O movimento na livraria estava fraco naquela tarde.

Rafaela já tinha feito tudo o que era possível para matar o tempo: recolocara nos lugares os livros que os clientes desistiram de levar, respondera mensagens no WhatsApp da loja, embalara pedidos, limpara o balcão duas vezes, a segunda sem necessidade real, só para ocupar as mãos.

Após horas de tédio, enfiou a mão no bolso do avental preto, onde o celular vibrava esquecido.

Uma mensagem não lida de Letícia.

Ela abriu.

Letícia:

Amiga, me empresta seu notebook? Preciso terminar um trabalho e o meu tá só pela misericórdia. Preciso mandar arrumar, mas tô sem tempo. 💸

Rafaela arqueou uma sobrancelha, soltando um sorriso curto.

Rafaela:

Pode pegar. Tá no meu guarda-roupa.

Enquanto esperava a resposta, abriu a conversa com Gabriel. A última mensagem era dele, enviada pouco antes do treino.

“Gata, vou pro treino agora. Te busco mais tarde.”

Ela respondeu quase na hora.

“Tá. Vê se não se mata. ❤️”

Visualizado.

Nada depois disso.

Rafaela bloqueou o celular, mas, antes de guardá-lo de volta, resolveu dar uma olhada rápida no Instagram. Um hábito quase automático.

Rolou a tela sem pensar muito. Notícias. Stories aleatórios. Um vídeo de receita que nunca faria. Um cachorro ridiculamente fofo, curtiu sem hesitar. Compartilhou um meme com Letícia.

Estava prestes a fechar o aplicativo quando a tela atualizou.

E então apareceu.

A foto ocupava quase toda a tela.

Gabriel, no campo de treino, sem camisa. A pele brilhando de suor, o corpo tenso no instante exato em que a bola pairava no ar. Abdômen definido, braços fortes, tatuagem à mostra. O céu azul atrás, o gramado verde contrastando com a pele dourada.

Era uma foto bonita. Muito bonita.

Na legenda, uma frase curta:

“Sempre no jogo. Sempre à frente.”

Rafaela sorriu. Era a cara dele.

Ia curtir.

Mas, antes, abriu os comentários, já imaginando escrever algo simples, um “meu atleta”, talvez, ou uma brincadeira qualquer que só os dois entenderiam.

Porém, o sorriso morreu antes dos dedos tocarem o teclado.

Os comentários se acumulavam.

“Que isso, hein? Cada dia melhor. 😏”

“Oi, sumido. Me responde no direct. 👀🔥”

“Que delícia de homem. 🤤”

“Saudades, gato.”

Ela rolou a tela.

Mais comentários.

O incômodo começou como uma fisgada pequena, quase racional.

É só uma foto.

Ele é bonito.

Isso é normal.

Então viu nomes conhecidos. A maioria eram meninas da faculdade. Algumas do mesmo curso que o dela.

O estômago se apertou.

E então, lá estava. Um em específico fez seu sangue gelar.

@mar_demarina: Cada dia mais gostoso, hein @gaab10_. Quando vai aparecer no bar novamente? Da última vez você me deu um perdido. Mas na próxima não me escapa. 😏😈

O rosto de Rafaela esquentou na hora.

Antes que pudesse pensar melhor, clicou no perfil.

Aberto.

A tal Marina era linda. Não havia como negar. Fotos bem produzidas, roupas pensadas, ângulos perfeitos. Cabelos loiros longos. Corpo esculpido, sorriso confiante.

Rafaela desceu o feed devagar, sentindo uma mistura ácida de curiosidade e raiva.

Até que parou.

Uma foto de três meses atrás.

Marina sorria para a câmera, segurando uma caneca de chopp enorme nas mãos. Vestia uma camisa preta, com um decote em V que realçava os seios. Na logo estampado no canto superior direito da camisa, lia-se “Barcharelado”, o bar onde Gabriel costumava ir com os amigos.

Os comentários eram muitos.

Mas um deles fez o mundo de Rafaela ficar em silêncio.

@gaab10_: O melhor bar. O melhor chopp. A melhor garota 😜

Ela sentiu o ar travar na garganta.

Não era só ciúme.

Era o contexto.

Três meses atrás eles já se conheciam. Já havia tensão. Já havia provocações, conversas demais. Já havia… algo.

Rafaela bloqueou o celular com mais força do que o necessário.

Soltou o ar pesadamente pelo nariz.

Você não é paranoica, disse a si mesma.

Mas também não vai bancar a trouxa.

Antes que pudesse afundar mais naquele buraco, a porta da livraria se abriu.

— Boa tarde — disse um cliente, sorrindo educadamente.

Rafaela devolveu o sorriso sem emoção, guardando o celular no bolso do avental. Mas algo dentro dela já tinha mudado. O incômodo não passou. Ele se acomodou, frio e pesado.

Esperando.

Quando o turno terminou, Rafaela saiu da livraria com a sensação de que o dia tinha ficado pesado demais para o próprio corpo.

O celular vibrava na mão. Ela não respondeu.

Nem quando Gabriel ligou.

O carro estacionou em frente à livraria. Gabriel desceu com o sorriso fácil de sempre.

— Oi, gata!

Tentou beijá-la. Rafaela virou o rosto.

O gesto foi pequeno, mas suficiente.

— O que foi? — ele franziu a testa. — Aconteceu alguma coisa?

Ela cruzou os braços.

— Aconteceu.

Gabriel deu um passo para trás, a postura mudando de relaxada para alerta.

— Quer falar aqui ou prefere esperar chegar lá em casa?

— Aqui tá ótimo.

Ele respirou fundo.

— Tá… então o que foi?

— Vi a foto que você postou hoje.

— Ah! — Ele deu uma risada curta. — O Diego que tirou. Ficou boa, né?

— Ficou.

— Então?

Rafaela sustentou o olhar

— Você acha normal aquele tipo de comentário?

O ar pesou na hora.

— Rafa, é Instagram. Gente comenta.

— Pois é, Gabriel. — ela cortou. — Gente comenta. Gente flerta. Gente chama você de gostoso, de delícia. Gente que você conhece. Que eu conheço. Gente da faculdade.

— Eu não respondi ninguém.

— Você não precisava. — retrucou. — Você deixou ali. Aberto. Como se fosse normal.

Ele passou a mão pelo rosto.

— Eu não posso controlar o que os outros comentam.

— Mas pode controlar o que você alimenta.

O impacto foi imediato.

— Sério isso? — perguntou, incrédulo. — Você não acha que tá exagerando, não? Eu não alimentei nada, só postei uma foto.

— Exagero? — ela rebateu, sentindo a raiva subir. — Você acha que tô exagerando por não gostar que a Marina sei-lá-das-quantas chame meu namorado de gostoso e diga, para quem quiser ver, que da próxima vez que te encontrar você não escapa?

O nome saiu antes que ela pensasse.

— Rafa…

— Não. — ela ergueu a mão. — Agora é minha vez.

Puxou o celular do bolso e destravou a tela com um movimento rápido.

— Você comentou “a melhor garota” numa foto dela há três meses — disse, sem desviar o olhar. — Não foi um estranho. Foi você.

Gabriel engoliu em seco.

— Isso foi antes da gente…

— Foi antes da gente assumir — corrigiu. — Não antes da gente começar.

Ele bufou, frustrado, passando a mão pela nuca.

— Eu não fiquei com ela. Não fiquei com ninguém depois que a gente começou a se envolver.

— Não é sobre isso! — Rafaela explodiu, finalmente deixando escapar a tensão que vinha segurando o dia inteiro. — É sobre respeito. Sobre você entender que agora não se trata mais só de você.

O olhar dela estava firme, mas havia algo quebradiço ali também.

— Confiei em você — completou, mais baixo. — E isso não foi fácil.

Gabriel deu um passo em direção a ela.

— Eu errei. Não devia ter comentado na foto dela. Nem deixado aquela zona nos comentários.

— Errar não é o problema. — Ela respondeu. O problema é repetir padrões e achar que vou fingir que não vejo.

— Eu não sou mais aquele cara — ele rebateu, a voz subindo um pouco. — Caramba, eu tô tentando!

— Tentar não é o mesmo que mudar. — Rafaela respondeu, dura. — E eu não vou ser a mulher paciente que aceita migalha de maturidade.

Ele fechou os olhos.

— O que você quer de mim, então?

Ela soltou o ar devagar.

— Eu quero saber se você quer ser meu namorado ou se só gosta da ideia de ter alguém enquanto continua agindo como se estivesse disponível.

— Eu quero você — respondeu sem hesitar. — Mas ainda tô aprendendo a ser o cara que você merece.

— Então aprende rápido. Porque eu não vou competir com comentários de periguete de Instagram.

Ela se virou, caminhando em direção ao ponto de ônibus.

— Rafa…

— Não vem atrás de mim. — pediu, sem virar. — Hoje não.

Gabriel ficou parado, vendo-a se afastar. Pela primeira vez desde que assumiram, o medo de perdê-la não era uma hipótese. Era real. E a culpa não era de ninguém além dele.

⚽⚽⚽

Gabriel entrou em casa batendo a porta com mais força do que pretendia.

As chaves voaram da mão dele e caíram sobre a mesa da sala com um estalo seco. Passou as mãos pelos cabelos, puxando os fios, como se o ar não estivesse entrando direito nos pulmões.

— Porra… — murmurou, chutando o pé do sofá.

Na cabeça, a discussão ainda rodava em looping.

Exagero.

Era essa a palavra que sua mente usava como escudo.

Desde quando havia virado crime postar foto no Instagram?

Jogou-se no sofá, afundando nas almofadas, o corpo pesado depois do treino e da briga. O celular vibrou na mão.

Uma notificação.

Abriu. Lá estava a foto.

Ele estava brincando com os amigos depois do treino, trocando passes, fazendo algumas embaixadinhas, quando Diego tirou. Uma imagem simples. Esforço, foco, rotina. Nada pensado além disso.

O número de curtidas subiu rápido: 1.247.

Gabriel franziu o cenho. Não era pouco, mas também não era nada fora do normal. Sempre que postava algo, acontecia aquilo.

Abriu os comentários. E foi ali que o gosto amargo se instalou de vez.

Mais da metade era de mulheres. Algumas conhecidas, outras nem tanto. Elogios escancarados, emojis sugestivos, piadinhas com duplo sentido. Comentários que ele já tinha visto outras vezes, em outros momentos da vida, só que agora pesavam diferente.

Entre eles, o da Marina. Intacto.

“...Da última vez você me deu um perdido. Mas na próxima não me escapa. 😏😈”

Ele trincou os dentes. Na última vez em que a encontrou no bar, mal dera conversa. Como iria imaginar que ela comentaria aquilo?

Rolou a tela mais uma vez, buscando algo que salvasse o dia.

Não encontrou.

Nenhuma curtida dela.

Nenhum comentário.

Nenhuma reação.

Nada da Rafaela.

O silêncio da casa parecia gritar.

Sem pensar muito, tocou nos três pontinhos no canto da postagem.

Excluir Mídia.

Confirmar.

A foto sumiu.

Largou o celular no sofá ao lado, bufando. Não sentiu alívio. Só um vazio irritado, uma mistura de orgulho ferido com cansaço.

Foi assim que Daniel o encontrou.

Entrou em casa cantarolando alguma música chiclete, fones no ouvido, jogando a mochila num canto.

— Ué — disse, olhando em volta. — Achei que você ia buscar a Rafaela.

Gabriel nem se mexeu.

— Eu fui. Mas ela não quis vir comigo.

Daniel parou no meio da sala. Bastou olhar para a postura dele — os ombros tensos, o olhar perdido no nada — para entender.

Tirou os fones devagar.

— Deu merda?

Gabriel soltou um riso curto, sem humor.

— Muita merda. — esfregou o rosto com as mãos. — Tô até agora tentando entender o que rolou.

— Tá. — Daniel cruzou os braços. — Desembucha.

Ele contou. Do jeito dele. Rápido, defensivo. Quando terminou, Daniel ficou em silêncio por alguns segundos, coçando a nuca.

— Cara… — começou devagar. — Às vezes fico impressionado.

Gabriel o encarou.

— Impressionado como?

— Em como você é inteligente para umas coisas e completamente tapado para outras.

— Ah, pronto. — Gabriel bufou, impaciente. — Vai tomar o lado dela agora?

— Não é tomar lado. É raciocinar. — Daniel sentou de frente para ele.

Gabriel cruzou os braços, contrariado.

— Imagina que você abre o Instagram e vê que a Rafaela postou uma foto. Sozinha. Só de biquíni. Linda pra caralho. — Daniel pausou, esperando a imagem se formar. — Aí você abre os comentários e tem um monte de marmanjo comentando “que gostosa”, “ah, se eu te pego”, “saudades dessa boquinha”.

O estômago de Gabriel revirou.

Lembrou do que sentiu ao imaginar os caras da faculdade descobrindo o que ela escondia sob aquelas roupas largas. O sangue subiu para o rosto na hora.

Daniel continuou, calmo demais:

— Me diz com sinceridade. Você ia achar normal? Ia conseguir levar de boa?

Gabriel abriu a boca para responder. Fechou. A resposta veio fácil demais e era justamente isso que incomodava.

— … não.

Daniel assentiu, como quem já sabia.

— Então. — deu de ombros. — Não é sobre a foto. É sobre o que ela sentiu.

Gabriel recostou a cabeça no encosto do sofá, encarando o teto. Pela primeira vez desde a briga, a certeza absoluta de que estava certo começou a rachar.

— Tá. E o que faço, então? Nunca mais posto nada? Viro um monge? — retrucou, ainda na defensiva.

Daniel riu.

— Não, porra. Você não precisa sumir do mundo. Mas também não pode fingir que isso não significa nada. — Ele se inclinou para frente. — Para você são só comentários. Para ela, é um lembrete de que o mundo inteiro ainda acha que você tá na pista.

Gabriel engoliu seco.

— Mas eu não quero o mundo inteiro. Quero ela. Isso devia contar, não?

— Devia. — Daniel concordou. — Mas não é isso que você mostra quando reage chamando ela de exagerada.

— E o que você faria?

Daniel pensou por um segundo.

— Primeiro: não minimizaria. — levantou um dedo. — Segundo: não transformaria isso numa disputa de ego. — outro dedo. — Terceiro… — deu de ombros. — talvez fosse lá e dissesse: “Eu não pensei por esse lado. Me ajuda a entender o que te machucou.”

Gabriel soltou um riso curto, cansado.

— Parece simples quando você fala.

— Relacionamentos não são simples. Mas também não são guerras. E você tá agindo como se estivesse sendo atacado, quando, na real… — inclinou a cabeça — ela só tá com medo de te perder.

As palavras ficaram suspensas no ar.

Gabriel pegou o celular, girando-o entre os dedos. Abriu a conversa com Rafaela. O último visto ainda ali, imóvel.

Pensou em mandar uma mensagem. Talvez ligar. Mas decidiu esperar — precisava que ambos estivessem de cabeça fria. Talvez estivesse começando a entender que mudar não era só evitar erros antigos.

Era aprender a lidar com os novos.


📚📚📚


Rafaela mexia o refogado do arroz pela terceira vez, como se estivesse tentando dissolver os próprios pensamentos no fundo da panela.

O cheiro de alho queimado ainda pairava no ar. Ela abaixou o fogo e apoiou as mãos na pia, encarando o azulejo à sua frente.

A porta se abriu atrás dela.

— Rafa? O que você tá fazendo em casa? — a voz de Letícia veio acompanhada de uma careta. — E que cheiro de alho carbonizado é esse?

Rafaela virou devagar, forçando um sorriso fraco.

— Estou fazendo o jantar.

Letícia ergueu uma sobrancelha, deixando a bolsa no sofá.

— Aconteceu alguma coisa? Pensei que você fosse dormir no Gabriel hoje.

Rafaela abriu a boca para inventar uma desculpa, mas o peso no peito venceu.

— Eu ia… — disse, girando a colher na panela sem olhar. — Mas a gente brigou.

Letícia se aproximou da bancada.

— Brigaram por quê?

— Por causa de uma foto no Instagram. E os comentários nela.

Rafaela contou tudo. A foto, as insinuações, a tal Marina, o comentário antigo dele, a discussão. Enquanto falava, a raiva voltava, mas misturada com uma dúvida fina e persistente.

— Ele disse que eu tava exagerando — concluiu, dando de ombros num gesto duro. — Que não podia controlar o que as pessoas comentam.

Letícia ficou em silêncio por um momento, analisando.

— Rafa… — começou com cuidado. — Você sabia do passado dele quando se envolveu. Não tô dizendo que você tá errada em se incomodar, tá? Mas isso é algo que você precisa decidir se consegue lidar.

Rafaela franziu o cenho.

— Como assim?

— Eu já vi esse tipo de coisa virar uma bola de neve. Começa com briga por comentário, depois vira senha compartilhada, controle de rede social… e, quando você vê, tá vivendo pisando em ovos.

Algo apertou dentro de Rafaela.

— Isso tá parecendo muito específico, Letícia.

A amiga desviou o olhar — rápido demais — e depois voltou a encará-la.

— É só um exemplo. O ponto é: ele te dá motivos reais para desconfiar hoje? Ou é o medo de ser feita de trouxa falando mais alto?

A pergunta acertou em cheio. Rafaela virou de costas, desligou o fogo.

— Eu não quero ser aquela mulher que aceita tudo só para não parecer insegura. Mas também não quero ser a mulher que se perde tentando controlar o outro.

Letícia se aproximou e tocou de leve o braço dela.

— Então talvez falte só uma coisa: diálogo sem ataque. — Sorriu de canto. — E você comentou o quê na foto dele?

Rafaela soltou um suspiro longo.

— Nada. Fiquei com tanta raiva que até me esqueci disso.

— Olha… — Letícia deu de ombros. — Se você tivesse comentado algo simples, tipo um coração ou uma provocação sua… talvez tivesse inibido mais comentários.

Rafaela a encarou.

— Marcar território?

— Não, Rafa. — Letícia corrigiu. — Marcar presença. Mostrar que você existe. Que ele é desejado, sim, mas que já foi escolhido.

Rafaela absorveu aquilo em silêncio.

Elas comeram juntas, mas o assunto morreu ali. Mais tarde, já no quarto, Rafaela pegou o celular. Nenhuma nova mensagem. Nenhuma ligação.

Pensou no que Letícia havia dito.

Se você tivesse comentado algo…

Entrou no Instagram e digitou o nome de Gabriel. A foto e o nome apareceram. Ela clicou.

A última postagem era de semanas atrás.

Atualizou a página.

Nada.

Ele apagara a foto.

Aquilo a incomodou. Apagar sem falar nada parecia um gesto feito no impulso, mais para provar um ponto do que para resolver o problema.

Largou o celular na cama, frustrada.

Não ia correr atrás naquela noite. Mas também não ia fingir que nada aconteceu. Se ele quisesse ficar, teria que aprender que mudar não era só deletar imagens. Era enfrentar conversas difíceis sem fugir delas.

Fechou os olhos, deixando o cansaço vencer.

No fundo, apesar da raiva e do orgulho, uma certeza permanecia, teimosa: ela não queria desistir. Mas também não aceitaria menos do que merecia.

No dia seguinte, Rafaela acordou cedo demais. Conferiu o celular. Nada.

Foi para o banho, deixando a água quente tentar relaxar os músculos tensos das costas. Enquanto a máscara de cabelo agia, ficou ali, parada, apoiada nos azulejos, repassando a briga.

Saiu, se vestiu e foi até a cozinha. Letícia apareceu pouco depois, impecável como sempre.

— Bom dia, Rafa. E aí… o homem deu sinal de vida?

Rafaela negou com a cabeça.

— Não. E ele apagou a publicação.

Letícia ergueu as sobrancelhas enquanto se servia de café.

— E agora, com a cabeça mais fria… como você tá?

— Confusa. — admitiu. — Não sei se fui exagerada ou se… sei lá.

Letícia deu um meio sorriso.

— Olha, não vou mentir. Não é fácil ser a namorada do maior pegador da facul. Sempre vai ter uma fila de meninas só esperando você vacilar.

— Letícia… — Rafaela fechou a cara. — Você falando assim não ajuda.

A amiga riu.

— Calma, tô brincando. Tá na cara que vocês se gostam. Vocês vão resolver.

Quando terminaram o café, saíram juntas. Foi ao cruzarem o portão que Rafaela travou.

O carro estava estacionado ali. E Gabriel também.

Óculos escuros, boné virado para trás, camiseta azul-marinho colada nos braços, bermuda jeans de tom fechado. Os braços cruzados denunciavam a tensão que o corpo inteiro parecia carregar. Não havia o sorriso de sempre.

Havia rigidez.

Rafaela sentiu o coração dar um salto descompassado.

Letícia foi a primeira a reagir.

— Bom dia, Gabriel! — acenou, forçando animação.

— E aí, pinscher — ele respondeu, a voz neutra, sem o humor habitual.

O sorriso de Letícia murchou na hora.

— Quer saber? — sussurrou ela para Rafaela. — Esquece tudo o que eu disse sobre vocês se resolverem. Termina com ele.

Rafaela quase riu, nervosa.

Gabriel tirou os óculos, finalmente encarando Rafaela de verdade.

— Será que a gente pode conversar?

Ela hesitou. Apontou para dentro de casa.

— Quer entrar?

Ele negou com a cabeça.

— Podemos dar uma volta?

Rafaela pensou por um instante.

— Tudo bem.

Letícia deu um passo para trás.

— Então vou nessa. — Lançou um olhar significativo para a amiga. — A gente se vê mais tarde.

Gabriel abriu a porta do carro para ela. Rafaela entrou em silêncio, sentindo o ar mudar assim que a porta se fechou. Ele deu a volta e assumiu o volante. Nenhuma palavra foi dita enquanto o automóvel seguia.

Gabriel parou numa rua lateral conhecida. O parque. O mesmo banco de madeira onde tinham se sentado meses atrás ainda estava ali.

Ele desligou o carro, mas não desceu. Ficou com as mãos apertando o volante, o maxilar travado.

Rafaela quebrou o silêncio.

— Você me trouxe aqui de propósito.

Ele assentiu, tirando o boné.

— Achei que fazia sentido. Aqui foi onde tudo começou pra gente.

Ela olhou pela janela.

— Também pode ser onde tudo termina — respondeu, sem olhar para ele.

Gabriel virou-se bruscamente.

— Eu sei. E é exatamente por isso que vim.

Os olhos dele estavam cansados, sombreados.

— Eu fiquei puto ontem — disse, direto. — Não com você… comigo. Com a sensação de que, não importa o que eu faça, sempre vou ter que pagar por quem fui antes de você.

Rafaela virou o corpo para ele.

— E você acha que para mim é fácil? Você tem ideia do que é abrir uma foto do cara que eu gosto e ver um monte de mulher se sentindo à vontade para falar o que quiser sobre ele?

Ele abriu a boca para responder, mas ela continuou.

— Não foi a foto, Gabriel. Foi o passado todo gritando na minha cara. Foi ver o seu comentário na foto dela. Foi perceber que essas meninas não são fantasmas distantes, são pessoas que cruzo no corredor da faculdade todo santo dia.

O silêncio caiu pesado.

— Eu não respondi nenhuma — ele disse, por fim. — Não curti. Não puxei conversa. Nada.

— Eu sei. Mas eu também não sou obrigada a fingir que isso não me afeta.

Gabriel soltou o ar, derrotado, encostando a cabeça no banco.

— Posso saber por que você apagou a foto? — Rafaela perguntou, a voz um tom mais baixo.

— Porque eu tava com raiva. E eu sabia que o comentário que eu queria ler não ia aparecer ali.

Ela sentiu o peito apertar.

— Eu queria ver seu nome. Um coração. Qualquer coisa que dissesse “ele tá comigo”. — Ele a olhou nos olhos. — E não tinha nada.

Rafaela desviou o olhar para as próprias mãos.

— Eu não comentei porque não quero ser esse tipo de mulher que marca território em rede social como se você fosse minha propriedade.

— Eu também não quero que você seja — ele respondeu rápido. — Mas preciso saber onde piso com você. Se isso vai ser sempre uma briga. Se vou ter que escolher entre existir ou estar com você.

Ela o encarou.

— E eu preciso saber se você entende que estar comigo também implica responsabilidade. Não controle. Responsabilidade.

Gabriel assentiu devagar.

— Sinto muito por você ter se sentido desrespeitada. De verdade. Não era minha intenção.

Ele sustentou o olhar dela.

— Eu não tô flertando com ninguém, Rafa. O comentário na foto da Marina foi muito antes de eu entender o que eu sentia por você. Depois que eu me dei conta… não teve mais ninguém.

Ele se inclinou um pouco para frente.

— Posso errar tentando aprender, mas não vou mentir. Se tô aqui, é porque é você. Só você.

Rafaela manteve o olhar nele por alguns segundos, procurando qualquer traço de indecisão. Não encontrou.

— Eu entendi. — falou, calma. — E importa para mim saber que você não fez por mal.

Ela relaxou os ombros, sentindo a armadura cair.

— Eu não quero te vigiar, nem disputar atenção. Só preciso sentir que, quando algo me machuca, você não vai tratar como exagero.

— Eu sei. — ele disse, sincero. — Me desculpa por isso também.

O silêncio que se seguiu já não era hostil. Era cuidadoso, frágil.

— Vem caminhar comigo?

Não foi uma pergunta casual. Foi um pedido. Quase uma súplica silenciosa para que ela não desistisse.

Rafaela olhou para ele. O orgulho dizia para ficar no carro, manter a distância. O coração já tinha descido.

Ela aceitou.

Saíram do carro e caminharam até o banco, sentando-se lado a lado. Havia um espaço físico entre eles. Dez centímetros de madeira fria que pareciam quilômetros de mal-entendidos.

— Eu não quero perder você por orgulho — ele disse, olhando para as árvores.

— Nem eu quero perder a gente por medo — ela respondeu.

A mão de Gabriel escorregou pelo banco até encontrar a dela. Os dedos roçaram, hesitantes, testando o terreno, antes de ele finalmente segurar a mão dela com firmeza.

Foi a ponte que faltava.

Rafaela se aproximou, encostando a cabeça no ombro dele. Gabriel relaxou o corpo no mesmo instante, passando o braço ao redor dela e trazendo-a para perto, enterrando o rosto nos cabelos dela.

— A gente vai errar de novo — ele murmurou contra o ouvido dela.

— Vai. — ela concordou, fechando os olhos. — Mas se a gente continuar conversando assim… talvez dê certo.

Ele beijou o topo da cabeça dela.

— Vai dar certo.

Eles ficaram ali, em silêncio, observando o parque acordar, conscientes de que não resolveram tudo, mas escolheram continuar. E, às vezes, essa era a única vitória que importava.

Notas finais
Bom… o capítulo de hoje não saiu exatamente no horário combinado 😅 Mas saiu! E isso já é uma pequena vitória nessa correria maluca que eu tô vivendo ultimamente. Obrigada por continuarem aqui comigo mesmo assim. Prometo melhorar e manter nossas sextas às 20h direitinho. Agora, sobre o capítulo… Esse não foi sobre Instagram. Foi sobre insegurança, passado, orgulho… Quero MUITO saber o que vocês acharam: A Rafa exagerou ou fez exatamente o que precisava fazer? E o Gabe reagiu como um homem aprendendo… ou como alguém com medo de mudar? E me conta aqui: você já viveu algo parecido? Na próxima sexta, às 20h, a gente continua… ✨