AMOR EM CAMPO
50 Capítulo 53: Verdade
Notas iniciais

Rafaela chegou em casa como se carregasse o triplo do próprio peso. Assim que entrou no quarto, não houve cerimônia: a bolsa caiu de qualquer jeito, um baque surdo no tapete, e ela desmoronou. Foi um mergulho cego no travesseiro, buscando ali um refúgio para o rosto ardendo e para o ar que insistia em faltar.
Não chorou. Ainda não. Mas os olhos queimavam. O peito doía com uma força crua, sufocante, como se tivesse levado um soco no estômago e ainda tentasse entender de onde veio o golpe.
O celular vibrava. Chamadas e mensagens. Ela ignorou todas.
Até que a tela acendeu de novo e, contra a própria vontade, os olhos foram atraídos pela prévia da última notificação:
Gabriel ♥: Amor, onde você está? Tá tudo bem?
Ela bloqueou a tela com força, como se aquilo fosse o bastante para calar a voz dele dentro da cabeça dela.
Amor? Ele ainda tinha a ousadia de chamá-la assim?
Sentou-se na cama devagar, os dedos trêmulos apertando os lençóis. Precisava pensar, mas o reflexo no espelho de corpo inteiro a interrompeu como um tapa.
Rafaela se levantou e caminhou até ele, trêmula. Encarou a mulher ali parada. O penteado que ela raramente usava, os fios presos com precisão; a maquiagem que destacava os olhos agora vermelhos; as roupas que a irmã a ajudara a escolher com tantas risadas e expectativas horas antes.
Ela se arrumara para ele. Cada detalhe, desde o perfume até a escolha do sapato, tinha sido um tributo à segurança que ele a fazia sentir. E agora? Agora aquela roupa parecia estar rindo dela. O tecido pinicava a pele; a saia, que antes a fazia se sentir poderosa, agora parecia curta demais, exposta demais.
Lembrou-se dos olhares quando chegou a festa. Na hora, ela se sentiu linda, caminhando de cabeça erguida ao lado do "Grande Gabriel". Mas a verdade, nua e crua, a atingiu agora: ela não era a rainha da festa. Ela era o troféu em exibição. Cada um daqueles olhares não era de admiração, era de contagem regressiva.
Sentiu uma náusea súbita. Ela se sentia patética. Uma piada visual bem montada para que ele pudesse faturar a aposta com estilo.
“Eu me fantasiei para ser o prêmio dele”, pensou, e o ódio por si mesma brilhou mais forte do que a mágoa por ele.
Ela levou as mãos ao cabelo, desfazendo o penteado com movimentos bruscos, quase violentos. Tirou as roupas, deixando-as caídas no chão do quarto. Precisava arrancar qualquer vestígio do que tinha sido planejado para agradar aos olhos de um mentiroso.
Ela vestiu o moletom que estava jogado na cadeira, puxando o tecido grosso contra o corpo como se ele pudesse filtrar a sujeira que sentia na pele. O capuz era largo, o tecido gasto, mas era dela. Não havia sido escolhido para ser exibido ou para validar apostas de garotos mimados.
Ela tirou a maquiagem borrando o resto do rímel, pouco se importando com a imagem que veria no espelho. A Rafaela que se importava com a opinião do Gabriel tinha morrido no segundo em que ouviu a voz da Brunna.
O tempo escorreu devagar, pesado, até que a campainha tocou.
Uma vez. Duas. Três vezes.
Logo vieram as batidas na porta. Fortes. Insistentes. Desesperadas. Rafaela permaneceu imóvel no centro do quarto, os punhos cerrados ao lado do corpo. Ela não precisava olhar para saber quem era. O ar ao redor parecia ter mudado, carregado com a eletricidade estática da presença dele.
O coração acelerou contra a sua vontade, um traidor batendo no peito, reagindo ao homem que ela queria apagar da existência.
Caminhou até a porta da frente. Cada passo era uma decisão de não ser mais a vítima. Parou com a mão sobre a maçaneta, sentindo a vibração das batidas dele do outro lado.
— Rafa? — a voz de Gabriel veio abafada pela madeira, carregada de uma urgência que antes a faria derreter, mas que agora soava como o som de um culpado tentando escapar da sentença. — Rafa, abre. Por favor. Eu sei que você está aí.
Ela respirou fundo, fechando os olhos por um segundo para conter o tremor dos dedos. Então, abriu.
Gabriel estava ali. O cabelo, que sempre parecia impecavelmente bagunçado, agora era apenas um caos. O rosto estava tenso, as bochechas coradas pelo esforço ou pela adrenalina, e os olhos... os olhos dele estavam vermelhos. Ele parecia ter corrido uma maratona para chegar ali, mas o que ele encontrou não foi a namorada arrumada da festa.
Ele encontrou uma estranha de moletom largo e olhar frio.
— Rafaela… — ele disse, o alívio na voz sendo rapidamente engolido pela confusão ao vê-la assim. Tão diferente. Tão... distante. — O que foi que aconteceu? Você sumiu. Eu te liguei, mandei mensagem…
Ela não respondeu. Apenas o encarou — fundo, direto — como se estivesse dissecando o homem à sua frente para encontrar o lugar onde a mentira começava e a verdade terminava. Ou se havia qualquer diferença entre as duas.
Gabriel deu um passo à frente, tentando invadir o espaço dela com aquela intimidade que ele achava que ainda possuía.
— Rafa… fala comigo. Tá tudo bem? — Ele estendeu a mão, o tom de voz macio, aquele tom que sempre a acalmava.
Rafaela sentiu uma pontada de náusea. Aquele era o tom que ele usava depois de cada mentira? Quantas vezes aquela voz a tinha enganado enquanto o cronômetro da aposta corria no fundo?
— Você vai mesmo fingir que não sabe o que aconteceu? — A voz dela saiu tensa. Baixa, mas vibrando como uma corda prestes a arrebentar.
Ele engoliu em seco, e o pomo de adão se moveu de um jeito ruidoso no silêncio da varandinha. Ele vacilou, a mão caindo ao lado do corpo.
— Eu… não tô entendendo. Você sumiu, Rafa. Eu fiquei louco te procurando, achei que tivesse se sentido mal, que alguém tivesse te desrespeitado…
Rafaela soltou uma risada curta, seca. Um som que não tinha nada de alegre.
— Alguém me desrespeitado? — Ela repetiu, dando um passo para fora da sombra da porta, deixando que a luz da varanda revelasse seu rosto sem maquiagem e seu olhar carregado de ojeriza. — Que ironia, Gabriel. Logo você, preocupado com o meu respeito.
Ele franziu a testa, a confusão começando a dar lugar a uma fagulha de pânico nos olhos.
— Do que você está falando? Eu nunca deixaria ninguém…
— Brunna. — Ela o cortou.
Quando o nome de Brunna saiu dos lábios dela, Gabriel sentiu o ar sumir dos pulmões como se tivesse levado uma bolada no plexo. O pânico, que até então era uma faísca, virou um incêndio. Ele não apenas congelou; ele empalideceu, as mãos começando a suar frio contra o batente da porta.
— O quê? A Brunna? — Ele tentou, a voz falhando por um milésimo de segundo. — O que tem ela? Ela… te disse alguma coisa? Aquela louca ficou me encarando a noite toda, eu já te falei que…
— Não me venha com o roteiro de "ex-namorada maluca", Gabriel. — Ela cruzou os braços, protegendo o peito sob o moletom. — Eu vi. Vi quando ela foi atrás de você na cozinha.
Ele desviou o olhar, uma ponta de esperança covarde surgindo no peito. Por um segundo, achou que ela apenas estava com ciúmes; que, se ele minimizasse, o resto continuaria enterrado.
— Amor, não foi nada. Juro. Ela apareceu do nada, começou a falar besteira. Eu saí assim que pude…
— Para de mentir — A frase cortou o ar entre eles como uma lâmina fria.— Eu já sei de tudo. Ouvi a conversa de vocês, Gabriel. Cada palavra.
Gabriel estancou. O coração golpeava o peito, uma pulsação surda que ecoava nos ouvidos como o aviso de um naufrágio iminente. O "castelo de cartas" não estava apenas balançando; ele tinha desmoronado sobre a sua cabeça.
— Rafa, me escuta… — A voz dele saiu num fio, o desespero de quem tenta segurar a água com as mãos.
Naquele segundo, um filme passou pela sua cabeça: todas as vezes em que ele abriu a boca para contar e a fechou por medo. Cada jantar, cada beijo, cada "eu te amo" agora parecia manchado pela covardia de não ser o primeiro a falar. Ele percebeu, com um soco de realidade, que a verdade contada por terceiros não é esclarecimento, é traição.
— Eu ia... eu ia te contar… — ele mentiu para si mesmo, a voz embargada pela realização de que "depois" era um lugar que não existia mais.
— Você apostou com o Diego que conseguiria ficar comigo? — A voz dela tremia. Ela já sabia a verdade, mas queria ver se ele teria coragem de olhar nos seus olhos e dizer mesmo assim.
Ele fechou os olhos com força, como se aquilo fosse impedir o que estava prestes a dizer de doer, mas admitiu.
— Sim — disse, enfim, a voz baixa. — Eu fiz essa besteira, sim, Rafa. Mas, eu juro por Deus que eu me arrependi e tudo mudou.
Rafaela sentiu o mundo parar e o chão ameaçar ceder sob seus pés. Ali estava a verdade revelada. Tudo que ela mais temia havia acontecido. Ela confiou e fora exposta por quem acreditou que a protegeria.
— Mudou? — Ela repetiu a palavra como se fosse um insulto, uma piada de mau gosto. — O que mudou, Gabriel? O valor da aposta? O prazo para você me levar para a cama?
Gabriel tentou dar um passo à frente, as mãos estendidas, trêmulas.
— Não! Nada disso! No começo... eu era um idiota, um moleque tentando se provar para os caras. Mas depois, eu te conheci pra valer e no primeiro dia em que a gente conversou de verdade, eu quis parar. Eu juro que quis!
— Mas não parou. — Rafaela deu um passo para trás, fugindo do alcance dele como se a proximidade física dele a sufocasse. — Você continuou me olhando nos olhos, me fazendo acreditar que eu era especial... enquanto no vestiário você era o herói que estava ganhando o jogo.
— Porque eu me apaixonei por você, Rafaela — a voz dele agora era pura urgência. — Tive medo de te perder.
— Por isso mesmo você deveria ter me contado — A voz dela se quebrou. — Você teve mil chances de ser homem e me falar a verdade, mas preferiu me deixar ser o prêmio de uma aposta.
— Eu errei. Sei que errei, me perdoa. — ele começou, a voz falhando, as palavras saindo atropeladas no desespero de não ser o único monstro daquela história. — Mas você também disse... Você disse que queria me usar, Rafa! Que ia me dispensar! — As palavras saíram antes que ele pudesse contê-las, e o gosto amargo da própria hipocrisia subiu pela garganta como bile. Ele sabia que a honestidade dela tinha sido um ato de coragem, enquanto o silêncio dele fora apenas covardia.
Rafaela arqueou as sobrancelhas, surpresa com a tentativa de inversão.
— Sim, Gabriel. Foi exatamente isso que eu te contei. Assim que percebi que as coisas estavam mudando, fui honesta. Te dei a escolha de continuar ou não — rebateu. — Você, não. Você continuou. Continuou mesmo quando viu que eu estava caindo. Mesmo quando percebeu que eu confiava em você. Que eu sentia algo por você. O que foi? Você queria se vingar de mim, é isso? Por que feri seu brio de conquistador barato?
Gabriel abriu a boca para falar, mas o som morreu na garganta quando viu o muro que ela erguia entre eles. Os olhos de Rafaela, antes tão acolhedores, agora eram marejados e intransponíveis.
— Claro que não. Eu juro. Eu só… não sabia como te contar. Como iria olhar nos olhos da mulher que eu amo e dizer que tudo entre nós começou com uma mentira? Estava esperando o momento certo.
— O momento certo? — Ela riu, amarga, quase sem acreditar. — Vamos ver… que tal depois do nosso primeiro beijo? Ou antes de transar comigo? Quem sabe… talvez antes de eu me tornar o assunto preferido do vestiário? Antes de você e o Diego comemorarem cada passo que eu dava em direção a você?
Gabriel engoliu em seco, o rosto tomado pela culpa.
— Rafa…
— Você me expôs! — A dor explodiu, transbordando. — Me fez de idiota! Eu estava lá, me permitindo confiar... enquanto todos vocês se divertiam às minhas custas.
— Ninguém se divertiu, Rafaela! — Gabriel rugiu, também incapaz de conter a fúria, mas,sua fúria era voltada contra si mesmo. Ele deu um passo para trás, enquanto passava as mãos violentamente pelos cabelos, puxando-os com força, numa tentativa inútil de arrancar o desespero da própria cabeça. — Eu odiava cada comentário, cada risadinha... Eu queria apagar o que eu fiz, mas eu fui um covarde. Um covarde que teve medo de perder a única coisa boa que já aconteceu na vida dele!
Ela o olhou, os olhos cheios, mas nenhuma lágrima caiu.
— E você perdeu — sussurrou. — Você me quebrou, e nem faz ideia do quanto.
O silêncio entre eles era ensurdecedor, como se o mundo tivesse parado só para assistir àquele fim.
Gabriel tentou dar um passo para dentro, os ombros largos parecendo grandes demais para aquela entrada estreita, a voz beirando o suplício.
— Rafa, escuta, me bate, grita, quebra alguma coisa... mas vamos tentar resolver, só… não me olha assim. Não me olha como se eu fosse um estranho. Eu estou aqui. Sou eu. Ainda sou o mesmo cara que…
— Eu nem sei quem é você de verdade. — Ela o interrompeu. O olhar dela era o de quem não via mais saída. — Só sei que… tudo entre nós era mentira.
Gabriel engoliu em seco, a expressão tomada pelo arrependimento. Ele estava ali, o capitão dos Falcões, o cara que nunca abaixava a cabeça para nenhum juiz, agora com os ombros caídos e os olhos suplicantes, parecendo um garoto que acabara de perder tudo.
Em um último impulso, ele diminuiu a distância. Suas mãos, grandes e trêmulas, envolveram o rosto de Rafaela, obrigando-a a encará-lo. Ele buscou o fundo dos olhos dela, em uma prece silenciosa para que ela enxergasse ali, por trás de toda a bagunça e da covardia, a verdade que suas palavras não conseguiam mais sustentar.
— Então me diz o que posso fazer para você confiar em mim de novo — ele sussurrou, o hálito quente contra o rosto dela, a voz quebrada. — Eu faço qualquer coisa.
Parte dela queria fechar os olhos e se perder naquele toque, acreditar que o calor das mãos dele era o lugar seguro de antes. Mas a imagem da conversa na cozinha, o eco das risadas do vestiário e o peso de cada mentira subiram como um veneno.
Rafaela segurou os pulsos dele e afastou as mãos de seu rosto com uma força que nem sabia que tinha. O toque, que antes era seu porto seguro, agora queimava contra sua pele como o ácido das mentiras que ele sustentara por semanas.
— Fica longe de mim, Gabriel — o sussurro foi firme, mas o olhar era o de quem já tinha começado o luto. — Me esquece. Como se eu fosse apenas uma aposta que você perdeu.
— Não. Rafa…
Ela fechou a porta. Devagar, como quem encerra um capítulo que não queria ter escrito.
Sem gritos. Sem cena.
Só o silêncio de quem percebe que aquele vazio que ela tanto temia agora é real: ela perdeu a melhor amiga e o namorado no espaço de duas semanas.
Do outro lado, Gabriel permaneceu imóvel, encarando a madeira fria da porta que acabara de se fechar. O silêncio que veio depois foi pior que o som do trinco. Do lado de dentro, ele ainda podia ouvir o som abafado dos passos de Rafaela — lentos, pesados — se afastando dele, como se ela estivesse levando consigo o resto de oxigênio que ele tinha para respirar.
Ele atravessou a pequena varanda e saiu pelo portão em um estado de torpor, cada passada parecendo um quilômetro de distância. Quando entrou no carro, o silêncio do habitáculo foi o gatilho.
Ele socou o volante. Uma, duas, três vezes, até que a dor nos nós dos dedos superasse, por um milésimo de segundo, a dor no peito.
— Porra! — o grito saiu rouco, morrendo contra o para-brisa.
A raiva que o consumia não era de Rafaela; era dele. Uma fúria cega contra o moleque que ele fora, contra o Capitão arrogante que achava que a vida era um tabuleiro e que as pessoas eram peças. Ele se odiava por cada silêncio, por cada "amanhã eu conto". Socava o couro do carro querendo, no fundo, atingir a própria covardia que o impedira de enxergar a mulher incrível que estava na sua frente antes que aquela aposta idiota começasse a rodar.
Ele se debruçou sobre o volante, a testa encostada no couro frio. Tentou, por puro instinto de sobrevivência, traçar um plano. Sua mente começou a disparar: “Eu posso mandar flores amanhã... não, ela vai mandar eu enfiar as flores naquele lugar. Posso ligar para a Letícia... e aí, ela vai me odiar ainda mais por envolver a Letícia nisso. Posso esperar ela na faculdade...” Mas cada estratégia que surgia parecia um esquema tático falho para um jogo que já estava nos acréscimos e com o placar de goleada contra ele. Nada era suficiente. Nada apagava a dor que ele viu nos olhos dela.
Ele ligou o motor, o ronco do carro soando como um lamento, e partiu, deixando para trás a única pessoa que o fizera sentir que ele era mais do que apenas um número 10 nas costas de uma camisa.
⚽⚽⚽
Gabriel estava sentado à mesa da cozinha, os cotovelos apoiados e o olhar perdido no nada. Os nós dos dedos da mão direita estavam avermelhados e inchados, um lembrete pulsante dos socos que desferira contra o volante horas antes. Mas aquela dor física não era nada perto do vazio que sentia no peito.
A noite havia sido longa, interminável e o sono, um luxo que seu corpo recusava. Nem por um minuto conseguiu fechar os olhos.
As primeiras luzes da manhã entravam pela janela, tingindo a cozinha de um cinza pálido, quase triste. Tudo parecia carregado de uma melancolia surda, como se o próprio dia nascesse já cansado.
Na xícara à sua frente, o café esfriava intocado. Ele não tinha fome. Nem sede. Nem forças. Só aquela sensação persistente de que algo dentro dele havia se rompido e que, por mais que tentasse, não havia como voltar atrás.
Passou as mãos pelos cabelos, frustrado, como se o gesto pudesse aliviar o peso que carregava no peito.
Rafaela.
O nome dela ecoava em sua mente como uma lembrança viva, constante. A expressão nos olhos dela quando contou que já sabia de tudo era a pior coisa que ele já tinha visto. Era mais do que raiva. Era decepção.
Aquele olhar o perseguia.
Por mais que tentasse se justificar, nada apagava o fato de que ele mentira. Tinha escolhido a omissão. Tinha deixado que ela se entregasse a uma história que, no começo, nem era real.
E agora? Agora tudo estava desmoronando.
Levantou-se, começou a andar pela cozinha em passos lentos, arrastados. Como se o corpo não soubesse mais o que fazer com tanto arrependimento.
Pensou em ir atrás dela de novo. Bater na porta. Ficar lá até que ela o ouvisse. Mas algo dentro dele — talvez a própria vergonha — o impedia.
Ele já a machucara demais. Forçar a presença agora seria mais uma violência.
Encostou-se à bancada da cozinha e fechou os olhos. Tudo o que queria era voltar no tempo.
Voltar para aquele momento em que podia ter sido honesto, para quando o sorriso dela ainda era dele. Mas já era tarde demais.
Daniel entrou na cozinha bocejando, os olhos ainda semicerrados de sono. Caminhava distraído, esperando encontrar apenas o silêncio costumeiro da manhã. Mas parou no mesmo instante em que avistou Gabriel, encostado à bancada, o olhar completamente perdido.
— Caralho… — murmurou, a voz ainda rouca. — Tu tá com uma cara péssima. Brigou com a Rafaela de novo?
Gabriel não respondeu de imediato. Continuou imóvel, como se nem tivesse ouvido. Os cotovelos apoiados no balcão, as mãos entrelaçadas, o corpo inteiro tenso. Só depois de alguns segundos, ele piscou lentamente, despertando do torpor.
— Ela descobriu tudo sobre a aposta — disse, sem rodeios, a voz rouca de cansaço.
— Puta merda! — Daniel soltou, o sono indo embora num estalo. — O quê? Como?
— Ela ouviu a Brunna na cozinha da festa. Ouviu tudo, Dan. Cada detalhe daquela merda de aposta.
Daniel observou-o em silêncio, tentando decifrar o que havia por trás daquela expressão devastada.
— A Brunna? E como ela ficou sabendo disso?
— Lucas… — Gabriel respondeu o nome, saindo entre dentes.
— Putz! Que merda, mano. Mas a gente te avisou que isso ainda ia explodir na sua cara. E como ela reagiu?
Gabriel riu, mas o som foi seco, quase como um engasgo.
— Como se eu fosse um lixo que ela acabou de encontrar no meio da calçada. E o pior? Ela tá certa.
Daniel se aproximou com cautela, puxou uma cadeira e se sentou de frente para o amigo.
— Eu tentei explicar. — Gabriel desviou o olhar, apertando a mandíbula até sentir os dentes rangerem. — Disse que tudo mudou, que o que sinto por ela é real… mas você precisava ver o olhar dela. Foi como se eu tivesse quebrado alguma coisa dentro dela que não tem conserto.
— E você quebrou — disse uma voz vinda do corredor.
Era Diego. Ele entrou na cozinha devagar, com as mãos enfiadas nos bolsos e a cara de quem também não tinha dormido bem. Gabriel o encarou por alguns segundos, os olhos injetados de sangue e uma faísca de raiva pura cruzando seu rosto.
— Foi você quem propôs aquela merda, Diego — Gabriel disparou, a voz subindo um tom, perigosa. — Você e a sua ideia brilhante de transformar a vida de uma pessoa em um desafio.
Diego não recuou. Ele parou do outro lado da bancada, sustentando o olhar do amigo.
— E você quem topou — Diego rebateu, sem alterar o tom, embora houvesse um peso de arrependimento em suas palavras. — Ninguém botou uma arma na sua cabeça, Gabriel. Eu dei a ideia idiota, mas quem executou o plano por semanas foi você.
Gabriel apertou a borda da bancada até os nós dos dedos, já feridos, ficarem brancos. Por um segundo, Daniel achou que ele fosse saltar por cima do balcão, mas o capitão apenas soltou o ar com força, os ombros caindo sob o peso da verdade. O Diego tinha razão, e essa era a parte que mais doía.
— Vocês dois foram babacas — Daniel interveio, a voz calma, mas cortante. — Mas, sinceramente? O Gabriel se ferrou porque esqueceu que era um jogo. Ele se lascou porque se apaixonou de verdade.
Gabriel passou as mãos pelo rosto, exausto. O silêncio entre eles caiu como se até o tempo tivesse parado em respeito à dor que pairava no ar.
— E agora? — Diego perguntou, a voz agora mais baixa, quase pesarosa. — O que ela disse?
— Ela me perguntou por que eu não contei. Por que não fui homem enquanto ainda dava tempo? — Gabriel engoliu em seco, lembrando do toque de ácido no rosto. — E eu só consegui dizer que estava com medo de perdê-la.
— Mas agora perdeu de qualquer jeito — completou Diego, num sussurro contido.
— Eu nunca quis que fosse assim. — Gabriel olhou para a janela, onde a luz cinza da manhã começava a revelar a rotina do campus lá fora. — No começo, eu achava que ela era só… mais um troféu. Mas depois… ela me viu de um jeito que ninguém nunca viu. Ela amou o Gabriel, que não precisa de um uniforme, e eu estraguei tudo.
Diego coçou a nuca, desconfortável, e se apoiou na outra ponta da bancada.
— Então tenta consertar. Mostra que está arrependido. Que foi real mesmo…
— Como? Se ela me mandou ficar longe — Gabriel corrigiu, a voz embargada — E fez isso do jeito mais calmo possível… como se gritar não fosse suficiente para expressar tudo o que estava sentindo. Como se nem tivesse mais força pra isso.
Ele olhou para as próprias palmas das mãos, as mesmas que horas antes tentaram segurar o rosto dela. Ele ainda podia sentir a rejeição física dela, o modo como ela o afastou como se o toque dele fosse tóxico. A pele parecia formigar com a lembrança da repulsa dela.
— Eu menti. Por semanas. Beijei, abracei, disse que amava… e tudo isso com uma verdade podre escondida nas costas. — A voz falhava, entre o arrependimento e a culpa. — E agora eu não sei se tem volta.
Daniel respirou fundo, os cotovelos apoiados na mesa, o olhar firme no do amigo.
— Sabe o que eu acho? — disse, direto. — Que, se tem alguém que pode consertar essa merda, esse alguém é você. Mas não vai ser rápido. Nem fácil. Você quebrou a confiança dela, cara. E confiança, quando quebra, não se cola com palavras, e sim com atitudes. E tempo.
Gabriel abaixou a cabeça, os olhos fixos em algum ponto invisível no chão.
— Eu sei… — murmurou. — Só não sei se ela vai me dar esse tempo.
Os três permaneceram na cozinha, imersos naquele silêncio pesado, quando o som veio em coro. O celular de Diego vibrou no bolso, seguido quase instantaneamente pelo de Daniel sobre a mesa. No balcão, o aparelho de Gabriel, que ele havia esquecido ali, deu um salto curto, iluminando-se com uma sucessão frenética de notificações.
Diego puxou o celular e, em segundos, o pouco de cor que restava em seu rosto desapareceu.
— Ai, merda... — o sussurro escapou, carregado de pavor.
— O que foi? — Daniel quis saber, franzindo a testa, enquanto Gabriel continuava aéreo, os olhos fixos na xícara fria.
— Gabe... — Diego hesitou, a mão tremendo levemente. — Acho melhor você ver isso. Agora.
Ele estendeu o aparelho. Gabriel demorou a reagir, mas quando finalmente pegou o celular, a imagem no grupo do time — o grupo dos "Falcões" — o atingiu como uma entrada violenta em campo.
Brunna fizera o serviço completo. Ela não apenas contara a fofoca; ela passara a madrugada reunindo provas. Lá estavam os prints de conversas antigas, áudios tirados de contexto e até a foto de um comprovante de transferência do Diego para o Gabriel, distorcido como se fosse o pagamento pela 'conquista'. A legenda da postagem que já circulava pelo campus era ácida: "O Capitão e a Nerd: Até onde o camisa 10 vai para ganhar um jogo?"
Gabriel sentiu o estômago revirar. O ar da cozinha pareceu subitamente escasso.
— Ela… onde ela conseguiu isso? — murmurou Gabriel, a voz sumindo.
— E não tá só no grupo do time — Daniel completou agora encarando o próprio celular — Já caiu nos grupos da faculdade, Gabe. Estão marcando a Rafaela nos comentários.
Gabriel largou o celular sobre o mármore como se o aparelho estivesse em chamas. Se o olhar da Rafaela na noite anterior o tinha quebrado, a ideia de que agora ela seria humilhada publicamente diante de toda a universidade — por causa dele — era o golpe final.
— Ela vai ser o assunto do campus por semanas — Diego constatou, a voz sombria.
Gabriel não disse nada. Ele apenas se apoiou na bancada, fechando os olhos enquanto sentia o peso do mundo desabar sobre seus ombros. A vergonha que era privada agora era um espetáculo. E ele era o protagonista do show de horrores.
📚📚📚
Rafaela acordou antes do despertador tocar.
Na verdade, nem sabia se havia dormido. Passou a noite virando de um lado para o outro, tentando escapar das lembranças que insistiam em se repetir na mente como um disco arranhado. Cada palavra, cada gesto de Gabriel, agora parecia contaminado.
O gosto da traição era amargo e silencioso.
Ela se sentou na cama devagar, o rosto pálido sob a luz fraca da manhã. Os olhos estavam inchados, mas já não choravam. O corpo doía como se tivesse passado por uma tempestade e, de certo modo, tinha mesmo.
Levantou-se e ao passar pelo espelho, hesitou. Ela encarou a imagem por alguns segundos, imóvel. Quase não se reconheceu. Não era apenas o cansaço estampado no rosto; havia algo quebrado ali. Algo interno. E ela não sabia se um dia conseguiria colar de volta.
Na cozinha, pegou uma chaleira e colocou um pouco de água para esquentar, na intenção de preparar um café. A casa estava silenciosa. Por um segundo, quase desejou que ele estivesse ali. Que entrasse pela porta, dizendo que tudo foi um erro, que estava arrependido. Mas logo afastou o pensamento. Ela não queria promessas.
Ela queria verdade. E ele não soube oferecer isso.
Pegou o celular. O primeiro instinto foi procurar o nome de Letícia, mas o dedo parou no ar antes de tocar a tela. Lembrou-se do silêncio entre elas, das palavras não ditas sobre o Guilherme, e a percepção de que sua "pessoa" não estava mais a um clique de distância doeu de um jeito novo.
Ela estava sozinha. Não havia um porto seguro para onde correr. O café amargo era a única companhia que ela tinha permissão de ter agora.
Mas bastou a tela acender para o ar fugir de seus pulmões.
A imagem de fundo a atingiu como um golpe: ela e Gabriel, sorrindo, abraçados na rede da casa dos pais dela. O céu azul infinito atrás deles, os olhos dele voltados para ela com uma adoração que, agora, parecia um ensaio bem executado. A mentira estava ali, camuflada na fotografia que a irmã tirara com tanta empolgação, como se o amor fosse apenas um cenário para o jogo dele.
Rafaela pressionou o botão lateral com força, fazendo a tela apagar, mas a imagem continuou queimando em sua retina. Não era apenas uma foto. Era a prova de que ela havia sido ingênua o suficiente para permitir que um estranho entrasse não só na sua vida, mas também na sua casa e na sua história de família. Tudo isso baseado em um desafio de vestiário.
Sentou-se à mesa da cozinha, o celular virado para baixo. Ela não tinha para quem gritar que ele e o Diego — ou o Daniel, ou o time inteiro — a fizeram de idiota. As palavras ficavam presas na garganta, sufocando. "Eu sou uma piada de vestiário", pensou, e o fato de não ter a Letícia ali para dizer que ia matar o Gabriel com as próprias mãos tornava tudo muito mais cruel.
A chaleira começou a chiar no fogão, mas ela não se moveu. Ficou ali, encarando o nada, como se o tempo tivesse parado junto com ela.
Então, finalmente, pegou o celular novamente. Os dedos hesitaram por um instante antes de deslizar pela tela. Abriu a galeria. Rolou devagar pelas fotos, os olhos marejando mais uma vez. Cada imagem parecia contar uma mentira em que ela acreditou. Um rastro de memórias que agora doía demais lembrar.
Parou numa foto qualquer — nada demais, apenas uma paisagem que não dizia nada — e a definiu como nova proteção de tela. Era um gesto pequeno, quase insignificante, mas necessário. Um modo silencioso de apagar a presença dele, ao menos da superfície.
Assim que o novo fundo foi aplicado, uma enxurrada de notificações começou a descer pelo topo da tela. Grupos da faculdade, menções em redes sociais, mensagens de conhecidos que raramente falavam com ela. O celular vibrava sem parar contra a palma de sua mão, um zumbido insistente que parecia querer furar o silêncio daquela cozinha.
Rafaela franziu a testa por um segundo, o coração dando um impulso instintivo, mas logo desviou o olhar. Ela não tinha energia para o barulho do mundo lá fora. Achou que fosse apenas o burburinho comum. Com um movimento mecânico, ativou o modo "Não Perturbe".
Ela queria silêncio. Precisava que o mundo parasse, já que o dela tinha acabado de estagnar.
Depois foi até as mensagens. O nome dele aparecia logo no topo. A última conversa ainda ali, intacta. A última mensagem enviada por ele, na noite anterior, assim que percebeu que ela havia ido embora da festa.
Sem pensar muito, bloqueou o contato e depois apagou tudo.
Em seguida, abriu o contato dele e o excluiu também. Nome, número, foto. Como se fosse possível deletar a dor junto.
Mas, por mais que tentasse, não conseguia apagá-lo de onde mais importava.
Do lugar onde ele havia se instalado devagar, sem pedir licença, e feito morada.
Porque o que doía mais não era o que ele fez. Era tudo o que ele fingiu sentir e ela, ingenuamente, acreditou.
Ela pôs o celular de lado, com os dedos ainda tremendo levemente, e se levantou para desligar a chaleira antes que a água secasse. Preparou o café com mãos firmes, ainda que o coração estivesse aos pedaços.
Tomou um gole, sentindo o líquido queimar a garganta; estava amargo. Ela não adoçou. Aceitou o sabor áspero como se precisasse de algo real para despertar do torpor. A doçura, agora, parecia não combinar com nada do que sentia.
Ela não chorou, desde a noite anterior. Não porque doía menos, mas porque, no fundo, sabia que sobreviveria. Mesmo que, agora, isso parecesse impossível.
⚽⚽⚽
Gabriel já nem sabia mais há quanto tempo encarava o celular em suas mãos.
A tela acesa, o nome dela no topo da conversa. A última mensagem enviada mais cedo ainda estava lá: “Rafa, por favor, me perdoa.” Não havia sido visualizada. Nenhuma resposta.
As palavras pareciam inúteis, pequenas demais diante do que havia feito. Mas, ainda assim, precisava tentar. Precisava dizer que não era só culpa, era amor também. Que aquilo estava acabando com ele.
Finalmente, com os dedos trêmulos, escreveu:
“Eu sei que você provavelmente não quer ouvir nada de mim agora. Mas eu só queria dizer que cada palavra que eu te falei, depois daquele dia no parque, foi de verdade. Tudo foi. Eu te amo.”
Apertou enviar. O ícone de mensagem permaneceu estático, um tique solitário que nunca se tornaria dois. O vazio no topo da tela, onde antes brilhava a foto dela, confirmou o que ele mais temia. Ele não estava apenas no silêncio; ele tinha sido bloqueado.
— Não… — murmurou, a garganta apertando.
Entrou no Instagram. Buscou o nome dela. Nada. ‘X’. Nada.
Como se tivesse desaparecido, ou pior, como se ele tivesse desaparecido do mundo dela.
Gabriel deixou o celular cair no colo e passou as mãos no rosto, sentindo o desespero escorrer como suor frio pela nuca.
Ela o apagara de tudo. E aquilo doeu.
Ele andou até a janela do quarto. A rua lá fora seguia seu curso como se nada tivesse acontecido. Como se o mundo não tivesse desabado por dentro.
Encostou a testa no vidro gelado, fechando os olhos.
— Me deixa consertar, Rafa, por favor. Só… me deixa tentar.
Mas tudo que recebeu de volta foi o silêncio.
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