AMOR EM CAMPO
31 Capítulo 30: Propriedade

semana se passou em um borrão confortável de rotinas compartilhadas, mensagens no meio do expediente e pequenas invasões diárias.
O sábado amanheceu frio e silencioso.
Rafaela acordou sem despertador, encarando o teto sob o cobertor. O apartamento em Santa Rosa estava num silêncio atípico. Ao se levantar, vestiu o moletom cinza dos Falcões por cima do short de dormir e prendeu o cabelo num rabo de cavalo frouxo. O tecido gigante ainda guardava o perfume de Gabriel, provocando nela um sorriso pequeno.
Descalça, foi até a cozinha e colocou a água do café para ferver. Pegou o celular e a tela acendeu.
Gabriel: Acordei, mas não recomendo.
Uma risada nasalada escapou de Rafaela.
Rafaela: Bom dia pra você também, drama queen.
A réplica veio no segundo seguinte.
Gabriel: O Diego tentou fazer café. Tenho quase certeza de que derreteu algum utensílio de plástico na cozinha.
Gabriel: E antes que você reclame… bom dia, minha linda.
Rafaela apoiou os cotovelos na bancada, o peito esquentando. Digitou sem pensar muito:
Rafaela: Sobreviveu à noite sem mim?
Os três pontinhos surgiram. Sumiram. Voltaram.
Gabriel: Não faz pergunta difícil antes das nove da manhã, gata.
Rafaela encarou a tela. O sorriso cedeu espaço a um frio súbito na barriga: a linha entre o controle deles e o caos completo estava por um fio.
No apartamento de Icaraí, Gabriel jogou o celular na bancada e passou as mãos pelo cabelo. A fumaça do café queimado do Diego ainda flutuava pela sala.
— Se você queimar mais um ovo, eu enfio essa frigideira na sua testa, Diego — avisou Daniel, sem alterar o tom, tomando um gole do café ruim.
— Foi o fogo alto! — Diego se defendeu. Encarou Gabriel. — E você aí, com essa cara de quem perdeu o rumo da vida?
— Vai se foder, Diego — resmungou Gabriel, pegando o aparelho de novo.
A tela acendeu:
Rafaela: Tadinho!
Rafaela: Mas sabe o que é realmente difícil? Descobrir que o frio de Niterói fica bem mais suportável quando o seu moletom vem com você dentro.
Gabriel soltou um riso baixo, entregue.
— Ihhhhhhh! — Diego apontou o dedo. — PUTA QUE PARIU, o cara tá flertando às nove da manhã!
Gabriel ignorou o amigo e digitou:
Gabriel: Você roubou meu moletom. Isso é crime.
Rafaela: Posse por tempo prolongado. Agora é minha propriedade.
Rafaela: Vai lá salvar o apartamento antes que o Diego incendeie a cozinha. Te vejo mais tarde.
Gabriel leu a palavra propriedade e deu um sorriso de canto, pegando a chave do carro.
— Aproveitem o café sabor pneu queimado de vocês — disse. — Vou treinar.
De volta a Santa Rosa, Rafaela lia um artigo no notebook quando Letícia apareceu no corredor, parecendo um fantasma descabelado.
— Bom dia, flor do dia — provocou Rafaela.
— Não fala comigo nesse tom antes da cafeína — murmurou Letícia, servindo uma caneca. Deu o primeiro gole, fechou os olhos e virou-se para a amiga, estreitando o olhar. — Que bicho te mordeu? Essa cara aí não é de quem está estudando biologia num sábado de manhã.
— Você está delirando por falta de açúcar — desconversou.
— Rafaela Maria — Letícia apoiou as mãos na bancada. — Foi o Gabriel, não foi?
— Ele só mandou bom dia!
— Mentira. Essa é cara de flerte — Letícia sentou-se ao contrário na cadeira. — Abre o jogo.
— Ele só reclamou porque eu fiquei com o moletom dele — disse Rafaela, sentindo as bochechas esquentarem.
— Você tem dormido abraçada nisso desde que ele esqueceu aqui!
O celular de Rafaela vibrou sobre a mesa. As duas olharam juntas.
Gabriel 🐺
Letícia arregalou os olhos.
— Ele tem emoji personalizado?! Um LOBINHO?!
— Não começa! — Rafaela puxou o aparelho.
— E por que um lobo?
— Por causa da tatuagem... — murmurou, escondendo o rosto atrás da xícara.
Letícia deu uma gargalhada alta.
— Aquela tatuagem que te deixou toda assanhada outro dia?!
— LETÍCIA! Quer saber? Perdeu o direito ao café — Rafaela arrancou a caneca da mão da amiga.
— Ei! Ditadura não! — riu Letícia. — Mas, sinceramente? O emoji foi uma adição muito sensual da sua parte. Gostei!
Rafaela riu contra a própria vontade. O clima era leve, quente e familiar.
Até o telefone de Letícia tocar no quarto.
Não era mensagem. Era uma chamada contínua.
O sorriso de Letícia desmoronou. A cor sumiu do seu rosto. A postura relaxada deu lugar a ombros erguidos e punhos fechados.
— Deve ser o Guilherme — falou, a voz fina. — Melhor eu atender, ou ele vai passar a manhã toda ligando.
Ela caminhou rápido pelo corredor. Rafaela ficou em silêncio. Pela porta aberta, chegavam os fragmentos:
— Não, Gui… eu sou dormir demais. Perdi a hora só isso… não quis dizer isso. Desculpa, amor.
O som do celular jogado sobre a cama marcou o fim da chamada. Quando Letícia voltou, parecia outra pessoa.
— Lê... o que houve?
— Nada, Rafa. Ele só acordou estressado — desconversou, colocando a caneca pela metade na pia. — Ele viaja na segunda e quer me ver hoje. Vai passar aqui em meia hora.
Fez uma pausa. A frase veio seca, mecânica:
— Melhor eu ir me arrumar. Ele odeia atrasos.
Antes que Rafaela dissesse algo, Letícia entrou no quarto e bateu a porta.
Exatamente trinta minutos depois, a buzina ecoou da rua. Letícia passou apressada, maquiada, vestindo uma roupa impecável.
— Estou indo. Não sei se volto hoje — disse, sem encarar Rafaela, mexendo na bolsa.
— Lê... se cuida, tá?
Assim que a porta fechou, Rafaela foi até a janela e afastou a cortina devagar. Lá embaixo, o carro de Guilherme esperava com o motor ligado. Letícia entrou no banco do passageiro e o veículo arrancou no mesmo instante, dobrando a esquina.
Rafaela continuou parada ali, segurando o tecido da cortina. Pela primeira vez, teve a sensação de que não estava vendo a amiga sair para um fim de semana de casal. Estava vendo alguém entrar voluntariamente em uma situação da qual talvez não soubesse mais como sair.
⚽️📖⚽️
Gabriel encostou na parede externa da academia, tirando o celular do bolso assim que sentiu a vibração.
— Oi, nerdzinha.
— Oi, campeão — a voz dela veio suave, mas havia um fundo de tensão que ele pescou na hora. — Atrapalho?
— Não. Acabei de sair da academia — respondeu. — O que aconteceu para você me ligar a essa hora?
Rafaela soltou o ar devagar.
— Queria saber se você já almoçou. Se não tiver ido, pensei se não queria comer alguma coisa. Fora de casa.
Gabriel afastou-se da parede, o tom de brincadeira sumindo na mesma hora. Ele conhecia o jeito dela.
— Não almocei — respondeu, caminhando até o carro. — Meia hora, gata. Me espera na portaria.
Trinta e sete minutos depois, Rafaela entrava no carro prata. O interior cheirava a ele — perfume importado e banho tomado às pressas. Gabriel vestia uma camisa azul claro e os fios de cabelo ainda estavam levemente úmidos.
Ele a olhou de cima a baixo, admirando o vestido preto de mangas três quartos que ela usava.
— Você está linda.
— Você até que não está tão mal, Duarte.
Gabriel soltou uma risada vinda do peito.
— “Não tá tão mal”? Passei meu melhor perfume e quase me atrasei escolhendo essa camisa. Um “você tá incrível” não arrancava pedaço.
— Não alimente o próprio ego, Duarte. As estatísticas mostram que isso prejudica o rendimento em campo — rebateu fingindo seriedade.
O restaurante em São Francisco era calmo, com mesas na varanda voltadas para a Baía. Depois de pedirem, Gabriel apoiou os braços na mesa e encarou Rafaela, que há minutos girava o canudo no copo de suco.
— Tá. Agora me conta o que realmente aconteceu.
— O que te faz achar que aconteceu alguma coisa?
— Você me ligou pedindo almoço de última hora, tá usando um vestido bonito pra fingir que está tudo bem e sua cabeça parece estar a mil quilômetros daqui.
Rafaela suspirou, cedendo.
— É a Letícia. O Guilherme, acho que ele anda pegando pesado com ela. Tentei conversar, mas ela o defende. Diz que é "excesso de zelo", que é porque ele a ama demais. Me dá uma agonia ver a Letícia se encolhendo desse jeito para caber nas regras dele.
Gabriel estendeu a mão sobre a mesa, cobrindo a dela. O toque morno foi um ancoradouro imediato.
— Eu acho que o melhor que você faz agora é continuar por perto, sem julgar. — disse ele, a voz grave e calma. — E se você tentar arrancar isso dela à força, ela vai defender ele em vez de ouvir você. Ela precisa saber que, no dia em que a ficha cair, seu abraço vai estar lá.
Rafaela encarou as mãos unidas, um nó desatando em seu peito.
— Você tem uma sabedoria bem guardada atrás dessa marra de jogador, sabia?
Gabriel riu baixo e puxou a cadeira dela para mais perto, encurtando o espaço. O rosto dele ficou a centímetros do dela.
— Eu tenho meus momentos, gata.
De perto, o hálito de menta dele roçava nos lábios dela. O polegar de Gabriel acariciava a mão de Rafaela com calma. Ela percebeu tarde demais que estava olhando para a boca dele.
— Está pensando muito alto aí dentro, nerdzinha — cutucou ele.
Rafaela soltou o ar pelo nariz, tentando recuperar algum resquício de dignidade.
— Você é convencido a um nível clínico, sabia?
— E você muda de assunto sempre que fica nervosa.
— Eu não mudo de assunto — ela tentou blefar, a voz caindo um tom.
— Não? — ele sussurrou, a mão subindo pelo braço dela até a nuca, prendendo-se nos fios soltos. — Então, do que estávamos falando mesmo?
Rafaela engoliu em seco, abandonando qualquer estatística lógica.
— Sobre o quanto eu quero beijar você.
Gabriel a encarou por uma fração de segundo um brilho focado tomasse seu olhar.
— Finalmente uma resposta cientificamente correta.
O beijo começou foi calmo. Os lábios se encaixaram com precisão. Rafaela relaxou os ombros, segurando a gola de sua camisa, entregando-se ao ritmo de Gabriel.
Quando se afastaram, devagar, o polegar dele limpou o canto da boca dela.
— É… — ele murmurou, desarmado. — Você realmente sabe como calar a minha boca.
Depois do almoço, caminharam pela orla e Gabriel sugeriu irem para o apartamento dele. Rafaela aceitou, querendo fugir do silêncio pesado de sua própria casa.
Assim que a porta do apartamento de Icaraí se abriu, a atmosfera caótica tomou conta.
— Toca a bola, porra! — Diego berrava do sofá, sem camisa, segurando o controle do videogame.
— Você tá prendendo a jogada, seu jumento! — Daniel gritava ao lado.
Gabriel parou na entrada, a mão na cintura, soltando um suspiro indignado.
— Que zona, hein? E que cheiro de meia suja é esse?
Diego nem virou o pescoço:
— Hoje é sábado e eu me recuso a arrumar casa. Você saiu abanando o rabinho pra encontrar tua mulher e a gente teve que almoçar salgadinho de quei... — Diego paralisou ao ver Rafaela na porta. Chutou a bola virtual na arquibancada. — Opa.
— Oi, meninos — cumprimentou Rafaela, rindo. — Interrompo?
Diego se levantou rápido.
— Oi, Rafa. Não interrompeu nada. Quer jogar?
Gabriel deu um passo largo, bloqueando a visão do amigo com as costas largas.
— Veste a camisa primeiro, Diego — rosnou Gabriel, jogando a chave na mesa.
— Calma, capitão! Tá com medo da sua namorada ver que meu shape é melhor que o seu? — zombou Diego, rindo enquanto vestia a blusa do avesso.
Rafaela sentou-se no sofá macio. Pelos quarenta minutos seguintes, a sala foi dominada por risadas, gols sofridos nos acréscimos e provocações. Rafaela fez dupla com Gabriel, surpreendendo os meninos ao rebater os dribles de Diego e vibrar a cada gol. Gabriel jogava compenetrado, mas a cada jogada certa, buscava o olhar dela, apertando seu joelho ou trocando risos cúmplices.
Ao fim da tarde, Daniel e Diego se despediram para resolver pendências na rua, deixando para trás um rastro de piadas e a porta batendo.
O silêncio desceu sobre a sala.
Gabriel jogou a cabeça para trás no sofá, a luz alaranjada do crepúsculo entrando pelas janelas. A mão dele subiu para o ombro de Rafaela, os dedos roçando em seu pescoço.
— Enfim, sozinhos — murmurou ele, a voz baixando para aquele tom grave que desorganizava os pensamentos dela.
— Eles são barulhentos, mas dá para ver o quanto vocês se gostam — disse ela, encostando a cabeça no ombro dele.
Rafaela olhou para o relógio. O receio sobre Letícia ensaiou um retorno, e ela fez menção de se mexer.
— Acho que preciso ir andando…
A mão de Gabriel desceu até a cintura dela, segurando-a com um aperto leve e protetor.
— Fica.
— Biel, a Letícia…
— Eu sei, eu lembro — ele a interrompeu com suavidade, o polegar fazendo um carinho leve perto do quadril dela. — Mas ontem você ficou lá por ela. Passou o dia de hoje preocupada. Só... tira o resto da noite para você. Comigo.
Rafaela mordeu o lábio, hesitante.
— Gabriel, se eu ficar, a gente não vai…
— A gente vai pedir uma pizza, conversar. Dormir juntos. Só isso. — Garantiu ele, sério. — Você escolhe uma camiseta minha, a gente deita e assiste a um filme. O que acha?
Rafaela olhou nos olhos dele, encontrando apenas uma calmaria imensa e a certeza de segurança. Um sorriso rendido surgiu em seus lábios.
— Por acaso você não teria nenhum outro moletom daqueles por aí dando sopa, teria?
Capítulo 31: Rabanadas
A casa estava mergulhada em uma calma preguiçosa. Daniel e Diego ainda não tinham retornado e, lá fora, a rua quase deserta — cortada apenas pelo som distante de um cachorro latindo — parecia o cenário perfeito para o fim de um dia mais intenso do que Rafaela esperava.
Ela descansava a cabeça no ombro de Gabriel enquanto ele afagava seus cabelos, assistindo a uma série qualquer sem dar muita atenção à tela. A caixa de pizza jazia aberta sobre a mesa de centro, com duas fatias esquecidas que nenhum dos dois tivera apetite para terminar.
Gabriel se espreguiçou, soltando um bocejo longo antes de virar o rosto na direção dela, com os olhos bem-humorados.
— Bora deitar?
Rafaela hesitou por um segundo, a vista presa no painel da TV. A decisão de passar a noite ali parecia muito mais concreta agora que a casa havia silenciado. Gabriel percebeu a sutil mudança na postura dela. Inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos com as mãos entrelaçadas, a voz descendo para um tom tranquilo:
— Ei… relaxa. Não vou te atacar no meio da noite nem nada disso. Eu posso armar o colchonete e dormir no chão, se você quiser.
Ela soltou o ar devagar, a tensão no peito aliviando.
— Tá bom.
Os dois subiram os degraus de madeira. No quarto, Gabriel foi direto até o armário, puxou uma das gavetas do fundo e tirou uma camisa larga de algodão, cinza e gasta pelo tempo.
— Aqui. Prometo que é confortável — disse, estendendo a peça. — Tem toalha limpa no banheiro e a escova de dentes nova tá no armário do espelho — completou, abaixando-se para desenrolar o colchonete no piso.
Ela assentiu, segurando o tecido contra o peito, e caminhou até a suíte. Antes de abrir o registro, encostou na bancada da pia e trocou mensagens rápidas com Letícia:
Rafaela: Oi, Lelê, como você está?
Lelê: Estou bem, Rafa. Desculpa sair correndo mais cedo.
Lelê: A gente ir assistir ao jogo juntas no próximo final de semana e depois fazer um dia só nosso. O que acha?
Rafaela: Fechado. Eu só quero que você fique bem, amiga. Se quiser conversar sobre qualquer coisa, eu estou aqui. Sempre! ❤️
Lelê: Sempre!❤️ Segunda estou de volta! Dorme bem. Não se esqueça de trancar tudo antes de ir deitar.
Rafaela: Amiga, não vou dormir em casa hoje.
Rafaela: Vou dormir no Gabriel.
Lelê: COMO ASSIM??? 😳
Rafaela: Calma. Só dormir mesmo.
Lelê: Aham. E eu sou a Sabrina Carpenter 🙄.
Rafaela: Tá bom! Te vejo segunda. Boa noite, Sabrina. 😂
Lelê: Boa sorte tentando resistir ao lobo, Chapeuzinho. 😏
Rafaela: 🖕🏽
Rafaela riu sozinha, antes de guardar o celular sobre a bancada.
Tomou um banho rápido, retirando o restante da maquiagem, e vestiu a camisa dele — que caía ampla, cobrindo até a metade de suas coxas. Quando abriu a porta, encontrou Gabriel ajeitando um lençol no chão. Ao notar a aproximação dela, ele levantou o olhar e parou por um instante. O olhar dele percorreu o contraste dos cabelos soltos sobre os ombros e as pernas desnudas.
Gabriel desviou a atenção para o colchete, mas não conseguiu conter o traço divertido que surgiu em seus lábios.
Rafaela cruzou os braços, mordendo o canto da boca para mascarar o constrangimento.
— Se você prometer se comportar… pode ficar na cama.
Ele ergueu o queixo, a expressão se abrindo devagar.
— Combinado. Prometo que não mordo. Só vou tomar uma ducha rápida e já volto.
Sozinha, Rafaela deitou-se na cama de casal, puxando o edredom até a altura do abdômen. No banheiro, Gabriel encarou o próprio reflexo no espelho, soltando o ar lentamente para desacelerar o ritmo cardíaco.
Quando retornou, vestia apenas uma bermuda preta e uma camiseta básica. Apagou a luz do teto, mantendo aceso apenas o abajur da mesa de cabeceira, e deitou-se ao lado dela, preservando um espaço respeitoso entre os dois.
A quietude do quarto perdurou por alguns minutos, acompanhada pelo zumbido contínuo do ar-condicionado. Rafaela fitava o teto, as mãos sobre o peito, o raciocínio trabalhando sem freio.
— Posso te perguntar uma coisa? — quebrou a mudez do ambiente.
— Qualquer coisa — respondeu Gabriel de pronto, virando o rosto no travesseiro para encará-la.
— Com quantas garotas você já transou?
Gabriel piscou algumas vezes na penumbra. Girou o corpo de lado, apoiando a cabeça na palma da mão para olhá-la de frente.
— Uau. Isso saiu bem do nada.
— Você disse que eu podia perguntar qualquer coisa — lembrou ela, sem desviar os olhos do teto.
— E eu posso responder “próxima pergunta”?
— Não — Rafaela virou o rosto para ele, irredutível.
Gabriel soltou o ar ruidosamente, bagunçando os fios escuros da franja com a mão livre.
— Mais do que a minha mãe gostaria de saber e bem menos do que inventam no campus — admitiu, o tom ganhando uma franqueza serena. — Nunca mantive um caderno de contabilidade, mas… por que a pergunta? Isso te incomoda?
— Não exatamente — disse ela, puxando o cobertor até cobrindo os ombros. — Acho que só é estranho porque você parece muito seguro em tudo o que faz. E eu não.
— Seguro? — ele soltou uma risada anasalada — Rafaela, eu quase tive um colapso hoje mais cedo só porque você ficou olhando para a minha boca por cinco segundos. Você me deixa nervoso o tempo todo. A diferença é que eu passei a vida aprendendo a disfarçar melhor.
Rafaela riu baixo, a timidez diminuindo um grau.
— Você já… gostou de alguém assim antes?
— Não desse jeito — respondeu ele, sem hesitar. — Já tive outros rolos antes de você, já gostei de ficar com alguém por um tempo. Mas nunca aconteceu isso aqui.
— “Isso aqui” é um termo com pouca precisão científica, Duarte.
— Isso de querer contar tudo primeiro para uma pessoa — ele explicou, a voz agora era quase um murmúrio pausado. — De passar o dia inteiro pensando no que ela está fazendo. De dirigir até São Francisco só porque a voz dela soou estranha no telefone. De ficar feliz só porque ela roubou meu moletom.
Rafaela sentiu um calor gostoso subir pela nuca. Virou o rosto de volta para o teto, tentando processar a honestidade daquelas palavras.
Gabriel aproveitou a brecha e deslizou um pouco mais para perto dela na cama.
— Minha vez de perguntar uma coisa — disse ele.
Rafaela arqueou uma sobrancelha na meia-luz.
— Isso parece justo.
— Muito — concordou ele, o canto dos lábios subindo devagar. — Você já esteve apaixonada antes?
O sorriso defensivo que começava a despontar nos lábios de Rafaela desvaneceu. Ela desviou o olhar para a parede oposta.
— Pausa longa — Gabriel observou, com um tom de provocação contida. — Devo me preocupar com o histórico?
— Não tem histórico — ela soltou o ar devagar, voltando a encará-lo. — A resposta direta é não. Sempre fui muito prática. Se algo começava a demandar mais esforço do que retorno, meu cérebro simplesmente cortava o interesse. Até você aparecer.
O ar entre os dois pareceu ganhar densidade. Gabriel abandonou qualquer pose descontraída, absorvendo o peso da declaração. Umedeceu os lábios antes de prosseguir:
— E você… — hesitou, dosando as palavras. — Já teve alguém antes de mim?
Rafaela exibiu um traço irônico no canto da boca:
— Quer saber se sou virgem?
Gabriel pigarreou, sem jeito:
— Estava tentando formular de um jeito mais elegante, mas é.
— Já tive experiências, Gabriel. Tenho vinte e um anos, não passei a vida inteira trancada dentro de um laboratório ou de uma biblioteca.
— Eu sei, não foi isso que eu quis dizer. É só que...
— Foram poucas — completou ela, com a voz calma.
Gabriel manteve os olhos cravados no rosto dela por alguns instantes.
— E aí?
— E aí o quê?
— Você gostou?
— De algumas partes.
Ele ergueu as sobrancelhas, genuinamente surpreso:
— “De algumas partes”?
— Gabriel, não me venha com essa cara de choque — disse ela, ajeitando a cabeça no travesseiro. — Não é que tenha sido um horror. Eu só… não compreendo a euforia coletiva em cima disso. Para mim, sexo é meio superestimado.
A mudez que se seguiu no quarto beirou o cômico. Gabriel cobriu a face com a mão, soltando uma bufada de incredulidade:
— Você acabou mesmo de dizer isso olhando na minha cara?
— Você perguntou! — defendeu-se ela, encolhendo os ombros sob o edredom. — Demora, exige energia, agenda, logística, privacidade... E, no final, enquanto o outro parecia estar alcançando a iluminação divina, eu geralmente ficava encarando o teto e calculando a quantidade de artigos que precisava ler no dia seguinte.
Gabriel esfregou os olhos, puxando o fôlego com força:
— Meu Deus do céu. Você conseguiu pegar o sexo e transformar em um projeto de gerenciamento de tempo.
Rafaela manteve uma expressão altiva:
— Sou fã da eficiência.
— Impressionante — ele encarou o forro do teto antes de focar nela outra vez, atônito. — Você faz ideia do que acabou de fazer com a minha moral?
— Não tive a intenção de ferir sua vaidade, Duarte.
— O fato de ter sido espontâneo é o que torna o golpe fatal — ele se apoiou no cotovelo, fitando-a com seriedade. — E comigo? Você acha que vai ser esse relatório burocrático também?
Rafaela abriu a boca para responder rápido, mas parou. A hesitação transparecendo em seu olhar.
— Eu não sei — admitiu ela baixinho, o tom perdendo qualquer traço de ironia. — Mas, com você... a minha cabeça não fica tão quieta.
Gabriel prestou atenção em cada detalhe da feição dela:
— Isso soa como uma contradição.
— Por isso mesmo tá me deixando em alerta — confessou, observando os dedos dele repousados sobre o lençol.
— E se você continuar achando superestimado? — ele perguntou, com a voz serena e baixa. — O que muda?
— Mudaria para você? — devolveu ela.
Gabriel deu de ombros, deslizando a mão até entrelaçar seus dedos aos dela por cima do tecido.
— Não sei. Não quero que você curta nada só porque eu fui insistente ou usei lábia de vestiário. Se um dia fizer sentido, quero que seja uma descoberta sua, no seu tempo.
Rafaela permaneceu em silêncio, absorvendo a ausência total de cobrança naquela resposta.
— E se não fizer sentido nunca?
— A gente segue exatamente como tá aqui agora — ele garantiu, sem titubear.
Ela observou o rosto dele a poucos centímetros do seu e sentiu a última barreira defensiva desmoronar. O ar saiu de seus pulmões com um alívio genuíno.
— Você consegue ser irritantemente compreensivo às vezes — murmurou.
Gabriel exibiu aquele brilho convencido no olhar:
— “Às vezes”? Depois desse espetáculo de maturidade emocional, é esse o elogio que você me dá? O que um homem precisa fazer para arrancar uma nota dez dessa banca?
Ela desenhou um riso suave:
— Não alimenta o próprio ego, Duarte. As estatísticas demonstram que...
— Ah, não. Nem vem — Gabriel envolveu a cintura dela com o braço, puxando-a para o próprio peito antes que ela concluísse o raciocínio. Rafaela soltou uma risada abafada contra a pele dele. — Chega de estatística e gerenciamento por hoje.
Ela não resistiu. Acomodou-se no abraço, a cabeça repousada sobre o peito dele, escutando o ritmo constante do coração do camisa dez. O braço dele a manteve acolhida e Rafaela adormeceu em poucos minutos, compreendendo que não precisava manter a vigília do mundo quando estava ali.
⚽️📖⚽️
A claridade cinzenta do amanhecer invadia o quarto quando Rafaela abriu os olhos. O sol ainda não havia ultrapassado a linha da cortina. Gabriel dormia de lado, de frente para ela, com o braço sob o travesseiro e os cabelos escuros caindo desordenados sobre a testa.
Ela permaneceu imóvel, acompanhando as feições calmas dele, até que a voz rouca cortou o quarto sem que ele abrisse os olhos:
— Tá me analisando há quanto tempo?
— Achei que estivesse apagado — respondeu ela.
Gabriel entreabriu uma pálpebra, preguiçoso:
— Eu tava. Mas senti o peso do seu julgamento atravessando meu sono.
— Eu não tava te julgando — ela riu.
— Tava sim — ele abriu o outro olho, com uma expressão amassada de sono. — Tava pensando: “Nossa, como esse garoto acorda com o cabelo desse jeito e ainda mantém essa marra toda?”.
Rafaela escondeu o rosto no travesseiro, rindo. Gabriel ergueu-se sobre o cotovelo e puxou o tecido com cuidado, revelando o olhar dela outra vez.
— Você é um terror pela manhã, sabia? — disse ela.
— Só devolvo a gentileza, nerdzinha.
Ele levantou-se espreguiçando a estrutura alta antes de ir até o banheiro. Quando retornou, com o rosto lavado e os fios úmidos ajeitados para trás, apoiou-se no batente e olhou para ela na cama:
— Vou descer e passar um café. Quer?
— Quero — respondeu, ajeitando-se nos lençóis com tranquilidade.
Na cozinha, a casa permanecia quieta. Gabriel pegou o pó no armário superior e preparou o coador. Em seguida, abriu a geladeira, reuniu alguns ingredientes e lançou um olhar conspiratório para Rafaela, que acabara de se sentar em uma das banquetas altas da bancada:
— O que acha de rabanadas?
— Rabanadas? Sério? — ela apoiou os cotovelos no mármore. —Tô começando a achar que você quer me vencer pelo cardápio, Duarte.
— E tá surtindo efeito? — murmurou, pegando uma tigela funda.
— Bastante.
Em poucos minutos, o aroma doce de canela e açúcar tomou conta do cômodo. Gabriel depositou duas fatias douradas em um prato e o empurrou pelo balcão.
Rafaela cortou um pedaço com o garfo e provou, fechando os olhos:
— Tá… isso aqui tá impecável.
— Eu sei. Minha genialidade culinária é indiscutível.
Ela deu outra garfada e, quando ele se aproximou para servir café na sua caneca, ergueu a mão:
— Vem cá.
Gabriel inclinou o tronco sobre a bancada. Rafaela deslizou o polegar pelo canto dos lábios dele, limpando uma sobra de açúcar, e levou o dedo à própria boca, saboreando o doce sem quebrar o contato visual.
O olhar escuro do capitão prendeu-se ao dela e o ar pareceu faltar em seus pulmões.
— Para de me olhar desse jeito — pediu ele, a voz mudando de tom.
— Não consigo — respondeu ela, sustentando a provocação.
Gabriel não pensou duas vezes. Deu a volta na bancada com passadas firmes, segurou-a pela cintura e a ergueu sem dificuldade, sentando-a na borda do mármore e encaixando-se entre as pernas dela. O beijo tinha gosto de açúcar e café fresco. As mãos dele agarraram-se em suas coxas sob a camisa ampla, enquanto os dedos de Rafaela puxavam os cabelos da nuca dele para aprofundar o contato.
As respirações tornaram-se curtas na cozinha silenciosa até que Gabriel — lembrando-se com esforço de onde estavam — diminuiu o ritmo aos poucos. Afastou a boca e descansou a testa no ombro dela, recuperando o fôlego contra a pele macia.
— Eu disse que ia me comportar… — murmurou ele.
Rafaela sorriu, o peito subindo e descendo no mesmo compasso:
— A gente tá se comportando.
Ele riu baixo contra a gola da camisa dela:
— Não muito…
Gabriel a ajudou a descer do balcão devagar, mantendo um braço em volta da cintura dela até que os pés de Rafaela tocassem o chão. Ele pegou uma das canecas de café e entregou nas mãos dela, encostando-se ao seu lado na bancada enquanto dividiam o silêncio confortável daquela manhã de domingo.
Rafaela deu um gole no café quente, olhando de soslaio para o perfil tranquilo dele. O coração ainda batia num ritmo acelerado, mas não havia medo, pressa ou qualquer necessidade de fugir.
E talvez, apenas talvez… Rafaela estivesse começando a entender que o problema nunca fora exatamente a mecânica do sexo.
Tinha sido, durante toda a sua vida, a falta de todo o resto.
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