AMOR EM CAMPO
53 Capítulo 55: Consertar
Notas iniciais

Rafaela parou diante do espelho. Os olhos ainda guardavam o resquício do choro da noite anterior, mas sua expressão era uma máscara de granito. Ela ignorou o moletom largo que antes servia de escudo; hoje, escolheu o básico: jeans, uma camisa branca impecável e o cabelo preso em um rabo de cavalo tão firme quanto sua decisão. Ela não queria parecer uma vítima, e não daria a ninguém o luxo de ser um espetáculo.
Ao atravessar os portões da Universidade Central, ela sentiu os olhares. Eram como agulhas cutucando sua pele. Cochichos morriam quando ela passava, e cabeças se viravam nos corredores. Rafaela manteve o queixo erguido e os fones de ouvido no lugar, embora não estivesse ouvindo música nenhuma. Ela precisava ouvir o terreno que estava pisando.
O "comitê de recepção" estava, como esperado, perto do café. Brunna estava encostada em uma mesa, cercada por suas seguidoras, com um sorriso que exalava uma vitória podre. Assim que Rafaela entrou no campo de visão dela, o grupo se calou.
— Olha só quem resolveu aparecer! — a voz de Brunna ecoou, estridente e carregada de deboche. — Achei que depois do show de ontem no bloco C você estaria escondida em algum porão catando o que sobrou da sua dignidade.
Rafaela nem sequer diminuiu o passo. Ela continuou caminhando na direção da aula, o que fez Brunna se descolar da mesa, irritada por não ter conseguido uma reação imediata.
— Ei! Estou falando com você, nerd! — Brunna se colocou na frente dela, bloqueando o caminho. — O que foi? O Gabriel parou de pagar por hora e agora você ficou sem voz? Estávamos comentando aqui... Quanto será que vale esse seu ar de superioridade no mercado de apostas?
Rafaela estancou. O burburinho ao redor morreu no exato segundo em que o silêncio dela se impôs. Ela não olhou nos olhos de Brunna; fixou o olhar no topo da cabeça da garota, com o desinteresse de quem analisa uma rachadura insignificante em uma parede.
— Sabe o que é realmente triste, Brunna? — a voz de Rafaela saiu límpida, baixa e assustadoramente calma. — Você se esforça tanto para ser o centro de tudo, mas a única forma de você conseguir a atenção do Gabriel foi falando de mim. Deve ser exaustivo viver a minha sombra.
Brunna abriu a boca para retrucar, mas o rosto começou a ficar vermelho de raiva.
— Você quer ser a protagonista dessa história — continuou Rafaela, dando um passo à frente, forçando Brunna a recuar por instinto. — Mas a verdade é que, para mim, você não é nem uma personagem secundária no que eu sinto. Você é só o ruído de fundo. E ruído a gente simplesmente ignora.
Rafaela contornou a garota, que permanecia estática, com os punhos cerrados.
— Ah, e Brunna? — Rafaela parou e olhou por cima do ombro, com um meio sorriso gélido que nunca tinha usado antes. — Da próxima vez que for tentar me humilhar, tenta algo mais original. "Nerd" e "aposta" já estão tão desgastados quanto esse seu papel de ex-namorada mal resolvida. Você está se tornando previsível.
Rafaela seguiu seu caminho. Ela não olhou para trás, as mãos tremiam levemente agora que a adrenalina do confronto começava a baixar. A muralha estava de pé, mas os alicerces ainda eram feitos de carne e osso.
— Aquilo foi... cinematográfico.
Rafaela estancou ao ouvir a voz vinda de uma das portas das salas de laboratório. Sabrina estava encostada no batente, com um jaleco aberto sobre a roupa e uma pasta de relatórios na mão. Ela não tinha o olhar de pena que os outros alunos carregavam; tinha um brilho de diversão e um respeito genuíno.
— Sabrina... — Rafaela soltou o ar, os ombros relaxando um milímetro. — Você viu?
— O campus inteiro viu, ou vai ver em cinco minutos. As seguidoras da Brunna já estão digitando o 'escândalo' nos grupos — Sabrina deu um passo à frente, fechando a distância. Ela era o oposto da delicadeza de Letícia; Sabrina exalava uma confiança prática, de quem lidava com fatos, não com dramas. — Mas a sua resposta sobre o 'ruído de fundo'? Aquilo vai virar citação no diretório acadêmico.
Rafaela forçou um meio sorriso, mas ele logo vacilou.
— Eu achei que você fosse próxima dela. Às vezes via vocês juntas.
— A Jennifer é minha prima e, de uns anos para cá, ela virou sombra da Brunna. Às vezes eu acabava no mesmo grupo por tabela, mas não faço parte do gado dela, se é isso que você quer saber.
— Entendi. Então você não sabia sobre a... — Rafaela hesitou, a palavra parecendo amarga demais. — Sobre a aposta do Duarte.
— Claro que não. Se eu soubesse, teria aberto a boca na mesma hora. Mas e aí? Como você está, de verdade?
— Tentando processar que agora eu sou "a nerd da aposta". Fora isso... sobrevivendo.
— Eu sei. É uma merda. — Sabrina foi direta, sem rodeios ou palavras doces demais. — Mas já que o estrago está feito, você tem duas opções: ou se enfia nos fundos da biblioteca pra sempre, ou caminha comigo até o Bloco C. Tenho aula de Farmacologia e adoraria que as pessoas vissem que você tem amigos que não dão a mínima para o valor que o Duarte tentou colocar em você.
Sabrina enganchou o braço no de Rafaela sem esperar resposta, puxou-a levemente, e ambas começaram a caminhar.
— Vamos? prometo que minha companhia compensa o trauma.
Rafaela olhou para ela. Ter Sabrina ali, com aquela blindagem de "não estou nem aí para os populares", era exatamente o reforço que ela precisava.
— Vamos — assentiu. — Mas aviso logo: o meu humor hoje está no nível "explosivo".
— Ótimo — Sabrina piscou, já começando a caminhar. — Cá entre nós? Eu sempre preferi as pessoas explosivas às previsíveis.
Gabriel assistiu a tudo de longe, encostado em uma pilastra de concreto, escondido pelas sombras do corredor lateral. Ele tinha visto a Rafaela entrar e seu coração tinha disparado; ele esperava vê-la murcha, assim como ele, mas o que viu foi uma mulher que ele mal reconhecia. Quando ela silenciou Brunna com aquela calma gélida, Gabriel sentiu um misto de orgulho doído e uma esperança perigosa.
Se ela ainda tem tanta força, talvez ainda reste um espaço para mim, ele pensou, estupidamente.
Enquanto Rafaela e Sabrina se afastavam pelo corredor, o som dos passos delas ecoando com uma confiança que ele não esperava, Gabriel saiu de trás da pilastra.
Ele viu a mão de Sabrina no braço de Rafaela, um gesto simples de apoio que ele já não tinha mais o direito de oferecer. Gabriel percebeu, com um amargor na garganta, que o mundo de Rafaela estava se reorganizando para excluí-lo. Ela estava criando novas raízes, novas defesas, e ele continuava ali, parado na sombra de uma estrutura que ele mesmo ajudou a derrubar.
Ele não precisava apenas de uma conversa. Ele precisava de um milagre. E, olhando para a postura rígida de Rafaela ao dobrar a esquina do corredor, ele soube que milagres eram a única coisa que ela não estava disposta a entregar.
⚽⚽⚽
Gabriel passou o dia como um leão enjaulado. Ele tentou interceptar Rafaela três vezes.
A primeira vez foi no corredor da biblioteca. Ele chamou o nome dela, a voz carregada de súplica. Rafaela nem sequer girou a cabeça. Continuou caminhando como se tivesse ouvido apenas o barulho do vento.
Na segunda, ele deixou o café favorito dela junto com um bilhete na mesa onde ela costumava estudar e ficou observando de longe quando ela entregou o café a um calouro aleatório e jogou o bilhete no lixo, sem nem sequer abrir a dobra do papel.
Na saída do estacionamento, ele fez a terceira tentativa.
Gabriel estava encostado no capô do carro, conversando com os amigos, quando a viu atravessar o pátio em direção ao portão. Não pensou duas vezes antes de se afastar, ignorando os olhares dos dois.
— Gabe? — chamou Daniel, num aviso cauteloso.
Gabriel não se virou.
— Cara, dá um tempo pra ela… — Diego começou, mas parou quando viu Gabriel apenas balançar a cabeça, decidido.
Ele seguiu pelo estacionamento, aumentando o passo para alcançá-la antes que ela chegasse à saída.
— Rafaela, espera, por favor!
Gabriel parecia pior do que no dia anterior. As olheiras profundas denunciavam a noite em claro, e o cabelo estava bagunçado, como se ele tivesse passado as mãos nele vezes demais. Ele parecia um homem que tinha perdido o rumo, mas Rafaela não sentiu pena. A pena exige que você ainda se importe com o que acontece com a outra pessoa.
— Sai da frente, Gabriel — ela disse, sem olhar nos olhos dele. A voz era a mesma que usara com Brunna: desprovida de qualquer calor.
— Eu vi o que você fez com a Brunna mais cedo. Você foi incrível, Rafa. Ela mereceu ouvir cada palavra e...
— Você acha que eu fiz aquilo por nós? — Ela finalmente levantou o olhar, e o que Gabriel viu o fez dar um passo atrás. Não havia raiva. Havia um desdém absoluto. — Eu não estava defendendo o nosso "namoro", Gabriel. Eu estava defendendo a minha paz.
— Eu sei, eu sei… — Gabriel passou a mão pelo rosto, como se tentasse acordar de um pesadelo. — Eu sei que você não fez aquilo por mim. Sei que eu te magoei... mas eu também sei que, se você deixar, eu posso consertar.
— "Consertar?" — ela repetiu a palavra, e Gabriel sentiu o impacto. — Você ainda não entendeu, não é? No momento em que preferiu continuar mentindo para mim, você acabou com qualquer possibilidade de consertar o que nós tínhamos. Agora, cada lembrança boa que eu tenho é como uma nota de dinheiro falsa. Bonita de longe, mas sem valor nenhum quando você tenta usar.
— Rafa, por favor...
Gabriel tentou segurar a mão dela, um gesto desesperado de contato, mas ela recuou como se tivesse sido queimada.
— Não me toque. — Ela se afastou; a frieza deu lugar a uma firmeza cortante. — Escuta, Gabriel… Por que você não volta lá para os seus amigos? — Ela desviou o olhar de Gabriel por um segundo e o cravou em Diego e Daniel, que observavam tudo encostados no carro, a poucos metros dali. O olhar dela foi um disparo de gelo, tão carregado de desprezo que Diego, por instinto, desviou os olhos para o chão e Daniel enrijeceu a postura. — Volte para quem compartilha o seu senso de humor e os seus valores. Volte para as festas, os jogos, as mulheres. Continue sendo o grande Gabriel Duarte que todo mundo espera que você seja. Mas vai sabendo que, para a única pessoa que realmente viu quem você é por dentro, você não passa de um estranho que deve mil reais de dignidade.
Ela o contornou com uma agilidade que o deixou estático. Gabriel ficou ali, no meio do estacionamento, sentindo o peso das palavras dela esmagar qualquer esperança que ele ainda ousava carregar. Ele era o capitão do time, o cara mais popular da Central, mas, naquele momento, ele nunca se sentira tão insignificante.
📚📚📚
O silêncio do quarto de Rafaela foi quebrado pelo toque vibrante do celular sobre a mesa de cabeceira. Ela atendeu sem olhar, tentando equilibrar uma xícara de chá e um livro pesado.
— Rafa! Você não tem noção! — A voz de Micaela veio carregada de uma energia que parecia elétrica. — Eu acabei de fazer a inscrição para o National Vision, o concurso de fotografia independente mais importante do ano! O prêmio principal é uma Sony A7R V, Rafa. É a câmera dos meus sonhos, com um sensor que consegue capturar até a alma de quem é fotografado!
Rafaela esboçou um sorriso fraco, sentando-se na cama.
— Isso é incrível, Mica. Você merece. Suas fotos são arte pura.
— Pois é, e eu já sei qual vou mandar para a categoria principal: "Conexões". Eu vou usar aquela foto que tirei de você e do Gabriel no feriadão, lembra? Vocês dois sentados na varanda, o sol batendo de lado... O olhar dele para você naquela foto é a definição de conexão. É a minha melhor chance de ganhar.
O sorriso de Rafaela desapareceu instantaneamente. Um nó se formou em sua garganta, o gosto do chá tornando-se amargo.
— Não, Mica. Melhor não. Escolha outra.
— Como assim "escolha outra"? Aquela foto é perfeita, Rafa. A composição, a luz, a verdade entre vocês…
— Não tem verdade nenhuma ali, Micaela — Rafaela cortou, a voz saindo mais embargada do que pretendia. — Use qualquer uma das suas outras milhares de fotos. Elas são muito melhores.
Houve um silêncio do outro lado da linha. Micaela, que conhecia cada nuance do tom de voz da irmã, mudou o tom imediatamente.
— Rafa? O que aconteceu? Você está com voz de quem passou a noite chorando.
— Não é nada. Só... cansaço.
— Rafaela, não mente para mim. Me fala, vocês brigaram?
Após alguns segundos de hesitação, a represa quebrou. Rafaela contou tudo. Sobre o início, sobre a ideia de Letícia de dar uma lição nele. A aposta de mil reais, o sentimento de ter sido tratada como um investimento de baixo risco. Ela esperava que a irmã explodisse em fúria contra ele e, a princípio, Micaela cumpriu o papel.
— Aquele filho da puta! — Micaela esbravejou.
— Micaela!
— Não, Rafa. Eu vou quebrar aquela câmera na cabeça dele! Como ele pôde ser tão imaturo?
Mas, conforme o silêncio de Rafaela se prolongava, o tom de Micaela foi suavizando, tornando-se analítico, quase cirúrgico.
— Mas sabe de uma coisa, Rafa? Deixa eu te falar uma verdade que talvez você não vá querer ouvir.
— O quê? — Rafaela limpou uma lágrima com as costas da mão.
— Você está magoada, e tem todo o direito. O que ele fez foi estúpido e machista. Mas vamos cair na real: você também mentiu para ele no começo. Você e a Letícia entraram nisso com um plano de "dar uma lição" nele, de usá-lo para provar um ponto. Se você não tivesse se apaixonado no meio do caminho, Rafa, você teria levado o seu plano até o fim. E quem estaria se sentindo enganado e usado agora seria o Gabriel.
Rafaela sentiu o rosto queimar.
— É diferente, Mica! Eu não coloquei preço em ninguém!
— O ego ferido dói do mesmo jeito, com ou sem dinheiro envolvido — Micaela rebateu, implacável. — Você tem razão em estar com raiva, mas não seja hipócrita. Vocês dois começaram esse jogo com as cartas marcadas. A diferença é que ele foi o primeiro a ser pego. Antes de condenar ele ao inferno, olhe para o espelho e admita que, se o plano de vocês tivesse dado certo, você seria a vilã da história dele.
O baque das palavras da irmã foi mais forte que qualquer discussão que Rafaela tivera com Gabriel.
— Eu... eu preciso desligar, Mica.
— Tá bom, mas pensa nisso, Rafa. E eu vou mandar aquela foto para o concurso, sim. Porque, independentemente de como começou, o que eu vi naquela lente não era uma aposta. Era amor. E isso você não pode apagar só porque está com o orgulho ferido.
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