AMOR EM CAMPO

56 Capítulo 58: Campo Três


Notas iniciais
Antes de tudo: talvez esse seja um dos capítulos mais importantes da fase “quebrei tudo e agora preciso catar os pedaços” do Gabriel. 👀 Porque pedir desculpas é fácil. Difícil é abaixar a cabeça, engolir o orgulho e continuar aparecendo mesmo quando ninguém mais quer você ali. Boa leitura! ❤️

A segunda-feira na Universidade Central tinha o gosto amargo de uma ressaca coletiva. A eliminação dos Falcões era o único assunto nas mesas do café, nos corredores e nos grupos de WhatsApp. Para muitos, o culpado tinha nome e sobrenome: Gabriel Duarte.

Quando ele atravessou o portão principal, não usava o casaco oficial do time, nem caminhava cercado por uma horda de admiradores. Ele vestia uma camiseta cinza lisa, jeans e carregava uma mochila pesada de livros. O "capitão" não estava mais lá; em seu lugar, havia apenas um aluno tentando passar despercebido.

Os olhares eram diferentes agora. Não havia mais adoração, apenas julgamento e alguns risos abafados.

— Se ele estivesse mais preocupado em jogar bola do que em se envolver em apostas sem sentido, o time não teria passado por aquela vergonha. Agora ficou sem o time e sem a garota. Bem feito! — alguém comentou alto o suficiente para ele ouvir enquanto passava pelo pátio.

Gabriel sentiu o sangue subir ao rosto, mas não parou. Ele não confrontou, não rebateu com uma piada arrogante. Ele apenas continuou caminhando. O silêncio era sua nova armadura.

No corredor do Bloco de Educação Física, Brunna o interceptou. Ela estava radiante, como se a derrota do time fosse o cenário perfeito para ela brilhar.

— Gabe! Eu vi o que aconteceu no sábado... que desastre. O Diego não serve para liderar nem fila de cantina. — Ela tentou tocar o braço dele, com aquele olhar de consolo ensaiado. — Você precisa falar com o reitor, recuperar sua posição. O time é seu, gato. Todo mundo sabe disso. E agora que você está... livre daquela nerd, a gente podia…

Gabriel parou e olhou diretamente para Brunna. Mas não havia raiva, nem o desejo que ela esperava.

— O time não é meu, Brunna. O time é da universidade. E eu não me livrei da Rafaela — ele disse, com uma voz calma que a deixou desconcertada. — Eu vacilei e a perdi. Tem uma diferença grande aí.

Brunna abriu a boca para retrucar, mas Gabriel não a cortou com arrogância. Ele suspirou, e o olhar que dirigiu a ela era algo que Brunna nunca tinha visto: era honesto.

— E, Brunna… antes de eu ir, eu preciso te dizer uma coisa. Me desculpa.

Ela estancou, a expressão de deboche sumindo instantaneamente.

— Desculpa… pelo quê exatamente?

— Eu sempre soube o que você sentia por mim — ele continuou, suavemente. — E, mesmo sabendo que eu nunca conseguiria retribuir isso, eu te mantive por perto porque era fácil, porque alimentava meu ego. Fui irresponsável com você, assim como fui com a Rafaela, então acho que você também merece um pedido de desculpas.

Gabriel deu um passo curto, mantendo uma distância respeitosa.

— Nem você, nem ela, tiveram culpa de nada do que aconteceu. Eu que agi como um babaca com as duas. Sinto muito por ter deixado você acreditar que existia algo que eu sabia que não existia. Você é inteligente e tem uma força que pouca gente aqui tem, Brunna. Merece alguém que não te use como escudo para fugir dos próprios erros. Alguém que te veja de verdade.

O silêncio no corredor pareceu se tornar absoluto. Brunna continuou parada, a mão que antes buscava o braço dele agora pendia ao lado do corpo. O choque em seu rosto era visível; a máscara de "garota popular e indiferente" tinha caído.

— Tchau, Brunna.

Ele a contornou sem esperar resposta. Não houve triunfo no passo dele, apenas o alívio de quem acabara de tirar mais um tijolo de uma parede que ele mesmo construíra. Gabriel caminhou em direção à sala de aula, deixando Brunna para trás, ainda estática, processando o fato de que, pela primeira vez, o capitão dos Falcões tinha falado com ela como se ela fosse uma pessoa, e não apenas um prêmio de consolação.

⚽⚽⚽

O vestiário estava vazio e silencioso quando Gabriel entrou, duas horas antes do horário oficial do treino. Ele não foi para o seu armário de capitão. Em vez disso, pegou um saco de bolas, um cronômetro e foi para o campo.

Sozinho, sob o sol quente do início da tarde, ele começou a treinar. Não eram jogadas de efeito para a torcida. Eram fundamentos básicos. Passes curtos contra a parede, corridas de resistência, repetições exaustivas.

Quando o resto do time começou a chegar para o treino oficial, encontraram o ex-capitão ensopado de suor, recolhendo as garrafas de água vazias que alguém tinha deixado no banco no dia anterior.

Ninguém o cumprimentou com os habituais toques de mão ou brincadeiras. Ele era um estranho no ninho que ele mesmo construiu.

O técnico Moura parou na beira do gramado, observando a cena em silêncio com uma expressão de quem não dormia desde a eliminação.

Gabriel se aproximou, parou diante dele e abaixou a cabeça.

— Eu não vim pedir a braçadeira de volta, professor — disse Gabriel, a voz firme apesar do cansaço. — Eu vim pedir para ser o roupeiro, o reserva do reserva, ou o cara que limpa o vestiário. Eu só quero trabalhar para conquistar o respeito desse time e o seu de novo. Do zero.

— O reitor quer a sua bolsa de volta, Duarte — Moura disse, com o tom de voz cortante. — Disse que a universidade não investe em jogadores que não têm estabilidade emocional.

Moura sustentou o olhar por longos segundos. Os jogadores observavam, em choque.

Gabriel deu um passo à frente, ignorando o suor frio que descia pelas suas costas.

— Eu sei o que eu fiz. E sei o que está em jogo. Por isso estou aqui; só quero uma chance de reconquistar minha bolsa e meu lugar nesse gramado, um treino por vez.

Moura estreitou os olhos, procurando qualquer traço da antiga arrogância de Gabriel. Não encontrou nada.

— Tudo bem. Você quer ser útil? Esqueça o time principal. Você vai treinar com os reservas e os calouros no campo três. Vai recolher todos os cones e bolas depois de cada treino. E se você chegar um minuto atrasado, ou se eu ouvir um único pio de reclamação vindo de você... eu mesmo assino a sua rescisão. Estamos entendidos?

— Sim, senhor.

— Pega o colete de treino, Duarte — Moura disse, enfim, com um aceno curto. — Ah, e sem água… até o primeiro intervalo. Agora corre, o campo três não vai se organizar sozinho.

Gabriel correu em direção ao campo três, o campo dos "rejeitados". Ele ouviu o apito de Moura ecoando no campo principal, dando início ao tático que ele deveria estar liderando. O som parecia vir de outro planeta. Gabriel baixou a cabeça e começou a alinhar os cones no campo três, o mato um pouco mais alto e o silêncio dos calouros sendo sua única companhia. Ele não era mais o sol; era apenas um satélite apagado.

⚽⚽⚽

O campo dos enjeitados era o que restava da estrutura da universidade. A grama era irregular, falhada em alguns pontos, e as redes dos gols tinham remendos grosseiros feitos com barbante. Gabriel sentiu o peso do silêncio assim que pisou no gramado.

Havia cerca de doze rapazes ali. Calouros magricelas que ainda não tinham corpo de atleta e veteranos "eternos reservas" que já tinham aceitado o esquecimento. Eles pararam o que estavam fazendo.

— Olha só... o rei resolveu visitar as províncias — murmurou Cauã, um lateral que estava no terceiro ano e nunca tinha jogado uma partida oficial.

Houve alguns risos abafados. Gabriel não disse nada. Ele apenas se aproximou do grupo, segurando o colete vermelho, a cor dos reservas.

— Onde eu entro? — perguntou Gabriel, a voz o mais neutra possível.

— Onde você quiser, "Capitão" — ironizou Cauã, cuspindo no chão. — Mas aqui ninguém vai correr dobrado pra te entregar a bola no pé, não. Aqui a gente joga com o que sobra.

O treino começou e foi um desastre técnico. Os passes saíam tortos, o posicionamento era caótico. Por instinto, Gabriel abriu a boca para corrigir a linha de impedimento:

— Cauã, fecha mais o centro! Você está deixando o...

— Fica na sua, Duarte! — Cauã parou a jogada, caminhando até ele e o peitando. O cara era menor que o Gabriel, mas tinha a raiva de quem foi invisível por três anos. — Você não é mais o dono da bola aqui. Se fosse tão bom em liderar, a gente não teria perdido a semifinal no sábado. Você está aqui porque foi suspenso, nós estamos aqui porque é o que temos. Não vem dar aula de etiqueta pra quem vive na reserva.

Gabriel sentiu o impacto das palavras. O ego gritou para ele reagir, para mostrar quem tinha mais técnica, mas ele lembrou do pai. Conserte o que dá para consertar.

— Você tem razão — disse Gabriel, dando um passo atrás e baixando o olhar. — Desculpa. Onde você quer que eu fique?

O grupo ficou estático. Eles esperavam a explosão, o "você sabe quem eu sou?". O desarmamento do Gabriel deixou o Cauã sem chão por um segundo.

— Fica na contenção. Corre por quem não tem fôlego — resmungou Cauã, voltando para a posição.

E Gabriel correu. Ele não driblou, não tentou lances de efeito. Ele se tornou o carregador de piano. Se alguém perdia a bola, ele cruzava o campo para recuperar. Se um calouro errasse o chute, ele ia buscar a bola no matagal atrás do gol sem reclamar.

Ao final do treino, enquanto os outros se jogavam no chão exaustos, Gabriel começou a recolher os cones.

— Ei, Duarte — chamou um calouro, um menino de dezoito anos chamado Cadu, que parecia intimidado. — É verdade que você aceitou uma aposta pra ficar com a menina da biblioteca?

Gabriel parou, com três cones em cada mão. Ele olhou para o garoto, que esperava uma resposta de "garanhão".

— É verdade, Cadu — respondeu Gabriel, e a voz não tinha orgulho nenhum. — E foi a maior imbecilidade que eu já fiz. Não vire esse tipo de homem, garoto. Não vale a pena.

Gabriel voltou a catar os cones, deixando o calouro pensativo. Ele não tinha ganhado a amizade deles — isso levaria meses —, mas, pelo menos, ele não tinha ganhado o ódio pela arrogância. Ele era apenas mais um jogador sujo de terra no campo três.

📚📚📚

Rafaela estava saindo de uma palestra sobre "Bioindicadores de Recuperação em Ecossistemas Degradados". Ironicamente, ela passara as últimas duas horas ouvindo sobre como a natureza encontra meios de se reconstruir após um desastre, mas sua mente não conseguia processar nada além do próprio caos. Ela ajustava a alça da mochila quando Sabrina apareceu, trazendo uma expressão de quem acabara de presenciar um fenômeno da natureza.

— Você não vai acreditar na cena que eu acabei de ver — disse Sabrina. — Eu fui dar uma passada rápida no setor de esportes, sabe como é, né? Dar um apoio moral para o pessoal depois da tragédia de sábado.

Rafaela sentiu o estômago revirar, mas manteve o rosto como uma máscara de granito.

— O time deve estar de luto, imagino.

— Nem fala, o clima está uma merda. O Léo está péssimo, mas não é sobre o luto dos Falcões que eu vim falar. O time principal está lá no campo um, com aquela cara de enterro — Sabrina soltou um risinho ácido. — Mas o espetáculo mesmo estava no campo três, Rafa. Sabe o "grande capitão"? Pois ele agora é o gandula oficial dos rejeitados. O tombo foi maior do que a gente pensava.

Rafaela parou de caminhar, o coração batendo forte no peito.

— O que você quer dizer com isso?

— Quero dizer que ele não estava apenas treinando com os reservas. Eu vi, com esses olhos lindos que Deus me deu: o cara estava catando cone, recolhendo garrafa de água vazia e levando o saco de bolas nas costas como se fosse um calouro — Sabrina balançou a cabeça, o tom navegando entre o deboche e um espanto genuíno. — E o Cauã, aquele lateral que odeia a própria sombra, estava gritando com ele no meio do campo. O Duarte só baixava a cabeça e continuava correndo. Nem parecia o mesmo cara que andava por aqui como se a gente devesse se curvar na passagem dele.

Rafaela desviou o olhar para o horizonte, onde as luzes do estádio começavam a se acender. A imagem do Gabriel, sempre tão impecável, cheiroso e inabalável, sendo humilhado pelos reservas no campo de terra batida, era um curto-circuito em sua mente.

— Deve ser tática — murmurou Rafaela, embora a voz tivesse a solidez de um castelo de cartas. — Ele quer que as pessoas sintam pena. É o que ele faz de melhor: atuar.

— Olha, eu sou especialista em detectar parasitas e comportamentos falsos, você sabe disso — Sabrina deu de ombros, começando a caminhar ao lado dela em direção à saída. — Mas ele estava ensopado de suor, sujo de barro até o pescoço e ficou sozinho recolhendo o lixo enquanto os outros iam embora rindo dele. Se aquilo for atuação, o garoto perdeu a carreira no futebol, mas merece um Oscar. E um Globo de Ouro.

Rafaela não respondeu. O silêncio a acompanhou por todo o caminho até o ponto de ônibus. A muralha que ela construíra com tanto cuidado ainda estava de pé, mas a estrutura estava cada vez mais danificada. E o pior: as rachaduras não vinham apenas da dor... vinham de uma curiosidade involuntária, persistente e perigosa.



Notas finais
E chegamos ao fim de mais um capítulo da saga: “Gabriel Duarte descobrindo que caráter não vem junto com tanquinho e talento no futebol”. 🤭😅 O menino saiu do posto de estrela dos Falcões para catador oficial de cone no campo três. A vida foi rápida no processo educativo dele, viu? Mas quero destacar um detalhe importante aqui: pela primeira vez, o Gabriel parou de tentar convencer os outros de que ele “não é tão ruim assim” e começou simplesmente a agir diferente. Sem discurso bonito. Sem banca. Sem tentar recuperar a imagem de garoto perfeito. E talvez seja exatamente aí que a coisa fique perigosa… porque redenção de verdade começa no silêncio. 🤫 Agora me contem: Vocês acham que essa mudança do Gabriel é sincera ou ainda estão esperando que ele escorregue feio de novo? Beijos, vejo vocês na sexta!