AMOR EM CAMPO

38 Capítulo 37: Esconderijo


Notas iniciais
Oi, time! 👀 Sobre o capítulo de hoje, só tenho uma coisa a dizer… Enquanto algumas coisas são escondidas por diversão, outras são escondidas por motivos bem mais sérios. ⚠️ Aviso de conteúdo Este capítulo aborda violência doméstica e agressão física. Se esse tema for sensível para você, leia com cuidado e respeite seus próprios limites. Boa leitura, time. ❤️⚽️📖

Os dias entre Gabriel e Rafaela ganharam outro ritmo depois da viagem. Não era apenas vontade; era curiosidade, descoberta. Aquela sensação elétrica de quem percebe que ainda existe muito para conhecer no outro — e que, aparentemente, nenhum dos dois tinha a menor intenção de economizar tempo.

Gabriel estava visivelmente satisfeito. Não apenas pelo sexo em si, mas pela forma como Rafaela havia se permitido viver aquilo com ele, sem a necessidade de racionalizar cada sensação ou transformar cada momento em uma equação. E, talvez pela primeira vez, ele também percebia que não estava simplesmente conduzindo a situação. Rafaela o surpreendia, provocava, experimentava e, vez ou outra, assumia o controle.

Eles estavam descobrindo um ao outro. E isso tornava tudo ainda mais viciante.

Qualquer hora servia. Qualquer lugar bastava.

Já tinham explorado o carro dele em ruas discretas de madrugada. Desafiaram o perigo na última fileira de uma sala escura de cinema durante a sessão de filmes independentes, no banheiro trancado de uma resenha barulhenta da galera do time, com a música vibrando na parede e a maçaneta sendo testada por pessoas do lado de fora; e até no chuveiro do vestiário dos Falcões, depois de Gabriel estrategicamente insistir em ficar um pouco mais para treinar sozinho após um coletivo, garantindo que o santuário dos atletas estivesse vazio. Sempre com risos abafados, trocas rápidas de olhar e aquela urgência gostosa de quem ainda não sabe o que é cansar.

Foi nesse clima de constante tensão que Rafaela se pegou sentada na biblioteca da faculdade. Mergulhada no silêncio do ambiente, concentrada entre livros e anotações, ela mal percebeu a aproximação de alguém.

Só se deu conta quando uma voz baixa roçou diretamente seu ouvido:

— Oi, gata.

Rafaela fechou o caderno devagar e se virou. O sorriso mal coube em seu rosto ao encontrar Gabriel ali, a mochila pendurada em um ombro, o cabelo levemente bagunçado e os olhos castanhos brilhando.

— Oi, Campeão — ela sussurrou. — Achei que você estaria no treino.

— Ainda tenho meia hora — ele respondeu, puxando a cadeira ao lado e sentando-se colado a ela. — Lendo o quê?

Gabriel passou os olhos pelos títulos sobre a mesa e ergueu uma sobrancelha, lendo um deles em voz baixa:

— Dopamina: a molécula do desejo… — Um sorriso de canto surgiu nos lábios dele. — Isso é matéria da prova ou uma indireta para mim?

Rafaela mordeu o lábio inferior para segurar o riso, arrumando uma mecha do próprio cabelo atrás da orelha.

— Leitura complementar de neurobiologia — respondeu, fingindo uma seriedade acadêmica que não durou dois segundos. — Mas confesso que o capítulo sobre neurotransmissores e impulsos sexuais é bem sugestivo.

— Claro que é — Gabriel murmurou, inclinando-se ainda mais, o ombro robusto dele pressionando o dela. — Especialmente sabendo que a minha namorada entende a teoria... e a prática.

Ela empurrou o peito dele de leve, sentindo o coração acelerar.

— Gabriel… — repreendeu em um sopro, apontando discretamente para as mesas de estudo ao redor. — Biblioteca. Silêncio.

— Eu sei, eu sei — ele disse, rindo sem som, erguendo as mãos em sinal de paz. — Prometo comportamento exemplar. Por… — olhou o relógio do celular — exatamente vinte e sete minutos.

— Vinte e sete?

— Contando com o tempo que vou passar tentando te convencer a me mostrar como a dopamina funciona na vida real.

Rafaela balançou a cabeça, tentando voltar os olhos para as anotações, mas a perna de Gabriel encaixou-se entre as dela por baixo da mesa. Um contato firme. Intencional. O calor do jeans dele queimando a pele dela.

— Você é um safado, Duarte — cochichou, sentindo um arrepio na espinha.

— E você adora, nerdzinha — ele respondeu, sem pestanejar.

Ela não negou. Apenas fechou o livro lentamente, o brilho no olhar entregando que a mente analítica dela já tinha calculado os prós e os contras, e os prós estavam vencendo de lavada.

— Tá bom… — murmurou, quase para si mesma. — Vem comigo.

Gabriel arqueou a sobrancelha, surpreso.

— Como é que é?

Rafaela levantou-se de repente, jogando a mochila apressada no ombro, os cabelos caindo em volta do rosto.

— Você ouviu. Se não sabe se controlar em público… então a gente vai para algum lugar onde você não precise.

A chama que brotou no rosto de Gabriel revelava que ele entendia o quanto ela estava cedendo. Ele levantou-se também, ajustando a alça nas costas com descuido.

— Tá falando sério? — a voz rouca carregava expectativa.

Ela não respondeu. Continuou a andar a passos rápidos em direção aos corredores.

Poucos alunos permaneciam por ali naquele horário, e Neide estava ocupada demais cochilando atrás do balcão. Os passos de Rafaela ecoavam baixos no piso encerado. Gabriel caminhava logo atrás, observando-a com uma curiosidade crescente.

Ela não parou nas mesas de estudo nem entre as prateleiras escondidas dos fundos. Em vez disso, seguiu até uma porta discreta, quase imperceptível entre duas estantes altas. O painel metálico da fechadura eletrônica brilhava sob a iluminação difusa. Gabriel encarou a cena, atônito.

— O que é isso? — perguntou, intrigado.

Rafaela digitou a senha, os dedos rápidos no teclado numérico. Um clique seco anunciou a abertura, e a porta se escancarou lentamente, revelando uma sala mergulhada em meia-luz.

Ela entrou primeiro, acendendo a luz. O espaço era maior do que ele esperava: fileiras de estantes estreitas, abarrotadas de volumes gastos, muitos deles sem lombada legível. O ar tinha cheiro de papel antigo misturado com poeira. Gabriel correu os olhos pelo lugar.

— Como você conhece isso? E por que tem a senha?

Rafaela tirou a mochila dos ombros e a jogou sobre uma mesa de metal abarrotada de caixas, olhando em volta com naturalidade, como se estivesse em casa.

— Passo tanto tempo aqui que acabei ficando amiga da Neide, a responsável pelo setor. Ela me contou sobre essa sala… é onde ficam as obras que ainda não foram catalogadas ou que estão danificadas demais para ficarem expostas. Com o tempo, ela confiou em mim e me deu o acesso. Disse que eu poderia vir quando quisesse.

Gabriel soltou um assobio baixo, impressionado, e voltou a encará-la com aquele tom brincalhão de quem acabava de juntar mais uma peça do quebra-cabeça chamado Rafaela.

— Uau… amiga da bibliotecária? — provocou. — Você é mesmo muito rata de biblioteca, Rafa.

Rafaela girou nos calcanhares no mesmo instante, sentindo o rosto queimar com a zombaria dele.

— Prefiro ser uma "rata de biblioteca" bem informada a ser um predador com QI de uma ameba — rebateu, erguendo o queixo. — E a rata aqui vai voltar para os estudos, que é de onde eu nunca deveria ter saído para dar atenção a um jogadorzinho clichê.

Gabriel soltou uma risada alta e desacreditada enquanto a observava dar as costas. Em dois passos largos, alcançou a cintura dela por trás, puxando-a levemente para junto de si só para murmurar no ouvido dela:

— Ameba, é? Cuidado, cientista... sou uma ameba bem persistente — afrontou, a voz baixinha fazendo os pelos do braço dela se arrepiarem. — E eu sei muito bem que você adora dar atenção para este jogadorzinho aqui. Agora deixa de ser marrenta e mostra direitinho como a dopamina age.

Rafaela parou. Virou-se devagar nos braços dele, olhando-o de baixo para cima, sustentando o olhar desafiador com um sorriso mínimo.

— Primeiro: você não me manda fazer nada, Duarte — disse, com o tom calmo e pausado de quem controla a situação. — Segundo: você é bem apressado. E terceiro… se quer mesmo que eu te ensine neurobiologia, vai ter que aprender a obedecer e prestar atenção nas minhas aulas.

Gabriel piscou, o sorriso torto crescendo no rosto.

— Entendido, professora. E por onde a gente começa?

— Pela teoria — ela murmura, encurtando a distância de vez e prensando-o contra a porta trancada, a boca roçando o pescoço dele, exatamente onde a veia pulsava acelerada. — A dopamina é liberada em antecipação. No desejo. Na expectativa do ganho, e não no fim em si.

As mãos dela subiram pelo peito dele, abrindo os botões da camisa com uma pressa deliciosa.

Gabriel encostou a cabeça na madeira, respirando fundo, os olhos fechados enquanto sentia os lábios dela beijando sua pele. Ele agarrou as mãos na cintura de Rafaela, colando os quadris.

— Interessante… — a voz dele saiu rasgada, um sussurro rouco. — Quer dizer que o segredo é a expectativa?

— Exatamente — Rafaela riu baixo, um som abafado que morreu quando Gabriel atacou sua boca.

Foi um beijo rápido e proibido, com o eco abafado dos passos dos estudantes no corredor do lado de fora. Gabriel a conduziu para o espaço entre as estantes de metal, invertendo as posições, erguendo a blusa dela com os dedos ágeis, enquanto Rafaela abria o próprio zíper, sufocando os gemidos contra o ombro do namorado. O som da pele se chocando contra o metal das prateleiras ditou o ritmo urgente. Foi rápido, cru e absurdamente quente — uma sintonia compartilhada que terminou com ambos trêmulos, tentando recuperar o fôlego antes que a segurança do campus desconfiasse.

Quando Gabriel finalmente saiu do prédio central, o relógio do celular marcava dez minutos de atraso. O cheiro de Rafaela ainda estava impregnado em seu pescoço, uma mistura do perfume doce dela com o suor da urgência.

Ele correu pelo campus com a camisa com os botões desencontrados, o rosto quente e o coração batendo na garganta. Chegou ao campo de futebol ofegante, atravessando a lateral enquanto ajeitava às pressas a chuteira no pé.

O treino já estava rolando. Assim que ele pisou no gramado, o treinador Moura apitou alto, parando o aquecimento. O homem bateu palmas. Devagar. Irônico.

— Olha só quem finalmente resolveu nos brindar com sua ilustríssima presença.

Alguns jogadores seguraram o riso. Gabriel passou a mão pelos cabelos, tentando normalizar a respiração.

— Foi mal, professor. Me atrasei na biblioteca.

— Percebi — Moura respondeu, analisando a camisa visivelmente desalinhada. — Vê se toma jeito, Duarte. Mais um atraso desses e a sua vaga de titular vai direto para o banco. Vai se trocar, porra!

Gabriel caminhou rapidamente até o banco de reservas e vestiu a camisa de treino. Diego o acompanhou com os olhos por alguns segundos antes de soltar um sorriso de canto.

— Biblioteca, é?

Gabriel nem olhou para ele, ajustando as caneleiras.

— Nem começa.

Diego ergueu as mãos, inocente.

— Não falei nada.

— Mas pensou.

— Pensei.

Gabriel finalmente olhou para o amigo, rindo.

— Então continua pensando sozinho.

— Chega de fofoca, moças! — o treinador assobiou forte, cortando a conversa. — Quero ver se estão com essa energia toda na hora do tático! Duarte, puxa a fila da corrida!

Gabriel apenas curvou os lábios, focando no gramado. Rafaela estava virando seu mundo de ponta-cabeça. E ele nunca tinha se sentido tão vivo.

⚽📖⚽

Rafaela estava sentada à mesa da cozinha, o notebook aberto à sua frente em uma chamada de vídeo com a irmã. Na tela, Micaela aparecia acomodada ao ar livre. A pele de tom quente, idêntica à de Rafaela, contrastava com a camiseta clara de listras discretas. Os cabelos longos estavam presos em tranças finas que caíam de lado com naturalidade, emoldurando o rosto de traços suaves. Os olhos escuros mediam Rafaela com uma curiosidade silenciosa, enquanto a caneta girava entre seus dedos.

— Então… — Micaela começou inclinando-se um pouco mais na direção da câmera. — Você vem mesmo para cá no feriadão?

Rafaela sorriu de canto, mexendo distraidamente a colher na xícara de café.

— Eu disse que vou tentar. Ainda preciso ver como vai ficar a escala da livraria… por isso pedi para você não comentar nada com a mãe e com o pai.

— E o Gabriel vem com você? — a caçula disparou, sem a menor cerimônia.

Rafaela riu, negando com a cabeça.

— Não.

— Por quê? — Micaela cruzou os braços, fazendo bico. — Estamos doidos para conhecê-lo. Principalmente o papai. Acho que ele já até preparou um questionário completo para aplicar no garoto.

Rafaela suspirou, apoiando o cotovelo na mesa e a bochecha na mão.

— E esse é o principal motivo para eu não querer que ele vá agora — admitiu. — O papai ainda está surtando?

— Surtando é apelido... — A irmã fez um gesto vago. — Mas, assim, não julgo. Eu também dei uma leve surtada quando você me contou que estava namorando aquele jogador de futebol que mais parece um modelo de capa de revista.

Rafaela arqueou a sobrancelha, o aviso implícito no olhar.

— Micaela…

— Sinceramente, irmã — ela continuou —, eu sempre achei que você seria do tipo cientista convicta e solteirona, que mora num apartamento enorme, cercada de livros… e gatos. Muitos gatos.

Rafaela soltou uma gargalhada, levando a mão ao rosto.

— Obrigada pelo imenso apoio emocional.

— Disponha — Micaela respondeu. — Mas confessa: nem você esperava por isso, né?

Rafaela ficou em silêncio por alguns segundos. Girou a xícara de cerâmica entre as mãos, observando o reflexo do líquido escuro.

— Não — disse, por fim, o sorriso diminuindo para algo mais íntimo. — Eu não esperava.

Do outro lado da tela, a expressão de Micaela suavizou.

— Você fala dele de um jeito diferente. Fica mais leve. Ri mais fácil.

— Ele me faz bem, Mi.

— Então pronto — a caçula decretou, decidida. — Traz ele junto na próxima. O resto vocês resolvem. Inclusive o papai e o ciúme dele.

Rafaela riu de verdade dessa vez.

— Desde quando você ficou tão perspicaz para relacionamentos?

— Eu sempre fui — Micaela corrigiu, convencida. — E, quando você vier para cá… quero ouvir todos os detalhes. Ou quase todos, porque ainda sou menor de idade.

— MICAELA!

A gargalhada da irmã ecoou pela chamada de vídeo.

Elas conversaram mais um pouco até a chamada ser encerrada. Quando a tela ficou preta, Rafaela abaixou o notebook com um movimento lento, saboreando a certeza de sua própria resposta.

O som de passos arrastados pelo corredor quebrou o silêncio, seguido por uma voz baixa:

— Rafa?

Ela virou o rosto instintivamente, o sorriso pronto.

— Oi, Lelê!

Letícia entrou na cozinha, largando a bolsa com força sobre a cadeira e descalçando os tênis com um chute exausto.

— Oi, sumida — disparou, sem rodeios. — Pensei que tinha se mudado para a casa do Gabriel.

Rafaela apoiou as mãos na mesa, entrando no jogo da amiga.

— Não. Eu ainda moro aqui.

Letícia pegou a jarra de água na geladeira e serviu um copo.

— Ah, ótimo! Então já posso retirar o anúncio de "vaga para quarto" das minhas redes sociais.

Rafaela riu.

— Não seja dramática.

— Senti sua falta por aqui — admitiu, apoiando o quadril no balcão. — Principalmente porque tive que comer a minha própria comida e quase me envenenei. — Ela torceu o nariz, em uma careta teatral.

— Então você estava sentindo falta dos meus dotes culinários e não da minha presença, sua interesseira — Rafaela rebateu, sustentando um olhar de falso desgosto que desmoronou em seguida. — Antes que eu esqueça, a Mica mandou um abraço. Disse que está com saudades da única pessoa que entende os dramas dela.

O sorriso de Letícia se alargou, perdendo a pose defensiva de antes. Ela jogou o cabelo para trás com um suspiro nostálgico.

— Aquela garota é um acontecimento. Saudades daquele furacãozinho. Mas me conta… — ela deu um passo à frente, os olhos brilhando de curiosidade. — Como andam as coisas? A gente só se esbarra correndo pelos corredores da faculdade ultimamente. Nem sentamos para você me contar da viagem de vocês... Como foi? Desembucha tudo.

Rafaela hesitou por um segundo, buscando a palavra exata.

— Foi… avassaladora.

Letícia abriu um sorriso enorme e bateu o copo na pia.

— AI, MEU DEUS. Vocês…?

Rafaela puxou o ar e assentiu.

— Sim.

Letícia soltou um gritinho abafado, levando as duas mãos à boca e dando dois pulinhos no lugar, exatamente como uma torcedora comemorando um gol.

— Rafa! Eu sabia! Quero detalhes agora. Foi bom? Como você se sentiu? Ele conseguiu te fazer mudar de ideia sobre sexo?

Rafaela sorriu, sentindo as bochechas esquentarem sob o olhar atento da amiga.

— Foi muito melhor do que eu fui capaz de imaginar — confessou, a voz mansa. — Não sabia que podia me desligar tanto e só… viver o momento.

— Que bom, amiga — Letícia sorriu, e dessa vez foi um carinho genuíno. — De verdade. Você merecia alguém que te fizesse se sentir assim.

Letícia foi até a pia para lavar o copo que tinha usado.

— E você? — Rafaela perguntou com cuidado, tateando o terreno. — Como estão as coisas… com você?

Letícia deu de ombros, mantendo-se de costas, o som da água correndo preenchendo o espaço.

— O normal de sempre. Trabalho, faculdade, prazos acumulados e o Guilherme reclamando de alguma bobagem que eu fiz ou deixei de fazer. A vida correndo atrás do próprio rabo.

Ela esticou o braço direito para alcançar o pano de prato pendurado no alto.

Rafaela começou a formular uma resposta, mas as palavras travaram na sua garganta.

O braço de Letícia estava estendido. Na parte interna, logo acima da dobra do cotovelo, a luz da cozinha iluminava uma mancha roxa com bordas esverdeadas. Um hematoma com contornos nítidos.

O sorriso de Rafaela evaporou.

— Lelê… O que é isso no seu braço?

Letícia seguiu a direção do olhar dela e, num reflexo rápido puxou a manga da blusa para baixo, cobrindo a pele.

— Isso? Nada — deu de ombros. — Devo ter esbarrado em alguma quina de mesa na faculdade. Sou um desastre andando.

Rafaela se levantou da cadeira, a postura rígida.

— Isso não tem formato de quina de mesa, Letícia.

— Rafa, sério, não começa…

— São dedos — Rafaela a interrompeu. — Parece que alguém segurou o seu braço com força. Foi ele, não foi? Foi o Guilherme que fez isso?

O ar da cozinha pareceu congelar instantaneamente. O zumbido da geladeira pareceu mais alto.

Letícia desviou os olhos, jogando o pano de prato no balcão com força excessiva.

— Você está viajando na maionese. Como sempre, hiperanalisando tudo.

— Não estou viajando — Rafaela deu dois passos à frente, aproximando-se da pia. — Eu vejo como você fica toda vez que ele liga, ou quando ele aparece. Você muda perto dele.

Letícia soltou uma risada seca. Ela se virou de frente, cruzando os braços sobre o peito.

— Olha só quem virou a grande especialista em relacionamentos do ano — disparou, os olhos faiscando defensivos. — Só porque você está vivendo esse conto de fadas com o craque do time, agora acha que tem o direito de vir julgar o meu namoro?

Rafaela sentiu o impacto daquelas palavras como um tapa físico, mas firmou os pés no chão da cozinha, recusando-se a dar um passo atrás.

— Isso não é julgamento, Letícia. É preocupação.

— É julgamento, sim! — Letícia explodiu, a voz ecoando pelas paredes estreitas do cômodo. — Você sempre achou que eu fazia as escolhas erradas. Sempre me olhou de cima, com esse seu ar de superioridade.

— Eu nunca pensei isso de você!

— Está escrita na sua cara agora. Toda certinha, toda resolvida, a namorada perfeita… como se você fosse melhor do que eu por causa disso — Letícia rebateu, e, por trás da raiva, sua voz fraquejou, os olhos marejando rapidamente.

A fisgada no peito de Rafaela foi profunda. Ela engoliu o nó na garganta, lutando contra o impulso de deixar a mágoa virar fúria.

— Eu não sou melhor que ninguém. Eu só amo você e estou assustada com o que estou vendo.

— Eu não preciso da sua preocupação. Para de fingir que sabe tudo! — Letícia gritou, as lágrimas transbordando. — Você acha que, só porque está apaixonada agora, virou perita em vida a dois? Que tem o direito de me dar lição de moral?

O silêncio que desabou após o grito de Letícia foi sufocante.

— Eu não quero te dar lição de nada, Letícia. Eu só não quero ver a minha melhor amiga se machucando e fingindo que está tudo bem.

Rafaela sentiu um calafrio violento percorrer sua espinha. Aquilo não parecia um acidente. Não parecia um “momento de raiva”. E, ela percebeu que talvez aquela marca fosse apenas a parte visível de alguma coisa muito maior.

Letícia passou a palma da mão pelo rosto com força, limpando as lágrimas e recusando-se a sustentar o olhar da amiga.

— Não foi nada de mais… — cedeu por fim, a voz sumindo em uma exaustão dolorosa. — A gente estava discutindo no carro por ciúmes. Ele só… se exaltou. Perdeu o controle por um segundo. Mas ele já pediu desculpas. Ele disse que me ama e que isso nunca mais vai acontecer.

As palavras de Letícia bateram no peito de Rafaela com um peso insuportável. A lembrança recente do cuidado de Gabriel — de como ele se certificava do seu consentimento e conforto a cada passo — tornava a justificativa de Letícia ainda mais aterrorizante.

— Isso não é normal, Lelê — Rafaela disse em tom baixo, quase implorando. — Quem ama não aperta o braço até deixar marcas.

— Chega! — Letícia ergueu as mãos, com a voz embargada. — Chega de me olhar assim! Como se eu fosse uma coitada!

— Letícia…

— Eu preciso ficar sozinha — a amiga cortou, a voz vazia.

Rafaela recuou um passo, entendendo que bater naquela tecla naquele momento só faria a amiga se fechar ainda mais.

— Tá — respondeu baixo. — Se você quiser conversar depois… eu estou aqui.

Letícia esboçou um meio sorriso amargo.

— Eu sei.

Ela puxou a bolsa da cadeira e caminhou pelo corredor. Na porta do quarto, hesitou por uma fração de segundo, a mão na maçaneta, mas o orgulho e o medo falaram mais alto. Ela entrou e fechou a porta com um clique baixo e definitivo.

Do outro lado, Rafaela permaneceu parada no corredor por alguns segundos antes de voltar para a cozinha. Recolheu a xícara fria, lavou-a em silêncio e apagou a luz antes de se recolher.

No quarto escuro, Letícia sentou-se na beira da cama e puxou novamente a manga da blusa até cobrir completamente o hematoma. Como se esconder a marca pudesse fazer desaparecer o que tinha acontecido.

Notas finais
É, time… acho que hoje a palavra “esconderijo” ganhou outro significado. 😔 A gente passou boa parte do capítulo rindo das aventuras de Gabriel e Rafaela, da biblioteca, da dopamina, do atraso no treino e das suspeitas do Diego… E então chegamos à cozinha. A uma manga puxada para esconder uma marca. A uma desculpa que não convence. E a uma amiga que percebe que talvez exista muito mais acontecendo do que aquilo que está sendo contado. Esse capítulo termina com uma pergunta que eu acho que vai ficar na cabeça de vocês: até onde alguém consegue esconder aquilo que está machucando por dentro? Até o próximo capítulo, time. ❤️📖