AMOR EM CAMPO

55 Capítulo 57: Semifinal


Notas iniciais
Hello, meus amores! Sem mais delongas, vamos ao capítulo de hoje! Boa leitura! 🤒 🤧❤️

O estádio da Universidade Central estava em chamas. O barulho da torcida, o cheiro de grama cortada e o som dos tambores da bateria eram o combustível que costumava fazer o sangue de Gabriel ferver. Mas, naquele sábado, ele era apenas um fantasma na multidão.

Sentado nas últimas fileiras da arquibancada, com um boné preto puxado até os olhos e um moletom escuro, Gabriel tentava se tornar invisível. Ele viu, do alto, o time entrar em campo. Viu o Diego carregando a braçadeira de capitão. O elástico amarelo no braço de outro parecia um grilhão no peito de Gabriel. Era a sua braçadeira, o símbolo de tudo o que ele tinha construído e, em um momento de arrogância, jogado no lixo. O ar pareceu rarefeito, como se a altitude da arquibancada estivesse sugando o oxigênio de seus pulmões. O aperto no peito foi tão físico que ele precisou respirar fundo, sentindo o ar frio e pesado queimar os pulmões.

Desde que entrou na Central, Gabriel era o centro das atenções. Ele tinha o título, o respeito, o desejo de todas as garotas e a certeza de que o mundo girava ao seu redor. Agora, ele era o responsável por partir o coração da mulher que amava e por deixar seu time desamparado na semifinal do campeonato. O apito inicial cortou o barulho da arquibancada como uma lâmina.

Gabriel se inclinou para frente sem perceber, os cotovelos apoiados nos joelhos, os olhos fixos no campo. O corpo reagindo sozinho, como sempre reagira quando a bola começava a rolar, mas, dessa vez, ele não estava lá embaixo para resolver nada. Estava preso no banco da arquibancada, assistindo ao próprio lugar ser ocupado por outro.

O jogo estava rápido, truncado, com as duas equipes disputando cada bola como se fosse a última. O time da Central tentava manter a posse, roubando a bola no meio-campo, mas faltava algo. Faltava o ritmo. Faltava o comando. Faltava o eixo que mantinha aquela engrenagem girando. Faltava ele, e a percepção disso não trouxe orgulho, apenas uma náusea profunda.

— Fecha o meio, Diego... a zaga tá exposta! — ele sussurrou para si mesmo, as mãos suadas apertando os joelhos.

Mas o time estava perdido. Sem a voz de comando de Gabriel, o entrosamento era nulo. Lucas falhava na marcação, Daniel corria dobrado para cobrir buracos e Diego parecia esmagado pelo peso da liderança que não lhe pertencia.

O adversário pressionava alto, roubando a bola ainda no campo de defesa. Em poucos minutos, a Central já tinha errado mais passes do que costumava errar em um jogo inteiro.

Gabriel passou a mão pelo rosto, tenso.

— Porra… — murmurou, baixo.

Enquanto isso, a quilômetros dali, o silêncio da livraria era o único refúgio de Rafaela.

Ela tentava focar no inventário.

— Código 402, Prateleira B... — ela murmurava, passando o scanner pelos livros. Mas a voz de Diego não saía de sua cabeça. Ele está no fundo do poço. Ela balançou a cabeça, irritada consigo mesma. — Problema dele, Rafaela. Concentra.

Sua mão parou sobre a capa de um livro de crônicas sobre o Rio de Janeiro. Na capa, uma foto em preto e branco de um casal caminhando pela orla. O aperto no peito voltou, mais forte. Ela lembrou de Gabriel segurando a mão dela enquanto caminhavam pelo campus, do jeito que ele afastava o cabelo do rosto dela para beijar sua testa.

“Dignidade roubada”, ela repetiu para si mesma, como um mantra para recuperar a raiva. Mas a ira, que antes era um fogo alto e claro, agora parecia uma brasa úmida, fumaçando e obscurecendo tudo.

O celular no bolso do avental vibrou. Ela tentou ignorar, mas a insistência de Letícia era implacável.

Lelê: Amiga, o clima aqui está tenso. O time está levando um sufoco do Real de Jundiaí: 1 a 0 para eles.

Lelê: O Diego acabou de levar um amarelo. A torcida está começando a vaiar.

Rafaela bloqueou a tela, sentindo uma pontada de tristeza que a irritou. Ela não queria se importar. Ela queria que os Falcões vencessem, mas a imagem do Gabriel sendo o motivo daquela ruína era um lembrete constante de que tudo o que ele tocava acabava em ruínas.

"Ele escolheu isso", ela pensou, empurrando um carrinho de livros com mais força do que o necessário.

No campo, o apito final soou como um tiro de misericórdia: 2 a 1 para o adversário. Os Falcões estavam fora da final.

Gabriel viu os companheiros desabarem no gramado. Viu o Daniel cobrir o rosto com a camisa e o Diego chutar uma garrafa de água, frustrado. A torcida da casa começou a deixar o estádio em um silêncio fúnebre, alguns lançando insultos em direção ao time.

Ele continuou sentado até que o estádio estivesse quase vazio. A dor da perda do título não era nada comparada à percepção de que ele era o único culpado. Ele tinha tido tudo — a glória e o amor — e jogado tudo fora por pura vaidade.

Ali, sob as luzes que começavam a se apagar, Gabriel finalmente entendeu que ele precisava reconstruir o homem que ele queria ser, não para os outros, mas para si mesmo.

Se ele queria a redenção, não seria com gestos grandiosos, súplicas ou sentindo pena de si mesmo. Seria no trabalho duro. Ele voltaria ao vestiário na segunda-feira, mas não para exigir seu posto de volta. Ele voltaria para ser o primeiro a chegar e o último a sair. Não por mérito, mas por penitência. Ele provaria para o time — e, quem sabe em uma vida futura, para a Rafaela — que o homem que aceitou aquela aposta tinha morrido, e que o que restava agora não tinha preço.

📚📚📚

O sino da porta da livraria badalou, anunciando a chegada de alguém que não tinha o passo de um cliente em busca de poesia. Letícia entrou com o rosto ainda pintado com as cores do time, mas o brilho nos olhos tinha dado lugar a uma exaustão frustrada.

Rafaela estava organizando a seção de Literatura Clássica, as mãos movendo-se mecanicamente. Ela não levantou os olhos.

— Se veio falar do jogo, Lelê, eu realmente não quero saber. Meu turno acaba em vinte minutos e tudo o que eu quero é paz.

Letícia se aproximou, deixando a bolsa cair pesadamente sobre uma poltrona de leitura.

— Foi um massacre, Rafa. Não pelo placar, mas pelo clima. O time parecia uma barata tonta.

Rafaela deu as costas, fingindo profunda concentração na ordem alfabética de uma coleção de Machado de Assis.

— Problema deles.

Letícia suspirou, cruzando os braços.

— O Diego tentou, coitado... mas ele não tem aquela voz que faz os outros correrem até os pulmões estourarem.

Rafaela sentiu um aperto incômodo no peito. Ela tentou se convencer de que era apenas irritação.

Letícia caminhou até ficar de frente para a amiga, baixando o tom de voz.

— E o Gabriel…

A mão de Rafaela parou no ar, um centímetro antes de empurrar um livro para a prateleira.

— Eu não quero saber, Letícia.

— … Eu o vi saindo de fininho pelo portão lateral, Rafa. Ele estava com o mesmo moletom de três dias atrás. O cara que andava como se fosse o dono do campus agora parece que está tentando pedir desculpas ao chão por pisar nele. Dá raiva, sim. Mas dá um aperto no peito que eu não sei nem como explicar.

Rafaela soltou um suspiro pesado e finalmente desceu do degrau da escada da livraria, encarando Letícia.

— O Diego apareceu lá em casa hoje, antes do jogo — confessou Rafaela, a voz baixa, quase fundindo-se com o silêncio das prateleiras. — Disse que o Gabriel tinha sido suspenso do time. Eu achei que era exagero, uma tática barata para me fazer sentir pena...

— Não me pareceu uma tática, Rafa. Me pareceu o fim da linha — Letícia rebateu, aproximando-se. — Se fosse só pela aposta, ele estaria em campo hoje. Estaria marcando gols e sorrindo para a câmera, como sempre fez. Mas o Gabriel que eu vi hoje não conseguia nem olhar na cara da própria equipe. Um investidor não joga a própria empresa no lixo quando perde um contrato. Ele não está agindo como quem perdeu um negócio, Rafa... Ele está agindo como quem perdeu a razão de respirar.

Rafaela sentiu o nó na garganta apertar. Ela desviou o olhar para o livro de Machado de Assis que ainda segurava. A capa dura parecia fria contra suas palmas suadas.

— Ele é um idiota — ela murmurou, a voz menos firme do que pretendia. — Vai jogar a carreira fora por causa de... de quê? De orgulho ferido?

— Não parece orgulho, amiga. Parece luto. — Letícia tocou levemente o braço de Rafaela. — Eu sei o que ele fez. E longe de mim querer passar pano para o Gabriel, mas ver o capitão dos Falcões reduzido a um fantasma naquele moletom surrado... me fez perceber que a aposta parou de ser sobre dinheiro há muito tempo para ele. Só que ele foi burro demais em não contar a verdade, achando que iria te proteger da dor.

Rafaela fechou os olhos com força, tentando bloquear a imagem do Gabriel sozinho em um portão lateral.

— E o que eu faço com a sensação de que o cara que eu amava me precificou em mil reais, Lelê? Com a sensação de que sou insuficiente e insignificante?

— Você nunca foi insignificante, e o estado dele hoje é a prova disso. Se você não valesse nada, o mundo dele não estaria desmoronando junto com o seu.

Rafaela voltou a organizar os livros, mas o foco tinha ido embora. Ela tentou encaixar o exemplar de Dom Casmurro na prateleira, mas a ironia do título pareceu pesar toneladas. A mão tremeu, e o livro escapou, batendo no chão de madeira com um baque seco que pareceu o estalo de um osso quebrando. O som ecoou pela livraria, preenchendo o vazio que a raiva não conseguia mais ocupar.

⚽⚽⚽

Gabriel ouviu o som da moto de Daniel estacionando na garagem e o motor sendo desligado. Ele estava sentado no sofá da sala às escuras, os cotovelos apoiados nos joelhos, a mesma posição em que passara os noventa minutos na arquibancada. Seus olhos ainda ardiam com a imagem do Daniel cobrindo o rosto com a camisa após o apito final.

A porta se abriu. O ar pesado de derrota e frustração invadiu a sala junto com os dois. Diego e Daniel caminharam como se estivessem carregando chumbo nos sapatos.

Gabriel se levantou, a garganta tão seca que parecia feita de areia. Ele queria dizer que viu o esforço deles. Queria dizer que o segundo gol do Real de Jundiaí foi um erro de marcação que ele teria corrigido se estivesse lá. Mas as palavras morreram antes de sair. Ele não tinha mais o direito de falar de tática.

— Diego… Dan…

Gabriel deu um passo à frente, tentando buscar o contato visual que sempre tiveram. Diego levantou a mão, um gesto lento que cortou a frase de Gabriel no meio.

— Hoje não, cara. — Diego balançou a cabeça, desviando o olhar. — Hoje eu só quero esquecer que este dia aconteceu.

Ele lentamente tirou a braçadeira de capitão do bolso do agasalho. Por um segundo, Gabriel achou que ele a devolveria, um convite para o retorno. Mas Diego apenas a soltou sobre a mesa de centro, entre eles. O elástico caiu com um baque surdo, mas, para Gabriel, soou como o martelo de um juiz selando uma sentença.

— Eu só queria dizer que vi vocês — murmurou Gabriel, o peso da culpa o fazendo baixar os ombros. — Eu estava lá. Nas últimas fileiras.

Daniel, que ia em direção à cozinha, parou e olhou para ele pela primeira vez. Não havia raiva nos olhos dele, apenas uma decepção profunda e silenciosa.

— Então você viu o Lucas perdido? — Daniel perguntou, a voz rouca. — Você viu o Diego ser caçado em campo porque não tinha ninguém para distribuir o jogo? Você viu a gente se matando por um time que você resolveu abandonar?

Gabriel abriu a boca, mas Diego o cortou.

— Não tenta explicar, Gabe. A gente assistiu ao mesmo jogo. A diferença é que a gente saiu de lá com o corpo moído e a derrota nas costas. Você? Você só trouxe pra casa a sua ressaca física e moral. — O tom de Diego foi um corte seco, sem espaço para argumentações.

Diego subiu as escadas sem olhar para trás. Daniel seguiu logo depois, deixando-o sozinho com a braçadeira abandonada sobre a mesa. Gabriel pegou o elástico. Ele sentiu a textura do tecido, o cheiro de suor do amigo. Um soluço seco entalou em sua garganta. Ele foi até a cozinha, pegou um saco de lixo e começou a limpar os vestígios da sua semana de autodestruição, jogando fora as garrafas vazias e as latas que se acumulavam.

Ele lavou o rosto com água gelada, encarando o próprio reflexo no espelho da lavanderia. O homem das fotos da Micaela ainda estava lá, em algum lugar, soterrado por escolhas idiotas.

⚽⚽⚽

O sol de domingo entrou pela fresta da cortina, mas não trouxe o brilho das manhãs de vitória. Gabriel abriu os olhos e, por um segundo, a inércia tentou segurá-lo nos lençóis. O antigo Gabriel — aquele que acordaria ao lado de uma desconhecida qualquer, com a mente focada apenas na próxima festa ou no próximo gol — teria fechado a cortina e dormido até o meio-dia.

Mas aquele homem não existia mais.

Ele se levantou. O corpo reclamava da falta de ritmo, mas ele ignorou. Calçou os tênis, vestiu o mesmo moletom surrado e saiu para correr antes que a cidade — e seus amigos — despertassem.

As ruas estavam desertas. A cada passada, o impacto no asfalto ecoava em sua cabeça como uma contagem regressiva. Ele correu até sentir os pulmões em chamas, até que o suor estivesse ardendo em seus olhos, e a fadiga física conseguisse, por alguns momentos, esconder a fadiga mental. No momento em que parou para recuperar o fôlego, deu-se conta de onde estava. Do outro lado da rua ficava o parque, onde ele e Rafaela iam caminhar às vezes nas tardes de domingo. Seus pés o guiaram até ali, como se o seu corpo ainda a guardasse em cada célula.

Ele atravessou a rua, entrou no parque e sentou-se no banco de madeira, ainda ofegante, o suor esfriando na pele. O som do chafariz, que antes era o fundo musical dos risos e dos beijos dela, agora soava como um barulho estático.

Gabriel encarou as próprias mãos. Elas pareciam sujas. Mil reais. Ele nunca tinha parado para pensar no quão ridículo era esse valor até perder o que realmente não tinha preço. Ele trocou a confiança de Rafaela por um dinheiro que ele nem precisava, pelo valor de uma revisão no carro ou de algumas noites na balada. A matemática da sua vaidade tinha sido um erro de cálculo fatal.

Eu fui um lixo, pensou, fechando os olhos com força.

Mas, em um canto escuro de sua mente, a verdade era ainda mais complexa. Se o Diego não tivesse jogado aquela aposta na mesa, Gabriel jamais teria olhado duas vezes para a "Nerd Esquisita". Ele teria passado por ela no corredor como passou tantas outras vezes, cego pelo próprio brilho. A aposta foi o anzol que o puxou para fora da sua futilidade, mas foi também o veneno que matou o que eles construíram.

Ele odiava a aposta, mas amava o resultado dela. E agora tinha que lidar com a ironia cruel de ter se tornado um homem melhor justamente por causa da coisa mais desprezível que já tinha feito. Ele não queria apenas o perdão dela; ele queria ser digno da mulher que ele beijou naquele mesmo banco, meses atrás.

Ao voltar para casa, o silêncio era uma barreira física. Daniel estava na cozinha, de costas, preparando um café. O silêncio era interrompido apenas pelo tilintar da colher contra a xícara.

— Bom dia — arriscou Gabriel, a voz rouca do esforço.

Daniel nem se virou. Apenas pegou sua caneca e caminhou em direção ao quarto. O silêncio não era de raiva explosiva, era de indiferença. E a indiferença era o pior castigo; era o sinal de que ele não era mais parte do grupo. Ele era apenas um inquilino.

À noite, sentado na beira da cama, Gabriel hesitou com o celular na mão. Precisava ouvir vozes que não o vissem como o "responsável pela derrota dos Falcões" ou como o “estranho que devia mil reais de dignidade". Precisava ser apenas o filho que Cláudio e Gisele criaram para ser um homem de honra.

— Oi, pai... — disse ele, assim que a chamada foi atendida.

— Oi, filho! Espera aí… Gisele, vem aqui, é o Biel! — Gabriel sorriu. Era sempre o mesmo ritual; eles colocavam no viva-voz e falavam juntos, como se estivessem ali, sentados no seu quarto.

— Põe no viva-voz, querido! — ouviu a voz da mãe ao fundo.

— Pronto, estamos te ouvindo — anunciou o pai. — Como você está, meu filho?

— Tudo continua como sempre por aqui — interrompeu Gisele, animada. — Seu pai com graxa até os cotovelos e eu tentando enfiar conhecimento na cabeça dessas crianças.

Gabriel deu um riso curto. Sabia que a mãe reclamava, mas, mesmo aposentada, não largava as aulas por puro amor ao ofício, assim como o pai não abandonava as oficinas, apesar de ter funcionários para o trabalho pesado.

— E você? — Gisele insistiu. — Como está?

Gabriel soltou um longo suspiro antes de soltar um vago:

— Tá... tudo bem.

— E o time? — perguntou Cláudio. — Não tenho acompanhado as notícias, mas a semifinal é por esses dias, não é?

Silêncio.

— Filho? Alô, você ainda está aí?

— Tô, pai.

— Você está com a voz triste, Biel — Gisele interveio, com aquele sexto sentido materno infalível. — O que aconteceu?

— Eu fiz uma bobagem, mãe. Uma das grandes.

— Ai. Meu. Deus.

— O que foi, Gisele? — Cláudio perguntou, alarmado.

— De quantos meses, Gabriel? — A voz da mãe subiu uma oitava, e ele quase pôde ouvir o barulho do pano de prato sendo jogado sobre a mesa.

— O quê? — Gabriel piscou, genuinamente perdido.

— De quanto tempo a Rafaela está grávida, menino? Ai, Cláudio! Eu sabia que esse silêncio era suspeito! Gabriel, nós te demos educação, exemplos e camisinhas quando você saiu daqui… e agora? Como ela vai terminar a faculdade com um bebê? Você vai assumir, hein? Nem pense em ser como esses sujeitos que fogem e...

— Não tem bebê nenhum, mãe! — Gabriel cortou, fechando os olhos com força. — A Rafa não está grávida.

— Não? — Gisele perguntou, a voz murchando entre a decepção e o alívio.

— Não.

— Viu, Gisele? Agora respira e deixa o moleque falar! — Cláudio colocou ordem na casa com sua voz de trovão. — Gabriel, desembucha. Se não é neto, é o quê? Problema com a polícia? Com o time? Fale de uma vez.

— Eu perdi a Rafaela — Gabriel finalmente disse, a voz falhando. — E perdi o time. No começo do semestre, os caras fizeram uma aposta. Mil reais para eu ficar com a "nerd". E eu... eu aceitei, pai.

O som do outro lado da linha mudou instantaneamente. Não houve gritos. Gabriel ouviu apenas o suspiro arrastado do pai, o som que ele fazia quando um motor estava tão moído que não havia retífica que desse jeito.

— Você precificou uma pessoa, Gabriel? — A voz de Cláudio era baixa, carregada de uma decepção gélida. — O homem que eu criei achou que a dignidade de uma mulher valia dez notas de cem?

— Eu sei que fui um idiota, pai, mas eu a amo! Esqueci daquela droga de dinheiro no segundo em que conversamos de verdade. Mas a mentira ficou lá. E agora ela sabe. Todo mundo sabe.

— E o time? — Cláudio buscou a falha técnica na engrenagem.

— Fui suspenso. Perdemos a semifinal ontem porque eu não estava lá. Meus amigos não conseguem nem olhar na minha cara. Eu destruí tudo o que levei anos para construir em uma única noite de idiotice.

— Pois então escute bem — Cláudio disse, e Gabriel se endireitou na cama por puro instinto. — Não vou passar a mão na sua cabeça como quando você tinha cinco anos e quebrou o vaso da sua mãe jogando bola. Você não vai voltar para casa para se esconder; vai ficar aí e engolir cada vaia, cada silêncio dos seus amigos e cada olhar de desprezo daquela moça. Você vai trabalhar o dobro. Se está suspenso, vai cumprir a punição de cabeça baixa. Vai ser o cara que busca a água, que carrega as redes, o primeiro a chegar e o último a sair. Mesmo que não jogue um minuto sequer.

— Cláudio... — Gisele tentou suavizar, o coração de mãe falando mais alto.

— Não, Gisele. Ele não precisa de carinho agora, precisa de caráter. Gabriel, você agiu como um moleque. Agora trate de virar um homem. Conserte o que dá para consertar e aceite o que você quebrou para sempre. Mas não ouse ser um covarde.

O som da chamada encerrada ecoou como um disparo no quarto vazio. Gabriel continuou com o celular pressionado contra a orelha, ouvindo o tom de ocupado zombar de sua solidão. As palavras do pai ainda flutuavam no ar, pesadas como chumbo.

Não ouse ser um covarde.

Gabriel olhou para a mesa de cabeceira, pegou a braçadeira de capitão que Diego havia lhe devolvido e, em vez de guardá-la como um troféu ou jogá-la fora como lixo, ele a dobrou com cuidado e a colocou na gaveta do fundo.

Ele não a merecia hoje. Talvez nunca mais a merecesse. Mas o pai tinha razão. O tempo de se esconder sob o moletom tinha acabado. Era hora de consertar o que ele havia quebrado.


Notas finais
Chegamos ao fim de mais um capítulo, e a pergunta que fica é: será que ainda resta mais alguém para o Gabriel decepcionar? 👀 Já foi a namorada, o técnico, o time e agora os pais. O menino está fazendo coleção de decepções em tempo recorde. E o Gabriel que ligou para os pais querendo colo e ganhou mais uma sessão de esculacho. (Confesso: adorei.) A pobre da tia Gisele achando que vinha um netinho (sai pra lá! Não gostamos de plot de gravidez por aqui… ou gostamos? 👀 KKKK), mas ganhou foi um chá-revelação do desvio de caráter do filho. 😭 Agora quero saber de vocês: ainda estão com raiva do Gabriel ou ele já começou a entrar naquela fase perigosa do “quero bater nele, mas também quero colocar num potinho”? 👀