AMOR EM CAMPO

41 Capítulo 44: Viagem


Notas iniciais
Oi 🤍 Voltamos ao horário normal! Agora que as coisas estão mais tranquilas por aqui, pretendo voltar a postar mais cedo. Bom, vamos ao capítulo de hoje, que é muito especial para mim. Demorei para escrevê-lo. Reescrevi. Apaguei. Voltei. Pensei muito antes de postar, porque queria que fosse coerente com tudo o que eles construíram até aqui. Confesso que estou um pouco nervosa postando. O capítulo ficou meio longo… mas espero que vocês leiam com o mesmo carinho e a paciência com que escrevi. Boa leitura 💙

Na manhã da viagem, Rafaela acordou antes do despertador.

O quarto ainda estava meio escuro, a cidade quieta demais para um sábado. Ela ficou alguns segundos deitada, olhando o teto, sentindo aquela mistura estranha de empolgação e nervosismo.

Tomou banho e deslizou para dentro do vestido que Letícia havia escolhido estrategicamente. Ela completou o visual com os tênis baixos e a jaqueta jeans, sua armadura particular para enfrentar o mundo. Diante da mala, a hesitação: abriu e fechou o zíper três vezes, conferindo cada item como se pudesse levar a segurança de casa dentro daquela bagagem excessiva para uma viagem de apenas um dia.

Gabriel a buscou no horário combinado.

Desceu do carro sem pressa. Encostou na porta, usava a camiseta do time e uma expressão tranquila demais para quem carregava tanta pressão por dentro.

— Pronta? — perguntou.

— Acho que sim. — Rafaela sorriu, entrando no carro. — E você?

— Tô. Nervoso, mas tô.

Foi a primeira vez que ele disse isso em voz alta.

O ônibus do time já estava estacionado perto da universidade quando chegaram. O clima ali era outro: mais recolhido, mais sério. Poucas brincadeiras, fones de ouvido, olhares focados. Gabriel selou seus lábios rapidamente antes de se juntar ao time.

— Depois do jogo, a gente se encontra, tá? — disse baixo.

Rafaela fez um gesto afirmativo, observando enquanto ele se afastava.

No ônibus reservado às famílias, encontrou outras mulheres já sentadas em pequenos grupos. Algumas conversavam animadas, outras mexiam no celular. Quando ela hesitou na porta, sem saber onde sentar, uma morena de gestos acolhedores acenou.

— Oi, você é a Rafa, namorada do Gabe, né? Vem sentar com a gente.

Rafaela reconheceu Sabrina, namorada de Léo, quase de imediato. Já tinha visto fotos, ouvido histórias. Ao lado dela estavam mais duas meninas, rindo de alguma coisa dita em tom conspiratório. Reconheceu uma delas como Jennifer, a namorada de Lucas e melhor amiga de Brunna.

Jennifer chamava atenção sem esforço. Tinha a pele morena quente, o sorriso fácil e aberto, e um cabelo volumoso de cachos longos que emolduravam o rosto de um jeito vivo, quase luminoso. Os olhos escuros eram expressivos, atentos, e havia nela uma segurança tranquila, como alguém acostumada a ocupar espaço sem pedir permissão.

Sabrina, por outro lado, era o oposto sutil. Pele clara, traços delicados, quase perfeitos demais, como se tudo nela tivesse sido cuidadosamente alinhado. Os olhos claros observavam ao redor com curiosidade, e os fios negros e lisos caíam de forma impecável sobre os ombros. Ela parecia calma, confiante, pertencente.

Rafaela sentiu a insegurança pinicar sob a pele. Sabrina e Jennifer pareciam donas daquele espaço, enquanto ela se sentia uma intrusa tateando no escuro, consciente demais de cada movimento desajeitado que fazia.

— Sou. — respondeu, um pouco tímida. — Oi!

— Fica tranquila, — Sabrina disse, abrindo espaço no banco. — Primeira viagem sempre dá esse friozinho na barriga mesmo.

Rafaela sorriu, sentando-se.

Durante o trajeto, ouviu histórias de outros campeonatos, viagens cansativas, jogos perdidos por detalhe. Falavam dos meninos com uma mistura de orgulho e resignação, como quem já sabia que amar alguém ali significava dividir espaço com algo maior.

Rafaela escutava mais do que falava.

Pensava em Gabriel, provavelmente em silêncio no banco da frente, os ombros tensos, daquele jeito concentrado que ela aprendera a reconhecer.

Quando chegaram à cidade, o céu estava mais escuro do que ela esperava. O estádio não era grande, mas tinha aquela imponência típica de lugar onde decisões acontecem.

Os jogadores desceram primeiro.

Gabriel passou por ela sem parar, mas piscou num gesto rápido, quase imperceptível. Um código só deles.

No vestiário, o clima era denso.

O técnico falava firme, andando de um lado para o outro, prancheta na mão, a voz ecoando entre as paredes de concreto.

— Eles vão pressionar desde o primeiro minuto. Vão provocar erro, vão tentar desestabilizar. Não caiam nisso. Cabeça fria.

Alguns jogadores assentiram em silêncio. Outros fecharam os olhos, respirando fundo.

Quando o técnico terminou, o silêncio se instalou como uma camada espessa no ar.

Gabriel se levantou.

— Ok. Olhem para mim. — Esperou até ter a atenção de todos. — A gente chegou até aqui porque jogou junto. Porque confiamos um no outro. Porque corremos quando já não tínhamos pernas. Porque não largamos quando ficou difícil.

A voz dele não era alta. Segura.

— A gente treinou para esse momento. Lá fora, ninguém acredita tanto quanto a gente. Então vamos mostrar que a gente consegue. Juntos.

Alguns bateram palmas. Outros apenas balançaram a cabeça, concentrados. Mas o efeito estava ali.

Respirações profundas. O som seco das travas contra o chão.

Na arquibancada, Rafaela se sentou com as outras, mas mal conseguia acompanhar as conversas. O coração batia rápido demais. As mãos estavam frias, apesar do calor.

Quando os jogadores subiram para o campo, o barulho da torcida engoliu tudo.

Rafaela procurou Gabriel entre os outros jogadores.

Ele parecia maior ali. Menos o menino de riso fácil e mais o homem decidido, inteiro no próprio eixo.

O jogo começou intenso. Disputado. Pouco espaço para respirar.

Cada dividida arrancava reações das torcidas. Rafaela se inclinava para frente sem perceber, acompanhando cada movimento dele. Gritava quando precisava, prendia o ar nos ataques, levava a mão à boca nos lances mais duros.

O primeiro tempo terminou tenso, equilibrado, sem alívio.

No segundo tempo, o jogo ficou mais pegado. Mais físico.

Até que veio o lance.

Um jogador do time adversário entrou atrasado. O som do impacto foi seco, quase cruel. Gabriel caiu no gramado e não levantou.

Rafaela se ergueu num impulso, o coração disparado, as mãos tremendo.

No campo, os jogadores cercaram Gabriel. O médico correu. O tempo pareceu se arrastar.

Ela engoliu em seco, mal ouvia o que as meninas diziam ao lado. Tudo o que enxergava era ele ali, deitado, a mão no joelho, o rosto fechado de dor.

— Levanta, amor… por favor… — murmurou, quase sem voz.

O juiz chegou logo depois, apontando com firmeza para o jogador adversário. Cartão vermelho. Expulsão direta. A torcida reagiu num misto de vaias e aplausos.

Quando Gabriel tentou se levantar, apoiando-se primeiro no joelho, Rafaela sentiu o ar voltar aos poucos aos pulmões.

Ele deu dois passos. Acenou com a cabeça.

Estava bem.

Ela limpou as mãos suadas no tecido do vestido, sentindo as pernas fraquejarem agora que o pior parecia ter passado.

— Ele vai continuar — alguém disse atrás dela.

Rafaela apenas concordou, os olhos grudados nele.

A falta foi marcada próxima à área. Uma daquelas posições em que tudo pode acontecer.

Gabriel posicionou a bola com cuidado. Deu alguns passos para trás. Ajustou a meia. Passou a mão pelo cabelo suado. Olhou para o gol e puxou o ar devagar.

Rafaela apertou as mãos uma na outra.

Ele correu.

Chutou.

O chute saiu limpo. Forte. Preciso.

A bola fez a curva perfeita, passou por cima da barreira e morreu no fundo da rede.

Gol.

O estádio explodiu.

Rafaela gritou junto, sentindo o som rasgar a garganta. As mãos tremiam enquanto ela pulava sem perceber quem estava ao redor. Sabrina a abraçou primeiro, depois outra menina, depois mais alguém, tudo virou uma mistura de braços, risos e alívio.

No campo, Gabriel correu alguns passos antes de parar.

Apontou direto para ela.

E, como naquele jogo — o primeiro em que ela foi após ficarem juntos —, desenhou um coração no ar com as mãos.

Rafaela levou as duas mãos ao rosto, rindo e pulando ao mesmo tempo, os olhos marejados.

Depois do apito final, o clima era de alívio e comemoração. Abraços rápidos, risadas cansadas, fotos tiradas às pressas.

Quando finalmente se encontraram, Gabriel a puxou para perto sem dizer nada. Apenas a envolveu num abraço longo, o rosto enterrado no cabelo dela, como se precisasse daquele contato para se convencer de que estava tudo bem.

— Você me assustou — ela disse, a voz abafada contra o peito dele.

Gabriel apertou o abraço por mais tempo.

— Eu sei. — respondeu. — Mas passou.

Rafaela se afastou só o suficiente para encará-lo.

— Doeu?

— Doeu — ele admitiu, com um meio sorriso cansado. — Mas… valeu a pena.

Ela revirou os olhos, mas também sorriu.

— Idiota.

— Seu idiota — ele respondeu, dando um beijo na testa dela. — Escuta… o pessoal quer ir comemorar. Nada de mais. Só sair para comer alguma coisa.

Ele fez uma pausa, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado.

— Se você estiver cansada, ou não quiser ir… tá tudo bem. — completou rápido. — Eu só… gostaria que você fosse comigo.

Rafaela nem precisou pensar muito.

— Claro que quero ir — respondeu, sem hesitar. — Estou morrendo de fome e, para ser sincera, acho que não conseguiria dormir agora nem se tentasse.

Gabriel soltou um riso aliviado.

— Achei que fosse só eu — disse, passando o polegar de leve pelo braço dela.

Como Gabriel havia dito, a comemoração não foi exagerada, o time seguiu para um restaurante simples perto do hotel, com mesas grandes, cadeiras de plástico, cheiro de comida caseira e fresca.

Rafaela caminhava ao lado de Gabriel, os dedos entrelaçados, quando Diego chamou atrás dele.

— Capitão, sabe qual é a regra. Gol decisivo. Hoje você paga a conta, hein.

Gabriel riu, aquele riso mais solto.

— E eu achando que vocês iriam esquecer.

Rafaela observava tudo em silêncio, absorvendo aquele universo que até pouco tempo atrás era distante. Agora, parecia… permitido.

No restaurante, juntaram mesas sem muito cuidado. Rafaela acabou sentando entre Gabriel e Diego, o que acabou sendo bom, já que ambos faziam questão de puxar assunto com ela e a incluir naturalmente nos assuntos. Ela, por sua vez, participava das conversas, ria das histórias do jogo, fazia perguntas, provocava de volta. Em algum momento, os meninos começaram a comentar sobre a partida.

— Cara, aquele chute… — Lucas começou, empolgado. — Pensei que a bola ia subir demais.

— Eu também — Gabriel admitiu. — Só fechei os olhos e confiei.

Já Daniel contou uma versão completamente distorcida do lance da falta, jurando que Gabriel “caiu teatralmente”.

— Nada a ver — Rafaela cortou na hora. — Foi uma falta clara.

Gabriel levantou o copo em direção a ela, orgulhoso.

— Tá vendo? Minha garota sabe das coisas.

Quando a comida chegou, Gabriel se inclinou para ela.

— Tá tudo bem?

— Tá — respondeu baixo. — Tô me divertindo.

Ele apertou o joelho dela por baixo da mesa, satisfeito, antes de voltar a conversar.

Rafaela engatou numa conversa tranquila com Sabrina quando Jennifer — sentada de frente para ela — se debruçou um pouco mais sobre a mesa e puxou assunto.

— Então… Rafaela, né? — começou, com um sorriso que não chegava aos olhos. — Você ficou bem tensa lá na arquibancada. Dá para ver de longe que é a sua primeira vez acompanhando alguém assim.

Rafaela deu uma risada sincera.

— Pois é. Quase infartei — confessou. — Quando o Gabriel caiu, juro que achei que meu coração tinha parado.

Ao lado dela, Gabriel ouviu o próprio nome. Levantou o olhar instintivamente, mas não entrou na conversa. Apenas continuou observando.

Jennifer apoiou o cotovelo na mesa, girando o copo lentamente.

— É… foi emocionante mesmo — concordou, antes de virar levemente a cabeça. — Mas, se eu fosse você, tentaria não me envolver tanto assim. — Fez uma pausa mínima, calculada. — Todo mundo aqui conhece bem o Gabriel.

Rafaela sentiu o estômago apertar, mas manteve o rosto neutro.

— Ele não costuma ficar muito tempo com ninguém — Jennifer continuou, agora com um tom falsamente amigável. — Vive mudando. Uma hora é uma, depois é outra. — O olhar dela deslizou rápido, quase imperceptível, até Gabriel. — Com a Brunna foi assim também.

O nome caiu na mesa como algo sólido.

— Estavam juntos, todo mundo achava que ia longe… — Ela deu de ombros, fingindo leveza. — Aí, de repente, não estavam mais. E agora é você.

O sorriso de Jennifer se alargou, exibindo todos os dentes.

— Inclusive, já tem até um bolão rolando para ver quem vai ser a próxima.

Antes que Jennifer pudesse dizer mais alguma coisa, Gabriel pousou os talheres no prato com calma. O som foi baixo, mas suficiente.

— Chega, Jennifer.

Ela virou o rosto para ele, surpresa por um instante, antes de sorrir de novo, fingindo leveza.

— Ué, eu só estava comentando. Não precisa ficar na defensiva.

Gabriel a encarou sem sorrir.

— Não, você não estava comentando. — disse, simples. — Estava sendo desrespeitosa.

O ar à mesa mudou.

— Não sei quando você achou que tinha liberdade para sair fazendo fofoca sobre a minha vida por aí, mas acho bom parar. — Não havia nenhuma hesitação ou educação na expressão de Gabriel, só frieza e determinação.

Jennifer abriu a boca, mas ele continuou, sem elevar a voz:

— A Rafa não “veio depois” de ninguém. Ela não é substituta, nem intervalo. — Respirou fundo antes de falar cada palavra. — Ela é minha namorada. E a minha relação com ela não é assunto para piada, bolão ou comparação com ninguém. — continuou, agora mais firme. — E muito menos para você.

Jennifer tentou argumentar novamente, mas, mais uma vez, ele não deu espaço.

— Se ainda existe algum incômodo seu com o que faço ou deixo de fazer da minha vida, isso é problema seu. Não dela.

O silêncio que se seguiu foi constrangedor, porém definitivo.

Rafaela deu um sorriso de canto, sentindo o calor da presença dele ao lado. Então, antes que Jennifer tentasse se recompor, ela falou, a voz calma demais para alguém que acabara de ser atacada.

— Sinceramente, Jennifer… não sei por que as pessoas se incomodam tanto com meu relacionamento com o Gabriel, mas também, não irei perder meu tempo tentando entender. Então, se existe algum bolão rolando por aí, ele não me diz respeito. O que a gente vive não é espetáculo. É nosso.

Gabriel a encarou, o olhar cheio de orgulho.

Jennifer segurou o copo com mais força do que o necessário.

— Claro… — resmungou, o sorriso agora tenso. — Espero que dure.

Rafaela sorriu de novo. Dessa vez, sem gentileza nenhuma.

— Eu também. — respondeu. — Mas, se não durar, só diz respeito a nós dois e a mais ninguém.

E voltou a conversar com Sabrina, como se Jennifer tivesse deixado de existir.

Lucas, sentado ao lado da namorada, a cutucou discretamente com o joelho, num aviso silencioso de já chega. Ela desviou o olhar, claramente desconfortável agora.

O clima foi se soltando novamente. As conversas retomaram gradualmente, os pedidos chegaram, risadas surgiram aqui e ali.

Por baixo da mesa, Gabriel procurou a mão de Rafaela. Entrelaçou os dedos aos dela, apertando com cuidado.

— Tudo bem? — murmurou, só para ela.

Ela virou o rosto para ele, um meio sorriso surgindo.

— Uhum. — assentiu.

— Que bom. — Respondeu, aproximando-se um pouco mais. — Porque eu não ia deixar passar de jeito nenhum.

A noite seguiu assim: risadas, pratos vazios, histórias repetidas, o cansaço finalmente começando a pesar. Quando levantaram para ir embora, Gabriel passou o braço pelos ombros de Rafaela com naturalidade.

No caminho até o hotel, o ônibus estava silencioso. Alguns dormiam. Outros mexiam no celular. Havia risos baixos, conversas picadas.

Gabriel sentou-se ao lado de Rafaela.

Ela apoiou a cabeça no ombro dele. Ele ajeitou o corpo para acomodá-la melhor.

As luzes da cidade passando pela janela criavam sombras lentas no rosto dele. Rafaela observava o perfil concentrado, agora relaxado. O mesmo homem que minutos antes enfrentara um estádio inteiro parecia, ali, vulnerável de um jeito bonito.

Quando chegaram ao hotel, já era quase madrugada.

O prédio era simples. Fachada discreta. Nada de luxo.

Os jogadores pegaram as chaves na recepção, um a um. Conversas se despedindo, risos cansados.

Gabriel recebeu a dele e olhou para Rafaela.

— Vamos?

Ela fez que sim, sentindo o coração acelerar em expectativa.

Subiram juntos pelo elevador estreito. O som suave do motor preenchia o espaço pequeno demais para ignorar a presença um do outro.

Quando a porta do quarto se abriu, Rafaela entrou primeiro.

Era simples: cama de casal, uma mesinha, televisão pequena, banheiro ao fundo. Nada especial. Mas limpo. Quieto.

Rafaela deixou a mala perto da cama. Gabriel largou a mochila no chão e fechou a porta atrás deles. Ela foi até a janela, afastando um pouco as cortinas para observar o movimento da rua em frente ao hotel. Um sertanejo tocava baixo em algum bar próximo; carros passavam pela avenida, pessoas seguiam pela calçada como se aquela noite fosse apenas mais uma.

Gabriel se aproximou por trás, passando o braço em torno da cintura dela.

— Cansada? — perguntou, baixo.

— Um pouco. — Ela admitiu. — Mas é um cansaço bom.

Ele sorriu contra o cabelo dela.

— Também estou sentindo isso. Quer tomar banho primeiro?

Rafaela virou-se para ele.

— Pode ir você.

Gabriel concordou e foi até a mochila, pegou a necessaire e uma muda de roupas limpas e seguiu para o banheiro. A porta se fechou com um clique suave.

Rafaela permaneceu onde estava por alguns segundos.

Então, sentou-se na beira da cama, sentindo o colchão ceder sob o peso. Passou as mãos pelos cabelos, como se o gesto pudesse arrancar o cansaço do dia longo, o nervosismo acumulado, a adrenalina que demorava a baixar. O quarto tinha cheiro de desinfetante barato e tecido limpo. Nada de especial. Ainda assim, parecia carregado de algo inevitável.

Às vezes, ela ouvia o barulho dele se movendo, o estalo metálico de algo apoiado na pia, o fechar do box, o som da água batendo no azulejo vinha abafado.

Gabriel estava ali. Tão perto.

Ela apoiou os cotovelos nos joelhos.

Pensou no dia. No jogo. No momento em que ele caiu no gramado e tudo dentro dela parou. Pensou no jeito como ele a olhara depois do gol, no gesto do coração feito só para ela, no braço ao redor dos seus ombros no caminho de volta. Pensou no modo como ele a defendera no jantar.

Rafaela se levantou e desfez a mala sem pressa, mais para ocupar as mãos do que por necessidade. Tirou o tênis e dobrou a jaqueta. Cada gesto era pausado, quase ritualístico.

O som do chuveiro continuava.

E uma lembrança lhe atingiu, insistente, à noite no quarto dele, dias antes. O limite que haviam respeitado juntos. À vontade que crescera desde então, silenciosa, constante.

Rafaela caminhou até a frente do espelho. Observou o próprio reflexo. O vestido simples, o cabelo solto, o rosto ainda levemente maquiado. Não havia nada de extraordinário ali e, ainda assim, ela se sentia confiante.

Inteira.

Tirou o vestido. O som do tecido caindo sobre a cadeira pareceu alto demais no quarto silencioso. A lingerie veio depois, deslizando pelo corpo, sendo despidas com mãos que já não tremiam.

Ficou ali por um instante.

O barulho da água parecia mais próximo agora.

Rafaela fechou os olhos e inspirou profundamente, como quem se prepara para um mergulho.

Caminhou descalça até a porta do banheiro.

Encostou a mão na maçaneta fria.

Ela poderia voltar.

Mas não voltou.

Girou a maçaneta e entrou.

O vapor quente envolveu sua pele imediatamente. O banheiro era pequeno, simples, tomado pelo cheiro do sabonete e pela umidade.

Gabriel estava de costas para ela, sob o jato do chuveiro. A água escorria pelos ombros largos, pela curva do pescoço, seguindo caminhos que o vapor tornava quase irreais. Ele passou as mãos pelos fios molhados, afastando-os do rosto num gesto cansado, automático demais para ser ensaiado.

E naquele momento, ela apenas o admirou como quem guarda uma imagem, sabendo, no fundo, que nunca mais esquecerá.

Quando ele se virou e a viu ali, parada à porta do banheiro, o tempo pareceu desacelerar.

Os olhos de Gabriel se estreitaram levemente, não de um jeito vulgar ou invasivo, mas como se precisasse confirmar que aquilo era verdade. Que ela estava mesmo ali. Não como ele havia imaginado tantas vezes — em flashes rápidos, quase culpados —, mas inteira. Forte na coragem que exigia estar parada, nua, diante dele.

— Rafa… — chamou, baixo, quase como se dissesse o nome para si mesmo.

Ela permaneceu onde estava, sentindo o coração bater forte. O nervosismo vinha misturado a algo novo: uma confiança, ainda frágil, mas presente.

Gabriel abriu a porta do box sem desviar os olhos dela. A água respingou no chão, mas ele parecia cego para qualquer coisa que não fosse a mulher à sua frente. Estendeu a mão em direção a ela, aberta, molhada, um gesto simples, mas que continha mais reverência do que qualquer palavra.

— Vem cá.

Rafaela mordeu o lábio inferior, a coragem vacilando por um instante.

— A gente não precisa fazer nada. — Ele murmurou, a voz vibrando no espaço pequeno. — Pode ser só um banho. Juntos.

Ela concordou e aceitou a mão dele.

Quando entrou sob o chuveiro, a água quente tocou sua pele e arrancou um suspiro involuntário. Gabriel se afastou um pouco, dando-lhe espaço, respeitando até o ar entre eles.

Mas os olhos dele…

Esses não sabiam fingir.

Ele a olhava como quem contempla algo precioso.

O caminho da água pelos ombros dela, pela clavícula, descendo, seguindo o trajeto que antes só existia na sua imaginação. Agora ela estava ali. Ao seu alcance. E mesmo assim, ele não avançava.

Engoliu em seco.

Vai com calma, pensou. Isso não é só sobre você.

Inspirada pela admiração reverente no olhar de Gabriel, Rafaela sentiu a calma substituir o nervosismo ao encurtar a distância entre eles.Suas mãos subiram pelo peito dele, tateando a pele úmida e quente enquanto seus dedos contornavam a firmeza de seus ombros.

Quando as mãos de Gabriel encontraram a cintura dela, foi quase como se pedissem permissão antes de se firmarem ali.

Os lábios tocaram primeiro a têmpora dela, depois a lateral do rosto, demorando-se naquele ponto como se apreciasse cada centímetro. Quando finalmente encontrou a boca, o beijo foi calmo.

As línguas se buscando e se reconhecendo. As mãos dela desceram pelas costas largas dele, tocando cada pedaço de pele que alcançavam.

A outra mão de Gabriel subiu pela nuca de Rafaela, os dedos enroscando-se nos fios molhados com uma pressão firme, o suficiente para obrigá-la a expor a linha do pescoço. O gemido dela foi um som abafado, perdido entre o ruído da água, quando os lábios dele reivindicaram a pele exposta.

Gabriel não tinha pressa; com a ponta da língua, ele desenhava um trajeto lento e provocador, sentindo o pulso dela acelerar sob sua boca. Em resposta, as unhas de Rafaela cravaram-se em suas costas, um reflexo instintivo à respiração que já não obedecia a nenhum ritmo.

Sob o fluxo constante da água quente, ele a conduziu até que o corpo dela encontrasse o limite do box. O choque térmico do azulejo gelado contra as costas de Rafaela arrancou-lhe um suspiro agudo, um contraste que serviu apenas para tornar o calor de Gabriel, agora pressionado contra ela, ainda mais insuportável e necessário.

Gabriel parou por um segundo, olhando-a intensamente.

— Se em algum momento… você quiser parar, é só falar.

Rafaela abriu os olhos. Os dele, estavam atentos. Esperando.

— Não quero parar…

O sorriso que surgiu nos lábios de Gabriel foi quase aliviado.

O beijo veio diferente agora. Exigente, faminto. Havia uma ânsia nova em Gabriel — não brusca, não impaciente — mas inevitável, como algo que finalmente encontra espaço para existir.

Aquela era a mulher por quem esperara mais do que imaginava. O desejo que começara como atração tornara-se algo mais intenso, quase obsessivo. E agora ela estava ali, em seus braços.

As mãos dele firmaram-se nos quadris de Rafaela, agarrando as nádegas redondas e macias num toque decidido.

Ela não recuou. Pelo contrário, mordeu o lábio inferior de Gabriel, arrancando-lhe um som baixo, e então desceu os beijos pelo maxilar, pelo pescoço, marcando o caminho com pequenas mordidas.

A mão de Gabriel subiu pela coxa dela com uma possessividade que a fez estremecer. Ele a puxou, obrigando-a a enlaçar sua cintura, e o contato direto da rigidez dele contra o ventre dela fez o mundo de Rafaela girar.

Ele interrompeu o beijo novamente, apenas para poder observá-la, para guardar a imagem do momento em que ela jogou a cabeça para trás quando ele desceu o toque entre os corpos úmidos, parando entre as pernas dela, o próprio fôlego falhou ao perceber o quanto Rafaela já estava pronta.

Com a ponta dos dedos, Gabriel acariciou com paciência a carne macia e úmida, explorando a região sensível, buscando aquele ponto que ele sabia que a faria perder o controle.

— Nossa, Rafaela…

O corpo dela pulsava como um nervo exposto. Cada carícia, cada gesto, vinha como uma onda crescente de prazer. Ela mordia o próprio lábio, tentando conter os sons que insistiam em escapar.

— Gabriel, por favor… — o pedido escapou em um sopro quente, quase sem controle.

— Por favor, o quê? — provocou, passando a língua com malícia sobre os próprios lábios.

— Por favor, eu… — ela murmurou, as palavras quase se perdendo no desejo que tomava conta dos seus sentidos. O quadril se movia por instinto, buscando atrito contra a mão dele. — Quero você.

A confissão saiu em um sussurro.

— Sei que quer. — Gabriel se inclinou mais perto, os lábios roçando nos dela. — Consigo sentir o quanto você me deseja aqui.

Ele pressionou os dedos com mais firmeza, sem desviar os olhos dela por um segundo sequer.

— Mas acho que temos algo inacabado para resolver.

— Gabriel…

O protesto que quase escapou da boca de Rafaela morreu ali, engolido pelo beijo que veio em seguida. Lento. Intencional. Como se ele quisesse lembrá-la de que o tempo, agora, estava do lado deles.

Gabriel esticou o braço e desligou o registro, deixando o silêncio ser preenchido apenas pelo som da respiração pesada de ambos. Ele buscou a toalha e a secou com uma calma torturante. O atrito do tecido felpudo contra a pele hipersensível parecia incendiar cada terminação nervosa. Ele mantinha o olhar fixo, mapeando cada canto que descobria sob o pano.

Quando ele terminou, deixou a toalha cair, esquecida, no chão do banheiro.

— Quarto… — sussurrou ele, a voz repleta de uma urgência que já não tentava mais ocultar.

O ambiente parecia outro, agora, menor, mais privado.

Gabriel parou, colando seu peito às costas dela. Acariciou o braço de Rafaela sem qualquer pressa, usando apenas a ponta dos dedos para despertar sua superfície.

— Você tem certeza? — perguntou, a voz baixa, quase uma vibração contra a pele dela.

Rafaela confirmou com um movimento curto antes de responder.

— Tenho… — disse, sincera. — Só estou um pouco nervosa.

— Relaxa. Não vou pressionar você a fazer nada…

— Eu sei.

Ela tocou o rosto dele com carinho, os polegares roçando os pelos da barba que começavam a surgir.

— Eu quero isso. — Completou. — Só vamos devagar, tá bom?

— Devagar — repetiu, quase como um acordo entre os dois.

Enquanto os lábios se fundiam mais uma vez, Gabriel a guiou até que o corpo dela afundasse nos lençóis. Ele se acomodou entre as pernas dela, sustentando o peso, enquanto a mão livre iniciava uma expedição lenta pelo contorno do quadril dela, descobrindo cada curva como se reivindicasse um território que agora sabia ser seu.

Rafaela o puxou para perto, as mãos vagando pelo peito dele e sentindo os músculos retesarem sob seu toque. Quando Gabriel soltou um suspiro pesado contra a boca dela, Rafaela sorriu entre o beijo; ela tinha o controle daquela reação, e a sensação era inebriante.

Ele desceu com fluidez, a boca encontrando os seios dela com uma sucção firme que a fez arquear a coluna, o corpo reagindo ao comando dele antes mesmo que o pensamento se formasse. O rastro de beijos transformou-se em pequenas mordidas pelo abdômen, e o roçar da barba curta contra a pele sensível de Rafaela era o contraste perfeito entre a aspereza dele e a suavidade dela.

Gabriel parou por um segundo, os olhos encontrando os dela com uma intensidade predatória. A voz saiu rouca, carregada de promessas.

— Me diz, Rafa… — Ele desceu os lábios pela parte interna da coxa dela, o calor da respiração enviando choques elétricos por seu corpo. — Onde você quer que eu te toque? Onde você está morrendo de vontade de sentir a minha boca?

A agonia da expectativa era quase insuportável. Cada segundo de hesitação era uma tortura deliciosa.

— Aqui… — Rafaela cedeu, a voz vacilante, mas os dedos firmes enquanto se enroscavam nos cabelos dele, guiando-o para o centro do seu incêndio particular. — Por favor, Gabriel… aqui.

A súplica foi o estopim. Gabriel abandonou qualquer resquício de paciência, afundando o rosto entre suas pernas. Quando a língua dele encontrou o clitóris dela, o gemido que escapou de Rafaela foi alto e quebrado, ecoando pelo quarto como um hino de entrega. Ele continuou com um desespero impaciente, em movimentos rítmicos que a faziam perder o chão, saboreando-a até que não restasse nada além daquele contato e do gosto doce-salgado de Rafaela em sua língua.

— Deus… — ele grunhiu, a voz rouca de devoção e desejo. — Como você é gostosa.

Rafaela moveu-se sob ele, os dedos se perdendo nos lençóis, a respiração descompassada enquanto o prazer se acumulava, crescente, difícil de conter.

— É assim que você gosta, Rafa? — perguntou entre um deslizar e outro de língua, seus olhos fixos nos dela.

— Sim… sim… continua…

Os gemidos escapavam dela sem controle, cada vez mais frequentes, mais altos quando um dos dedos de Gabriel se juntou ao movimento, percorrendo por entre suas dobras macias.

Rafaela arqueou-se ainda mais quando a pressão se concentrou em seu ventre e se espalhou, incendiando cada sentido. O corpo agora tremia em espasmos, as pernas se contraíam sem aviso, a mente se perdia no turbilhão de prazer.

— Não para… não para. — A voz saiu entre súplica e rendição. — Gabriel…

E então veio, como uma onda, forte e inevitável, quebrando contra tudo o que ainda resistia. O clímax a atravessou com força, e Rafaela se deixou levar pela explosão que a percorreu e dissolveu qualquer barreira antiga.

Gabriel subiu o corpo lentamente, deixando o calor de Rafaela para trás apenas o suficiente para encará-la. Ela ainda tentava retomar o controle do próprio corpo quando ele se deitou sobre ela. Os lábios, ainda marcados pela sua excitação. Então, muito perto, quase como um segredo sussurrado apenas para ela, Gabriel murmurou:

— Você fica ainda mais linda quando goza gritando meu nome.

O gosto dela ainda estava em seus lábios quando ele a beijou. Mas, dessa vez, não havia doçura. O beijo era bruto, uma afirmação silenciosa de que ele queria mais, de que não havia acabado. E Rafaela queria o mesmo.

Ela empurrou o peito de Gabriel de leve, apenas o suficiente para fazê-lo deitar.

— Agora… é minha vez — disse, mais corajosa do que nunca.

O coração batia rápido, mas as mãos não recuaram.

Desceram com mansidão pelo torso de Gabriel. A ponta dos dedos acompanhando a linha do abdômen, sentindo a reação imediata sob o contato.

Ela beijou o canto da boca, a mandíbula, antes de morder de leve o lábio inferior dele.

Hesitante, ela moveu a mão até encontrar a rigidez e o calor pulsante de sua ereção contra sua palma.

A respiração dele quebrou conforme Rafaela movimentava a mão para cima e para baixo em sua extensão. Era como se cada terminação nervosa estivesse em curto-circuito, implorando por uma pressão que ele ainda não tinha coragem de exigir.

A boca dela continuou descendo, explorando. O nervosismo ainda estava ali, mas agora misturado a algo novo.

Vontade.

— Se eu fizer errado… você me fala?

Não esperou a resposta para continuar.

Envolveu-o com os lábios, experimentando pela primeira vez a sensação, o calor, a dureza, o sabor salgado do seu pré-gozo misturando-se à sua saliva. Tudo era inédito, intenso, mas não desagradável.

Gabriel soltou um som gutural, o corpo inteiro tenso.

— Droga, Rafaela…

Ela parou o movimento, puxou o ar pelo nariz e olhou para cima.

— Tá tudo bem…? Quer dizer… tô fazendo direito? — perguntou, a voz vacilando um pouco.

Com o polegar, Gabriel acariciou o rosto dela com ternura.

— Tá perfeito…

Ela sorriu, um sorriso quase envergonhado, mas verdadeiro. E, com aquele incentivo, voltou a abocanhá-lo, agora um pouco mais ousada. Ainda não havia domínio, mas havia anseio e uma disposição imensa de aprender.

Rafaela tentou sincronizar suas mãos e lábios, observando as contrações musculares do abdômen de Gabriel, os olhos semicerrados, o modo como ele mordia o lábio inferior.

— Isso… assim mesmo, amor.

A respiração dele se tornava mais ofegante a cada nova passagem da boca de Rafaela pelo seu membro.

As mãos enredaram-se com força nos cabelos dela, buscando qualquer ponta de controle. Gabriel sempre fora quem lidera, quem comanda, mas ali, ele já era refém. Sua boca o rodeando era delírio puro, e ele queria mais.

Rafaela aumentou o ritmo com pequenos ajustes. O corpo dele estremeceu, a respiração falhou por um segundo.

O tesão corria quente pelas veias de Gabriel, a razão escorrendo para um lugar perigoso demais. Ele segurou os cabelos dela com mais firmeza, obrigando-a a parar.

— Para… — a palavra saiu fraca, quebrada, como se fosse arrancada do peito. — Para. Para um pouco.

Rafaela parou no mesmo instante.

Os lábios estavam avermelhados, inchados. Um brilho úmido marcava o canto da boca, e os olhos castanhos, grandes e atentos, o observavam com uma mistura de curiosidade e insegurança, como se perguntassem em silêncio se fora longe demais.

Gabriel fechou os olhos por um instante, tentando recuperar o domínio sobre si.

— Ei… — chamou baixo, abrindo os olhos novamente. A mão subiu para o rosto dela, o polegar limpando com delicadeza o canto da boca. — Não é você. É que… você tá me deixando louco.

Rafaela permaneceu imóvel por um segundo, analisando as expressões de Gabriel, o rosto corado, o corpo suado, o cabelo naquela bagunça que agora ela ajudara a criar.

Então falou.

— Eu… — engoliu em seco, mas não desviou o olhar. — Eu queria te provocar.

Ela se aproximou um pouco mais, apoiando a mão no peito dele, sentindo o coração de Gabriel ainda disparado sob a pele.

— Queria ver você assim. — Completou, a voz mais firme agora. — Queria saber se… se você estava gostando.

Ele soltou um riso baixo, mais uma expiração pesada do que qualquer outra coisa. A mão que ainda segurava os cabelos dela deslizou até a nuca, puxando-a para cima.

— Rafa…

Ele a fez sentar-se sobre ele de novo, guiando cada movimento com cautela, os olhos presos aos dela, atento a qualquer sinal de dúvida.

— Eu gostei. — confessou, a voz grave, controlada à força. — Tanto, que eu estava a uma chupada de gozar na sua boca.

As mãos dele subiram pelas costas dela, firmes, protetoras.

— Mas hoje não é sobre mim. É sua primeira vez. Preciso cuidar de você. — acrescentou, encostando a testa na dela. — Do jeito que você merece.

O polegar acariciou a mandíbula dela, gentilmente.

— Você não fez nada errado. — Murmurou. — Só… me pegou desprevenido.

Ele a beijou então um beijo que dizia agora deixa comigo, sem apagar o que ela acabara de fazer.

Quando se afastou, manteve-a ali, próxima, os olhos escuros cheios de desejo.

— Quero muito te comer, minha nerdzinha. — disse baixo, a voz carregada de promessas.

Rafaela soltou o ar num suspiro breve. As palavras dele fazendo sua intimidade se contrair em expectativa.

— Vou te querer inteiro…

Gabriel travou o maxilar por um instante, lutando contra a urgência que a fala dela disparou em seu sangue. Ele colou a testa na dela, fechando os olhos para tentar manter o ritmo da respiração sob controle.

— Sou todo seu, Rafa. Cada pedaço. — Ele abriu os olhos, e a intensidade ali era quase palpável, uma mistura de adoração e fome contida.

Ele a trouxe para mais perto, o corpo dela deslizando sobre as cobertas até que seus quadris se alinhassem perfeitamente aos dele. Gabriel pairou sobre ela, os braços firmes sustentando o tronco enquanto seus olhos devoravam o rosto dela, com os lábios entreabertos e o olhar completamente entregue.

Havia uma nova urgência no ar, um peso que não era apenas físico, mas a necessidade de finalmente serem um só. Antes que ele pudesse encurtar a distância final e selar aquele encontro, Rafaela o chamou.

Gabriel pausou. Sua respiração, pesada e errática, batia contra o rosto de Rafaela enquanto ele lutava por um segundo de lucidez.

— Espera — ela murmurou, num fio tímido de voz.

Rafaela piscou, tentando emergir do nevoeiro de prazer que a envolvia. Ela o sentia ali, pronto, mas o instinto falava mais alto.

— Você tem… camisinha? — Ela perguntou, a voz vacilante, as mãos ainda presas nos ombros largos dele.

— Tenho. — Ele respondeu com uma afirmação curta, esticando o braço para alcançar a carteira na cabeceira sem desviar o olhar do dela nem por um milésimo de segundo.

Gabriel pescou o preservativo e o rasgou com os dentes, deslizando o látex pelo membro, sentindo o olhar atento e desejoso de Rafaela acompanhar cada um de seus movimentos.

— Prometo que serei o mais gentil possível… — sussurrou, ao deitar-se novamente entre as pernas dela. — Se doer, se ficar demais, você me avisa.

Rafaela sentia a ansiedade pulsando em suas veias. Ela se agarrou a ele, sentindo a pele quente de Gabriel contra a sua, o desejo bruto que emanava dele.

Tentando controlar o ímpeto de se enterrar dentro dela que crescia nele, Gabriel puxou o ar lentamente. Rafaela era tudo o que ele poderia desejar, completamente entregue a ele, sua pele quente, seu corpo delicioso ao alcance das mãos.

Então, ela o sentiu.

Ele começou a penetrá-la, pressionando contra a barreira de sua virgindade, rompendo-a com uma calma torturante. Uma onda de dor e desconforto percorreu o corpo dela, fazendo-a fechar os olhos e pressionar os lábios com força para conter um gemido de dor.

Ao notar a rigidez dela, Gabriel interrompeu o movimento no mesmo instante, buscando o refúgio do ouvido de Rafaela para sussurrar palavras de calma.

— Amor, você precisa relaxar, está bem? Sei que é desconfortável, mas preciso que confie em mim. Não quero te machucar.

O carinho em sua voz a desarmou completamente. A resistência foi se dissolvendo, e ele sentiu o momento exato em que Rafaela se entregou, os músculos abrindo caminho para recebê-lo enquanto a confiança substituía o desconforto.

— Porra, você é… maior do que eu me lembrava. — Sua voz saiu em um murmúrio quando ela sentiu Gabriel completamente dentro de si.

Ele deu um beijo casto na ponta do nariz dela antes de descer para o canto da boca.

— E você… Porra, Rafa… você é mais apertada do que imaginei.

Uma gota de suor escorreu pela têmpora de Gabriel, traçando um caminho lento enquanto ele lutava para manter o controle. Seu corpo implorava para possuí-la, para tomar aquele território que se abria para ele, mas o respeito por ela era a única coisa que ainda segurava seu instinto.

— Vou me controlar… mas, nerdzinha, eu te quero tanto que tá quase me matando.

O sorriso que surgiu nos lábios de Rafaela foi o convite final. Quando ela moveu os quadris contra os dele, buscando mais, Gabriel finalmente cedeu. A primeira estocada veio firme, um movimento que fez um gemido agudo e quebrado escapar da garganta dela. Ele fechou os olhos, sentindo o calor e a umidade de Rafaela o abraçarem de uma forma que nenhum livro ou teoria poderia explicar.

— Você não tem ideia do quanto eu precisava sentir você assim… — a voz dele soou rouca, vibrando de luxúria e uma entrega absoluta.

Ele se moveu outra vez, sentindo o aperto dela, e a sensação o fez perder a cabeça. O ritmo, que nasceu cauteloso, logo ganhou força e profundidade, cada estocada transformando a conexão em algo visceral. No silêncio daquele quarto de hotel, o som da respiração dela era o único ruído, transformando o espaço impessoal no lugar mais sagrado onde ele já esteve.

Ambos se moviam em uma sincronia instintiva, Gabriel sentia como se cada curva do corpo de Rafaela tivesse sido moldada para acolhê-lo. Apesar de toda a sua experiência, sentia-se um amador diante daquela revelação: a diferença abismal entre o ato físico e o sexo onde o sentimento dita o ritmo. Era uma descoberta avassaladora, que o deixava sem defesas.

Suas mãos desceram com urgência pelas coxas dela, os dedos pressionando a pele macia antes de cravarem-se ali com firmeza, puxando-a contra si em um ajuste de ângulo que o permitiu mergulhar ainda mais fundo, alcançando o âmago dela. Rafaela arquejou, a cabeça pendendo para trás, e Gabriel soltou um gemido baixo e rouco ao sentir o modo como ela o apertava, num abraço apertado e quente que parecia querer mantê-lo ali para sempre.

As unhas dela cravaram-se nas costas dele, arranhando a pele conforme ele ia mais forte. A dor dando lugar ao prazer.

Ele enterrou o rosto no pescoço dela, sua respiração quente contra sua pele sensível, e juntos criaram uma melodia de gemidos e sussurros roucos. O mundo ao redor desapareceu; só existiam eles, presos naquela bolha de desejo e entrega absoluta.

Rafaela sentiu o mundo ao redor começar a desmoronar em fragmentos de prazer.

— Gabriel… — O nome dele escapou como um sopro arfado enquanto ela enroscava as pernas nos quadris dele. — Eu… eu acho que vou…

A cada investida, a pressão interna se tornava um incêndio incontrolável. Gabriel a sentia pulsar ao redor dele, as paredes dela o apertando com fome, exigindo o fim daquela tortura deliciosa.

— Goza para mim, amor. — Ele ordenou contra o pescoço dela, a voz sendo apenas um rastro de eletricidade.

Ele acelerou. O ritmo tornou-se um galope frenético, levando-a ao limite. Quando o orgasmo finalmente a atingiu, uma onda de espasmos involuntários a percorreu, e Gabriel soube que também não duraria muito.

— Caralho…

A intimidade dela o envolveu como um abraço possessivo, quente e frenético, ordenhando-o enquanto ela ainda tremia sob ele. Gabriel cravou os dedos no quadril de Rafaela com uma força que deixaria marcas, desferindo as últimas estocadas erráticas e profundas antes de perder completamente o controle e se entregar ao abismo junto com ela.

O mundo escureceu por um segundo enquanto ele se afundava nela uma última vez, gemendo contra seu pescoço, sentindo-se ser arrastado para um estado de êxtase.

O tempo pareceu congelar.

Os dois ficaram ali, ofegantes, ainda entrelaçados, tentando processar o que acabara de acontecer. Gabriel sentia-se completamente saciado e, ao mesmo tempo, estranhamente vulnerável.

Com um suspiro pesado, ele saiu de dentro dela e se jogou de costas na cama, ainda tentando regular a respiração.

Quando se afastou por um instante para ir ao banheiro. O vazio no colchão fez Rafaela encarar o teto, o peito ainda subindo e descendo enquanto tentava processar a avalanche dos últimos minutos. Quando ele voltou, o calor da pele dele contra a dela pareceu o único lugar certo no mundo.

Rafaela virou o rosto para ele, arqueando uma sobrancelha de forma brincalhona.

— Isso foi…

Ele sorriu, virando-se para encará-la.

— Intenso — disse, a voz rouca e carregada de exaustão satisfeita. — É a primeira vez que sinto algo assim, para ser sincero.

Rafaela o encarou, duvidosa.

— Mas você já esteve com várias garotas antes.

Ele soltou um suspiro, enredando os dedos nos fios desalinhados dela antes de ancorar a mão em sua nuca.

— Transar por transar e fazer amor… são coisas diferentes.

O coração dela disparou com aquela confissão.

— E foi isso que a gente fez?

Gabriel não queria falar demais. Mas havia algo ali, algo verdadeiro que ele não podia negar.

— Foi, sim. — Sua voz saiu carregada de uma sinceridade quase assustadora.

Rafaela sentiu um nó apertar em seu peito. Suas mãos deslizaram pelo peito dele, os dedos levemente trêmulos, como se tentassem entender as novas sensações que a dominavam.

A palavra veio à sua mente antes mesmo que pudesse evitá-la. Amor.

Simples, mas, ao mesmo tempo, complexa.

Ela se mexeu e sentiu algo quente escorrer por entre as coxas. Curiosa, encarou os lençóis e lá estava: uma mancha pequena de sangue no branco dos tecidos amarrotados.

Rafaela encarou a mancha, sem saber se devia dizer algo. Porém, antes que pudesse se retrair, sentiu os olhos de Gabriel sobre ela. Ele também viu.

— Ei — murmurou, aproximando-se, os dedos traçando lentamente a curva de seu quadril até sua coxa. — Tá tudo bem.

Ela suspirou ao sentir o toque pela pele sensível, passando perigosamente perto da mancha, como se nada ali o afastasse do desejo.

— Deixei sangue no lençol… — sussurrou, sentindo o calor das mãos no meio de suas pernas.

Gabriel inclinou-se para ela, sua respiração roçando em sua orelha, fazendo o corpo dela se acender novamente.

— E eu achei sexy pra caralho — ele confessou, a voz vibrando contra a pele dela. — Você confiou em mim para ser o seu primeiro. E isso me deixa alucinado.

Ela sorriu, mordendo o lábio, sentindo-se sensível e receptiva. Ainda um pouco dolorida… mas não ao ponto de recusar mais dele.

Não, depois da forma como ele a olhava agora, como se fosse a única coisa que importava no mundo.

Gabriel não pôde evitar sorrir também.

A luz fraca da lua, entrando pela janela, realçava o tom rico da pele de Rafaela — um marrom profundo e quente — e desenhava com suavidade os contornos delicados de sua expressão. Por um instante, ele se perdeu ali.

Ela era linda. Tão linda que chegava a doer.

— Você… é realmente muito linda.

Rafaela desviou o olhar por um momento, sentindo um calor gostoso se espalhar pelo peito.

— Sou nada.

— Você é, sim — insistiu ele, com uma firmeza tranquila, como quem diz algo que não admite discussão. — Desde a cor da sua pele… até essas pintinhas no seu rosto que parecem constelações. — Ele segurou o queixo dela, o polegar acariciando de leve o lábio inferior. — Esses lábios que eu não consigo parar de beijar.

A voz dele baixou um pouco.

— E mais do que isso… você é inteligente, forte, interessante. Delicada quando quer ser… e intensa quando confia. Isso me encanta. — Os olhos dele encontraram os dela. — Você me encanta. Cada detalhe seu faz de você a mulher mais linda que eu já vi.

As palavras bateram fundo.

Rafaela sentiu os olhos arderem por um segundo, mas se conteve, sorrindo com ternura. Por tanto tempo, tentara se convencer de que precisava manter distância, de que confiar era perigoso. Mas ali, sentindo o calor de Gabriel tão perto e ouvindo aquelas palavras ditas sem pressa, percebeu que não havia mais por que fugir.

— Você realmente acha isso? — perguntou, com um sorriso bobo brincando nos lábios.

— Acho. — Ele confirmou, roçando os lábios na bochecha dela.

Houve um pequeno silêncio confortável antes de ele inclinar a cabeça, o tom mudando para algo mais casual… e perigosamente provocador.

— Sabe… — começou. — Eu até tentei ser todo cuidadoso, delicado… mas ficou difícil me controlar. Você tem esse jeitinho de nerdzinha inocente, mas geme feito uma pu…

— Gabriel! — protestou, dando um empurrão fraco no peito dele.

Ele riu baixo, abraçando-a de volta.

— Ué! Mas é verdade. Tem ideia de como é difícil resistir quando você geme daquele jeito?

Ela deu um tapa no peito nu dele.

— Como pode, num minuto você faz o elogio mais fofo do mundo e no outro me vem com essa.

— Mas os dois elogios foram fofos, amor. — Provocou.

Ela enterrou o rosto no pescoço dele, ainda envergonhada, mas sorrindo.

Enquanto se aconchegava nos lençóis macios, sentia o corpo relaxar. Gabriel voltou a se perder nos fios escuros dela, repetindo o gesto de antes, como se reafirmasse, com aquele carinho silencioso, que tudo aquilo era real. Ela fechou os olhos, respirando fundo, o cheiro amadeirado do perfume dele misturado ao suor, a batida firme do coração contra seu ouvido… era um som tranquilizador. Um conforto que nunca soube precisar.

Até agora.


Notas finais
Terminei esse capítulo com o coração acelerado. Quando a ideia surgiu, eu sabia que não queria que fosse apenas uma cena hot. É a primeira vez deles. É a primeira vez da Rafa. E eu queria que fosse sobre confiança, cuidado e escolha — não apenas sobre sexo. (O que não quer dizer que eles não vão explorar mais esse lado… mas sem spoilers 👀😂) Se você acompanhou cada etapa até aqui, sabe que nada entre eles foi por impulso. E isso era muito importante para mim. Agora eu quero saber: * Vocês sentiram que essa primeira vez respeitou a evolução dos dois? *Qual parte mais mexeu com vocês? * E… vocês estavam esperando por esse momento? * Vocês gostam de capítulos assim, mais longos e detalhados? Se esse capítulo foi especial para você também, favorite, salve e comente 💙 Isso me ajuda mais do que vocês imaginam. Sexta a gente continua… mas agora nada é igual antes. ✨