AMOR EM CAMPO
8 Capítulo 7: Gradiente Eletroquímico
Notas iniciais

O sol das dez e meia da manhã daquela sexta-feira castigava o pátio central da UC, fazendo o asfalto refletir ondas sutis de calor. A rampa de acesso ao bloco de Biológicas e Saúde estava lotada de estudantes que aproveitavam o intervalo entre as aulas para conversar, fumar ou simplesmente ver o tempo passar.
Perto do chafariz desativado, o centro gravitacional da atenção estudantil estava, como de costume, ocupado pelos Falcões. Gabriel apoiava-se contra uma mureta de concreto, segurando uma garrafa de isotônico, perfeitamente integrado ao seu papel de capitão. Ele estava no meio de uma animada conversa sobre a próxima partida, movendo as mãos energicamente. Três meninas do curso de Odontologia riam alto de qualquer comentário que ele ou Vinícius faziam, e Gabriel devolvia os sorrisos charmosos de sempre, com a confiança de quem sabia exatamente o efeito que causava no campus.
— ...então eu disse para o Moura que, se ele mantiver o esquema tático de duas linhas de quatro no sábado, a gente vai entregar o meio-campo de bandeja para os caras da Federal — Diego comentava, gesticulando com os braços largos. — Não é, Gabe? O que você acha?
— Eu acho que, se o Moura inventar de recuar a nossa linha, eu mesmo puxo a marcação lá na frente — Gabriel respondeu prontamente, a voz firme e focada. Ele deu um gole no isotônico, olhando para Diego. — A Federal tem dois pontas rápidos; se a gente não morder a saída de bola deles, estamos fodidos.
— É isso que eu estou falando! — Diego bateu na mureta, animado.
Ao lado, uma das loiras da Odontologia se inclinou um pouco mais na direção de Gabriel, mexendo no cabelo com um sorriso sugestivo.
— Você joga demais, Duarte. Minhas amigas e eu vamos estar na arquibancada no sábado só para te ver em campo, sabia?
Gabriel arqueou uma sobrancelha, oferecendo aquele sorriso de canto, meio lobo, meio cordeiro.
— É bom saber. Garanto que não vou decepcionar a torcida — ele respondeu, a voz mansa, sustentando o flerte com a facilidade de quem fazia aquilo toda semana.
Mas a resposta rápida que ele pretendia emendar morreu na garganta quando seus olhos, por mero reflexo, escandearam a rampa lateral do laboratório de biologia, a cerca de cinquenta metros dali.
Surgindo pela porta, estava Rafaela.
Ela estava com os cabelos presos em um coque apressado e usava o jaleco branco aberto sobre uma camiseta escura. Mas o que realmente travou o olhar de Gabriel foi o esforço físico absurdo que ela fazia. Rafaela carregava uma pilha pesada de enciclopédias médicas e relatórios acadêmicos, enquanto a alça da mochila, jogada de qualquer jeito, escorregava por um dos ombros. O cansaço era nítido: seus braços finos estavam tensos e a postura completamente desalinhada para o lado esquerdo enquanto tentava equilibrar o peso na subida.
Por um instante, por cima da borda dos livros, as pupilas castanhas de Rafaela encontraram as dele no meio da roda de atletas. Não havia súplica no olhar dela. Havia apenas aquela dignidade teimosa e a exaustão de quem estava acostumada a carregar o próprio mundo nas costas sozinha, a mesma garota que batalhava para orgulhar os pais. E aquilo causou um estalo estranho no peito dele.
Apressada para encontrar os alunos da monitoria na sala de estudos, Rafaela não percebeu onde a rampa terminava e o degrau da calçada começava. Seu pé esquerdo falseou na subida; em um segundo ela caminhava e, no seguinte, o chão vinha ao seu encontro. Ela caiu de mau jeito, chocando o joelho com força contra o granito, enquanto os tomos e relatórios se espalhavam pelo chão.
Gabriel deu um passo instintivo à frente, o sorriso morrendo instantaneamente no rosto.
Rafaela se levantou depressa, praguejando e ignorando o joelho que protestava dolorosamente e os risinhos de algumas pessoas que passavam por ali. Ela começou a recolher as folhas dos relatórios que haviam sido levadas pelo vento pelo corredor.
— Nossa, a nerd se espatifou no chão que nem uma jaca — Lucas comentou, soltando uma gargalhada alta ao lado de Gabriel.
O riso do amigo, que deveria ter sido acompanhado pelo de Gabriel, de repente soou incrivelmente incômodo em seus ouvidos. Ele olhou para os papéis espalhados, depois para as garotas da Odontologia, que também sorriam da cena, e sentiu uma irritação fria começar a subir pela sua nuca.
Ele sabia exatamente o que deveria fazer naquela situação, diante de todo o time: ignorá-la veementemente, fazer um comentário sarcástico sobre a falta de coordenação dos nerds ou simplesmente usar a cena para arrancar risadas do bando. Mas não foi o que ele fez. Naquele momento, as histórias que eles haviam compartilhado na noite de quarta-feira pesaram muito mais do que o combinado dela de se evitarem pelos corredores ou os mil reais da aposta em seu bolso.
Sem dizer uma única palavra, quebrando o fluxo das conversas, Gabriel se afastou.
— Gabe? Aonde você vai, cara? — Léo perguntou, franzindo o cenho debaixo do boné.
Ele ignorou. Seus passos longos e decididos cortaram o espaço com a velocidade de quem arranca em direção à grande área. O grupo de jogadores cessou a conversa no ato; os olhos de Lucas, Léo e Vinícius acompanharam a trajetória do capitão em um silêncio chocado. Diego apenas deu um sorrisinho malicioso e cutucou o braço de Daniel, que, um pouco mais atrás, soltou um suspiro lento de quem sabia exatamente o que estava prestes a implodir.
Rafaela suspirou, sentiu o joelho dar uma fisgada aguda quando se agachou para alcançar uma folha caída mais à frente. Foi quando uma sombra imensa e familiar se voltou sobre ela, bloqueando a luz direta do sol.
Antes que ela pudesse raciocinar, Gabriel se ajoelhou ao seu lado, recolhendo as enciclopédias e os papéis remanescentes.
— O que você acha que está fazendo? — ela sibilou em um sussurro ultrajado, esticando o braço para tentar reaver a carga das mãos dele. — Me devolve isso, Gabriel!
— Você é inacreditável, Rafaela — ele respondeu no mesmo tom baixo, a voz curiosamente calma enquanto juntava as folhas soltas. Ele se levantou de uma vez, segurando a pilha de enciclopédias contra o peito largo, como se não pesassem absolutamente nada. — Você estuda o corpo humano há dois anos e ainda não aprendeu que carregar peso acima da sua capacidade obstrui a sua visão periférica? Você não viu a porra do degrau por causa disso.
— A minha visão está perfeitamente funcional, muito obrigada — ela retrucou, o rosto aquecendo intensamente, não apenas pelo tombo, mas pelo choque de realidade. Ela olhou de relance para o pátio e sentiu o estômago dar um nó ao notar que o time inteiro, além das meninas da Odontologia e de metade dos estudantes na fila do bandejão, os observava em um silêncio absoluto. — Você enlouqueceu de vez? Olha ao redor! Todo mundo está olhando. Devolve os meus livros agora.
— Deixa que olhem — ele rebateu, sem recuar um milímetro. — E eu não vou devolver porra nenhuma. Você está mancando.
— Eu não estou mancando! — Rafaela tentou dar um passo firme para provar seu ponto, mas o joelho esquerdo protestou com uma dor intensa que a fez morder o lábio inferior instantaneamente.
Capitão soltou um estalo com a língua, um som de pura impaciência.
— Você é muito teimosa, nerdzinha — ele afirmou, usando o tom rouco e sem qualquer performance que ela só conhecia de dentro de seu apartamento.
Ela o observou ajeitar os livros pesados sob o braço com uma facilidade irritante, os músculos do bíceps marcando o tecido da camisa.
— Por que você está fazendo isso? Ontem você concordou que, na faculdade, nós seríamos estranhos. Você disse que entendia o fato de eu não querer os seus holofotes!
— Estou fazendo isso porque eu preciso que você esteja inteira para me dar aulas mais tarde. — Ele indicou os livros com o queixo. — Para onde você estava indo com isso?
— Sala de estudos B. Tenho monitoria com a turma do primeiro período em dez minutos — ela respondeu, a voz saindo consideravelmente mais mansa do que antes.
— Ótimo. Vamos. — Gabriel girou nos calcanhares e começou a caminhar em direção ao Bloco de Saúde, sem dar a mínima para os sussurros que imediatamente ganharam força nos corredores atrás deles.
Rafaela soltou um suspiro pesado e apressou o passo para emparelhar com ele, tentando disfarçar a leve fraqueza no joelho. No pátio, Diego continuava com o mesmo sorriso de canto, enquanto Daniel apenas analisava a cena de braços cruzados, com um olhar que misturava advertência e uma seriedade profunda.
Ao cruzarem o batente da entrada do bloco, o ar-condicionado gelado chocou-se contra a pele quente de Rafaela. Caminhar ao lado do capitão do time pelos corredores principais da UC era como carregar um alvo luminoso na testa, mas, olhando para o perfil focado de Gabriel, ela percebeu que ele parecia ter esquecido completamente que ambos tinham uma reputação a zelar.
Quando chegaram à porta da sala de monitoria, ele entregou o peso de volta a ela com cuidado.
— Bom, está entregue — ele disse, os olhos brilhando com um vislumbre do bom e velho desafio audacioso.
— Obrigada, Duarte. Mas não pense que essa gracinha vai te livrar da sessão de mais tarde.
— Sim, senhora — Gabriel deu um sorriso de lado, voltando para o pátio.
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O expediente na livraria Páginas & Prosa havia sido um teste de resistência física e mental. Rafaela passou as últimas quatro horas repondo caixas no estoque superior, e cada subida nos degraus de metal da escada de mão parecia enviar uma corrente elétrica diretamente para o seu joelho esquerdo. O granito da UC não tinha sido clemente; a articulação agora estava visivelmente inchada e quente sob o tecido da calça jeans, e a ausência de um jantar decente — substituído por um pacote de biscoito recheado devorado às pressas nos bastidores — fazia sua cabeça latejar no mesmo ritmo dos seus batimentos.
Ela desceu o último degrau, apoiando quase todo o peso na perna boa, segurando um calhamaço de romances históricos contra o peito. Tentou endireitar a postura assim que pisou no salão principal, mas um estalo doloroso no joelho a fez morder o lábio inferior para sufocar um gemido.
— Se você continuar tentando disfarçar esse andar de pirata, vai acabar quebrando o outro lado, Rafaela — a voz rouca de Seu Alberto ecoou de trás do balcão de mogno.
O dono da livraria, um homem de sessenta e poucos anos com óculos de leitura permanentemente empoleirados na ponta do nariz avantajado, parou de registrar um livro no computador à sua frente. Seus olhos astutos avaliaram a funcionária de cima a baixo.
— Eu estou bem, Seu Alberto. Só pisei em falso na calçada da faculdade mais cedo — ela justificou, caminhando até a mesa de lançamentos e tentando, sem muito sucesso, apoiar os livros sem mancar.
— Sei. E eu tenho vinte anos e jogo na ponta-esquerda do Fluminense — o velho rebateu, deixando o livro de lado e contornando o balcão. Ele parou ao lado dela, cruzando os braços sobre o avental verde-escuro da livraria. — Você passou a tarde carregando caixa de enciclopédia para o estoque. Acha que eu não vi? Você é teimosa, igualzinha ao seu pai, menina. Se eu ligar para Saquarema e disser para o Marcos que você está se matando de trabalhar com a perna lascada, ele pega o primeiro ônibus para cá e vem me ajudar a te dar uma bronca.
— Não precisa ligar para ninguém.
Seu Alberto, que era um cliente de longa data do escritório de contabilidade que seus pais administravam, conhecia Rafaela quase desde a infância e ficou bastante contente em oferecer-lhe aquele emprego quando ela se mudou para Niterói.
Rafaela riu de forma suave, sentindo uma agradável sensação de calor no peito ao ouvir o nome do pai, embora a referência ao cansaço fizesse seus ombros caírem levemente.
— Não precisa telefonar para ninguém. O expediente já está quase no fim, eu só vou terminar de etiquetar esses três volumes e...
— Você não vai etiquetar mais nada. Vai pegar sua mochila e pode ir para casa — Seu Alberto ordenou, o tom ranzinza disfarçando uma preocupação legítima. — E, por favor, coma alguma coisa que preste assim que chegar. Você está mais pálida que as páginas desse livro aí.
Rafaela não teve forças para argumentar. Ela apenas assentiu, agradecida pela trégua. Faltavam menos de dez minutos para as nove da noite e ela ainda teria que esperar Gabriel chegar para buscá-la para a monitoria. Grata pela trégua, Rafaela contornou o balcão com passos curtos e arrastou a mochila para si. Seus olhos cansados miraram a noite através da porta de vidro, bem no momento em que a iluminação amarelada dos postes se misturava ao feixe de luz cirúrgico de um carro prata que encostava no meio-fio. Um milagre. Gabriel estava adiantado. Pela primeira vez na semana, ela não se importou com a presença do jogador; precisava daquela carona mais do que precisava do seu orgulho.
O expediente dela havia terminado, mas o cronograma de Gabriel Duarte estava prestes a começar.
Rafaela se despediu de Seu Alberto, respirou fundo e forçou o corpo a caminhar em uma linha o mais reta possível até o carro. Ela concentrou toda a sua energia mental para empurrar o peso do próprio corpo sem claudicar, mas, assim que abriu a porta do passageiro e desabou no banco de couro, soltou um suspiro trêmulo que não conseguiu conter.
Gabriel entregou o copo de café para ela e a observou de soslaio enquanto tirava o carro da guia. Ele notou a rigidez nos ombros dela e a forma como ela evitou apoiar o pé esquerdo no assoalho com força total, mas manteve-se em silêncio durante todo o trajeto até Santa Rosa. Havia um acordo implícito ali: na frente dele, ela não cederia.
Quando cruzaram a porta do apartamento, o silêncio indicava que Letícia ainda não havia chegado.
— Me dá dez minutos — Rafaela pediu, sem olhá-lo nos olhos, deixando a mochila em cima do sofá. — Preciso de um banho rápido para espantar o cansaço do dia. Pode ir ligando o notebook na cozinha.
— Sem pressa — ele respondeu, a voz mansa, observando-a sumir pelo corredor em passos lentos.
Quinze minutos depois, a porta do banheiro se abriu. Quando Rafaela retornou para a cozinha, a atmosfera do ambiente pareceu mudar de densidade instantaneamente. Gabriel, que estava concentrado organizando os slides na tela do computador, levantou os olhos e travou o movimento dos dedos no teclado.
Ela parecia inteiramente diferente. Desprotegida.
Os cabelos castanhos estavam soltos e úmidos, caindo em ondas pesadas pelas costas e exalando aquele perfume fresco e marcante de lavanda que rapidamente preencheu o espaço pequeno. Rafaela usava uma blusa de algodão cinza, visivelmente larga e confortável, combinada com um short jeans simples. Sem a armadura do jaleco branco e da postura defensiva da faculdade, ela parecia menor. Mais frágil. Quase como se o peso da rotina estivesse prestes a quebrá-la ali mesmo, na frente dele.
Gabriel desceu o olhar de forma lenta, mapeando a silhueta dela até parar na perna esquerda. Exatamente abaixo da patela, um hematoma roxo e extenso contrastava de forma violenta com a pele castanha, cercado por um edema inchado que ela nem sequer tentava mais esconder. Ele sentiu o maxilar travar, mas não comentou nada. Apenas limpou a garganta e puxou a cadeira de vime para que ela se sentasse.
— Vamos lá — Rafaela murmurou, puxando o bloco de anotações e sentando-se com cuidado. — Hoje a gente vai analisar as vias somatossensoriais. O córtex... o córtex somato...
Ela ficou paralisada. Seus olhos piscaram duas vezes, focando no papel, mas as palavras pareceram se embaralhar. Ela esfregou a testa com a ponta dos dedos, tentando clarear a mente.
— O córtex somatossensorial divide-se em duas áreas principais... A área um fica localizada no giro pós-central do lobo... do lobo...
A voz dela falhou por completo, sumindo em um sussurro frustrado. Rafaela bufou, irritada com a própria fraqueza, e tentou folhear o livro com os dedos trêmulos.
Antes que ela pudesse começar a próxima frase, a mão grande de Gabriel se estendeu sobre a mesa e fechou o pesado livro com um baque surdo.
— Para — ele ordenou, a voz calma cortando o ambiente. — Você vai desmaiar em cima do Guyton se continuar forçando desse jeito.
Rafaela levantou os olhos, uma antiga centelha de teimosia buscando ressurgir em seu olhar castanho.
— Eu não vou desmaiar, Duarte. Só estou cansada. Se a gente não cobrir essa matéria hoje, o cronograma...
— Você está com dor? — ele a interrompeu, ignorando o protesto dela.
— Não — ela mentiu descaradamente, endireitando a postura e tentando puxar o livro de volta para perto de si. — Eu já disse que estou bem. Vamos voltar para as funções do tálamo, por favor.
Gabriel soltou um riso curto, mas não havia deboche nele. Era o riso de quem conhecia aquela exata expressão de teimosia estúpida do próprio espelho. Ele se levantou, deixando-a falar sozinha, e caminhou até a sala de estar, onde sua mochila pesada de treino descansava no chão.
Rafaela o acompanhou com o olhar, confusa, enquanto ele abria o zíper lateral da bolsa e vasculhava o interior até encontrar o que procurava: uma bisnaga plástica, gasta pelo uso constante.
Ele retornou para a cozinha, sentou-se novamente na cadeira ao lado dela e, sem pedir permissão, segurou a base de madeira da cadeira de Rafaela, puxando-a de uma vez para mais. O movimento fez as pernas dela ficarem posicionadas exatamente entre as dele, eliminando qualquer distância ou barreira.
— Ficou louco, Duarte? — ela perguntou, a respiração subitamente presa na garganta quando ele a segurou pelo tornozelo, apoiando a perna esquerda dela em cima da dele.
— Relaxa, Rafaela — Gabriel respondeu, mantendo os olhos focados na perna dela enquanto rosqueava a tampa da bisnaga. Um cheiro forte, mentolado e canforado invadiu o ar da cozinha instantaneamente. — Jogadores de futebol raramente jogam sem dor. A gente convive com microlesões, canelite, dores crônicas no púbis, tornozelos inflamados e hematomas roxos nas pernas que nem esses todas as semanas. Usar gel canforado ajuda um pouco a diminuir o inchaço e anestesiar o local.
Antes que ela pudesse verbalizar um novo protesto fútil e tirar a perna de cima dele, Gabriel colocou uma quantidade generosa do gel frio na palma da mão e apoiou os dedos longos diretamente sobre a pele aquecida do joelho dela.
O contraste térmico fez Rafaela soltar um arquejo curto.
Gabriel começou a espalhar o produto em movimentos circulares ao redor da patela, aplicando uma pressão moderada e anatômica — a técnica exata que os fisioterapeutas do clube usavam nele após os impactos em campo.
A pressão atingiu em cheio o ponto exato da inflamação, fazendo Rafaela tensionar os ombros e fazer uma careta nítida de dor, os dedos das mãos apertando as bordas da cadeira com força.
— Dói um pouco no início, eu sei — ele sussurrou, sem reduzir o ritmo do movimento, a voz saindo incrivelmente suave, quase como um acalento. Seus polegares trabalhavam as bordas do osso com uma precisão cirúrgica, desfazendo o acúmulo de líquido ali. — Mas, se você não mexer nisso agora, amanhã de manhã você simplesmente não vai conseguir colocar o pé no chão para ir para a faculdade.
Rafaela manteve os olhos fixos no topo da cabeça de Gabriel. Ele estava ligeiramente inclinado sobre a perna dela, focado na tarefa com uma seriedade absurda. Os dedos dele eram quentes, fortes e calejados, mas o toque na pele dela detinha uma delicadeza contrastante que a assustou profundamente.
Ali, sob a luz amarelada da cozinha, cercada pelo cheiro de lavanda e cânfora, ela percebeu que o gradiente eletroquímico mais perigoso daquela noite não estava nas páginas de Fisiologia Humana. Estava correndo diretamente pelas suas próprias veias, disparando potenciais de ação que ela não tinha a menor capacidade científica de controlar.
— Não sabia que as aulas da monitoria incluíam sessões de massagem — a voz de Letícia ecoou pela cozinha, fazendo Rafaela dar um pequeno salto na cadeira.
Gabriel não se assustou. Ele apenas diminuiu o ritmo da massagem, deslizando o polegar uma última vez pela lateral do joelho de Rafaela antes de erguer os olhos de forma lenta. Ele nem sequer retirou as mãos da perna dela imediatamente, sustentando uma calma que fez o estômago de Rafaela dar mais uma volta completa.
Letícia estava parada sob o batente que dividia a sala e a cozinha, a bolsa pendurada no ombro, segurando as chaves em uma mão e uma caixa de pizza na outra. Seus olhos brilhavam com uma mistura impagável de divertimento e pura satisfação ao flagrar a cena. Ela arqueou uma das sobrancelhas, alternando o olhar entre as mãos de Gabriel e o rosto completamente em choque de Rafaela.
— Letícia! — Rafaela exclamou, a voz saindo mais aguda do que o normal. Ela tentou puxar a perna para trás, mas Gabriel segurou seu tornozelo de leve, apenas o suficiente para impedir que ela fizesse um movimento brusco que machucasse ainda mais a articulação. — O que você está fazendo aqui? Achei que fosse jantar com o Guilherme?
— O namoro tem dessas coisas, amiga. Às vezes a gente briga por causa do sabor da pizza e eu decido voltar para o meu precioso palácio — Letícia respondeu, caminhando calmamente em direção à mesa, largando a caixa de papelão ali e indo até a geladeira, fingindo uma naturalidade que não enganava ninguém. Ela lançou um olhar ladino para o capitão dos Falcões. — Boa noite, Gabriel. Vejo que você é um aluno bem... aplicado.
— Boa noite, Letícia — Gabriel respondeu, finalmente soltando o tornozelo de Rafaela e levantando-se da cadeira com a sua habitual imponência física. Ele caminhou até a pia para lavar o excesso de gel das mãos. Um sorriso de canto, carregado daquela audácia que ele usava como escudo, surgiu em seus lábios. — Sua amiga levou um tombo feio na UC hoje de manhã. O joelho dela está parecendo uma bola de tênis. Como capitão, eu não posso ver uma atleta da biologia lesionada e não aplicar o protocolo de primeiros socorros.
— Ah, claro. Muito altruísta da sua parte — Letícia ironizou, abrindo uma lata de refrigerante e encostando-se na pia, cruzando as pernas. O olhar dela para Rafaela dizia claramente: “Nós vamos conversar sobre isso por três dias seguidos”. — Mas acho que o protocolo de primeiros socorros de vocês já deu o horário, não? Já passou das dez. Nossa amiga aqui está machucada e cansada, e o cérebro do jogador já deve ter absorvido a quantidade necessária de... estímulos por hoje.
Rafaela aproveitou a deixa para se levantar, ignorando a fisgada no joelho, e começou a recolher as canecas e o notebook de Gabriel de forma quase frenética. Ela precisava tirá-lo dali antes que Letícia começasse a fazer perguntas que ela mesma não saberia responder na frente dele.
— É verdade. Melhor encerrarmos por hoje — Rafaela cortou, entregando o notebook nas mãos de Gabriel com uma pressa indisfarçável. — Eu te envio o conteúdo de vias somatossensoriais pelo WhatsApp. Estude os gráficos que eu desenhei. Nos vemos amanhã, no mesmo horário.
Gabriel pegou os pertences, os olhos escuros fixos nos dela, refletindo um divertimento silencioso pela forma como ela estava tentando expulsá-lo dali. Ele colocou a alça da mochila no ombro e caminhou até a porta de entrada, sendo seguido de perto por Rafaela.
Antes de cruzar o batente para o corredor escuro do prédio, Gabriel parou e virou-se abruptamente. Devido à diferença de altura, Rafaela teve que elevar o queixo para encará-lo, ficando novamente sob o raio de ação do perfume dele, que agora se misturava de forma estranha e viciante ao cheiro de cânfora.
— Coloque gelo nisso antes de dormir — ele instruiu, a voz baixando um tom, direcionada apenas a ela. — E não carregue o mundo nas costas de novo, Rafaela. Se tiver coisas pesadas, me avisa.
Rafaela piscou, o coração batendo rápido demais contra as costelas.
— Eu sei me virar sozinha, Duarte — ela sussurrou, tentando recuperar a última linha de sua blindagem.
— Eu sei que sabe — ele deu aquele sorriso curto e melancólico, o mesmo sorriso que usou quando falou do pai mecânico. — Mas não quer dizer que precise. Até mais, professora.
Gabriel iniciou a descida dos degraus de alvenaria enquanto Rafaela fechou a porta devagar, girando a chave na fechadura, e mal teve tempo de encostar as costas na madeira antes que Letícia surgisse de braços cruzados e um sorriso gigantesco no rosto.
— Rafaela Maria... — Letícia começou, os olhos semicerrados de pura antecipação. — Você é terrível. Já conseguiu fazer o "pavão arrogante" da UC virar seu "massagista particular de joelho" em menos de uma semana. Pelo visto, vamos concluir nosso plano mais rápido do que pensei.
Rafaela cobriu o rosto com as duas mãos, sentindo as bochechas queimarem. Ela sabia que o plano de Letícia ainda estava de pé, mas, enquanto sentia o alívio térmico do gel na pele do joelho, uma certeza incômoda se instalou em seu peito: o jogo deles talvez estivesse começando a sair completamente do controle.

Ai, ai... esses dois! 🤭🤍
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