AMOR EM CAMPO
59 Capítulo 61: Quinta-feira
Notas iniciais

A quinta-feira amanheceu com um céu de zinco, pesado e incerto, combinando perfeitamente com o estado de espírito de Rafaela. Durante toda a semana, ela tentou convencer a si mesma de que o encontro na calçada da livraria fora um delírio coletivo provocado pela exaustão. Mas o comprovante grampeado à carta de agradecimento, agora guardado na gaveta de sua escrivaninha, era a prova física de que Gabriel não estava apenas de volta; ele estava em missão.
Rafaela passou o dia na faculdade, sentindo-se como uma corda de violão esticada ao máximo. Cada vez que um vulto alto passava pelo corredor, seu coração tropeçava. Cada vez que ouvia o som de uma risada masculina, ela se encolhia, esperando o eco da aposta que ainda assombrava seus pesadelos.
— Você vai furar o papel se continuar encarando esse parágrafo — Letícia comentou, sentando-se ao lado dela no bandejão. — É por causa dele, não é? A Mica me contou da foto. E do "Capitão" ter aparecido na livraria.
Rafaela largou a caneta, soltando um suspiro longo.
— Ele disse que iria aparecer hoje de novo. Toda quinta, na verdade, para irmos ao cinema.
— E você vai? — Letícia arqueou uma sobrancelha, o tom entre a preocupação e a curiosidade.
— Eu sei lá, Lelê — Rafaela mexeu na salada, sem apetite. — O problema não é eu ir. O problema é como eu vou reagir quando ele chegar. Eu passei um mês odiando o cara. É muito mais desafiador lidar com o homem que doa para ONGs ambientais do que com o das apostas.
— A redenção é o pior castigo para quem quer guardar rancor, Rafa — Letícia disse, a voz suave, oferecendo um sorriso compreensivo enquanto empurrava o copo de suco na direção da amiga. — O Gabriel antigo era fácil de combater. Mas esse que está correndo atrás do prejuízo no campo de terra e mandando café com post-it... esse é perigoso para as suas defesas.
Rafaela apoiou o queixo na palma da mão, os olhos fixos na vidraça do refeitório. Do outro lado do campus, além do limite dos blocos de aula, a silhueta das torres de iluminação do estádio parecia vigiá-la.
— Eu não vou dar o braço a torcer, Lelê. Ele acha que um gesto bonito e mil reais limpam a barra dele? Não limpam. — Ela endireitou a postura, tentando resgatar o tom firme que usara na calçada. — Se ele quiser bater ponto na livraria às nove da noite, o problema é dele. Eu vou sair, caminhar até o ponto de ônibus e fingir que ele é invisível.
— Sei... — Letícia deu um risinho cúmplice, sabendo exatamente que a teoria da amiga raramente sobrevivia à prática do olhar de Gabriel Duarte. — Só não se esqueça de levar o guarda-chuva. Esse céu não vai segurar o temporal por muito tempo.
E Letícia estava certa. Às seis da tarde, quando Rafaela ainda organizava a seção de lançamentos na livraria, as primeiras gotas grossas começaram a estalar contra a vitrine de vidro, transformando os reflexos dos postes da rua em borrões dourados e úmidos. O relógio no balcão parecia correr mais rápido do que o normal. Seis e meia. Sete. Sete e quarenta e cinco.
A cada cliente que passava pela porta, empurrando o vento frio da noite, o estômago de Rafaela dava um nó. Ela se pegou checando o reflexo no vidro duas vezes, ajeitando o cabelo e odiando-se por isso no segundo seguinte. Faltavam cinco minutos para as nove quando o sino da porta tocou novamente.
O som, que costuma ser apenas um aviso de rotina, soou como o apito inicial de uma partida decisiva. Ela não precisou olhar para saber quem cruzava a porta; o ar na livraria pareceu mudar de densidade instantaneamente, tornando-se mais quente, mais elétrico. Gabriel entrou usando uma jaqueta de nylon escura que enfatizava os ombros largos e um jeans surrado. Os cabelos estavam úmidos da chuva torrencial que desabava lá fora. Ele trazia uma sacola de papel pardo de uma padaria artesanal da esquina e uma barra de chocolate amargo com flor de sal, o favorito dela.
Rafaela desceu os degraus da escada de madeira, limpando discretamente o suor frio das palmas das mãos no jeans.
— Chegou cedo — ela disse, a voz saindo mais firme do que esperava. — Meu turno só acaba daqui a duas horas.
— Eu sei. Mas imaginei que você tivesse pulado o lanche da tarde de novo. — Ele caminhou até o balcão com passos calmos, deixando a sacola sobre a madeira. O meio sorriso de lado era o de sempre: um pouco convencido, um pouco desafiador, mas os olhos escuros estavam inteiramente fixos no rosto dela, escaneando cada traço sutil de cansaço. — Tem um sanduíche de focaccia aí dentro. Com bastante queijo, do jeito que você gosta. Faz uma pausa. Come.
Rafaela encarou a sacola, o cheiro de pão fresco e azeite vencendo o aroma de papel antigo dos livros. O estômago dela roncou logo em seguida, em uma traição pública e barulhenta.
Gabriel arqueou uma sobrancelha, o divertimento brilhando em seu olhar.
— Eu não pedi para você me sustentar, Gabriel — ela rebateu rápido, sentindo as bochechas esquentarem.
— Eu sei que não pediu. Você é orgulhosa demais para isso. — Ele deu de ombros, aquela arrogância natural dele brilhando por um breve segundo, mas de um jeito totalmente diferente. — Considere isso um investimento na minha educação. Se você desmaiar de fome, não vai ter ninguém para me explicar por que esse filme iraniano que a gente vai ver é tão revolucionário.
Enquanto Rafaela se sentava no banco alto atrás do balcão para comer, rendida pela fome e pelo gesto, Gabriel começou a circular pelas estantes. Não parecia um peixe fora d'água; movia-se com a confiança de quem sabia perfeitamente que estava sendo observado. Parou diante da seção de Crônicas, correu os dedos pelas lombadas e puxou um volume de capa dura.
— Esse? — perguntou, erguendo o livro de Nelson Rodrigues. — O título parece... apropriado. A vida como ela é.
Rafaela mastigou um pedaço da focaccia, sentindo o calor voltando ao corpo.
— Esse livro é pesado, Gabriel. É sobre as obsessões humanas, sobre o que as pessoas fazem de pior quando ninguém está olhando. É ácido. Não sei se combina com o seu estilo.
Gabriel caminhou até uma poltrona de couro nos fundos da loja e acomodou-se ali, cruzando as pernas longas e abrindo o volume com uma naturalidade irritante.
— Talvez combine mais do que você imagina, Rafaela. — Ele arqueou uma sobrancelha, o olhar encontrando o dela por cima das páginas. — Eu também tenho minhas obsessões.
Ele voltou os olhos para o texto, deixando a frase pairar no ar como um desafio silencioso. Rafaela sentiu frio na barriga. Ali, no silêncio da livraria, com a chuva batendo lá fora, ele lendo Nelson Rodrigues e ela comendo o sanduíche que ele escolhera, a tensão não era morna. Era combustível puro.
O ponteiro menor do relógio de parede finalmente alcançou o número dez, quebrando o feitiço que parecia ter congelado o tempo dentro da livraria. Rafaela jogou a embalagem vazia da focaccia no lixo sob o balcão e organizou os últimos papéis do caixa. O barulho da chuva lá fora tinha engrossado, transformando-se em um temporal barulhento que chicoteava o asfalto.
Nos fundos da loja, o som do livro de Nelson Rodrigues sendo fechado ecoou de forma nítida. Gabriel se levantou da poltrona de couro, esticando o corpo com a elegância natural de um atleta, e guardou o volume exatamente no mesmo lugar de onde o tirara.
— Dez da noite. Fim do jogo por aqui — ele disse, caminhando até o balcão. Ele já estava com a jaqueta de nylon fechada até o queixo e segurava um guarda-chuva preto grande, daqueles de golfe, que parecia capaz de abrigar três pessoas.
Rafaela pegou sua mochila e o casaco de lã, sentindo o estômago dar uma volta completa ao perceber que o espaço seguro do balcão agora não existia mais entre eles.
— O cinema fica a quatro quadras daqui, Gabriel. Já está tarde e com essa chuva, a gente vai chegar ensopado. Se você quiser desistir...
— Eu não vou desistir, Rafaela — ele a cortou, o tom de voz calmo, mas firme. Ele deu a volta e parou perto da porta de vidro, esperando que ela apagasse as luzes. — E o meu carro está parado logo ali na esquina. Não vamos andar quatro quadras.
Rafaela girou a chave na fechadura interna, apagando os refletores da loja e deixando apenas a luz fraca da rua iluminar o ambiente por um segundo. Quando ela empurrou a porta de vidro para sair, o vento frio e a umidade da noite a atingiram em cheio, fazendo-a encolher os ombros.
Antes que a primeira gota pudesse tocar o cabelo dela, um teto de lona preta se abriu acima de sua cabeça com um estalo seco. Rafaela trancou a porta respirando fundo.
Eles começaram a caminhar pela calçada escorregadia. A proximidade era inevitável. Para continuarem sob a proteção do guarda-chuva, Rafaela precisou encurtar a distância, o ombro dela roçando no braço forte dele a cada passo. O perfume amadeirado de Gabriel, misturado ao cheiro de terra molhada, parecia preencher todo o espaço de ar que restava entre os dois.
Ela olhou de soslaio para o ombro ensopado dele.
— Você está se molhando todo, Gabriel. Incline isso mais para o seu lado.
— Estou ótimo, nerdzinha — ele respondeu, sem desviar os olhos do caminho, mas o uso do apelido antigo fez o coração dela errar a batida. Ele deu um leve puxão no cabo do guarda-chuva, trazendo-a ainda mais para o centro da proteção. — Presta atenção no degrau.
Quando alcançaram o carro na esquina, Gabriel destravou as portas pelo controle e abriu a porta do passageiro para ela com a mão livre, mantendo o guarda-chuva como um escudo perfeito até que ela estivesse completamente sentada no banco de couro do carona.
Ele fechou a porta com um baque surdo e, segundos depois, entrou pelo lado do motorista, trazendo consigo o frio da rua e o som da respiração acelerada. Gabriel jogou o guarda-chuva no banco de trás e passou a mão pelo rosto, tirando o excesso de água da testa.
O interior do carro era silencioso, isolado do caos do temporal lá fora. O painel digital iluminava o rosto dele em tons de azul, destacando as linhas mais maduras da sua mandíbula.
Gabriel ligou o carro. O motor roncava baixo, num ritmo constante que parecia competir com o batimento acelerado no peito de Rafaela. Ela olhou para a janela lateral, vendo os pingos grossos escorrerem pelo vidro, deformando as luzes da rua.
Enquanto o carro cortava as ruas, o silêncio entre eles se estendeu por vários minutos, denso, mas não hostil.
Para Rafaela, no entanto, aquele silêncio era ensurdecedor. Ela apertou as mãos contra o tecido da calça, sentindo a ironia da situação queimar em seu peito. Ali estava ela, no banco do passageiro do carro do ex-namorado. O mesmo cara que a transformara em uma piada, que fizera dela o prêmio de uma aposta idiota, e que agora cruzava a cidade para levá-la ao cinema, que estava praticamente ensopado só para garantir que ela não pegasse chuva. Ele dizia que tinha mudado. Jurava que se arrependia. E o pior de tudo é que o olhar dele, a forma como ele a tratava agora, quase a fazia acreditar.
Mas o orgulho dela não cedia fácil. As perguntas ricocheteavam em sua mente como estilhaços: Por que ele fez aquilo no passado? O que o Gabriel de hoje tem de diferente do cara marrento da aposta? Por que ela? Por que tinha que ter sido logo com ela? A necessidade de entender o motivo de ter sido usada superou o cansaço. Ela precisava arrancar aquela resposta dele, ou sufocaria com o ar condicionado do carro.
Rafaela respirou fundo, quebrando o transe das luzes distorcidas na janela, e se virou para ele.
— Por quê? — ela perguntou, a voz baixa, mas sem hesitação.
Ele a olhou de soslaio, surpreso. O carro parou em um sinal fechado, e o som percussivo da chuva castigando o teto de metal deixou o ambiente ainda mais confinado.
O reflexo vermelho do semáforo tingiu o painel digital e o vidro molhado do para-brisa, banhando o interior do carro em uma penumbra séria. Gabriel soltou o volante lentamente, deixando as costas relaxarem contra o banco de couro. Ele não tentou desviar o olhar; virou a cabeça e encarou Rafaela de frente. A luz vermelha destacava a crueza em suas feições, despida de qualquer artifício.
— Porque eu fui um covarde egoísta, Rafa — ele respondeu, a voz saindo mais baixa e rouca do que o normal, competindo apenas com o som da chuva no teto. — Essa é a única resposta real.
Rafaela engoliu em seco. Ela esperava que ele tentasse desviar com alguma piada, mas a sinceridade dele a desarmou por um segundo.
— Eu não quero mais gritar ou brigar, Gabriel. Eu só… preciso entender. Como o cara que passou semanas comigo, que conheceu minha família, que cozinhou para mim e que parecia me enxergar de verdade… como aquele cara e o cara que conseguiu olhar para os amigos e colocar um preço na nossa história podem ser a mesma pessoa?
— Na UC, existe um monstro que eu ajudei a alimentar durante um ano e meio. O cara intocável, conquistador, o camisa 10 que nunca perdia uma disputa e que nunca recuava diante de uma provocação dos amigos. Quando eles começaram a falar de você, o meu ego doente não aceitou a ideia de uma garota que não dava a mínima para o meu status. Aceitar aquela aposta idiota foi a minha forma imbecil de provar para eles — e para mim mesmo — que eu mandava no jogo. E, quando as coisas mudaram entre nós, em vez de assumir que eu estava completamente na sua, eu escolhi agir da pior forma e fingir que ainda estava no controle.
Ele deu um meio sorriso amargo, os olhos marejados refletindo o vermelho do sinal.
— O que aconteceu ali não foi sobre você, Rafa. Nunca foi. Foi sobre a minha incapacidade de lidar com o fato de que você me dobrava sem nem fazer esforço.
Rafaela engoliu em seco, sentindo o peito apertar. Ela passara semanas achando que o problema era ela, que sua simplicidade tinha sido o alvo da piada. Ouvir que o erro nascera puramente do ego dele tirava um peso invisível de seus ombros, embora a cicatriz ainda doesse.
— E quando o jogo virou, Gabriel? — ela perguntou, a voz quase sumindo. — Quando você percebeu o que tinha feito?
— No segundo em que o Diego me mandou o comprovante daqueles mil reais, logo após o treino. O dinheiro entrou na conta e eu senti uma náusea tão forte que precisei parar o carro no acostamento. Ali a ficha caiu. Eu tinha colocado um preço na única coisa real que eu já tinha construído desde que pisei naquela universidade. Eu passei o restante dos nossos dias juntos sabendo que era uma bomba-relógio ambulante. E o meu maior medo passou a ser o dia em que você descobriria o lixo que eu fui.
Uma lágrima teimosa escapou do olho de Rafaela, e ela a limpou rapidamente com as costas da mão, virando o rosto para a janela.
— Aquela garota da foto do concurso… ela confiava em você por inteiro. Eu nunca tinha feito aquilo com ninguém.
— Eu sei. E eu vou carregar o peso de ter quebrado essa confiança para sempre — Gabriel estendeu a mão direita sobre o console central, com a palma virada para cima. Ele não a tocou; manteve a distância de segurança, oferecendo apenas um ponto de apoio caso ela decidisse aceitar. — Não espero que você me perdoe hoje, nem na semana que vem. O que eu fiz foi nojento. Mas eu preciso que você saiba que o cara que estava com você naquelas tardes… o cara que se apaixonou pela sua risada e pelo seu jeito teimoso, aquele cara era real. O personagem era o do vestiário. A verdade era você.
O sinal mudou para o verde, iluminando o interior do carro em um tom de esperança sutil. Gabriel olhou para o painel, recolheu a mão com paciência, colocando o veículo em movimento pelas ruas úmidas de Niterói.
Rafaela olhou para a mão dele ali, parada no console. Ela não a pegou. Ainda era cedo demais para isso. Mas o simples fato de não ter sentido vontade de abrir a porta do carro e fugir para o meio da tempestade já era um avanço sísmico. Os pingos nos is tinham sido colocados. A ferida não estava fechada, mas estava limpa.
— Obrigada por não tentar inventar uma desculpa bonita, Gabriel — ela disse, com o tom mais firme. — Acho que agora a gente já pode encarar as legendas.
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A sessão de cinema foi uma tortura lenta e silenciosa. Sentada ao lado de Gabriel, Rafaela mal conseguia processar as legendas do drama iraniano. O braço dele, a poucos centímetros do dela no descanso da poltrona, emanava um calor que a distraía mais do que qualquer diálogo profundo sobre existencialismo. Gabriel cumpriu a promessa: ficou em silêncio, mas a presença dele preenchia a sala de um jeito que tornava o ar rarefeito.
Quando as luzes se acenderam e os créditos começaram a subir, o feitiço finalmente se quebrou. Eles caminharam para a saída em um silêncio reflexivo, até que o frescor da noite os atingiu na calçada. A chuva tinha dado uma trégua, deixando apenas o asfalto brilhando como um espelho sob os postes.
— O simbolismo daquela árvore no final... — Gabriel começou, limpando a garganta e tentando puxar o assunto. — Era sobre a espera, não era? Sobre o que consegue sobreviver mesmo quando tudo em volta é seco.
Rafaela olhou para ele, genuinamente surpresa pela percepção.
— É. É sobre o que sobra quando a gente perde todo o resto.
Ele apenas assentiu. Caminharam lado a lado em direção ao ponto de ônibus, mantendo uma distância de segurança que parecia, ao mesmo tempo, necessária e insuportável.
— O final foi... inesperado — Gabriel comentou, quebrando o silêncio enquanto chutava uma pedrinha na calçada. — Eu passei o filme todo achando que eles iam se reencontrar na estação de trem. Mas eles só... seguiram caminhos diferentes.
— Nem todo mundo tem uma segunda chance, Gabriel. Às vezes, o tempo simplesmente acaba — ela respondeu, a voz tingida por uma melancolia que não conseguiu mascarar.
Gabriel parou de caminhar por um segundo. O olhar dele ficou fixo no perfil dela, emoldurado pela luz amarelada do poste de iluminação pública.
— Eu sei. Por isso eu não quero desperdiçar o tempo que você está me dando.
Eles chegaram ao ponto, que estava completamente deserto àquela hora da noite. O letreiro digital indicava que o próximo veículo passaria em cinco minutos.
Gabriel enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta, parecendo subitamente desconfortável. Toda aquela postura inabalável de capitão do time parecia ter ficado no campo de treino. Ali, ele era apenas um homem esperando o ônibus com a garota que amava, sem saber se teria o direito de entrar na vida dela outra vez.
— Rafa? — ele começou, pigarreando. — Tem uma coisa... quer dizer, eu sei que eu mereci cada segundo do seu gelo, mas…
Ele hesitou, os olhos escuros buscando os dela com uma vulnerabilidade que a desarmou.
— Eu tentei te mandar o trailer desse filme na terça-feira. E depois lembrei que as minhas mensagens ainda batem em uma parede invisível. — Ele deu um meio sorriso sem jeito, coçando a nuca. — Será que... você poderia considerar me tirar da "lista negra" do WhatsApp? Prometo não mandar fotos com mensagens de ‘bom dia’ ou áudios de dez minutos. É só para eu saber se você chegou bem ou, se eu precisar te falar algo sobre a próxima quinta, eu não vou estar falando com o vácuo.
Rafaela sentiu um tremor no peito. O pedido era simples, quase infantil, mas significava derrubar a última barreira digital que ela criara para se proteger dele. Ela olhou para o rosto dele, notando o quanto ele parecia ansioso pela resposta, como um calouro esperando a escalação para o primeiro jogo.
— Vou pensar no seu caso, ok? — ela disse, tentando manter o tom neutro, mas o canto de sua boca traiu um esboço de sorriso.
— Ok, mas só para constar, talvez eu te mande os vídeos dos calouros fazendo dancinha no TikTok — ele brincou, o alívio visível em seus ombros.
O ônibus apontou na esquina, os faróis varrendo a calçada. Gabriel deu um passo à frente, instintivamente querendo diminuir a distância. Por um segundo, a tensão entre eles esticou até quase romper. Rafaela viu o olhar dele descer para os lábios dela e depois subir rapidamente para os olhos, uma luta interna clara entre o desejo de beijá-la e o medo de colocar tudo a perder.
Ele respirou fundo e apenas deu um passo para trás, as mãos firmes dentro dos bolsos. O respeito pelo tempo dela era um sacrifício que ele estava disposto a fazer, mesmo que cada fibra do seu corpo pedisse o contrário.
— Boa noite, Rafa. — Ele esperou que ela subisse o primeiro degrau do ônibus. — E obrigado por não ter ido embora no meio do filme.
— Até quinta, Gabriel — ela respondeu de cima do degrau, olhando-o uma última vez antes de as portas se fecharem.
Enquanto o ônibus se afastava, Rafaela pegou o celular na bolsa. Com os dedos ainda frios e o coração em um ritmo incerto, ela abriu a lista de contatos bloqueados. O número de "Gabriel" estava lá, isolado, como um lembrete mudo de tudo o que ela tentara apagar. Ela hesitou por um segundo, o polegar pairando sobre a tela em uma batalha silenciosa entre a autopreservação e a esperança, antes de finalmente apertar o botão de desbloquear.
Depois de trinta dias, a angústia dentro dela não parecia um buraco negro; era apenas uma cicatriz que parara de latejar. Para selar aquele armistício, ela enviou um meme bobo de boa noite, uma bandeira branca digital.
A poucos metros dali, Gabriel, recém-chegado ao carro, sentia o volante ainda frio sob as mãos. Ele insistiu em levá-la para casa, mas Rafaela negou veementemente; ele respeitou, sabendo que cada centímetro conquistado naquela noite fora uma vitória monumental.
O celular vibrou no bolso. Quando ele desbloqueou a tela e viu a notificação de Rafaela, um sorriso involuntário surgiu em seu rosto. Ela o havia desbloqueado. O mundo parecia, por um milésimo de segundo, estar voltando para o eixo.
⚽⚽⚽
Na tarde de sexta-feira, o sol forte parecia castigar ainda mais o gramado do Campo Três. Gabriel estava lá, correndo com os reservas e os calouros. O suor escorria por sua nuca, mas ele sentia uma leveza que não experimentava há semanas. A mensagem de Rafaela na noite anterior — o meme bobo de boa noite — ainda estava gravada em sua mente como um troféu de ouro.
Ele riu abertamente quando Cadu tropeçou na própria chuteira ao tentar um drible desnecessário.
— Levanta daí, meu filho! Se o Moura te vê fazendo isso, você vai capinar o campo com uma colher de chá — Gabriel brincou, estendendo a mão para puxar o novato.
Houve um tempo em que ele teria soltado um insulto ríspido, mas hoje a paciência parecia um músculo que ele estava exercitando com prazer. No final do treino, enquanto o grupo se dispersava para os chuveiros e Gabriel se preparava para começar a recolher as bolas e os cones, o apito do técnico Moura cortou o ar.
— Duarte. Na minha sala. Agora.
Gabriel sentiu um frio breve na espinha, mas caminhou com os ombros erguidos. Dentro da sala, cheirando a café velho e linimento, o técnico o encarou por cima dos óculos de leitura.
— Tenho observado você, Gabriel. Não só o seu desempenho físico, que sempre foi acima da média, mas o seu comportamento. O esforço que tem feito, a paciência com os novatos... e a disciplina fora de campo.
Gabriel assentiu, em silêncio.
— Se permanecer assim, se não houver mais deslizes ou distrações... talvez eu te coloque no banco para o amistoso no final do mês.
Para Gabriel, aquelas palavras soaram como uma convocação para a Copa do Mundo. O coração martelou contra as costelas. Sair do castigo do Campo Três e voltar a vestir a camisa oficial, mesmo que no banco, era a validação que ele precisava.
— Obrigado, professor. Eu vou dar o meu melhor. Mais do que o meu melhor — ele prometeu, a voz firme.
Gabriel saiu da sala do técnico Moura sentindo como se o peso de uma tonelada tivesse sido arrancado de seus ombros. O ar abafado do corredor parecia até mais fácil de respirar. Ele fechou a porta de madeira atrás de si com cuidado, um sorriso largo e genuíno se espalhando por seu rosto. O banco de reservas no amistoso não eram a titularidade nem a braçadeira de volta, mas era o primeiro passo real para fora do limbo.
Ele estava terminando de desamarrar o cadarço da chuteira no banco do corredor quando a porta do vestiário se abriu e Cadu passou por ela. O calouro estava com os cabelos castanhos úmidos do banho, a mochila enorme nas costas e uma expressão visivelmente exausta, segurando uma garrafa de isotônico pela metade.
— Cadu! — Gabriel chamou, levantando-se de um salto e batendo no ombro do garoto com entusiasmo. — Você não vai acreditar. O Moura acabou de me chamar na sala dele.
Cadu piscou, surpreso com a energia do veterano.
— E aí, cara? O que ele queria?
— Ele disse que está de olho no meu comportamento, na minha entrega com o grupo. Cara, se eu mantiver o ritmo, ele vai me relacionar para o banco no amistoso de final do mês. Eu vou voltar a fardar, moleque!
Gabriel esperava um grito, um soco no peito ou uma comemoração barulhenta típica de vestiário. Em vez disso, o que viu foi um milésimo de segundo de hesitação passar pelos olhos de Cadu, antes que o garoto forçasse um sorriso que não chegou a alcançar os olhos.
— Caraca, Gabriel... Que bom, cara. Sério, fico muito feliz por você. Você merece demais voltar para o time principal.
O tom de voz saiu murcho, quase ensaiado. Gabriel, que passara as últimas semanas apurando seus sentidos para decifrar nuances — cortesia de suas interações com Rafaela —, franziu o cenho na hora. O sorriso dele diminuiu de tamanho.
— Que bom? Só isso? — Gabriel arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços. — Achei que você fosse pagar flexão de alegria comigo aqui no corredor. O que houve, Cadu?
Cadu chutou de leve o rodapé da parede, de repente achando o chão do corredor muito interessante. Ele ajeitou a alça da mochila, soltando um suspiro pesado que revelava toda a sua insegurança de calouro.
— Nada, é só que... se você voltar para os relacionados, você volta para a "nata" dos Falcões, né? Volta para o vestiário principal, para os treinos fechados táticos na parte da manhã... — O garoto finalmente levantou os olhos, e havia uma vulnerabilidade crua ali. — Basicamente, você vai me largar aqui no Campo Três. Sozinho. Apanhando do Cauã e dos outros veteranos.
Gabriel piscou, a ficha caindo de impacto. Ele estava tão focado na sua própria redenção e na alegria de voltar a jogar que não tinha enxergado o cenário completo. Para o Cadu, a subida do Gabriel significava perder o escudo protetor. Significava voltar a ser o alvo preferido do sadismo do Cauã, sem ninguém de tamanho e moral para gritar "deixa o garoto em paz".
Gabriel olhou para o garoto por alguns segundos, o silêncio pesando no corredor abafado. A empolgação de minutos atrás se assentou, dando lugar àquela expressão focada e firme que ele costumava usar antes de entrar em uma dividida violenta em campo.
— Cadu, olha para mim — Gabriel comandou, a voz baixa e firme. O calouro obedeceu, erguendo os olhos. — Eu passei as últimas semanas te puxando nesse campo de terra. Você acha mesmo que eu sou o tipo de cara que deixa um parceiro para trás na primeira oportunidade?
Cadu engoliu em seco, sem saber o que dizer. Gabriel deu um passo à frente, diminuindo a distância, a postura exalando a autoridade de quem ainda se sentia o capitão daquele lugar, com ou sem braçadeira.
— Minhas manhãs vão ser da nata, no tático com o Moura. Mas as minhas tardes continuam sendo do Campo Três. Eu vou vir para cá todo santo dia depois das minhas aulas. Vou puxar o teu treino de fundamento até as tuas pernas tremerem, e você vai evoluir tanto que o Moura não vai ter escolha a não ser te subir também. Entendeu?
Um brilho de alívio e surpresa cruzou o rosto de Cadu.
— Mas e o Cauã? — o garoto sussurrou, olhando de soslaio para a porta do vestiário. — Sem você no treino oficial da tarde, ele vai...
— Ele não vai fazer nada — Gabriel o cortou, os olhos escuros brilhando com uma frieza perigosa. — Confia em mim? Me espera lá fora.
Gabriel não esperou resposta. Ele girou nos calcanhares e empurrou a porta do vestiário com força, o baque do metal batendo contra a parede atraindo a atenção imediata dos poucos atletas que ainda se trocavam. O cheiro de antitranspirante e umidade impregnava o ar. No fundo, perto dos armários centrais, Cauã estava sentado, rindo de algo no celular.
Gabriel caminhou direto na direção dele. Os passos pesados ecoaram no piso de borracha. Quando Cauã percebeu a aproximação e começou a levantar o rosto com aquele sorrisinho debochado de sempre, Gabriel fechou a distância.
Ele não gritou. Não fez cena. Apenas se inclinou para frente, apoiando uma das mãos no armário de ferro logo acima da cabeça de Cauã. A diferença de envergadura e a intensidade nos olhos de Gabriel fizeram o sorriso de Cauã sumir instantaneamente.
— Escuta aqui, Cauã, e escuta bem, porque eu só vou falar uma vez — Gabriel sibilou, a voz fria como o gelo, audível apenas para os dois. — Eu estou voltando para os relacionados. Vou estar no banco no final do mês. Mas o meu olho continua no Campo Três.
Cauã tentou estufar o peito, buscando resgatar a pose.
— E o que eu tenho a ver com o teu castigo, Duarte? O time agora é...
— Se você encostar um dedo no Cadu, se eu souber de um trote, de uma piadinha ou de um bico na chuteira dele quando eu não estiver por perto, o bicho vai pegar para o teu lado — Gabriel interrompeu, o tom calmo, mas carregado de uma promessa violenta. Ele se inclinou ainda mais, os rostos a centímetros de distância. — Eu não dou a mínima para a braçadeira, e se eu tiver que te enfiar a porrada no meio do estacionamento e ser suspenso do time para o resto da faculdade, por mim tudo bem. Eu não tenho mais nada a perder, Cauã. Você tem. Então, fica longe do garoto.
Cauã engoliu em seco, as pupilas dilatando. Ele conhecia o histórico de Gabriel em campo; sabia que, quando o Duarte jogava no corpo a corpo, ninguém segurava. Sem conseguir sustentar o olhar por mais de dois segundos, Cauã apenas desviou a cabeça, soltando um resmungo inaudível que tentava passar por indiferença.
Gabriel foi para o chuveiro e tomou seu banho calmamente. Quando terminou de se vestir, deu as costas sem pressa, cruzando o vestiário sob os olhares tensos dos outros jogadores, e saiu para o corredor.
Cadu o esperava perto da saída, os olhos arregalados. Ele claramente tinha ouvido a intensidade da conversa, mesmo sem decifrar todas as palavras.
— Tudo certo — Gabriel disse, jogando o braço pelos ombros do calouro e empurrando a porta de saída para o sol da tarde. — O Cauã entendeu a jogada. Agora, anda logo, que eu preciso de um café duplo antes de ir para a biblioteca. Tenho uma lista de artigos de desenvolvimento motor para procurar e, se eu falhar na próxima quinta, o filme iraniano vai ser o menor dos meus problemas.
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O caminho de casa era uma mistura de euforia e música alta. Diego estava no banco de trás, jogado entre as mochilas, enquanto Daniel dirigia.
— Cara, o banco no amistoso? Isso é gigante! — Daniel exclamou, dando um tapa no ombro de Gabriel. — O Moura não dá colher de chá para ninguém. Você realmente limpou a barra.
— É — Gabriel sorriu, olhando para a paisagem do campus passando rápido pela janela. — E não foi só com ele. Eu saí com a Rafaela ontem à noite.
Um silêncio súbito caiu sobre o carro, quebrado apenas pelo som do rádio. Diego se inclinou para frente, os olhos arregalados.
— Você o quê?
— A gente foi ao cinema. Ela me desbloqueou. Estamos... recomeçando. Do zero.
— Do zero? — Diego riu, recostando-se. — Cara, depois de tudo o que aconteceu, você conseguir que aquela garota sequer te dê um "oi" já é um milagre.
Daniel estacionava o carro na garagem enquanto Gabriel encarava o celular, a tela exibindo a conversa desbloqueada de Rafaela. O cursor piscava, esperando por palavras que ele morria de vontade de dizer.
"O Moura me deu uma chance. Vou estar no banco no amistoso. Você foi a primeira pessoa em quem pensei."
Ele apagou tudo. Não podia. Não agora. Ele prometera respeitar a "geometria das quintas". Ele não queria ser o cara que invadia o espaço dela com as próprias glórias, especialmente quando sabia que ela estava lutando para manter a cabeça fora d'água.
Gabriel guardou o celular. A vontade de compartilhar a notícia do amistoso queimava, mas ele se forçou a esperar. Ele não queria ser o cara que chega chutando a porta; queria ser o homem que ela escolhesse deixar entrar.
— Tudo bem aí, Gabe? — Daniel perguntou, percebendo o silêncio do amigo.
— Tudo. Só... pensando que a próxima quinta-feira está longe demais — Gabriel respondeu, com um meio sorriso que não alcançava os olhos.
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