AMOR EM CAMPO

43 Capítulo 46: Trigonometria


Notas iniciais
Oi, amores. 🤍 O capítulo de hoje tem momentos leves, mas também toca em um tema mais delicado no final. Se você for mais sensível a assuntos envolvendo relacionamentos complicados, leia com calma, no seu tempo. Como sempre, leiam com carinho. Boa leitura. 💙

Os dias entre Gabriel e Rafaela ganharam outro ritmo depois da viagem.

Não era só vontade, era curiosidade. Descoberta. Aquela sensação elétrica de quem abre uma porta e descobre que o mundo do outro é mais vasto, quente e viciante do que imaginava.

Eles ainda iam às aulas. Estudavam. Cumpriam horários.

Mas parecia impossível passar muito tempo com as mãos longe um do outro.

Gabriel estava visivelmente empolgado. Não apenas pelo sexo, mas pela entrega dela, a forma como perguntava, aprendia e se permitia. Havia algo quase orgulhoso nele ao perceber que podia mostrar a ela como o toque podia ser intenso, divertido, livre.

E Rafaela, longe de qualquer timidez, absorvia tudo com entusiasmo, curiosa, presente, inteira.

Qualquer hora servia. Qualquer lugar bastava.

Já tinham explorado o carro de Gabriel em ruas discretas, a casa dela quando Letícia saía, o quarto dele em tardes que viravam noites sem aviso; a sala quase vazia do cinema durante a sessão de filmes independentes. Sempre com risos abafados, trocas rápidas de olhar, aquela urgência gostosa de quem ainda não sabe se cansar.

Foi nesse clima que Rafaela estava sentada na biblioteca da faculdade, tão mergulhada no silêncio, concentrada entre livros e anotações, que quase não percebeu alguém parar atrás dela.

Só percebeu quando a voz baixa roçou seu ouvido:

— Oi, amor.

Rafaela fechou o livro devagar e se virou, o sorriso mal cabendo no rosto ao encontrar Gabriel ali, mochila pendurada em um ombro, cabelo levemente bagunçado.

— Oi, Gabe — disse. — Achei que você estaria no treino.

Ele se inclinou e deu um beijo leve nos lábios dela.

— Ainda tenho meia hora — ele respondeu, puxando uma cadeira e sentando-se ao lado dela. — Lendo o quê?

Gabriel passou os olhos pela capa do livro sobre a mesa e franziu a testa, lendo em voz baixa:

— Dopamina: a molécula do desejo… — repetiu, erguendo uma sobrancelha. — Isso é matéria ou indireta?

Rafaela mordeu o lábio para segurar o riso.

— Leitura complementar da disciplina de neurobiologia — respondeu, fingindo seriedade. — Mas confesso que o título é bem sugestivo.

— Claro que é — Gabriel murmurou, inclinando-se um pouco mais. — Especialmente sabendo que minha namorada entende exatamente como isso funciona.

Ela empurrou o ombro dele de leve, mas o sorriso não saiu.

— Gabriel… — ela o repreendeu em um sussurro, apontando para as mesas ao redor. — Biblioteca.

— Eu sei, eu sei — ele disse, rindo sem som. — Prometo comportamento exemplar. Por… — olhou o relógio do celular — vinte e sete minutos.

— Vinte e sete?

— Contando com o tempo que vou passar tentando te convencer a me levar para o seu esconderijo secreto e me mostrar como a dopamina funciona na prática.

Rafaela balançou a cabeça, voltando o olhar para o livro, mas a perna dele encostou de leve na dela por baixo da mesa. Um contato mínimo. Suficiente.

— Você é um safado — cochichou.

— E você gosta — ele respondeu, sem hesitar.

Ela não negou. Apenas voltou a abrir o livro, sentindo aquele sorriso insistente puxar seus lábios enquanto pensava que, se continuasse assim, nem a biblioteca escaparia.

Não foi uma discussão longa.

Bastou Gabriel se aproximar um pouco mais, baixar a voz:

— Cinco minutos. Vai. Prometo que só preciso disso.

Rafaela fechou o livro devagar. Fingiu ponderar, pesar prós e contras, mas o brilho no olhar a traiu.

— Seu conceito de “cinco minutos” é questionável — murmurou, já guardando as coisas na mochila.

— Cientificamente comprovado — ele respondeu, levantando-se. — O tempo passa diferente quando a dopamina entra em ação.

Ela revirou os olhos, mas levantou junto.

Rafaela digitou a senha com dedos ágeis e empurrou a porta do arquivo, puxando-o pela camisa para a quietude do cômodo antes mesmo que a porta terminasse de fechar. O trinco estalou, selando o silêncio ao redor deles, interrompido apenas pelo zumbido da lâmpada incandescente, iluminando as prateleiras de metal repletas de livros.

— Então… — começou, roçando os lábios pelo pescoço dele, sentindo o pulsar acelerado da veia ali. — A dopamina é liberada em antecipação. No desejo. Na expectativa. Não no fim. — Suas mãos subiram pelo peito dele, parando nos botões da camisa.

Gabriel encostou as costas na porta, respirando fundo com o contato. Ele a puxou pela cintura, colando seus corpos, o volume entre suas pernas não deixando dúvidas sobre a veracidade da teoria dela.

— Interessante — respondeu, a voz rouca, quase um sussurro. — Quer dizer que o segredo é caprichar no começo, na antecipação… e não só no final? — Ele segurou o queixo dela, forçando-a a olhar nos seus olhos, um sorriso desafiador brincando nos lábios.

Rafaela riu baixo, um som abafado que ecoou levemente no espaço confinado.

— Quase isso — ela envolveu o pescoço dele com os braços, puxando-o para mais perto. — Mas fica tranquilo que vou te explicar bem direitinho.

E explicou.

Quando Gabriel finalmente saiu da sala, o relógio do celular marcava dezesseis minutos de atraso. O cheiro dela ainda estava nele, uma mistura de perfume doce e algo mais primal. Ele correu pelo campus com a camisa ainda amassada, o rosto quente, o coração acelerado por motivos que nada tinham a ver com preparo físico. Chegou ao campo ofegante, suado, atravessando a lateral, ainda ajeitando a chuteira, a mente ainda no arquivo, revivendo cada toque, cada suspiro, cada explicação "científica" de Rafaela.

O treino já estava rolando.

Assim que pisou no gramado, o treinador Moura parou o aquecimento.

Bateu palmas. Devagar. Irônico.

— Olha só quem finalmente resolveu nos brindar com sua ilustríssima presença.

Alguns jogadores seguraram o riso. Outros fingiram concentração.

Gabriel passou a mão pelos cabelos, ainda tentando recuperar o fôlego.

— Foi mal, professor. Me atrasei.

— Percebi — Moura respondeu, analisando o rosto corado, a camisa fora do padrão. — Vê se toma jeito, porra. Mais um atraso e é banco.

Diego, ao fundo, já o encarava com uma expressão divertida.

Daniel nem tentou disfarçar.

Gabriel caminhou até eles e vestiu a camisa de treino.

— O que houve? — Diego perguntou, começando a se alongar. — Dor de barriga?

Gabriel deu de ombros, um semblante satisfeito no rosto.

— Tipo isso.

Daniel estreitou os olhos.

— Sei…

Gabriel apenas arqueou levemente a sobrancelha.

Foi o suficiente.

Daniel soltou uma gargalhada curta e deu um tapa no ombro dele.

— Caralho… a Rafaela tá acabando com a sua raça, hein.

Diego apontou para ele, rindo.

— Se continuar assim, daqui a pouco vai precisar mesmo de tadala, irmão.

Gabriel riu, balançando a cabeça.

— Vocês estão é com inveja.

— Inveja de quê? — Diego resmungou. — De passar as noites trancado no quarto com uma garota que provavelmente só fala sobre trigonometria ou algo do tipo?

Gabriel arqueou uma sobrancelha e deu um tapa no ombro dele.

— Bom, eu não lembro nada sobre trigonometria… Mas lembro de alguns ângulos bem interessantes.

Os três caíram na gargalhada. Diego pegou a garrafa d’água e jogou na direção de Gabriel, que desviou no último segundo e correu para o campo.

O treinador assobiou alto.

— Chega de fofoca, moças! Quero ver se estão com essa energia toda na hora de correr!

Os jogadores rapidamente se alinharam.

— Duarte, já que chegou atrasado, você puxa a corrida!

Antes de começarem a corrida, Diego cochichou para Gabriel:

— Se suas pernas falharem hoje, já sabemos o motivo.

Gabriel apenas curvou os lábios, sacudindo a cabeça, preparando-se para o treino. Mas, no fundo, ele sabia que os caras estavam certos: Rafaela estava acabando com ele. De todas as melhores formas.

📚📚📚

Rafaela estava sentada à mesa da cozinha, o notebook aberto à sua frente em uma chamada de vídeo com a irmã. Na tela, ela aparecia sentada a uma mesa de madeira ao ar livre, a pele de tom quente igual ao de Rafaela contrastando com a camiseta clara de listras discretas. Os cabelos longos estavam presos em tranças finas, caindo de lado com naturalidade, emoldurando o rosto delicado de traços suaves e um olhar atento demais para a idade. Os olhos escuros e expressivos mediam Rafaela com aquela curiosidade silenciosa, enquanto a caneta girava entre seus dedos — o prelúdio de uma pergunta inevitável.

— Então… — Micaela começou, inclinando-se um pouco mais para a câmera. — Você vem mesmo para cá no feriadão?

Rafaela sorriu de canto, mexendo distraidamente a colher na xícara de café.

— Eu disse que vou tentar. Ainda preciso ver como vai ficar no trabalho… por isso pedi para você não comentar nada com a mãe e com o pai.

— E o Gabriel vem com você? — ela perguntou, sem a menor cerimônia.

Rafaela riu, balançando a cabeça.

— Não.

— Por quê? — Micaela cruzou os braços. — Estamos doidos para conhecê-lo. Principalmente o papai. Acho que já até preparou uma lista de perguntas para fazer para o garoto.

Rafaela suspirou, apoiando o cotovelo na mesa.

— E esse é um dos motivos para eu não querer que ele vá — admitiu. — O papai ainda tá surtando?

— Tá… — a irmã fez um gesto vago com a mão, arregalando os olhos logo em seguida. — Mas, assim, não julgo. Eu também dei uma surtadinha quando você me contou que tava namorando aquele gato.

Rafaela arqueou a sobrancelha.

— Micaela…

— Sinceramente, irmã — ela continuou, impassível —, eu sempre achei que você seria do tipo inteligente solteirona, que mora num apartamento enorme, cheio de livros… e gatos. Muitos gatos.

Rafaela riu, levando a mão ao rosto.

— Obrigada pelo apoio emocional.

— Disponha — Micaela respondeu, com uma expressão convencida. — Mas confessa: nem você esperava por isso, né?

Rafaela ficou em silêncio por alguns segundos. Girou a xícara entre as mãos, observando o café escuro como se ele pudesse responder por ela.

— Não — disse, por fim, com um sorriso pequeno. — Eu não esperava.

Do outro lado da tela, Micaela sorriu. Não aquele sorriso provocador de antes, mas um mais suave, quase orgulhoso.

— Você tá apaixonada.

Rafaela fechou os olhos por um instante, como se dizer aquilo em voz alta tornasse tudo mais real.

— Sim — admitiu.

Rafaela abriu os olhos e encarou a tela.

— Sabia — Micaela apoiou o queixo na mão. — Você fala dele diferente. Fica mais leve. Ri mais fácil.

Rafaela sorriu, quase sem perceber.

— Ele me faz bem.

— Então pronto — a irmã concluiu, decidida. — Traz ele junto. O resto vocês resolvem. Inclusive o papai surtado de ciúmes.

Rafaela riu de verdade dessa vez.

— Desde quando você ficou tão perspicaz?

— Sempre fui — Micaela corrigiu. — Agora, deixa eu te perguntar uma coisa importante.

— Lá vem.

Micaela se aproximou ainda mais da câmera, os olhos brilhando.

— Ele trata você bem?

Rafaela não precisou nem pensar.

— Trata. Muito melhor do que achei que alguém pudesse tratar.

— Te respeita?

— Sempre.

— Te faz rir?

— Muito.

Micaela assentiu, satisfeita.

— Então tá aprovado. Oficialmente. Pelo conselho das irmãs mais novas.

— Que honra — Rafaela brincou.

— E, quando você vier para cá… — Micaela sorriu de lado — quero ouvir tudo. Ou quase tudo. Porque ainda sou menor de idade.

Rafaela arregalou os olhos.

— MICAELA!

A gargalhada da irmã ecoou pela chamada.

— Brincadeira! — disse, ainda rindo. — Ou não.

Elas conversaram mais um pouco, entre provocações e promessas vagas, até a chamada se encerrar. Quando a tela ficou preta, Rafaela abaixou a tela do notebook com um movimento lento, mas ainda ficou alguns segundos sentada ali, em silêncio.

Até ouvir o som conhecido de passos pelo corredor e uma voz baixa chamando seu nome:

— Rafa?

Ela virou o rosto instintivamente.

— Oi, Lelê! — respondeu, já sorrindo.

Letícia entrou na cozinha, largando a bolsa sobre a cadeira e descalçando o tênis com um chute distraído.

— Oi, sumida — disse, sem rodeios. — Pensei que tinha se mudado para a casa do Gabriel e esquecido de me contar.

Rafaela apoiou as mãos na mesa e arqueou uma sobrancelha.

— Não. Eu ainda moro aqui.

— Ah, ótimo — Letícia rebateu, abrindo a geladeira e pegando água. — Então posso retirar o anúncio do quarto das redes sociais.

Rafaela riu.

— Não seja dramática.

Letícia fechou a geladeira e se virou para ela.

— Tá. Talvez eu esteja exagerando só um pouquinho — apoiou o quadril no balcão. — Mas senti sua falta. Principalmente porque tive que comer a minha própria comida.

Ela torceu o nariz, teatral.

— Então estava sentindo falta da minha comida e não de mim, interesseira.

Rafaela rebateu, sustentando um olhar de falso desgosto que não durou dois segundos.

— Antes que eu esqueça — Rafaela interrompeu o próprio riso —, a Mica mandou um abraço. Disse que está com saudades da única pessoa que entende os dramas dela.

O sorriso de Letícia se alargou, perdendo a pose teatral de antes, enquanto jogava o cabelo para trás.

— Aquela garota é um acontecimento. Saudades daquele furacãozinho. Mas me conta… — continuou, agora mais curiosa. — Como andam as coisas? A gente só se esbarra nos corredores da faculdade ultimamente. Nem sentamos para você me contar da viagem... Como foi? Desembucha.

Rafaela hesitou por um segundo. Não por vergonha, mas por escolher as palavras certas.

— Foi… avassaladora.

Letícia abriu um sorriso enorme, quase infantil.

— AI, MEU DEUS. — largou o copo na pia. — Vocês…?

Rafaela respirou fundo.

— Sim.

Letícia soltou um gritinho abafado, levando as mãos à boca.

— Rafa! — deu dois pulinhos no lugar. — Eu sabia! Quero detalhes. Foi bom? Como você se sentiu? Ele foi carinhoso?

Rafaela sorriu, sentindo o rosto esquentar.

— Foi muito melhor do que imaginei — confessou. — Ele foi perfeito…

Letícia se jogou na cadeira, abanando o rosto.

— Fico feliz em saber que, apesar de ser um idiota às vezes, o Gabriel soube te tratar direito na sua primeira vez.

— Sim. — Rafaela assentiu. — Eu não me senti pressionada em nenhum momento, sabe? Ele respeitou cada segundo, cada limite. Eu não sabia que podia ser tão…

— Safada? — Letícia completou, com um sorriso travesso.

Rafaela sacudiu a cabeça, rindo.

— Eu ia dizer desejada. — fez uma pausa, mordendo o lábio antes de admitir: — Mas isso também serve.

— Ah, essa parte era óbvia! — Letícia gargalhou.

Rafaela revirou os olhos, mas não conseguiu conter o sorriso.

— Eu não sei o que aconteceu comigo, Lelê… — a voz saiu mais baixa agora, quase como uma confissão. — Senti e fiz coisas que, só de lembrar…

Ela passou os dedos pelos cabelos, tentando organizar pensamentos que ainda vinham em ondas. O corpo parecia guardar vestígios daquilo tudo, como se a memória estivesse impressa na pele.

Letícia se inclinou para frente, apoiando o queixo nas mãos.

— E como você se sente agora?

Rafaela pensou por um instante.

— Depois disso, meio que tudo ficou diferente. A gente não consegue ficar muito tempo longe um do outro. É… intenso. Mas é bom. Muito bom.

Letícia sorriu, sincera.

— Dá para perceber. Você tá com aquela cara de quem anda bem servida. A pele tá ótima, inclusive. — arqueou a sobrancelha. — Sério… eu amo que você tenha alguém para viver isso.

Letícia se levantou da cadeira, foi até a pia e começou a lavar o copo.

— E você? — Rafaela perguntou com cuidado. — Como tá… você?

Letícia deu de ombros, ainda de costas.

— Normal. Trabalho, faculdade, casa, Guilherme reclamando de alguma coisa. A vida acontecendo.

Ela esticou o braço para alcançar o pano de prato.

Rafaela riu, mas foi nesse momento que algo desviou sua atenção.

O braço de Letícia.

Um roxo amarelado, ainda recente, marcava a parte interna, perto do cotovelo.

O sorriso de Rafaela murchou. Seus olhos travaram na mancha amarela que maculava a pele clara da amiga, um borrão de realidade que atropelava tudo o que acabavam de conversar.

— Lelê… — ela falou baixo. — O que é isso no seu braço?

Letícia seguiu o olhar dela e, num reflexo rápido demais, puxou a manga da blusa.

— Isso? Nada — deu de ombros. — Devo ter batido em algum lugar.

Rafaela se levantou.

— Não parece batida.

— Rafa, sério…

— São dedos, Letícia — Rafaela interrompeu, a voz firme agora. — Parece que alguém apertou seu braço com força.

O ar ficou pesado.

Letícia desviou o olhar.

— Você tá viajando.

— Não tô — Rafaela se aproximou. — Eu vi o Guilherme segurando seu braço no estacionamento. Do mesmo jeito.

Letícia respirou fundo, nervosa.

— Agora tá exagerando.

— Ele te machucou? — Rafaela perguntou, direto. — foi ele que fez isso com você?

Letícia riu, mas o som saiu duro.

— Olha só quem virou especialista em relacionamento saudável agora. — cruzou os braços. — Só porque você tá vivendo esse conto de fadas com o craque do time, acha que pode julgar a minha vida?

Rafaela sentiu o golpe, mas não recuou.

— Isso não é julgamento.

— É sim — Letícia respondeu, a voz subindo. — Você sempre achou que eu fazia escolhas erradas. Sempre.

— Eu nunca disse isso.

— Não precisa dizer — Letícia rebateu, os olhos marejados. — Tá escrito na sua cara agora. Toda certinha, toda resolvida… como se você fosse melhor.

Rafaela sentiu o golpe. Foi uma fisgada no centro do peito, o tipo de dor que só quem nos conhece bem sabe causar. Mas ela não recuou; apenas firmou os pés no chão da cozinha, como se precisasse de um ponto de apoio para não desabar diante daquela nova versão agressiva da amiga.

— Eu só tô preocupada com você.

— Então para de achar que sabe tudo! — Letícia explodiu. — Você acha que só porque tá transando agora virou adulta? Que entende como o mundo funciona?

O silêncio que se seguiu foi carregado pelo peso das palavras de Letícia. Rafaela sentiu o rosto arder, não de vergonha, mas pelo golpe seco. Era como se a intimidade que tinha acabado de partilhar tivesse sido recolhida, amassada e jogada de volta contra ela. Ela respirou fundo, sentindo o ar arranhar a garganta, lutando para não deixar a mágoa transbordar como fúria.

— Eu não quero ser melhor que você — disse, a voz baixa, mas perigosamente estável. — Eu só não quero ver você se machucando e fingindo que não tá acontecendo.

Letícia passou a mão pelo rosto, evitando olhar para ela.

— Você não entende — murmurou.

— Então me ajuda a entender — Rafaela respondeu. — Mas não mente para mim.

Letícia ficou em silêncio.

Depois virou o rosto, piscando rápido.

— Não foi nada de mais — disse por fim. — Ele só se exaltou. Depois pediu desculpa.

Rafaela sentiu algo frio percorrer a espinha.

— Isso não é normal, Lelê.

— Chega! — Letícia explodiu. — Chega de me tratar como se eu fosse fraca!

— Letícia…

— Eu tô cansada — disse, a voz vazia. — Preciso ficar um pouco sozinha.

Rafaela assentiu devagar.

— Tá — respondeu. — Se você quiser conversar depois…

Letícia deu um meio sorriso que não chegou aos olhos.

— Eu sei.

Ela pegou a bolsa na cadeira, virou-se e caminhou pelo corredor sem pressa, como se cada passo fosse pesado demais. Parou na porta do quarto, hesitou por um segundo, como se quisesse dizer algo.

Mas não disse.

A porta se fechou com um clique baixo.

Rafaela ficou ali, parada na cozinha, olhando para o espaço vazio onde a amiga estava minutos antes. O café na xícara já está frio. A conversa, interrompida no meio.

A felicidade de instantes atrás parecia deslocada agora. Como uma roupa bonita usada no lugar errado.

Ela sentiu um nó se formar no peito.

Porque, no fundo, sabia: não venceu nenhuma discussão. Não salvou ninguém. Só acendeu uma luz e, às vezes, isso assusta mais do que o escuro.

Rafaela respirou fundo, recolheu a xícara, lavou em silêncio e apagou a luz da cozinha antes de seguir para o próprio quarto.

Do outro lado do corredor, Letícia estava sentada na cama, abraçando os joelhos, encarando a parede.

E, dessa vez, por algum motivo, não conseguia se convencer de que tudo ficaria bem.


Notas finais
Esse capítulo começou leve… mas terminou diferente. Nem todo mundo percebe quando algo está errado dentro de um relacionamento, e às vezes quem está de fora enxerga antes de quem está vivendo. Eu queria muito trabalhar essa parte da história com cuidado, porque a vida da Rafaela está mudando… mas a da Letícia também. E agora eu quero saber de vocês: 👉 Vocês acham que a Rafaela fez certo em insistir ou deveria ter deixado a Letícia em paz? 👉 E vocês acham que o Guilherme é só explosivo… ou tem algo mais sério aí? 👉 E sobre o feriadão: vocês acham que a Rafa deveria convidar o Gabe ou ainda é muito cedo? Se o capítulo mexeu com você de alguma forma, comenta aqui embaixo 💙 Isso me ajuda muito a saber se a história está chegando em vocês do jeito que eu imaginei. Sexta a gente continua… e as coisas vão ficar mais intensas daqui pra frente.