mãe desprendia-se da cadeira e das cordas.
— Corre, mãe!!! Corre!!! – gritava Ana, que de alguma forma conseguiu ficar por cima do Porco.
A mãe obedeceu não pensando duas vezes, correu em disparada, levantando a camisola até os joelhos para facilitar a fuga, abrindo com força a porta, deixando a escancarada. A ventania que vinha da tempestade invadiu a casa.
Ana tentava desprende-se do homem que segurava seus pulsos, impedindo-a de enfiar a faca em sua máscara de porco. Em uma atitude desesperada, ela deu uma cabeça no homem, que berrou de dor e soltou seus pulsos. Ela, porém, ficou com um corte se abrindo em sua testa, o sangue começando a brotar. Sentiu tudo rodar, ficou tonta. Saiu de cima dele e apertou os dedos contra o cabo da faca.
Tenho que sair daqui... Antes que ele me alcance...Não desmaie Ana, encontre a mamãe e se escondam. Ordenava para si mesma, enquanto tentava manter a consciência. Novamente ela foi ao chão, caindo de bruços no assoalho. Ela havia escorregado na poça de sangue vinda do corpo do padrasto. Caiu ao lado dele já sem vida, em cima de seu sangue, sujando-se mais. Encarou os olhos sem vida do homem. Estava levantando-se para fugir, quando sentiu uma mão se fechar em seu tornozelo. Era o Porco que, mesmo caído no chão, tentou puxá-la, mas Ana foi mais rápida e com a outra perna chutou o rosto do assassino. Ele gritou de dor, aninhando-se. Ela levantou-se encharcada pelo sangue do padrasto e começou a correr, aproveitando que o Porco estava recuperando-se do golpe.
O Porco, por sua vez, logo se recuperou, empunhou a faca que antes tinha sido usada para matar o padrasto e foi atrás de Ana, em uma corrida que valia a vida. Do lado de fora da casa, Ana corria de forma desajeitada, caindo às vezes e se levantando de forma atrapalhada, em passos mais longos que a perna.
Olhava para trás em seguidas ocasiões e com dificuldade via o Porco se aproximando. Corria desesperadamente, passando pelos cadáveres dos cachorros, pela casa do avô. Onde estaria a sua mãe? A chuva só dificultava tudo. Quando se deu conta Ana, já tinha adentrado dentro do milharal que ficava nos fundos da fazenda. Corria pela plantação e sentia as folhas ferirem seus braços e pernas.
Por fim, parou de correr. Respirava com dificuldade. Sentia os braços e as pernas arderem, as folhas do milho tinham causado cortes profundos. Arfava, e a visão começava a escurecer, a cabeça doía, assim como o nariz. Ficou em silêncio, para tentar ouvir algum som vindo do Porco... Ela só escutava a chuva caindo, bem como só via a vegetação de milho, que era grande e alta. Talvez ela tivesse conseguido desviar dele.
De uma hora para outra, a chuva parou. O silêncio reinou. Só se ouvia a respiração de Ana. Naquele momento, ela desabou em um choro convulsivo, em soluços altos.
Eu vou morrer! Ele vai me matar, depois matar minha mãe! Eu vou morrer, nesse milharal, cheio de lama!
Só parou de chorar ao ouvir passos pesados. Era ele!
Ana voltou a correr em meio ao milharal, o mesmo fez ele.
Ela podia sentir a aproximação. Súbito, sentiu alguém a puxando com força pelos cabelos cacheados. Jogando-a no chão. Ele subiu em cima dela, com uma mão a segurou pelo pescoço e com a outra enfiou a faca ao rumo do seu abdômen. Ana sentiu-se paralisada pelo medo ao dar-se conta que seria esfaqueada. Tentou gritar, mas o grito ficou preso. Ela sentiu a faca entrar dentro de seu corpo e, por algum tempo, sentiu apenas um medo paralisante, que fez com que a dor não fosse sentida, ficou em choque. O Porco puxou a faca e, no momento que Ana sentiu a faca sair de dentro de si, uma dor que causava náuseas a invadiu.
O Porco simplesmente foi embora. Deixando Ana para morrer.
Ela sentiu o sangue quente escorrer. Os olhos foram fechando-se lentamente. Estou morrendo. Concluiu.
***
— Ana!!! Ana! Ana, por que você está fazendo isso? Você está louca! Ana! Olhe o que você fez! — Alguém gritava roucamente.
Ana não estava mais deitada, no milharal, e sim em pé. Com as mãos em volta ao cabo da faca. Ela havia empunhado a si própia. Olhou para sua frente, a poucos metros estava sua mãe. Apenas com a camisola, suja devido à fuga em meio ao milharal. A mulher de meia idade estava com uma expressão de puro horror, em meio a choros.
— Mãe, onde está ele? Onde está o Porco? – Perguntava Ana com dificuldade, tentando tirar a faca da própria barriga, sem sucesso, já que a dor era insuportável. Ela estava confusa. Ele não tinha tirado a faca de dentro dela?
— Porco? Que Porco, Ana??? Você está louca, minha filha...! – A mulher de meia idade chorava desesperadamente. – Ana, você matou seu padrasto! Seu próprio avô! Você tentou me matar, você matou os cachorros e se apunhalou! Por quê? Por que você fez isso???
— O quê? Não... Não... — Em um gesto de total desespero, rápido, Ana conseguiu tirar a faca do abdômen, e tentou aproximar-se da mãe.
— Não!!! – A senhora berrou em desespero, colocando as mãos em frente ao corpo, amedrontada. – Não chega perto! Você não pode ser minha filha! Não!!!
— Não, eu não fiz isso!!! – Gritou Ana, defendendo-se. — Tinha um homem, ele que matou todo mundo! Ele tentou me matar também! Eu não matei ninguém! Você está mentindo mãe!!!
Ana começou a tremer. Olhou para suas mãos ensanguentadas. Era mentira de sua mãe. Havia um ser horrível em forma de homem, o Porco, havia um assassino! Ela não tinha feito aquilo.
— Mãe, a senhora tem que acreditar em mim! Ele que me esfaqueou!
— Ana, o que você está falando??? – Berrou. – Você acabou de se esfaquear na minha frente! Você me perseguiu depois de matar seu padrasto, do nada você parou de correr e enfiou essa faca em si mesma! Você é louca, menina!!!
— Não, não... Você está mentindo... – Ana deu as costas para a mãe.
Andou pelo milharal, segurando com firmeza a faca em mãos, caso o Porco voltasse. Saiu do milharal, andando em direção à estrada de chão. Atrás de si ouvia os gritos da mãe: “Assassina!!! Louca!!! Assassina!!!’’
O sol começava a nascer, iluminando o rosto ensanguentado de Ana, assim como também iluminava o rosto ensanguentado do Porco. Ele fazia parte dela. Ele sempre estaria com ela.
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