AMOR EM CAMPO
30 Capítulo 29: Lobo
Notas iniciais
A quarta-feira amanheceu nublada, o tipo de dia que pedia silêncio. A luz cinza entrava pela janela da cozinha, desenhando sombras suaves sobre o azulejo branco do apartamento.
Rafaela usava uma calça legging e a camiseta de estampa desbotada com a frase: "Science Doesn't Care About Your Feelings". A mesma que vestira para provocar Gabriel quando ainda achava que conseguiria levar adiante seu plano de vingança. O humor nerd e autocrítico agora parecia zombar dela.
A tela do celular mostrava a última conversa com o namorado: as mensagens enviadas na noite anterior, todas com os dois risquinhos azuis confirmados, mas sem nenhuma resposta.
Desde que contara a ele sobre os comentários maldosos que ouvira no bloco, algo entre os dois parecia fora de lugar. Pequeno, quase invisível, mas suficiente para deixá-la em alerta constante.
Será que ele se cansou?
Pensou, tomando um gole do café morno.
Lá fora, a garoa batia no vidro num ritmo calmo quando Letícia apareceu na porta da cozinha, o cabelo preso num rabo de cavalo apressado.
— Acordou cedo — falou a amiga, servindo-se de uma xícara. — Pensei que não tivesse aula hoje.
— Não consegui dormir direito.
Letícia apoiou o corpo no balcão da pia, franzindo o cenho.
— O bonito ainda não deu sinal de vida?
Rafaela negou com a cabeça.
— Estou em cima da hora, mas no almoço te ligo — Letícia tomou o café num gole rápido. — E nós duas combinamos como fazer o Duarte pagar por esse vácuo. Tenta respirar, Rafa. A chuva às vezes ajuda a colocar as coisas no lugar.
Uma hora após a porta da frente se fechar, passos firmes subiram a escada do prédio. Duas batidas pesadas e urgentes soaram contra a madeira.
Ao abrir, Rafaela deu de cara com Gabriel. Ele usava um moletom escuro, exibia olheiras profundas e trazia o maxilar tão tenso que parecia esculpido em pedra. Os fios do cabelo estavam úmidos pela garoa.
— Gabriel?
Antes que ela pudesse recuar, ele deu um passo para dentro, empurrou a porta com o calcanhar e a puxou pela cintura. Envolveu-a num abraço desesperado, enterrando o rosto na curvatura do pescoço dela. Rafaela sentiu a respiração quente dele contra sua pele.
— Ei... — disse baixinho, afastando-se o suficiente para encará-lo. — O que houve? Tá tudo bem?
Gabriel segurou o rosto dela com as duas mãos, os polegares traçando a linha das maçãs do rosto num gesto trêmulo.
— Não. Não tá nada bem, nerdzinha — confessou. Ele pegou a mão dela e a conduziu até o sofá, sentando-se de frente para ela. — Senta aqui. Eu preciso te falar uma coisa. E preciso que você me escute até o final.
Rafaela assentiu devagar, a postura ereta.
— É sobre os boatos do campus? Eu já disse que não ligo...
— Não é sobre eles, Rafa. É sobre mim — cortou, engolindo em seco. — É sobre como as coisas começaram no início do período. No dia em que fui falar com você pela primeira vez, eu fui um completo estúpido. Eu estava com os caras depois do treino; eles começaram a falar umas merdas... E aí a gente fez uma...
No segundo em que a palavra aposta se desenhava nos lábios dele, o celular de Rafaela sobre a mesa de centro começou a tocar num volume estridente.
— Espera, Gabriel, deixa só eu... — ela esticou o braço.
— Não atende, Rafa. Deixa tocar — ele suplicou, fechando os dedos sobre os dela. — Por favor. O que eu tenho pra te falar agora é importante.
Mas os olhos de Rafaela travaram no visor. Era a mãe.
— Desculpa, preciso atender. Oi, mãe? Aconteceu alguma coisa?
— Rafaela! Graças a Deus! — a voz materna vinha acompanhada pelo eco típico de um pronto-socorro. — Eu tô no hospital aqui em Bacaxá, que sufoco!
O sangue de Rafaela gelou. Ela levantou-se num salto, soltando a mão de Gabriel.
— Hospital?! Mãe, o que aconteceu?
— A sua irmã! A Micaela cismou que precisava do "ângulo perfeito" para fotografar o treino de vôlei. Subiu numa árvore no pátio do colégio, o galho cedeu e ela despencou! Quebrou o braço! Tô esperando o ortopedista, mas ela não para de chorar!
Rafaela soltou uma lufada de ar, dividida entre o alívio e a irritação.
— Meu Deus, Micaela... Quer que eu pegue um ônibus para Saquarema agora?
— Não precisa, filha. Você tem suas aulas e o trabalho. Daqui a pouco seu pai chega com os documentos. Eu só precisava desabafar com alguém sensato.
Quando encerrou a chamada, minutos depois, a tensão que dominava a sala havia se dissipado por completo.
— O que aconteceu? — Gabriel perguntou, de pé ao lado dela.
— Minha irmã caiu de uma árvore tentando bancar a fotógrafa e quebrou o braço — Rafaela desabou no sofá, massageando as têmporas. — Odeio receber essas notícias morando longe. Dá uma sensação horrível de impotência.
Gabriel permaneceu estático por um segundo, a confissão entalada na garganta. Ao notar o abatimento no rosto dela, aproximou-se e a acolheu em um abraço protetor.
— Ela vai ficar ótima. Osso de adolescente cola em três semanas — murmurou contra os cabelos dela. — Quer que eu fique aqui até sua mãe dar notícias?
— Quero. Fica aqui comigo.
— Não vou a lugar nenhum, nerdzinha.
Ela ergueu o queixo, fitando-o:
— Você... disse que precisava me contar algo sério antes de o telefone tocar.
Gabriel pigarreou para disfarçar o nó que insistia em apertar sua garganta. Forçou os músculos da face a relaxarem e compôs a expressão mais tranquila que conseguiu encenar, deslizando o polegar pelo braço dela.
— É que... eu queria te pedir desculpas direito — improvisou, baixando o tom para camuflar a hesitação. — Por ontem. Por ter sumido depois do treino e deixado você sem resposta. Eu fiquei com a cabeça cheia por causa das gracinhas que você ouviu e acabei descontando a raiva me isolando.
Rafaela piscou, absorvendo a justificativa. Um suspiro longo desfez a rigidez de seus ombros, e o corpo dela cedeu de vez contra o peito dele.
— Já disse que você não precisa carregar essa culpa pelo que os outros falam.
— Eu sei — murmurou, escondendo o rosto na curva do pescoço dela para não ter que sustentar o contato visual. — Mas não quero ser o cara que faz você duvidar de nós dois. Nunca.
Ela enlaçou a cintura dele com força, aceitando a mentira como um ato de cuidado.
Gabriel fechou os olhos, apertando o abraço. Tinha ganhado mais um dia. Empurrando o desastre para a próxima esquina. Mas a certeza permaneceu gravada em seu peito: não tinha desarmado a bomba, apenas esticado o pavio.
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Quatro semanas se passaram num sopro. O decreto de silêncio no time funcionou e os comentários do pátio logo foram engolidos por uma fofoca muito mais interessante sobre o caso de um professor de direito com um aluno. A poeira havia baixado por completo.
O moletom cinza dos Falcões, que Gabriel esquecera no encosto da cadeira da cozinha, virou o uniforme oficial de Rafaela para as noites frias de estudo.
Com a semana de provas no auge, entregas de relatórios e a equipe apertando o ritmo para a reta final do campeonato, Gabriel aprendeu a decifrar o nível de exaustão dela pelo cabelo: se o rabo de cavalo estivesse alto e despenteado demais, a Biologia estava vencendo o confronto. Nesses dias, ele aparecia por volta das nove e meia da noite, trazendo duas marmitas feitas por ele mesmo, sentando-se ao lado dela para estudar em silêncio enquanto ela rabiscava fichamentos.
— Você vai acabar desmaiando em cima desse teclado — Gabriel comentou, pousando o marcador de texto ao vê-la bocejar longamente naquela noite de sexta-feira.
Rafaela esticou as costas na cadeira de vime:
— Falta pouco. Só preciso cruzar a análise de dados das plantas de Saquarema. — Ela sorriu. — Falando nisso, minha mãe mandou mensagem mais cedo. A Micaela tirou o gesso hoje.
— A própria Micaela fez questão de me atualizar — ele levantou-se, parando atrás da cadeira para massagear os ombros contraídos da namorada. — Ela me achou no Instagram. Ela sempre digita tudo em capslock ou ela só ficou eufórica por estar falando comigo?
— Euforia é apelido. — Rafaela tombou a cabeça para trás, fechando os olhos sob a massagem precisa dele. — Você anda me mimando demais, Duarte. Cadê aquele atacante insuportável que jogou meu trabalho na lama?
As mãos de Gabriel paralisaram por uma fração de segundo antes de ele retomar o ritmo, depositando um beijo na testa dela.
— Aquele cara percebeu rápido que perderia de goleada pra você.
Rafaela girou na cadeira, encarando-o com um brilho decidido no olhar:
— Escuta, a gente quase não tem saído da rota faculdade-apartamento. Que tal eu passar na sua casa amanhã, depois do grupo de estudos, pra gente fazer alguma coisa juntos?
O estômago de Gabriel deu um puxão brusco.
— Na minha casa? — repetiu, ajeitando a postura com um riso tenso. — A ideia é ótima, gata. Mas você faz ideia do que é um apartamento em que só moram homens? O Diego larga meiões usados no tapete; a pia da cozinha parece área de quarentena biológica... Não quero te enfiar naquele covil.
Rafaela negou com a cabeça, divertida:
— Gabriel, eu passo metade da semana manuseando fungos e amostras de solo contaminado. Garanto que a bagunça de vocês não vai me assustar. Além disso, a gente só fica aqui. Quero conhecer seu espaço além do terraço das festas. Prometo que não vou julgar a louça suja na pia.
Ele engoliu a seco. Recuar mais seria assinar um atestado de negação.
— Tá bom, você venceu — cedeu, selando o acordo com um beijo curto. — Vou mandar um aviso de emergência no grupo exigindo um mutirão de limpeza. Que horas você sai do grupo de estudos?
— O grupo termina às sete. Chego lá pelas sete e meia.
— Fechado. Eu preparo aquele strogonofe que você repetiu três vezes.
Rafaela envolveu o pescoço dele num abraço apertado. Gabriel descansou o queixo no ombro dela, o olhar cravado na escuridão da janela. Ele tinha exatas vinte e quatro horas para garantir que os amigos não deixassem escapar nenhum detalhe daquele maldito início de semestre.
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O grupo de estudos havia terminado meia hora mais cedo. Dentro do Uber, Rafaela observava a fachada do condomínio de Daniel. Durante o dia, o prédio parecia ainda maior. Gabriel já havia sua entrada liberada.
Quando ela se aproximou da entrada, a porta se abriu antes mesmo que pudesse tocar a campainha. Diego surgiu apressado, quase atropelando-a.
— Ah… oi, nerd! — disse ele, recuando meio passo num susto. — O Gabriel tá lá em cima. Segunda porta à direita. Tchau!
E atravessou o corredor num pique de corrida. Rafaela piscou, confusa, vendo-o desaparecer pelo elevador como se estivesse fugindo da Polícia Federal.
Ao entrar, esperava encontrar um cenário de guerra, mas deparou-se apenas com o caos previsível de três universitários: algumas roupas largadas, latas sobre a mesa e uma série pausada na TV.
Rafaela subiu as escadas devagar. A porta do quarto de Gabriel estava entreaberta. Bateu de leve, mas não obteve resposta. Ao empurrá-la, viu o espaço vazio — até que a porta do banheiro se abriu e Gabriel surgiu vestindo apenas uma toalha branca na cintura.
Rafaela congelou. Já o vira sem camisa depois dos jogos e nos treinos, mas aquilo era outro nível. O olhar dela desceu sem autorização: o peitoral largo, o abdômen desenhado pelas gotas de água e a tatuagem escura de um lobo desenhada na lateral da costela.
Gabriel caminhou até o guarda-roupa e só então percebeu a presença dela parada no batente, parecendo uma estátua. Um sorriso genuíno surgiu em seus lábios na mesma hora.
— Oi, gata! — disse ele, aproximando-se com naturalidade e selando os lábios dela num beijo rápido. — Caramba… nem ouvi você entrar.
Rafaela piscou, tentando lembrar como se formulava uma frase na língua portuguesa. O calor da pele dele e o cheiro de banho tomado a menos de um metro de distância não estavam ajudando em nada.
— O g-grupo de estudos… hm… terminou mais cedo — ela pigarreou, forçando os olhos a subirem para o rosto dele. — O Diego quase me atropelou na porta. Ele sempre corre daquele jeito?
Gabriel soltou uma risada rouca, passando a mão pelos cabelos úmidos.
— Ele está fugindo do Daniel, certeza. Aposto que prometeu ajudar na limpeza e sumiu na primeira oportunidade.
— E você? Não vai ajudar? — Rafaela apoiou o ombro no batente, cruzando os braços para parecer casual.
— Eu já preparo três refeições por dia para aqueles idiotas. Nem fodendo que eu ainda vou limpar o banheiro deles — respondeu, divertido, abrindo a gaveta e puxando uma cueca boxer.
O coração de Rafaela errou uma batida ao perceber o movimento dele para se trocar ali mesmo.
— Vou te esperar lá embaixo! — a frase saiu num disparo só. Ela se virou tão rápido em direção ao corredor que quase perdeu o equilíbrio.
Gabriel franziu o cenho, segurando o riso.
— Não entendi nada do que você falou, Rafa. Está tudo bem? — perguntou, dando um passo à frente.
Rafaela parou, mas os olhos a traíram. Antes que pudesse evitar, seu olhar desceu novamente pela tatuagem do lobo, acompanhando a água que deslizava por sua pele. Riu, nervosa.
— Eu disse… que vou esperar você se vestir lá embaixo.
Gabriel sustentou o olhar por um segundo e finalmente entendeu. Estava tão acostumado à rotina de vestiário e morar com caras que não imaginou que ela ficaria constrangida. Aos poucos, percebeu que Rafaela não jogava no mesmo ritmo das garotas com quem ele se relacionava no passado.
— Faz o seguinte: me dá dois minutos — sugeriu ele, apontando para o armário. — Vou colocar uma roupa e já viro um cidadão exemplar. Pode ser?
Rafaela assentiu e se sentou na beirada da cama organizada. O quarto tinha a cara dele: chuteiras num canto, medalhas penduradas e um bloco de notas com jogadas na mesa de cabeceira. Mas o que chamou sua atenção foi um livro denso ao lado do abajur.
Folheou-o distraída, parando num trecho sublinhado a lápis: "A mente cede antes do corpo".
— Faz sentido — murmurou com um sorriso miúdo.
— Estudando? — Gabriel surgiu do banheiro, já de bermuda de moletom cinza.
— Só passando o tempo.
Ele sentou-se ao lado dela na cama. Perto demais.
— Vai continuar me olhando assim ou vai dizer alguma coisa?
— Eu estava… olhando a tatuagem.
— Jura? — ele provocou.
— Sim. Fez há muito tempo? Tem significado?
— Fiz com dezessete — disse ele, o tom ficando mais suave. Passou o polegar por cima da tinta escura na costela. — Sempre gostei deles. São fortes, mas não vivem sozinhos. Escolhem a própria alcateia.
— Bonito — disse ela, num sussurro.
— Eu?
— O significado — respondeu, firme.
Ele sorriu e se inclinou, lentamente. O ar pareceu encolher entre eles.
— Sabe, Rafaela… — ele disse, colocando uma mecha do cabelo dela atrás da orelha. — Os lobos escolhem com quem querem estar. E você… não parece ser alguém de quem eu queira ficar longe.
Gabriel segurou o rosto dela, e o perfume de banho tomado a envolveu por completo. O corpo de Rafaela reagiu antes da mente.
— Gabriel... — começou, num fio de voz.
— O quê? — ele perguntou, o tom rouco. — Fala.
— Isso é uma péssima ideia — sussurrou ela.
— Eu sei. Então me manda parar.
Ela não mandou. Pelo contrário: diminuiu a pouca distância entre eles, enfiando os dedos nos fios úmidos da nuca dele e puxando-o para um beijo quente, urgente. Gabriel correspondeu no mesmo instante, segurando a cintura dela enquanto aprofundava o toque.
Rafaela o empurrou de leve até que ele cedesse contra o colchão. Subiu sobre ele, os lábios abandonando a boca dele para explorar a linha do pescoço e descer pelo peitoral.
Havia urgência e uma curiosidade nova naquele gesto.
Senti-lo arfar sob seus toques fazia seu próprio coração disparar. Parte dela só queria afundar de vez naquele desejo e...
— Rafa?
O cenário inteiro se reorganizou num choque brusco. Gabriel estava em pé no meio do quarto, já usando uma camiseta cinza, observando-a com uma expressão confusa. Ela continuava sentada na beirada da cama, completamente imóvel.
Ele já tinha chamado seu nome duas vezes.
Rafaela piscou rápido, o rosto queimando ao expulsar a fantasia da cabeça.
— O-oi! — respondeu. — O que você disse?
— Eu disse que é melhor descermos — ele repetiu, alheio ao devaneio dela, estendendo a mão. — Hoje você vai comer o melhor strogonofe da sua vida.
A cozinha era espaçosa. Gabriel conectou o celular a uma caixinha de som, deixando uma música suave tocar enquanto separava os ingredientes. Rafaela assumiu a tarefa de picar os tomates.
— Você estuda, joga, cozinha e mantém o quarto arrumado... — comentou ela. — Estou achando que você é um androide programado para me impressionar, Duarte.
Gabriel virou-se devagar, encurralando-a contra o balcão com um sorriso convencido.
— Se eu fosse um androide, meu sistema teria entrado em pane no momento em que te vi no meu quarto me olhando daquele jeito, nerdzinha — sussurrou, roçando os lábios na lateral do pescoço dela.
— Eu estava te olhando normal — ela murmurou, sem se afastar.
— Tava nada — rebateu ele, puxando-a pela cintura para um abraço suave. — Tava me olhando como se estivesse imaginando todas as coisas safadas que quer fazer comigo.
— Para de falar bobagem e volta para as panelas antes que…
Um pigarrear alto cortou o ar.
— Aí, casal, viram o Diego? — Daniel apareceu, balançando um saco de lixo.
— A Rafa disse que ele saiu correndo — respondeu Gabriel, rindo e voltando para o fogão.
— Quando esse desgraçado voltar, vai virar parte do lixo — resmungou Daniel, encarando a panela. — Bom, vou voltar para a faxina. Se precisarem que eu suba para o quarto e use fones de ouvido com isolamento acústico, é só avisar. Não quero atrapalhar a... atmosfera.
— Some daqui, Daniel. Agora — decretou Gabriel, divertido.
— Já fui! Boa noite para vocês! — Daniel disparou pela sala.
Rafaela soltou uma gargalhada, cobrindo o rosto, enquanto Gabriel ria junto.
Quando ele a deixou em casa, a mente de Rafaela ainda estava um caos. Na cozinha do seu apartamento, serviu-se de um copo d’água e ficou encarando o vazio. A imagem dele de toalha e o peso da fantasia que tivera na cama dele voltaram com força.
Pressionou o vidro gelado do copo contra o rosto quente.
— Para com isso — murmurou. — Você não é esse tipo de garota.
Mas quer ser, a voz no fundo da mente rebateu.
— Rafa? — Letícia apareceu no corredor de pijama, coçando os olhos. — Falando sozinha?
— Só pensando alto.
Letícia arqueou a sobrancelha.
— Por que você está com essa cara de quem acabou de cometer um crime federal? O que aconteceu?
Rafaela suspirou, sentando-se à mesa.
— O Gabriel — confessou baixinho. — Ele está quebrando o script, Lê.
— Que script, mulher?
Rafaela escondeu o rosto nas mãos antes de responder:
— Ele saiu do banho só de toalha e... exibindo aquele tanquinho idiota. E o pior não é isso. O pior foi a minha reação, Lê.
— Como assim? — Letícia franziu a testa, pegando um copo d’água para si.
— Você sabe que eu sempre achei a coisa toda... entediante — começou Rafaela, exasperada com a própria mente. — Nas poucas vezes em que fiz, enquanto o cara estava lá se esforçando, eu só conseguia pensar na lista do supermercado ou no tempo de incubação do Trichoderma. Era burocrático, chato... um gasto completamente ineficiente de energia e tempo.
Letícia quase se engasgou com a água, segurando o riso diante da sinceridade da amiga.
— E com o Gabriel?
— Com ele, a minha cabeça simplesmente pifa! — disparou Rafaela, batendo a testa de leve contra a mesa. — Eu fiquei olhando para ele no quarto e não pensei em relatório, em fungo, em nada. Eu só pensei no calor da pele dele e no cheiro. Meu cérebro libidinoso não conseguiu nem formular uma frase decente! É por isso que eu estou em pânico!
Letícia sorriu, o olhar mudando de divertido para compreensivo.
— E por que isso te deixou em pânico?
— Porque eu sei lidar com o cara comum, né, Lê? Mas pelo visto o problema é quando o cara parece a porra de um modelo de cuecas da Calvin Klein! — disparou Rafaela num sussurro dramático, escondendo o rosto nas mãos. — Todos os homens que eu fiquei na vida desistiam no primeiro "não" ou eu mandava embora. O Gabriel não. Ele sabe o efeito que tem em mim, tem uma bagagem quilométrica e, mesmo assim, simplesmente parou. Ele respeitou meu tempo. E isso me deixa surtada, porque sinto que estou jogando sem saber as regras, Lê. E ele joga muito bem.
Letícia observou a amiga em silêncio por um tempo. Então se inclinou e segurou o braço dela sobre a mesa, obrigando Rafaela a encará–lá.
— Mas ele não está jogando contra você, boba. Está jogando com você.
Letícia levantou-se, dando um tapinha carinhoso na cabeça dela.
— Agora para de pirar e vai dormir.
Rafaela ficou alguns segundos olhando para o nada depois que a amiga desapareceu pelo corredor.
Jogando com você.
Ela soltou um suspiro, ainda sentindo o rosto quente.
Talvez fosse exatamente aquilo que mais a assustava.
Porque, dessa vez, ela não sentia que precisava descobrir as regras.
Só precisava descobrir até onde queria jogar.
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