AMOR EM CAMPO
9 Capítulo 8: Savage
Notas iniciais

A energia da música combina perfeitamente com o momento atual da nossa nerdzinha favorita e deixa algumas cenas ainda mais divertidas.
Depois vocês me contem se eu exagerei... ou se a trilha sonora acertou em cheio. 🤭
Agora chega de conversa...
Boa leitura! 🤍
O cheiro de pão fresquinho e o chiado característico da cafeteira cortaram o silêncio da manhã de sábado no apartamento de Santa Rosa. Rafaela sentou-se à mesa, apoiando os cotovelos na madeira e a caneca pesada aos lábios. Para sua surpresa, a articulação do joelho amanhecera com uma mobilidade quase normal. O inchaço, que na noite anterior parecia uma bomba-relógio prestes a explodir, havia diminuído drasticamente e a pele, embora ainda marcada pela coloração arroxeada do impacto, já não latejava a cada batimento cardíaco.
Efeito colateral do gel canforado, tentou racionalizar para si mesma, sentindo o calor do café descer pelo peito.
Letícia entrou na cozinha, arrastando os chinelos de borracha, os cabelos presos em um coque estrategicamente bagunçado, mas com as pupilas dilatadas por pura antecipação fofoqueira. Ela serviu-se de café e sentou-se na cadeira vaga — exatamente a mesma em que Gabriel estivera horas antes —, fixando os olhos em Rafaela com uma intensidade predatória.
— Nem tente usar sua cara de paisagem comigo, Rafaela Maria — Letícia disparou, apontando a colher de metal na direção do nariz da amiga. — Eu passei a madrugada inteira repassando aquela cena. O marrento do Gabriel Duarte estava com as duas mãos na sua perna, com uma cara de quem estava operando um coração aberto sob a luz da nossa cozinha.
— Eu já disse que ele só estava aplicando o protocolo padrão de atleta, puro pragmatismo — Rafaela defendeu-se, odiando o fato de sentir as bochechas esquentarem contra a sua vontade. — Ele ficou com pena pelo tombo que eu levei na UC.
— Pena? — Letícia soltou uma risada alta, balançando a cabeça em total descrença. — Rafa, o Duarte não tem um pingo de altruísmo naquele corpo. O jeito que ele te olhava quando eu abri a porta... Aquele homem estava caçando. O problema é que eu não sei se ele quer te conquistar ou se ele já foi conquistado por você sem nem ter capacidade cerebral de perceber.
Rafaela estacou com a caneca a milímetros da boca, o líquido escuro oscilando perigosamente. As palavras da amiga ecoaram com um peso incômodo demais para uma manhã de sábado.
— Mas você precisa se lembrar do nosso combinado — o tom de Letícia mudou drasticamente, ficando subitamente sério, despido de qualquer deboche. Ela apoiou as mãos na mesa, curvando-se para a frente. — Nós criamos esse plano para desmontar o ego dele, para provar que ele não pode usar as pessoas no campus como se fossem degraus e sair impune. Não se envolva de verdade. Não esqueça quem ele é quando os holofotes se acendem.
— Eu não vou esquecer — Rafaela murmurou, forçando os olhos para baixo, encarando o fundo escuro da sua caneca. — Sei exatamente onde é o meu lugar. E sei exatamente onde é o dele.
A alguns quilômetros dali, na cobertura ampla e iluminada em Icaraí, a atmosfera pré-jogo operava em silêncio. O apartamento, que pertencia aos pais de Daniel, ostentava janelas imensas com vista para a praia, mas Gabriel estava alheio à paisagem.
Sendo o primeiro a acordar, ele circulava pela cozinha de ilha de granito, preparando o café da manhã para os três. Quebrou seis ovos na frigideira e colocou as fatias de pão integral na torradeira, agindo no piloto automático. Os músculos das coxas ainda cobravam o preço dos treinos da semana, mas a mente insistia em se fixar em outro tipo de tensão. Equilibrando a espátula em uma das mãos, ele puxou o celular do bolso com a outra. Bastou abrir o WhatsApp para o contato de Rafaela saltar aos olhos, prendendo sua atenção por longos segundos.
O orgulho mandava ele bloquear o aparelho, mas o instinto — aquele maldito e incômodo instinto de proteção — venceu.
Digitou rápido: “Oi, só queria saber se você está melhor.”
Segundos depois, o som de passos pesados anunciou a chegada dos seus parceiros de time. Diego entrou na cozinha, coçando o peito, usando apenas um calção, enquanto Daniel já vinha logo atrás.
— Cheiro bom da porra, Biel — Diego resmungou, puxando uma banqueta. — Se você jogar hoje metade do que cozinha, a Federal não tem nem chance.
— O meio-campo deles é truncado, Diego. A gente não vai ter espaço para brincadeira — Daniel interveio, servindo-se de café preto direto da cafeteira. — O Moura avisou que eles vêm para quebrar o nosso ritmo no primeiro tempo.
— Deixa eles virem — Gabriel respondeu, os olhos desviando por um milissegundo para o celular estático no balcão. Ele jogou os ovos mexidos nos pratos dos amigos. — Se eles subirem a marcação, a gente abre a bola nas costas do lateral. Vamos engolir os caras.
Enquanto os meninos discutiam táticas em Icaraí, em Santa Rosa, o som que ditava o ritmo era o batidão estridente de Savage. A música do grupo de K-pop aespa saía um pouco estourada da caixinha de som portátil que Letícia havia comprado por vinte reais no camelô do centro de Niterói, mas era o suficiente para embalar a tradicional faxina de sábado.
Rafaela, com os cabelos presos em um coque, empurrava a vassoura pela sala, enquanto Letícia separava as roupas coloridas das brancas perto da máquina de lavar.
— Get me, get me now. Get me, get me now...
Enquanto Letícia cantava a plenos pulmões o reflão barulhento, a tela do celular de Rafaela, que estava em cima do rack, acendeu.
Rafaela largou a vassoura contra a parede e caminhou até o aparelho, limpando a mão suada no short de algodão. Ao ler a mensagem de Gabriel, suas sobrancelhas se ergueram em um misto de choque e desconfiança.
— Letícia, olha isso aqui — Rafaela chamou, virando a tela na direção da área de serviço.
Letícia abandonou a garrafa de amaciante, leu a mensagem de relance e soltou uma gargalhada alta, apontando o dedo para a amiga.
— Eu não te disse? O homem está caçando! — ela debochou, cruzando os braços com uma expressão vitoriosa. — O capitão dos Falcões mandando mensagem de bom dia para saber da saúde do joelho da monitora? Isso é inédito na história da UC.
Rafaela revirou os olhos, sentindo uma pontada de ansiedade que tentou disfarçar. Ela bloqueou a tela abruptamente e jogou o aparelho no sofá, pegando a vassoura novamente.
Horas mais tarde, o vestiário do estádio da UC estava uma verdadeira panela de pressão. O falatório alto dos atletas e o som de funk proibidão saindo de uma caixa de som gigante criavam o cenário caótico de todo pré-jogo importante. A rivalidade histórica contra a Federal transformava aquela partida em uma guerra particular.
Gabriel estava sentado diante do seu armário, checou o celular uma última vez. A mensagem tinha sido visualizada, mas sem nenhuma resposta. Rafaela o havia deixado no vácuo o dia inteiro.
“Que se foda”, pensou, sentindo o orgulho ferido, limpou qualquer rastro de distração. Ele desligou o aparelho com força e o jogou no fundo da mochila bem no momento em que o técnico Moura entrou no vestiário, batendo as palmas das mãos e exigindo silêncio para as instruções finais.
O jogo contra a Federal foi exatamente o massacre que Daniel havia previsto. O campo estava pesado, a marcação dos caras era violenta e o juiz amarrava a partida a cada dois minutos. Gabriel jogou com uma agressividade fora do comum, distribuindo o jogo com precisão, mas sofrendo com as entradas duras da zaga adversária. O confronto terminou em um tenso 1 a 1, um resultado amargo pela rivalidade, mas estrategicamente excelente para manter os Falcões na liderança do campeonato universitário.
Ao final da partida, exaustos, com o corpo coberto de suor e grama, os meninos cruzaram as portas do vestiário, o som dos chuveiros de alta pressão e o eco das risadas masculinas preenchiam o ambiente abafado pelo vapor. Depois do banho, Gabriel estava sentado, puxando o cadarço do tênis com força excessiva, quando Vinícius cruzou os braços na sua frente, bloqueando a luz e ostentando um sorriso malicioso de orelha a orelha.
— E aí, Capitão Cavalheiro? — Vinícius zombou alto, elevando o tom de voz de propósito para atrair os olhares de Diego e Lucas, que se trocavam por perto. — Que porra foi aquela ontem na rampa do bloco? Ajoelhar no meio do pátio para catar livrinho de nerd? A loirinha da Odonto ficou possessa.
Gabriel terminou o nó do tênis com um puxão seco no cordão. Ele olhou para o amigo, estampando seu sorriso mais cínico e inalterável, que servia de máscara há dois anos na UC.
— Puro gerenciamento de danos, Vini — Gabriel deu de ombros, levantando-se e jogando a toalha úmida sobre o ombro largo. — A garota ia passar o resto da semana mancando e reclamando. Se ela quebra, quem vai mastigar a matéria de fisiologia para mim? Eu só garanti que o meu passaporte para a aprovação continuasse inteiro e funcional.
Os rapazes soltaram gargalhadas e voltaram a falar sobre o aniversário de Vinícius, que seria na próxima semana. Gabriel, no entanto, sentiu um gosto amargo e seco travar sua garganta ao ouvir as próprias palavras. Ao fundo do vestiário, Daniel, que fechava o armário de metal, apenas sustentou o olhar sobre Gabriel com os olhos estreitados. O zagueiro detectou a falsidade na voz do amigo à distância.
— Cara, eu estou brocado — Diego resmungou, jogando a mochila nos ombros. — Se eu não comer um hambúrguer com o dobro de queijo nos próximos dez minutos, eu desmaio no asfalto.
— Vamos direto para o Lanchão — Gabriel comandou, abrindo a porta do armário e pegando a própria mochila, a voz grossa pelo cansaço físico.
Ele precisava de gordura, de sódio e de qualquer coisa que arrancasse o vácuo daquela nerdzinha da sua cabeça.
Os meninos pegaram suas coisas e deixaram o vestiário. Enquanto caminhavam pela área externa em direção aos carros, um perfume doce, forte e enjoativo de baunilha cortou o ar, sobrepondo-se ao cheiro de fumaça de escapamento do estacionamento.
— Gabe! Até que enfim te achei — a voz manhosa de Brunna ecoou.
No segundo seguinte, ela já estava ao lado dele, deslizando a mão com unhas compridas pelas costas da blusa dele, contornando a linha do seu ombro com uma intimidade planejada para a plateia do lugar.
— Meninos, dão uma licencinha aqui? Preciso roubar o capitão de vocês por um minuto — Brunna disparou. Os rapazes soltaram risadinhas cúmplices e se afastaram.
Gabriel sentiu o corpo enrijecer instantaneamente com o toque. Normalmente, a presença de Brunna era um acessório previsível e confortável para o seu ego; ela era bonita, popular e não exigia dele nenhum esforço analítico. Mas hoje, os dedos dela no seu ombro pareceram garras sufocantes.
— O que foi, Brunna? Estou com pressa — ele disse, a voz saindo mais cortante do que pretendia.
— Credo, que mau humor — ela fez um biquinho, cruzando os braços e dando um passo à frente, forçando-o a se concentrar nela. — Eu fiquei sabendo de uns boatos bem bizarros sobre você e a monitora esquisita de Microbiologia. As meninas da Odonto estavam rindo disso hoje na arquibancada.
— Ela levou um tombo e os livros caíram. Eu só ajudei. Não sei por que está todo mundo tão incomodado com essa porra. — ele respondeu, a voz gélida tentando passar por ela.
— Ah, por favor, Gabriel. Eu conheço você — Brunna deu um passo para o lado, bloqueando a passagem dele, os olhos semicerrados enquanto tentava demarcar território. — Você mal olha na cara das CDFs da faculdade e, de repente, se ajoelha no meio do pátio por causa daquela garota esquisita de jaleco encardido? Ela nem se arruma, Gabe. Parece que vive trancada em um laboratório mofado cheio de ratos. Se você está querendo recuperar suas notas, escolha alguém com um pouquinho mais de... nível, né?
As palavras de Brunna colidiram contra a mente de Gabriel de forma totalmente errada.
Até uma semana atrás, ele provavelmente teria dado de ombros ou concordado com o desdém, usando a futilidade do campus como escudo. Mas agora, a imagem de Rafaela — a inteligência afiada que o desafiava, o cansaço real de quem trabalhava e estudava sem soltar um único gemido de autopiedade, e a doçura desarmada da noite anterior com o cabelo molhado — flutuou diante dele com a força de um impacto. Comparada à profundidade que ele havia vislumbrado na cozinha de Santa Rosa, a superficialidade de Brunna parecia patética, rasa e vazia.
Gabriel deu um passo à frente, usando seus um metro e noventa de altura para projetar uma sombra maciça e intimidadora sobre ela. O sorriso cínico de capitão sumiu por completo, substituído por uma seriedade tão gélida que Brunna deu um meio passo para trás, o queixo vacilando.
— Primeiro: o jaleco dela não é encardido. Segundo: ela tem mais nível e classe em um único fio de cabelo do que você e suas amigas, que passam o dia inteiro cuidando da vida dos outros tem no corpo inteiro. Então, limpe a boca antes de falar dela. — Gabriel disse, a voz descendo para um registro baixo, pausado e perigosamente firme, o tipo de tom que ele usava quando o vestiário estava prestes a quebrar em briga. — E terceiro: desde quando eu te devo qualquer satisfação sobre com quem eu converso? Eu já te deixei bem claro, Brunna... o que a gente tem é casual. E sem cobranças.
Brunna piscou, chocada. A cor sumiu do rosto dela instantaneamente, os lábios pintados de gloss estagnados pela surpresa de ter sido cortada com tanta crueza pelo cara que ela jurava ter sob controle.
— Gabriel... eu só estava brincando... — ela gaguejou, dando-se conta do erro tático.
— Tenho que ir. Te vejo por aí — ele cortou, sem dar espaço para réplicas.
Gabriel caminhou em direção ao carro com passos largos e pesados, deixando a garota parada sozinha sob as árvores, fervendo de humilhação e raiva.
Ao entrar no sedan e bater a porta com força, Gabriel apoiou as duas mãos no topo do volante e respirou fundo, fechando os olhos.
Ele acabou de arrumar briga com a garota mais influente do bloco de saúde para defender uma que o tinha deixado no vácuo o dia todo.
Gabriel jogou a cabeça para trás no encosto de couro, soltando um riso amargo, seco e completamente desacreditado. Ele queria focar no campeonato. Queria focar em não reprovar e ser chutado do time pelo Moura. Mas a verdade nua e crua que o deixava apavorado dentro daquele carro era uma só: ele estava completamente incomodado com o fato de Rafaela não ter respondido sua mensagem. E ele odiava o modo como aquela indiferença machucava mais o seu orgulho do que qualquer entrada violenta de um zagueiro adversário.
A porta do carona se abriu e, logo em seguida, a de trás foi empurrada com força, quebrando o silêncio do veículo. Daniel jogou a mochila no banco traseiro, enquanto Diego despencava ao lado de Gabriel, soltando um suspiro pesado de cansaço.
— Bora, Gabe. — Diego o arrancou de seu transe, ajustando o cinto de segurança. — Tô seco por um rango.
Gabriel piscou, engolindo o nó na garganta e apertando o botão start. O motor roncou baixo e ele tirou o carro da vaga sem olhar para trás.
— E aí, capitão... — Diego começou, virando o corpo de lado no banco de couro e ostentando um sorriso puramente debochado no rosto. — O que a Brunna queria? Pela cara que ela ficou quando você deu as costas, ou ela descobriu que você tem outra, ou vocês marcaram de se encontrar mais tarde e você esqueceu de avisar que o cansaço do jogo te deixou impotente.
Daniel soltou uma risada curta pelo nariz no banco de trás, cruzando os braços e observando a reação do amigo pelo retrovisor.
Gabriel não respondeu. Apenas acelerou o carro em direção à avenida principal, deixando o falatório dos amigos virar um ruído de fundo. Ele não estava nem aí para os chiliques da Brunna. O problema dele era bem pior, usava jaleco e fingia que ele sequer existia.
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