AMOR EM CAMPO
18 capítulo 17: Senha
Notas iniciais

O contraste entre a sobriedade científica do auditório e o caos silencioso que se apossava do peito de Rafaela era quase tangível naquela segunda-feira de manhã.
O espaço estava lotado. O burburinho de centenas de estudantes, professores e avaliadores externos criava uma massa de som constante. No palco, a mesa de abertura já estava posicionada, e os slides do projeto projetavam-se na tela gigante ao fundo.
Rafaela ajustou o blazer pela terceira vez em menos de cinco minutos. A calça de alfaiataria preta de corte reto e a blusa de gola alta azul-escuro caíam perfeitamente nela, dando-lhe uma presença imponente e elegante, exatamente como Letícia previra.
— Calma. Se você continuar apertando essa pasta desse jeito, vai plastificar as folhas com a força dos dedos — Théo sussurrou ao seu lado, ajeitando os óculos no nariz. Ele também parecia tenso, mas tentava manter a pose de cientista imperturbável.
— Os avaliadores acabaram de se sentar na primeira fileira — comentou Mariana, surgindo por trás deles após checar o cronômetro do púlpito. — A mesa de abertura vai começar em dois minutos. Rafa, tem certeza de que os gráficos de eficiência enzimática estão no ponto?
— Revisados e triplamente checados — Rafaela respondeu, respirando fundo e tentando controlar o tremor leve nas mãos. — Nós passamos três semanas preparando essa apresentação. Sabemos cada linha de trás para frente. É só subir lá e falar sobre o que a gente mais entende.
— É isso aí. Vamos quebrar tudo — Théo sorriu, oferecendo um toque de punhos.
A mestre de cerimônias subiu ao púlpito, testando o microfone, e o sinal sonoro indicando o início do evento ecoou pelo anfiteatro. O público começou a silenciar, ocupando as últimas fileiras superiores.
Rafaela subiu os três degraus de madeira que levavam ao palco principal ao lado de seu grupo. Ela se posicionou atrás do púlpito lateral, organizando suas notas sob a luz forte dos refletores. O calor das lâmpadas atingiu seu rosto, e a imensidão do salão lotado diante de si fez seu estômago dar um nó.
Ela lançou um olhar para a plateia, buscando um ponto fixo para focar e acalmar os batimentos cardíacos. Começou a varrer as primeiras linhas de poltronas estofadas de vermelho.
Foi então que ela parou.
Sentado exatamente na fila central, logo atrás da banca de avaliadores externos, estava Gabriel.
Ele não usava o uniforme dos Falcões, nem a regata esportiva de treino. Vestia uma camisa de botão clara com as mangas dobradas até os antebraços e exibia uma postura relaxada, mas totalmente focada. Seus olhos — daquele castanho profundo que vinha assombrando os pensamentos de Rafaela desde sexta-feira — estavam fixos nela.
Ele não desviou o olhar quando ela o encontrou. Pelo contrário. Gabriel sustentou o contato visual com uma intensidade silenciosa, dando um aceno de cabeça quase imperceptível. Era um gesto de apoio simples, mas que deixava claro que ele estava ali por ela.
Rafaela sentiu uma onda de arrepios percorrer sua espinha, o ar subitamente faltando em seus pulmões. O "namorado" inventado, a mentira sobre a amizade e todas as desculpas que ela vinha inventando pareceram ridículas sob aquele olhar.
— Bom dia! — a voz da apresentadora ressoou pelos alto-falantes, dando início oficial à feira. — Para iniciarmos nossas atividades, convidamos a aluna Rafaela e seu grupo para apresentar o projeto de abertura sobre bioprospecção fúngica...
Mariana deu um toque sutil no cotovelo de Rafaela, trazendo-a de volta à realidade.
Rafaela deu um passo à frente, aproximando-se do microfone. Ela olhou mais uma vez para os assentos do meio, vendo o sorriso encorajador de Gabriel. Ela ajeitou a postura com a elegância que o look de Letícia lhe proporcionava e começou a falar.
— Bom dia a todos — a fala de Rafaela começou, um pouco baixa e trêmula no primeiro momento, mas ganhou corpo e força à medida que o silêncio se instalava. — O nosso projeto de bioprospecção fúngica nasceu de uma pergunta simples, mas com um impacto industrial e ambiental profundo: como a própria natureza pode nos fornecer as ferramentas mais eficientes para desintegrar resíduos complexos?
Théo passou o primeiro slide. A tela gigante atrás dela foi preenchida pela imagem microscópica de alta resolução da Trichoderma, com suas hifas ramificadas brilhando em um verde fluorescente sob o contraste da lente.
Ao ver a imagem do fungo que ela mesma cultivara com tanto cuidado nas últimas três semanas, o nervosismo de Rafaela simplesmente evaporou. Aquele era o seu território. A ciência não era um jogo de aparências para ela.
— O microrganismo que vocês veem na tela é um especialista em sobrevivência — explicou ela, caminhando sutilmente para o lado do púlpito, usando as mãos para pontuar sua fala com uma autoridade natural que prendeu a atenção imediata da banca examinadora. — Isolamos essa linhagem específica em solo local e descobrimos que ela possui um complexo enzimático altamente ativo. Em termos práticos, esse fungo secreta enzimas capazes de quebrar cadeias de polimerização extremamente rígidas, como a celulose, transformando o que antes era considerado descarte industrial em açúcares simples de alto valor biotecnológico.
Na plateia, Gabriel não piscava.
Ele não entendia metade dos termos técnicos que saíam da boca de Rafaela. Palavras como "bioprospecção" e "cadeias de polimerização" soavam como um idioma estrangeiro para ele, mas a forma como ela falava — com uma segurança absoluta, os olhos brilhando por trás das mechas soltas de cabelo — o deixou completamente hipnotizado.
Ele estava acostumado a ver Rafaela na defensiva, armada com sarcasmo para mantê-lo afastado. Mas ali, sob a luz dos refletores, ela não precisava de escudos. Ela era brilhante, imponente e dona de cada centímetro daquele palco. Gabriel sentiu o peito inflar com um orgulho único e inesperado, um sentimento que ele nunca havia associado a ninguém fora de um campo de futebol.
— Para avaliarmos essa viabilidade — Rafaela continuou, apontando para o gráfico que Mariana acabara de projetar —, nós monitoramos a eficiência enzimática ao longo de duzentas e quarenta horas. E o resultado superou todas as nossas expectativas estatísticas.
Ela detalhou os picos de produção, a estabilidade do pH e as curvas de dispersão com uma fluidez invejável. Théo e Mariana operavam em perfeita sintonia, trocando os slides e apresentando os dados complementares sempre que Rafaela abria espaço. A banca de avaliadores externos, conhecida pelo rigor excessivo, anotava tudo com acenos de cabeça claramente favoráveis.
Ao se aproximar da conclusão da introdução, Rafaela permitiu-se desviar os olhos rapidamente para o setor central pela última vez.
Gabriel continuava lá, com o corpo inclinado sutilmente para a frente, ignorando completamente o barulho dos outros estudantes ao redor. E, quando ela sustentou aquele contato por um breve segundo,um risinho de canto se formou nos lábios dele — discreto, quase invisível para o resto do auditório, mas que fez a temperatura de Rafaela subir de um jeito que nenhuma estufa de laboratório seria capaz de replicar.
— ...e é demonstrando que o menor dos microrganismos pode gerar as maiores soluções industriais que encerramos a nossa introdução — Rafaela finalizou, a voz soando clara e confiante pelo sistema de som. — Passo agora a palavra para os meus colegas, que detalharão a metodologia de isolamento das amostras. Muito obrigada.
O auditório inteiro pareceu explodir em aplausos assim que as considerações finais dos grupos foram encerradas. A banca avaliadora não poupou elogios, e bastou a mestre de cerimônias dar o evento por aberto para que uma pequena multidão de professores e colegas de curso cercasse o palco.
Rafaela, Théo e Mariana foram engolidos pelos cumprimentos. Era um empurra-empurra de tapinhas nas costas, perguntas sobre a metodologia e veteranos parabenizando o trio pelo destaque na abertura. Rafaela respondia a todos de forma mecânica, sorrindo e agradecendo, mas sua atenção estava dividida.
Pelo vão entre os ombros de dois professores de bioquímica, ela buscou as poltronas estofadas centrais.
Gabriel continuava lá. Ele havia se levantado, mas não tinha pressa de ir embora. Com as mãos nos bolsos da calça e aquela figura imponente que atraía olhares por onde passava, ele apenas a observava de longe, esperando o momento certo de se aproximar. Gabriel queria dizer o quanto ela estava incrível em cima daquele palco, o quanto era inteligente, linda, e o quanto ele se sentia ridiculamente ainda mais apaixonado por ela depois de assisti-la dominar o auditório daquele jeito.
Quando o fluxo de pessoas finalmente cessou e a aglomeração ao redor do palco diminuiu, Rafaela pediu licença a Théo e Mariana. Ela ajeitou o blazer, respirou fundo e caminhou na direção do corredor, decidida a ir de encontro a ele.
Gabriel viu quando ela começou a andar em sua direção, e o canto de seus lábios esboçou um sorriso. Mas, antes que ela pudesse dar o décimo passo, o sorriso do capitão morreu na hora.
Uma presença alta, morena e de cabelos compridos surgiu perpendicularmente no corredor, interceptando o caminho de Rafaela.
Era Henrique.
Gabriel semidobrou os joelhos, o corpo tensionando instantaneamente. Ele observou quando o rapaz se aproximou de Rafaela e a envolveu em um abraço apertado, erguendo-a de leve do chão. Ao se afastarem, ele manteve o braço ao redor dos ombros dela, inclinando a cabeça para sussurrar algo bem rente ao seu ouvido.
Rafaela soltou uma risada, o tipo de sorriso que Gabriel vinha tentando arrancar dela há semanas com suas provocações.
O sangue dele ferveu, subindo direto para a cabeça.
Henrique continuava falando, gesticulando com intimidade, totalmente alheio ao fato de que estava sendo fuzilado por um par de olhos castanhos a poucos metros dali. Ele representava o maior obstáculo tático que Gabriel já enfrentara na universidade.
Mas se tinha uma coisa que Gabriel Duarte sabia fazer muito bem, era driblar um adversário.
Em vez de se afastar e aceitar a derrota, Ele assumiu a postura de capitão, ajeitou a gola da camisa e caminhou a passos decididos na direção dos dois. Ele não ia dar espaço para o rival jogar.
— Henrique, meu camarada! — disse Gabriel, jogando o braço em volta do pescoço do rapaz com uma intimidade pesada e barulhenta, aproveitando o embalo do próprio corpo para afastá-lo sutilmente de Rafaela. — Também veio prestigiar a nossa amiga?
O engenheiro piscou, confuso, tentando processar a transição abrupta de um abraço romântico para uma gravata quase esportiva aplicada pelo camisa dez dos Falcões. O impacto do braço musculoso de Gabriel fez Henrique vacilar um passo para o lado, pego totalmente de surpresa pela abordagem efusiva daquele gigante.
Rafaela paralisou, os olhos arregalados diante do absurdo daquela cena. O duplo sentido na palavra "amiga" quase a fez revirar os olhos.
— Ah, oi, Duarte! É... sim — Henrique respondeu, ajeitando a postura e tentando se desvencilhar do braço de Gabriel com uma risada sem graça, embora seus olhos varressem o rosto do jogador com desconfiança. — Vim sim. A Rafa foi incrível lá em cima.
Gabriel abriu um sorriso largo, mas que não chegava nem perto de ser verdadeiro como os que ele direcionou a ela enquanto ela estava no palco. Ele manteve uma das mãos espalmada no ombro de Henrique em uma marcação defensiva perfeita, impedindo-o de dar um passo de volta para perto de Rafaela.
— Incrível mesmo — Gabriel declarou, desviando o olhar de Henrique por um milésimo de segundo apenas para cravá-lo nela. O brilho desafiador e possessivo estava de volta, nítido e intimidante. — Eu não perderia essa apresentação por nada. Afinal, como o bom amigo que sou, faço questão de apoiar a Rafa em tudo. Não é, nerdzinha?
— Gabriel! — Rafaela disparou, torcendo para que aquele raio laser em forma de olhar fosse o suficiente para fazê-lo recuar.
Não foi. Gabriel apenas ergueu as sobrancelhas, o quadro perfeito da inocência ultrajante.
— Mas e aí, Rafa… — ele continuou, a voz mansa, mestre na arte da pura provocação. — Eu estou aqui, o seu ex-ficante — Gabriel disse, dando bastante ênfase na palavra "ex" e olhando bem no fundo dos olhos de Henrique —, está aqui... Mas cadê o seu namorado? O "Senhor Química Perfeita" ficou preso no trânsito de Niterói ou tinha algo mais importante do que ver a namorada num momento como esse?
O estômago de Rafaela despencou. Ela abriu e fechou a boca, os neurônios girando em falso sob o olhar divertido do camisa dez. Ela tentou processar uma linha de defesa plausível que salvasse sua pele. Não havia.
— Namorado? — Henrique repetiu, a palavra saindo engasgada. Ele encarou Rafaela como se ela tivesse acabado de falar em latim. — Você está namorando, Rafa? Mas você recusou o meu pedido de namoro há dois meses porque disse que “o seu foco exclusivo na ciência impossibilitava qualquer vínculo afetivo estável!” E agora aparece namorando com outro?
Gabriel soltou um assobio. O rosto assumiu uma expressão de deboche tão absurdamente satisfatória que despertou em Rafaela um desejo violento de testar a resistência dos nós de seus dedos contra o maxilar dele. Ele cruzou os braços, jogando o peso do corpo para trás, vitorioso.
— Porra, ela usou mesmo essas palavras? Cruel, irmão! — Gabriel usou um falso tom de cumplicidade masculina com o engenheiro, antes de voltar a focar na monitoria. — Eu já falei para a nossa amiga que ela precisa parar de seduzir rapazes inocentes pelo campus. Daqui a pouco a gente vai ter que começar a puxar senha no balcão do laboratório.
O auditório ao redor parecia ter congelado. Rafaela sentiu o sangue sumir do rosto antes de retornar com força total. Ela olhou de Henrique para Gabriel, sentindo-se encurralada no pior experimento biológico da sua vida. Gabriel estava no céu. Aquela satisfação era tão ultrajante que Rafaela precisou cravar as unhas na palma da mão para não voar no pescoço de Gabriel.
— Espera… você também…? — O engenheiro olhou para Gabriel, depois para Rafaela, e soltou um suspiro pesado, percebendo o motivo da atmosfera elétrica entre aqueles dois parecia não deixar espaço para mais ninguém.
— Henrique, não é nada disso... — Rafaela tentou se explicar, a voz saindo em um fio, mas o ex-ficante já estava focado demais na revelação para ouvi-la. — Eu realmente estava ocupada, você sabe que meu tempo é escasso e...
— É, deu para ver o quanto você anda ocupada — Henrique cortou, o tom misturando mágoa e um orgulho visivelmente ferido. — Sabe de uma coisa? Parabéns pela apresentação, Rafaela. Eu já vou indo.
— Tchau, Henrique! — Gabriel o acompanhou com o olhar enquanto o rapaz dava as costas e caminhava apressado em direção à saída do auditório, deixando os dois sozinhos no meio do corredor. — Moleque maneiro, pena que...
— Você é um completo idiota, Duarte! — ela sibilou, dando um passo em direção a ele, esquecendo-se da elegância e do protocolo da feira. — Quem te deu o direito de se meter na minha vida e fazer esse show?
Gabriel não recuou. Pelo contrário, o deboche havia sumido, dando lugar àquela seriedade crua e desarmante que ele vinha mostrando nos últimos dias.
— Você. Você me deu esse direito, Rafa — ele respondeu, a voz caindo para um tom baixo que só ela podia ouvir por cima do burburinho do anfiteatro. — Você disse que somos só amigos. Amigos se apoiam, não é? Eu não podia perder a oportunidade de ver você brilhando em cima daquele palco, toda exata, lógica e... apaixonante.
— Não... — Rafaela ergueu um dedo em advertência. — Não começa com isso agora.
— Rafa...
Rafaela se afastou, erguendo os braços em sinal de rendição. A respiração acelerada, numa mistura de adrenalina pós-palco com o pane no sistema que ele causava nela.
— Eu... eu não posso lidar com isso agora, Duarte, por favor.
Ela deu as costas antes que ele pudesse responder e voltou para o lado dos colegas, tirando o blazer, que agora parecia sufocante demais. Gabriel permaneceu no corredor, observando-a se afastar. O sorriso de deboche tinha sumido por completo, substituído pelo olhar focado de quem sabia que, apesar de ela ter fugido daquela vez, o campo ainda estava totalmente livre para ele jogar.
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