AMOR EM CAMPO

58 Capítulo 60: Química e Vulnerabilidade


Notas iniciais
Preparem suas bandeiras e vistam suas camisas oficiais, porque hoje teremos Gabriel Duarte voltando para o jogo. 👀⚽ E, dessa vez, acho que ele finalmente entendeu o que realmente está em disputa. Boa leitura, meus amores. 🤍

Trinta dias. Quatro semanas de silêncio absoluto e encontros que não passaram de acenos distantes nos corredores da Central. Outubro tinha chegado com um vento mais morno e, com ele, a percepção de que Gabriel realmente tinha se tornado uma sombra. Ele não ligou. Não mandou flores. Não tentou cercar Rafaela na saída da aula. Ele apenas... existiu no limite do campo de visão dela, como um planeta que mudou de órbita, mas que ela ainda conseguia sentir a gravidade.

A quinta-feira chegou, trazendo o peso de um hábito que se recusa a morrer. O ônibus balançava enquanto cortava a cidade, e Rafaela mantinha os olhos fixos na janela, lutando contra o fantasma que ocupava o assento vazio ao seu lado. Era impossível não lembrar de Gabriel reclamando do filme "Cabeça" que ela escolhera, para logo depois se calar, hipnotizado, e decifrar toda a moral da história nos primeiros quinze minutos de projeção. Ele fingia que não gostava, mas nunca a deixava vir sozinha.

Ela desceu no ponto de sempre, o ar abafado da noite batendo em seu rosto enquanto caminhava para a bilheteria. O ingresso queimava em seus dedos, um papel pequeno que agora parecia um convite para a solidão.

Na bomboniere, o erro fatal.

— Uma pipoca média, por favor.

— Qual sabor?

O atendente esperou, e o silêncio de Rafaela foi preenchido pela voz de Gabriel ecoando em sua mente: "Meio a meio, Rafa. O segredo da vida é o equilíbrio entre o doce e o salgado".

— Meio a meio.

As palavras saíram antes que ela pudesse processar. Ela sentiu um nó apertar sua garganta. Pegou a droga da pipoca mista, odiando-se por cada grão de milho que agora cheirava a ele.

Ela se virou, pronta para fugir para a escuridão da sala quatro e desaparecer, quando o mundo simplesmente parou de girar.

Gabriel estava ali.

Ele usava uma blusa preta — a cor que ela sempre dizia que o deixava com um ar perigosamente atraente —, os cabelos estavam mais curtos e ele havia deixado a barba crescer, mas sim, era ele. Gabriel saía da sala de cinema vizinha, os olhos fixos na tela do celular, os ombros levemente caídos, desprovido daquela arrogância de capitão que costumava carregar como uma armadura.

O coração de Rafaela deu um tranco, batendo contra as costelas com uma força que doía. O cheiro de pipoca, o letreiro de neon do cinema, o frio do ar-condicionado... tudo se tornou um borrão, deixando apenas a silhueta dele em foco.

— Gabriel? — O nome dele escapou como um sopro, baixo demais, mas o suficiente para quebrar o transe dele.

Ele travou. O movimento foi lento, quase coreografado, quando ele levantou o olhar. No momento em que os olhos escuros encontraram os dela, Rafaela viu a surpresa ser substituída por uma dor tão crua que a fez recuar um passo. Ele não parecia o vilão da história dela naquele momento; parecia apenas um homem tentando se encontrar nos destroços.

Gabriel guardou o aparelho no bolso do jeans rapidamente, parecendo um pouco desconcertado.

— Rafaela? — ele parou a poucos metros, os olhos varrendo o rosto dela com aquela intensidade que ela conhecia bem. — Você... veio para a sessão das nove?

Rafaela apertou o saco de pipoca contra o peito. A metade salgada e a metade doce pareciam pesar uma tonelada agora.

— Vim. Pensei que você odiasse “filme cabeça” — ela disse, tentando recuperar a voz firme, mas falhando miseravelmente no final da frase.

Gabriel deu um meio sorriso triste, passando a mão pelo cabelo.

— Eu odiava o silêncio desses filmes. Achava que nada acontecia neles. — Ele olhou para a porta da sala de onde acabara de sair. — Mas descobri que muita coisa acontece no silêncio. Eu só não sabia ouvir. Assisti "O Sétimo Selo". Você tinha razão, o simbolismo da partida de xadrez é... bem, é pesado.

Rafaela piscou, surpresa. Ele não estava ali para "caçá-la". Ele estava ali por conta própria, consumindo o que ela amava, tentando entender o mundo por meio dos olhos dela, mesmo sem ela por perto.

— Você assistiu a Bergman? Sozinho? — ela perguntou, incrédula.

— É. Acho que estou tentando aprender a ficar sozinho com a minha própria cabeça — ele confessou, dando um passo curto para o lado para não bloquear a passagem de outras pessoas. — E, sinceramente? É a companhia mais difícil que eu já tive.

Houve um silêncio desconfortável, mas não era o silêncio gélido da faculdade. Era algo novo. Rafaela olhou para baixo e viu o saco de pipoca. Sem pensar, ela o estendeu um pouco.

— Quer? É meio a meio.

Gabriel olhou para a pipoca e depois para ela. Por um segundo, o brilho do antigo Gabriel — o que ganhava o mundo com um olhar — cintilou ali. Ele pegou apenas um punhado da parte doce.

— Obrigado.

— Como está o time? — ela perguntou, querendo fugir do assunto "sentimentos" antes que perdesse a coragem.

— Treinando pesado. O Diego está se saindo bem melhor como capitão agora. — Gabriel deu de ombros. — Eu… ainda estou treinando com os novatos. Eles correm muito, sabia? E ficam o intervalo todo gravando dancinhas para o TikTok. Me fazem sentir como se eu tivesse cem anos.

Rafaela soltou uma risada curta, espontânea, e o som pareceu iluminar o corredor escuro. Gabriel ficou estático, observando-a como se tivesse acabado de ouvir sua música favorita depois de meses no vácuo.

— O que foi? — ela perguntou, sentindo o rosto esquentar.

— Nada. É que... eu senti falta disso. Do seu riso. — Ele balançou a cabeça, como se estivesse se punindo pelo comentário. — Desculpa. Eu prometi que não ia atrapalhar.

— Você não está atrapalhando, Gabriel. Estamos em um lugar público. — Ela olhou para o relógio na parede. — Bom, minha sessão começa em cinco minutos.

— Vai lá. O filme de hoje é polonês, acho que você vai gostar da fotografia. Li sobre ele ontem. — Ele começou a se afastar em direção à saída, mas parou e olhou por cima do ombro. — Rafa?

— Oi?

— A parte doce está melhor que a salgada hoje. Você sempre teve razão sobre isso também.

Ele acenou e saiu pela porta de vidro, mergulhando na noite quente de quinta-feira. Rafaela ficou ali, parada, com a pipoca esfriando nas mãos. Ela foi ao cinema para não pensar nele, mas agora, sentada no escuro da sala, cada frame do filme parecia uma conversa silenciosa com o homem que estava aprendendo a gostar de Bergman só para se sentir um pouco mais perto dela.

📚📚📚

Rafaela despertou com o sobressalto de quem cai em um sonho. O silêncio da sala de descanso dos funcionários era espesso, quebrado apenas pelo zumbido monótono de um ventilador de teto e pelo toque insistente do celular sobre a mesa de fórmica. Ela limpou o canto da boca com as costas da mão, sentindo a pele seca e o peso de quem carregava semanas de turnos extras, seminários, provas e pouquíssimas horas de sono.

O nome Micaela piscava na tela como um farol de advertência.

Antes que pudesse articular um "alô" decente, o grito estridente da irmã atravessou o receptor, perfurando a névoa de cansaço que ainda a envolvia.

— EU FIQUEI EM SEGUNDO LUGAR, RAFA! SEGUNDO, VOCÊ CONSEGUE ACREDITAR?

— Micaela... — Rafaela gemeu, pressionando os olhos com as pontas dos dedos. — Acho que você acabou de estourar o meu tímpano esquerdo.

— Quem se importa com o seu tímpano, idiota? Eu fiquei em segundo lugar no National Vision! — A voz de Micaela transbordava uma euforia elétrica, quase tangível. — Eu não levei a câmera nova, mas a visibilidade... Rafa, é surreal. Eles vão publicar o portfólio dos vencedores. A minha foto vai estar na galeria online, exposta para quem quiser ver.

Rafaela sentiu o sangue fugir do rosto, as mãos subitamente úmidas contra a capa do celular. O sono que a nublava evaporou, substituído por uma vertigem gelada.

— Galeria online, Micaela? — A voz de Rafaela saiu num sussurro trêmulo. — Você tem ideia do que isso significa?

— Significa que eu sou uma fotógrafa de verdade, Rafa! — Micaela nem percebeu o pânico na voz da irmã. — O júri escreveu um comentário sobre a "química crua e a vulnerabilidade do casal". Eles disseram que a luz capturou um momento de entrega absoluta. Todo mundo no campus vai ver, todo mundo que entrar no site do National Vision vai ver!

Rafaela fechou os olhos com força. Entrega absoluta. A ironia era ácida demais para engolir. O que os especialistas chamavam de "química crua", ela agora enxergava como o registro do momento em que ela foi mais vulnerável à manipulação.

— Mica... isso é incrível. Eu estou orgulhosa de você, de verdade — disse Rafaela, tentando forçar uma alegria pela irmã . — Mas aquela foto... ela não é o que parece.

— Eu sei, eu sei, vocês terminaram e o cara foi um babaca — Micaela suspirou, o tom diminuindo um pouco. — Mas olha o lado bom: a foto é linda. Você está linda. E, querendo ou não, aquela imagem é a única coisa que sobrou daquela versão de vocês.

Após desligar o telefone, Rafaela ficou encarando a mesa. Ela não resistiu. Com os dedos trêmulos, abriu o navegador do celular e buscou pelo site do concurso.

Lá estava.

A imagem ocupava metade da tela. O contraste entre a luz dourada do entardecer e as sombras que moldavam o rosto de Gabriel enquanto ele a olhava... não parecia uma mentira. Parecia apenas um homem que encontrou seu centro de gravidade em uma garota.

A raiva de Rafaela, que já vinha se transformando em um vazio incômodo desde o encontro na biblioteca e no cinema, sofreu um abalo. Ela percebeu que a foto agora era pública. O mundo veria o amor que ela estava tentando enterrar.

O sino da livraria tocou, avisando o fim do seu intervalo. Ela guardou o celular, mas a imagem continuava gravada em sua retina.

"A química da vulnerabilidade", ela pensou enquanto voltava para o balcão.

O problema era que, depois de um mês vendo o esforço silencioso de Gabriel, Rafaela estava começando a suspeitar que a câmera da irmã não tinha capturado uma mentira. Tinha capturado a única verdade que Gabriel não tinha conseguido esconder, nem dele mesmo.

Há poucos quilômetros dali, Gabriel estava sentado no chão da sala, as costas apoiadas contra o sofá e a luz fria do notebook como única companhia na casa silenciosa.

Ele tentava, sem sucesso, concentrar-se em uma videoaula de Fisiologia, mas foi interrompido pelo vibrar metálico do aparelho sobre a madeira do piso.

Micaela.

Um mês de mensagens ignoradas não parecia ter arrefecido o espírito combativo da ex-cunhada. Gabriel soltou um riso seco, quase sem fôlego, ao ler a notificação que saltou na tela de bloqueio:

“Mesmo você sendo um cuzão que não responde minhas mensagens, queria que você visse isso.”

Logo abaixo, um link azul brilhava.

Gabriel hesitou. Seus dedos, ainda marcados pela aspereza dos treinos, pairaram sobre o vidro por um segundo eterno.

Ao tocar o link, o navegador carregou a página do National Vision. O título da galeria de vencedores surgiu em letras sóbrias, mas foi a imagem principal que fez o ar estancar em seus pulmões.

Na tela, a imagem era um fantasma persistente: ele e Rafaela, capturados pela lente intrusa de Micaela durante aquele feriado na casa dos pais delas. Era a mesma fotografia que estampava o papel de parede de seu celular, mas ali a resolução era tão nítida que ele podia ver o detalhe do fio de cabelo de Rafaela, que o vento teimava em jogar sobre os olhos, e a forma como a sua própria mão parecia hesitar no ar, num gesto de proteção que ele nunca teve coragem de verbalizar. O júri chamava aquilo de "entrega absoluta". Para Gabriel, no entanto, a foto era um espelho cruel: mostrava o amor que ele, por omissão, havia perdido.

Ele fechou os olhos por um instante, o mundo agora aplaudia a beleza de uma conexão que ele, por pura vaidade, transformara em cinzas.

Gabriel bloqueou o celular, mas a imagem continuava projetada em sua mente. O mundo estava olhando para aquela foto e vendo amor. E ele não podia mais aceitar que aquele amor existisse apenas em um servidor de imagens ou em uma galeria online.

Ele precisava que aquele amor voltasse a respirar fora da moldura.

Gabriel se levantou e caminhou até a janela. O campus da Central brilhava ao longe sob as luzes da cidade. Um mês. Ele tinha dado a ela trinta dias de espaço, de silêncio e de mudanças silenciosas. Mas, vendo aquela foto exposta numa galeria de prestígio, Gabriel percebeu que o tempo de apenas "ser uma sombra" tinha acabado.

Ele pegou a carteira e as chaves do carro. Não tinha um plano infalível, não tinha uma jogada de mestre e, pela primeira vez na vida, não estava tentando ganhar nada. Ele só precisava que ela soubesse que a "química e a entrega" que o mundo estava admirando não eram atuação. Era homem que ele tinha se tornado por ela.

📚📚📚

O som metálico da chave girando na fechadura da livraria selava o fim de mais um turno exaustivo, um ritual que ela repetia mecanicamente enquanto a mente vagava por inventários de livros, gráficos de Biologia e contas de aluguel.

Ao guardar as chaves na bolsa, ela suspirou, fechando os olhos por um segundo eterno. A privação de sono já começava a cobrar seu preço em borrões e sombras no limite da visão. No entanto, quando ela se virou para a rua deserta, o mundo se dissolveu.

Gabriel estava lá.

Ele estava escorado na lateral do carro, a silhueta recortada contra a luz pálida do poste. Por um instante cruel, Rafaela estancou, os dedos apertando a alça da bolsa com tanta força que as juntas empalideceram. Ela pensou que a exaustão finalmente a vencera, e sua mente, traidora e faminta, fabricara aquela alucinação para preencher o vácuo. Mas então, ele se afastou do metal frio do veículo e deu um passo hesitante em sua direção. O movimento foi real, físico, e o som das solas de seus sapatos contra o asfalto fez o coração dela disparar, batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado.

Nas duas primeiras semanas após a descoberta da aposta, a raiva fora sua única bússola, um incêndio que a mantinha aquecida e vigilante. Depois, veio o luto, o peso cinzento de enterrar o que ela achava que possuía. Mas, nos últimos dias, especialmente após aquele encontro furtivo no cinema, o sentimento que insistia em latejar era um vazio incômodo. Uma ausência que tinha o formato exato dele.

Houve noites em que ela desejou, com uma vergonha silenciosa, que ele estivesse exatamente ali quando o expediente terminasse. Que ele quebrasse o próprio exílio e a resgatasse daquela solidão autossuficiente. Mas Gabriel não aparecera. Até agora.

— Rafaela — ele disse, e o som do seu nome na voz dele, sem a proteção da distância, pareceu derrubar o último tijolo da muralha que ela passara um mês construindo.

Ele não sorriu. Não havia triunfo em seu rosto, apenas aquela melancolia densa. Gabriel parecia um homem que tinha atravessado um campo de batalha para chegar ali, e o cheiro amadeirado que emanava dele era a prova final de que o fantasma finalmente criara corpo.

Gabriel encurtou a distância, mas parou no limite do que considerava um espaço seguro. Seus olhos, agora despidos de qualquer artifício, percorreram o rosto de Rafaela com uma lentidão dolorosa. Sob a luz implacável do poste, ele viu o que o silêncio do último mês tentara esconder: as sombras profundas sob os olhos dela, a linha mais acentuada da mandíbula que denunciava os quilos perdidos e a forma como os ombros dela pareciam sustentar o peso de um mundo inteiro.

Um nó se apertou na garganta de Gabriel. Ele sabia que a culpa não era apenas dos seminários de Biologia ou das contas acumuladas no início do mês. Rafaela estava se enterrando em trabalho e livros para não ter que lidar com o entulho que ele havia deixado para trás. Ela estava tentando se exaurir até que não sobrasse espaço para pensar nele.

Ele era o veneno e, ironicamente, estava ali tentando ser o antídoto.

— Você está bem? — a voz dele saiu mais baixa do que pretendia, carregada de uma nota de remorso. — Parece que está prestes a cair no sono aqui mesmo na calçada.

Rafaela piscou, como se isso pudesse espantar a fadiga que turvava sua visão. Ela queria dizer que estava ótima, que a vida sem ele era uma linha reta de produtividade e paz. Mas a preocupação no tom dele era tão real que a mentira morreu antes de chegar aos lábios.

— É só uma semana difícil, Gabriel. O semestre e as contas não perdoam.

— Não é só isso, Rafa. — Ele deu mais um passo, as mãos enfiadas nos bolsos da calça jeans, como se quisesse evitar o impulso de segurá-la para que não caísse. — Eu… vi a foto. A Micaela me mandou o link do concurso.

A menção à foto pareceu flutuar entre eles, preenchendo o vazio da rua.

— "Química e vulnerabilidade" — ele repetiu, e o título soou como uma confissão. — Eu passei a última hora olhando para aquela imagem no meu celular. Todo mundo está comentando sobre como a luz é perfeita ou como a composição é incrível. Mas eu só conseguia olhar para o jeito que você olhava para mim.

Gabriel desviou o olhar para o asfalto por um segundo, buscando coragem na escuridão, antes de voltar a encará-la.

— Aquela foto... ela me destruiu, Rafaela. Porque ela é a prova de que eu perdi a única coisa que importava sem nem perceber. Eu estava entregue muito antes daquela lente disparar. E ver você assim agora, nesse estado... dói saber que eu ajudei a apagar o brilho que aquela foto registrou.

Rafaela sentiu o peso das palavras dele colidindo contra seu peito. Por um instante, a velha armadura de orgulho tentou se reerguer; ela quis erguer o queixo, dizer algo cortante que o deixasse ali, parado na calçada, enquanto ela caminhava para o ponto de ônibus com a dignidade que lhe restava. Mas a verdade é que ela estava exausta demais para sustentar o peso da própria máscara.

Ela não era feita de ferro, e o olhar de Gabriel — aquele olhar que agora a via por inteiro, sem filtros ou jogadas — foi o golpe final em sua resistência.

— Você quer falar sobre a foto, Gabriel? — a voz dela saiu embargada, a primeira rachadura real na barragem que ela construíra. — Quer falar sobre "vulnerabilidade"?

Rafaela deu um passo à frente, e desta vez foi ele quem recuou, atingido pela intensidade que emanava dos olhos dela.

— Você não tem noção do que foi abrir o meu coração para você. — As palavras começaram a sair, atropeladas, carregadas com a amargura de semanas de silêncio. — Eu quebrei todas as minhas regras por você. Eu ignorei cada aviso da minha intuição, cada estatística que dizia que caras como você não se misturam com garotas como eu, só para ter o meu nome, a minha confiança e o meu coração jogados na lata de lixo por causa de mil reais.

Gabriel tentou falar, mas ela o calou com um gesto de mão, as lágrimas finalmente vencendo a barreira dos cílios e traçando caminhos quentes em seu rosto pálido.

— Eu amei você e você me transformou em chacota. Eu tive que caminhar por aquele maldito campus durante semanas, sentindo os risos nas minhas costas, vendo os olhares de pena de gente que eu nem conhecia. Você me despiu da minha dignidade na frente de todo mundo.

Ela soltou um riso amargo, limpando o rosto com as mãos trêmulas.

— E o que mais dói... o que realmente me destrói todas as noites quando eu tento dormir e não consigo, é saber que eu ainda amo a pessoa que me destruiu. Que eu olho para você e ainda sinto algo que nem existiu de verdade. Então não venha me falar sobre uma foto bonita ou sobre "química". Aquela foto capturou alguém que não existe mais. Porque a garota que confiava em você morreu no dia em que descobriu que era apenas uma aposta.

O silêncio era ensurdecedor. Rafaela arquejava, os ombros subindo e descendo, sentindo o vazio que antes a incomodava ser preenchido por uma honestidade brutal e necessária. Ela finalmente tinha colocado o fantasma para fora.

Gabriel ouviu cada palavra como se fossem golpes físicos, mas, em vez de se encolher, ele se endireitou. A confissão dela — a dor crua de ainda amar o homem que a destruiu — agiu como um desfibrilador em seu peito. Se ela o amava, havia uma fenda na armadura. E Gabriel Duarte nunca foi do tipo que ignorava uma abertura no campo.

Ele deu um passo à frente, ignorando o aviso silencioso nos olhos dela. A hesitação tinha acabado. O Gabriel decidido, aquele que não aceitava o empate e que jogava até o último segundo do acréscimo, estava de volta. Mas, desta vez, ele não estava jogando contra ela; estava jogando por ela.

— Você está errada, Rafaela — ele disse, a voz subindo de tom, firme, carregada daquele magnetismo que ele sempre possuira, mas agora temperada com uma honestidade brutal. — Aquela garota não morreu. Ela está bem aí, gritando comigo porque ainda se importa. E eu não vou mais manter distância. Eu não vou aceitar que o ponto final da nossa história seja essa calçada fria e o seu desprezo.

Gabriel puxou a carteira do bolso e retirou um pedaço de papel um pouco amassado. Ele o estendeu para ela, os olhos fixos nos dela, desafiadores.

— O que é isso? — ela perguntou, a voz trêmula, recusando-se a tocar o papel.

— A minha multa, Rafa. Eu nunca aceitei um centavo daquela aposta idiota. O Diego até tentou me entregar, mas eu não consegui tocar naquele dinheiro sem sentir vontade de vomitar.

Ele desdobrou o papel levemente.

— Mas eu precisava que esses mil reais existissem de uma forma diferente. Eu precisava que eles deixassem de ser o preço da minha arrogância para se tornarem algo que fizesse sentido para você. Então, eu tirei do meu próprio bolso. É o dinheiro do meu bônus do semestre passado, aquele que eu estava guardando para tentar quitar o carro.

Ela pegou o papel com dedos hesitantes. Era um comprovante de transferência bancária e uma carta de agradecimento. Gabriel tinha doado o valor da aposta, em nome de Rafaela, para o projeto de preservação ambiental que ela mencionara no primeiro encontro deles, aquele que ele, na época, fingira não ouvir.

— Eu não quero comprar o seu perdão, porque sei que ele não está à venda — continuou Gabriel, a voz agora mais suave, porém implacável. — Eu só queria que o valor que quase nos destruiu fosse transformado em algo bonito. Eu queria que, toda vez que você pensasse naqueles mil reais, você não se lembrasse de um jogo sujo, mas do fato de que você me ensinou a olhar para o mundo além do meu próprio umbigo.

Ele deu um passo à frente e levou a mão ao rosto dela, o polegar limpando uma lágrima solitária. Rafaela enrijeceu por instinto, o corpo tenso diante da proximidade, mas não se afastou. O toque foi elétrico, um choque de realidade que fez o tempo parar.

— Eu vou te conquistar de novo, nerdzinha. Mas, dessa vez, sem plateia, sem apostas e sem mentiras. Eu vou aparecer aqui toda quinta-feira depois do seu expediente. E nós vamos assistir a cada filme polonês que você indicar. Eu vou esperar o tempo necessário até que você olhe para mim e não veja mais um erro. Mas sim, o homem que aprendeu a te amar da única forma que você merece: de verdade.

Rafaela o encarou, o peito subindo e descendo. O "novo" Gabriel tinha a mesma audácia do antigo, mas o brilho nos olhos dele não era de quem queria vencer um jogo, mas de quem tinha encontrado um propósito.

Ela não disse que o perdoava. Não o abraçou. Mas também não se afastou. Ela apenas guardou o papel na bolsa e o olhou nos olhos por um longo, eterno segundo.

— Gabriel… — ela murmurou, a voz ainda rouca de choro.

— Toda quinta, Rafa. Até você voltar pra mim — ele prometeu, com um sorriso de lado que, desta vez, não tinha nada de arrogância e tudo de esperança.

Ele se afastou, voltando para o carro, deixando para trás o silêncio da noite e o início de uma nova geometria. A partida não tinha acabado. Na verdade, para Gabriel, o apito inicial tinha acabado de soar.

Rafaela viu o carro dele se afastar, as luzes traseiras vermelhas desaparecendo na neblina da avenida. Ela pegou o papel novamente na bolsa e olhou para o comprovante em sua mão, o peso da doação, o peso da renúncia dele, o peso de um mês de silêncio que acabara de ser quebrado.

Ela não sabia se o perdoaria no dia seguinte. Nem no outro. Mas, depois de muito tempo, ela não sentia vontade de correr e fugir. Ela apenas ficou ali, sob a luz do poste, sentindo o rastro do perfume dele no ar.

— Toda quinta... — ela sussurrou para a rua deserta, apertando o papel contra o peito. Não havia sorriso em seus lábios, apenas o peso de uma dúvida monumental. Ela olhou para a avenida escura, desafiando o silêncio. — Vamos ver se você sustenta essa banca quando a próxima quinta chegar, Gabriel.


Notas finais
E agora, de verdade… estamos chegando perto do apito final. Ainda tentando assimilar o fato de que faltam apenas CINCO capítulos para a nossa despedida… e eu nem sei se estou preparada para deixar esses dois irem embora. E você? Agora me contem: ✨ O que mais pegou vocês nesse capítulo? ✨ O encontro no cinema? ✨ A Rafa admitindo que ainda o ama? ✨ A doação? ✨ Ou o “toda quinta-feira” no final? 👀 Vejo vocês na sexta.