AMOR EM CAMPO
37 Capítulo 36: Marcado
Notas iniciais

A manhã chegou devagar, trazendo uma claridade suave que se infiltrou no quarto do hotel pelas frestas da cortina. Rafaela abriu os olhos lentamente. O braço de Gabriel ainda pesava sobre ela, envolvendo sua cintura e puxando-a contra o peito dele. O calor da pele, o som da respiração tranquila, o ritmo constante do coração… tudo parecia estranhamente calmo.
Ela permaneceu imóvel por um momento, sentindo o cheiro dele. Não havia pânico. Não havia arrependimento. Nem aquela necessidade automática de analisar e desconstruir cada detalhe da noite anterior. Havia apenas uma constatação simples, quase engraçada: ela estava feliz. E, aparentemente, gostava bastante de acordar daquele jeito.
Para Rafaela, o sexo sempre parecera um conceito um pouco supervalorizado pela humanidade, muita propaganda para pouca eficiência. Mas a noite anterior tinha quebrado essa lógica. Não porque houvesse se transformado em uma experiência transcendental, mas porque, com Gabriel, tinha sido leve. Divertido. E absurdamente bom.
Gabriel se mexeu ao lado dela, anunciando o despertar com um "Bom dia" murmurado em uma voz ainda rouca de sono. Ao virar o rosto, Rafaela encontrou os olhos semicerrados e o sorriso preguiçoso que parecia já a esperar.
— Bom dia — respondeu baixo, retribuindo o olhar.
Ele esticou a mão, afastando uma mecha que caía sobre o rosto dela. O gesto foi simples, mas os olhos dele a estudavam com uma atenção quase insegura.
— Dormiu bem?
— Sim. E você? — ela respondeu, dando um sorriso sincero.
Gabriel apoiou-se no cotovelo, os olhos castanhos percorrendo o rosto dela, como se procurasse qualquer sinal de hesitação ou desconforto escondido atrás daquela calma. Ele soltou o ar devagar, a mão descendo para acariciar seu ombro com uma delicadeza que contrastava totalmente com a intensidade da noite anterior.
— Eu… fiquei pensando — ele começou hesitando, algo raro nele. — Foi bom para você, Rafa? De verdade? Eu sei que a gente se provocou, brincou… mas não quero que você acorde achando que eu passei de algum limite.
O olhar dele era puro cuidado.
Ela ergueu a mão e afagou o rosto dele, sentindo a textura da barba rala de manhã.
— Gabriel… olha para mim.
Quando ele prendeu o olhar no dela, Rafaela deu um pequeno sorriso de canto.
— Você não passou do ponto em nada. Se tivesse passado, você saberia. Eu teria te parado.
Ela deslizou a mão para o peito nu dele, acompanhando as batidas do coração.
— Foi perfeito. De verdade — confessou, sem a menor armadura. — Eu sei que você gosta de bancar o invencível, mas o jeito como você cuidou de mim fez eu me sentir completamente segura. Você só… me tirou do meu próprio labirinto por algumas horas. E eu precisava muito disso.
Um suspiro visível de alívio escapou dos lábios de Gabriel. O ombro dele relaxou, e a tensão se dissolveu por completo num sorriso aberto e radiante.
— Eu passei metade da madrugada acordado, só olhando para você dormindo e pensando se tinha feito tudo certo.
— Ficou me encarando enquanto eu dormia? Isso é meio assustador, sabia? — ela brincou, mas a perna dela já se enroscava na dele por baixo dos lençóis.
Rafaela deixou os olhos percorrerem o ombro e o pescoço dele e franziu levemente a testa ao notar algumas marcas ali.
— Gabriel… eu fiz isso?
Ele olhou por cima do ombro, viu a mordida e os arranhões, e abriu um sorriso que tinha mais orgulho do que deveria.
— Fez.
Ela cobriu metade do rosto com o lençol, mortificada.
— Desculpa.
— Nem pensar. Vou considerar um souvenir da viagem.
Ele puxou o lençol, descobrindo-a.
— E não adianta se esconder, gata, eu já vi tudinho mesmo. — Ele rebateu, a voz voltando a engrossar ligeiramente, o tom rouco de sono ganhando uma fagulha da safadeza de sempre enquanto a mão dele descia até a bunda dela, apertando devagar. — Mas agora que eu sei que você aprovou o relatório… acho que a gente tem um tempinho antes do café do hotel fechar, não tem?
Rafaela soltou uma risada abafada contra o pescoço dele, sentindo a firmeza do corpo dele se ajustando ao seu mais uma vez.
— Gabriel, o seu joelho…
— O joelho tá ótimo, nerdzinha — ele interrompeu, selando os lábios dela num beijo sem a menor pressa de acabar. — E a minha atenção tá 100% focada no próximo teste.
Ele capturou os lábios de Rafaela num beijo possessivo. Ela retribuiu do mesmo modo, permitindo que a língua dele entrasse em sua boca, explorando-o com gana. Gabriel prensou-se contra ela, cada linha dura do corpo dele causando em Rafaela uma urgência aguda de vontade.
Até que…
Grrrrooonc.
O som foi alto. Inconfundível. Gabriel congelou no mesmo instante, os lábios ainda colados aos dela. Rafaela piscou, confusa… e então a risada escapou leve, cristalina, quebrando a tensão no ato.
— Meu Deus… — ela disse entre risos. — Isso foi o seu estômago?
Gabriel fechou os olhos, derrotado, e deixou a cabeça cair no ombro dela enquanto ria de si mesmo.
— Acho que é um sinal — admitiu. — Se a gente continuar agora, eu posso desmaiar de fome no meio do caminho.
— Seria uma péssima forma de manter a sua fama de inesquecível — respondeu ela, zombando dele.
— Não debocha! Você me fez gastar muita energia ontem à noite… vou te falar: para quem diz que o negócio é subestimado, você é bem insaciável, sabia? — provocou ele, voltando a se deitar ao lado dela.
— Gabriel! Você não tem filtro nenhum.
— Filtro é para quem precisa, gata.
Pouco depois, eles se levantaram. Após o café da manhã no restaurante do hotel — entre cumprimentos rápidos dos outros jogadores — cada um seguiu para o seu respectivo transporte no estacionamento.
A despedida no ônibus de Rafaela foi breve, mas cheia de carinho. Quando o veículo começou a rodar de volta para a cidade, Rafaela encostou a cabeça no vidro, observando a estrada. Não havia cálculos para fazer. Ela simplesmente estava deixando acontecer. E aquilo era estranhamente libertador.
Do outro lado do trajeto, no ônibus do time, Gabriel estava jogado no banco, com os fones enfiados nos ouvidos, sem música alguma tocando. Encarava a paisagem em silêncio; o corpo carregava a dor muscular do jogo e o cansaço da noite, mas sua mente estava presa em Rafaela.
Gabriel fechou os olhos por um instante. Já sabia que estava apaixonado por Rafaela — sabia há semanas. Todo mundo sabia. Estava nítido no jeito como procurava por ela em qualquer lugar, na forma como seu humor mudava quando recebia uma mensagem dela, na saudade que sentia mesmo depois de poucas horas separados.
Mas a paixão sempre fora fogo. E fogo, por mais intenso que fosse, um dia diminuía ou consumia tudo até apagar.
Só que aquilo não estava diminuindo. Pelo contrário.
Quanto mais conhecia Rafaela, mais queria conhecê-la. Quanto mais tempo passavam juntos, mais gostava de estar ao lado dela. Não queria apenas beijá-la, tocá-la ou levá-la para a cama. Queria saber como tinha sido o dia dela. Queria ouvir suas teorias absurdamente detalhadas sobre livros e biologia. Queria assistir às séries que fingia não gostar. Queria ser a primeira pessoa para quem ela contasse alguma coisa boa e estar ali quando as coisas não fossem boas também.
Gabriel soltou o ar devagar, vendo seu próprio reflexo no vidro do ônibus. Aquilo já não era apenas a urgência de uma paixão.
Ele a amava.
E, pela primeira vez, a palavra não pareceu grande demais, nem assustadora demais. Pareceu apenas… verdadeira. O que acontecera naquele quarto de hotel não fora o ápice de algo que agora começaria a esfriar, mas a prova definitiva de que o que sentia por ela já tinha criado raízes profundas.
⚽📖⚽
Gabriel, Daniel e Diego entraram em casa juntos, largando as mochilas perto da porta num rastro de cansaço. Enquanto os amigos ainda comentavam ruidosamente sobre a partida no corredor, Gabriel seguiu direto para a cozinha. Abriu a geladeira sem realmente procurar nada e encostou-se no balcão, perdido naquela nova paz que o habitava.
Daniel, entrando logo atrás e percebendo o silêncio do amigo, arqueou uma sobrancelha.
— O que tá acontecendo, Biel? Cê tá estranho.
— Só tô meio cansado. Nada demais.
Diego apareceu logo em seguida, camiseta larga, celular na mão. Observou o capitão, que parecia ostentar um contentamento que claramente não tinha nada a ver com os três pontos da noite anterior.
— Desde quando cansaço faz alguém ficar com essa cara de bobo?
— Vocês viajam — murmurou Gabriel, subindo direto para o quarto para fugir do interrogatório.
Minutos depois, ele desceu as escadas apenas de short, secando o rosto com uma toalha. Daniel e Diego continuavam na cozinha, reassistindo aos lances da partida no celular. Gabriel caminhou até a geladeira para pegar uma garrafa d’água quando Daniel arregalou os olhos, explodindo em uma gargalhada que ecoou pelo teto alto.
— Mas que porra é essa?!
Gabriel franziu a testa, confuso, até perceber exatamente para onde os dois olhavam: seus ombros e as costas exibiam arranhões avermelhados, longos e bem visíveis.
Diego bateu as mãos nas coxas, quase se engasgando de rir:
— Mano, a Rafaela te deixou marcado no ferro e fogo, hein?!
Gabriel soltou o ar pesadamente, passando a mão pela pele marcada.
A memória da madrugada voltou num lampejo. Rafaela tinha tentado abafar os gemidos contra o pescoço dele para não chamar atenção no corredor, e ele, obviamente, não perdera a oportunidade de testar novamente a teoria do “caso isolado”.
Pelo estado da sua pele, a experiência tinha sido conclusiva.
Ele tentou manter a pose, mas não conseguiu conter o sorriso satisfeito que escapou de canto.
— Vocês são insuportáveis. Sério.
— E você é um homem morto se a nerdzinha descobrir que a gente viu as provas do crime! — Diego completou, rindo.
Gabriel foi até a sala, pegou uma camiseta jogada no sofá e a vestiu rápido. Quando retornou, encarou os amigos:
— Se um de vocês fizer qualquer comentário sobre isso perto dela, eu juro que mato os dois.
— Tranquilo! — Diego ergueu as mãos em rendição. — Só fala aí: o que rolou?
— O que acontece entre mim e a minha namorada fica entre mim e ela — Gabriel cortou secamente. — Eu não vou ficar espalhando detalhes do que a gente faz ou deixa de fazer por aí.
Daniel fez uma careta dramaticamente surpreso.
— Olha só… finalmente o Gabriel Duarte aprendeu o que é vida sexual privada.
— A minha vida inteira virou privada desde o dia em que decidi que queria aquela garota.
— Mas, para você estar blindando o assunto assim, é porque o negócio foi de outro mundo — Diego provocou. — E dá para ver pela sua cara.
— Relaxa, Duarte — Daniel deu um tapinha no ombro dele. — A gente só quer saber uma coisa. Só uma. Quando você estava lá na hora H... não te bateu um medo do hermano ali aparecer na porta do quarto gritando "Bieeeel, abre aí"?
— Ou o Daniel te oferecendo frete grátis de tadala no meio do rala e rola? — Diego emendou, chorando de rir.
Gabriel jogou as mãos para o alto, derrotado.
— Vocês são muito sem noção, cara. Puta que pariu.
Enquanto os dois continuavam rindo na sala, Gabriel pegou sua garrafa de água, subiu as escadas e fechou a porta do quarto. Sentou-se na beira do colchão e pegou o celular, discando para ela.
O telefone tocou poucas vezes até a linha estalar.
— Oi, campeão — a voz dela soou suave do outro lado.
— Oi, nerdzinha. Atrapalho?
— Não. Estava só tentando desfazer a mala… e pensando em você.
Gabriel se deitou na cama, sorrindo para o teto.
— Eu fiquei o caminho todo com você na cabeça. Se eu disser que já tô com saudades, você vai rir da minha cara?
— Não vou, não — ela admitiu, em tom baixo. — A Letícia foi passar o final de semana com o Guilherme. O apartamento ficou quieto demais… queria que você estivesse aqui.
— Me dá vinte minutos — Gabriel cravou, levantando-se num pulo. — Tô chegando.
Ele se vestiu em tempo recorde, pegou as chaves do carro e passou pela sala ajeitado. Diego e Daniel o encararam do sofá, incrédulos.
— Não me diga que você já vai atrás dela de novo? — Diego riu, incrédulo. — Mano, o cara nem descansou! Que chá foi esse que essa nerd te deu?
— Tá totalmente sem autonomia! — Daniel completou, jogando uma pipoca nele. — Perdeu o controle da própria vida!
Gabriel parou com a mão na maçaneta, abrindo um sorriso debochado e vitorioso para os dois jogados no sofá.
— Engraçado. Vocês são muito engraçados — disparou. — Mas, enquanto vocês vão passar o domingo inteiro abraçados assistindo TV, eu vou estar fazendo algo infinitamente melhor.
Diego arremessou uma almofada, que bateu na porta fechada.
— Vai se foder, Duarte!
— Vou mesmo! Tchau, babacas! — Gabriel gritou do corredor, rindo alto.
Ele entrou no elevador rindo sozinho. Os caras podiam falar a merda que quisessem sobre ele ter perdido a autonomia. A verdade era simples: passar a noite com a Rafaela não tinha matado a vontade; só tinha escancarado que vinte e quatro horas com ela ainda era pouco tempo.
Ele queria o resto daquele domingo. E a certeza de todos os outros.
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