AMOR EM CAMPO

19 Capítulo 18: Convite


Notas iniciais
Oi, time! ❤️⚽️🦅 Tenho apenas um aviso antes da leitura: NÃO COMAM ENQUANTO LEEM ESTE CAPÍTULO. A responsabilidade por possíveis engasgos é inteiramente do Gabriel Duarte e da incapacidade dele de pensar antes de abrir a boca. 🤡 Boa leitura! ⚽📚🤍

O treino daquela manhã rendeu o dobro do esperado. Talvez porque Gabriel estivesse correndo com a energia de quem tinha um objetivo em mente assim que o cronômetro zerasse. Na segunda, Rafaela tinha usado a clássica tática de recuo: correu de volta para os colegas de grupo e o deixou plantado no corredor do auditório.

Mas a terça-feira era um novo dia. Sem Henrique, sem banca examinadora, e sem desculpas científicas para ela fingir que a reação química entre eles não estava prestes a explodir.

Já Rafaela achou que finalmente teria paz. A feira tinha sido um sucesso absoluto, o professor Brandão havia rasgado elogios para a apresentação do grupo e ela estava verdadeiramente animada com a possibilidade real de ganharem a viagem para o simpósio na Alemanha.

O início de tarde, no bandejão, era o caos de sempre: o som metálico de talheres batendo, o burburinho de centenas de conversas cruzadas e o cheiro onipresente de comida queimada. Rafaela e Letícia tinham conseguido uma mesa no canto, um pequeno refúgio onde esperavam almoçar sossegadas antes de encararem o ônibus para o trabalho.

— Eu estou te falando, Rafa, às vezes eu tenho vontade de mandar o Seu Maurício para aquele lugar… Aliás, Maurício não, agora ele quer ser chamado de Maurice — Letícia reclamou do chefe, cutucando um pedaço duvidoso de frango com o garfo. — Como se ele fosse algum estilista de alta costura parisiense, quando, na verdade, todo mundo sabe que ele nasceu em São Gonçalo.

— Maurice? Tipo o lêmure de Madagascar? — Rafaela respondeu, rindo de canto.

Letícia deu uma gargalhada alta, jogando a cabeça para trás.

— Pior que ele lembra mesmo, Rafa! Idêntico!

O momento de descontração entre as duas durou pouco quando viram uma sombra alta e imponente se projetar sobre a mesa de fórmica.

Antes que qualquer uma das duas pudesse protestar, uma bandeja com uma quantidade impressionante de comida foi depositada com um baque seco bem ao lado da de Rafaela. Gabriel acomodou-se no banco de plástico com a naturalidade de quem se considerava o dono do refeitório inteiro.

— O lugar está ocupado, Duarte — Rafaela disparou, sem nem sequer levantar os olhos do próprio prato.

— Ah, é? E por quem? Seu namorado? — Gabriel rebateu imediatamente, puxando o copo de suco de cor incerta. — Ah, não, deve ser pelo Henrique. Ou será que tem um quarto cara na jogada? Me passa o contato dele, estou pensando seriamente em formar um grupo dos iludidos pela nerdzinha no WhatsApp. — Ele olhou para Letícia e deu um aceno casual com a cabeça. — Oi, escudeira! Como vai a vida de cúmplice?

Letícia arqueou uma sobrancelha, divertindo-se instantaneamente com a empáfia. Ela alternou o olhar entre o sorriso predatório de Gabriel e a rigidez absoluta que tomou os ombros de Rafaela.

— Vai bem, capitão. Sobrevivendo aos ataques da sua amiga aqui. E que história é essa de grupo?

Gabriel se curvou na direção de Rafaela, ignorando completamente qualquer barreira de espaço pessoal.

— Não ficou sabendo, Letícia? Parece que a nerdzinha aqui anda muito ocupada gerenciando vários namorados ao mesmo tempo pelo campus. Dá para acreditar? E depois o cafajeste da história ainda sou eu.

Rafaela finalmente levantou os olhos e o encarou. As bochechas queimavam, mas o olhar castanho de Gabriel carregava um brilho insuportável de "missão cumprida". Ele estava usando o deboche para cutucá-la, e o pior era ver que estava funcionando.

— Você não tem nada melhor para fazer da vida além de me perturbar, não? — ela sibilou, os dentes quase travados.

— Que grosseria é essa, Rafa? — Ele pegou um guardanapo de papel, limpando o canto da boca devagar. — Somos amigos. E amigos almoçam juntos.

O silêncio indignado de Rafaela foi quebrado apenas pelo barulho de Letícia sugando o finalzinho do seu suco de caixinha com o canudo, fazendo um ruído estridente. Ela assistia ao confronto como se estivesse assistindo à final de Roland Garros.

— Gente, por favor, continuem. Não se acanhem pela minha presença — Letícia ironizou, segurando o suco de caixinha como se fosse um balde de pipoca no cinema. — Eu pago a mensalidade dessa faculdade exatamente por esse tipo de entretenimento de alta qualidade.

— Letícia, nós duas somos bolsistas, então cala a boca — Rafaela pediu, desesperada, antes de voltar sua atenção inteira para o intruso. — Amigos almoçam juntos, Duarte. Mas amigos também respeitam o espaço pessoal alheio e não saem aplicando gravatas e fazendo interrogatórios em conhecidos no meio de um anfiteatro. O show que você deu ontem com o Henrique foi ridículo. Você passou de todos os limites.

— Eu? — Gabriel soltou uma risada ultrajada, embora o divertimento continuasse intocado em suas feições. Ele apoiou os antebraços musculosos na mesa, aproximando-se ainda mais. — Eu fui extremamente diplomático, Rafaela. O sujeito estava quase te engolindo num abraço e eu só fui te parabenizar. Como eu ia adivinhar que o coitado ia desabar emocionalmente ali mesmo?

— Você fez de propósito. Jogou verde para ele falar sobre o meu namorado.

— E funcionou que foi uma beleza — Gabriel cantarolou, totalmente sem remorso. Ele pegou o próprio garfo e, com a maior naturalidade do mundo, espetou uma batata frita diretamente do prato de Rafaela. — Descobri que o "Senhor Química Perfeita" é tão misterioso que nem o cara que saía com você sabia da existência dele. Aliás... e você, escudeira? Conhece esse otário?

Rafaela engoliu em seco, cravando em Letícia um olhar que dizia, muito claramente: veja lá o que vai falar, senão te transformo em adubo orgânico.

— É… — Letícia fez uma pausa dramática, o cérebro acelerando para não enrolar ainda mais a amiga. — Eu…

A batata frita que Gabriel mastigava agora tinha o gosto da vitória sobre uma batalha que ele já considerava vencida.

— Não precisa responder, Letícia — Rafaela cortou, endurecendo a expressão e sustentando a farsa puramente na força do ódio. — Eu não devo satisfações da minha vida amorosa para ele.

Letícia soltou o ar, aliviada pela saída rápida de Rafaela, e voltou a comer.

Rafaela soltou o garfo de metal sobre a bandeja de inox. O estalo agudo fez um casal na mesa ao lado olhar na direção deles, mas ela nem se importou.

— Olha aqui, Gabriel. A sua nota já está no sistema. Você não precisa mais fingir essa simpatia forçada só para não rodar na matéria do Santana! — A respiração dela veio curta, os olhos castanhos faiscando de raiva. — Chega de palhaçada. Joga limpo comigo de uma vez por todas: o que você quer?

O clima de deboche na mesa assentou por um segundo. Gabriel quebrou o contato visual, olhando para o prato de comida antes de focar novamente em Rafaela. Quando ele respondeu, a voz tinha perdido toda aquela camada de provocação barata, assumindo um tom muito mais grave e honesto:

— Quero você, Rafaela.

Ele disse o nome dela, sustentando o olhar com uma intensidade tão absurda que fez o murmurinho do bandejão parecer abafado por um fone de ouvido com isolamento acústico.

O pedaço de frango que Letícia acabara de engolir seguiu direto pelo caminho errado. A garota se engasgou feio, tossindo contra a mão em um misto de sufocamento e choque, enquanto Rafaela permanecia totalmente paralisada, sentindo o próprio sistema operacional entrar em pane sob o peso daqueles olhos escuros.

— Puta... merda… — Letícia conseguiu falar entre uma tosse e um arfar.

— Letícia! — Rafaela despertou do transe, grata pela distração, oportuna, embora verdadeiramente preocupada com a integridade física da amiga.

Ela se levantou da cadeira de supetão e contornou a mesa, desferindo dois tapinhas firmes nas costas de Letícia, que continuava vermelha e tentando recuperar o oxigênio. Sem dar tempo para a amiga se recompor totalmente, Rafaela a puxou pelo braço, levantando-a da cadeira com uma força que nem sabia que tinha.

— Vamos. Eu preciso levar você para a enfermaria agora — Rafaela decretou, a voz propositalmente alta para abafar o eco da declaração de Gabriel em sua mente.

Gabriel acompanhou o movimento, levantando-se; a expressão de deboche substituída por uma ponta de preocupação real. Ele deu um passo à frente, bloqueando parcialmente o corredor entre as mesas.

— Ei, calma. Eu vou com você. Posso ajudar a carregar as coisas ou...

— Não! — Rafaela disparou, estendendo a mão livre para impedi-lo de se aproximar. Ela o fuzilou com os olhos, transferindo toda a sua pane interna para uma descarga de pura raiva. — Você não vai a lugar nenhum, Duarte. Olha o estado dela! Isso tudo é culpa sua e da sua… falta de filtro. Fica longe da gente.

Gabriel ergueu as mãos em sinal de rendição, mas as bochechas se ergueram com o retorno daquele sorriso de canto insolente, percebendo exatamente o tamanho do estrago que tinha feito na pose de durona da bióloga.

Sem esperar mais nenhum segundo, Rafaela ajeitou a alça da mochila no ombro e saiu rebocando Letícia pelo braço em direção à saída do refeitório, praticamente arrastando a amiga, que ainda tossia e tentava, sem sucesso, olhar para trás para ver a reação do capitão.

— Eu estou bem, Rafa, não precisa me levar para a enfermaria! — Letícia resmungou com a voz ainda meio embargada assim que pisaram fora do restaurante. — Mas o que foi aquilo, hein? “Eu quero você, Rafaela”, puta que pariu! — Letícia disse, tentando imitar o tom rouco de Gabriel.

— Tá achando graça, Letícia? Sério? — Rafaela disparou, gesticulando com indignação. — Eu não teria que aturar esse ego ambulante se não fosse por aquela sua "ideia genial".

Letícia parou de repente, cruzando os braços com um sorriso de quem sabia exatamente onde estava pisando.

— E você adora — retrucou com simplicidade.

Rafaela travou no meio do pátio, as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo.

— Eu adoro? Letícia, ele é um egocêntrico, invasivo e... e tenho certeza de que ele tá me perseguindo só porque não se conforma com o fato de eu não ser uma das seguidoras dele que caem com qualquer sorriso torto.

— Sei... — Letícia voltou a andar, jogando o cabelo por cima do ombro com uma indiferença calculada. — Então, se você quer tanto que isso acabe, por que surtou quando te sugeri dar o fora nele? Se o objetivo é o fim, a linha de chegada estava bem ali. Bastava cruzar.

Rafaela abriu a boca para rebater, mas a lógica de Letícia era um golpe baixo, direto no plexo solar da sua racionalidade. Ela não tinha um argumento para explicar por que o encerramento do plano parecia, de repente, uma perda em vez de uma vitória.

— Eu já expliquei — Rafaela murmurou, voltando a caminhar, mas sem a mesma pressa de antes. — A queda precisa ser grande. Se eu parar agora, ele só vai achar que eu fui uma distração de uma semana. Ele precisa sentir o impacto.

— Olha, se aquela declaração no bandejão não foi impactante o suficiente, não sei mais o que vai ser — Letícia parou na frente do prédio da biblioteca, virando-se para a amiga com um olhar sério que misturava pena e aviso —, mas cuidado, Rafa, em toda colisão, os dois corpos sofrem o impacto. Você está planejando a queda dele de uma altura tão grande que esqueceu que está amarrada na mesma corda.

Rafaela olhou para as próprias mãos. Ela pensou na confissão dele no corredor do Bloco C, no perfume amadeirado e no desespero cru que ele tinha mostrado antes de a armadura dele voltar ao lugar.

— Eu vou para a livraria — declarou Rafaela, querendo desesperadamente mudar de assunto antes que Letícia começasse a dissecar sua alma. — O Seu Alberto me pediu para organizar a seção de novos lançamentos e eu prefiro lidar com personagens de papel do que com jogadores de futebol reais.

— Vai lá — Letícia deu um tchauzinho cínico. — Bom trabalho! E tenta não ler nenhum romance, pra não lembrar de um certo capitão de time...

Rafaela deu as costas, ignorando o comentário. Mas, enquanto caminhava em direção aos portões da UC, a frase da amiga ecoava: "Você está amarrada na mesma corda".

⚽📖⚽

Depois do laboratório, a Páginas & Prosa era o único lugar onde o mundo de Rafaela fazia sentido. Estar cercada por livros todos os dias costumava ser seu calmante natural, mas, naquela tarde, até as prateleiras pareciam estar à espera de um desastre.

Ela estava no corredor de ficção científica, empurrando um carrinho de metal carregado de novos lançamentos. Ela tentava focar na ordem alfabética, mas a voz de Gabriel, afirmando com todas as letras que a queria, continuava nublando sua mente.

O sino acima da porta tilintou.

Ela não se virou. O Seu Alberto não estava, e o movimento de clientes era baixo. Então, continuou organizando os livros, o coração martelando contra as costelas a cada passo que ouvia se aproximar pelo corredor.

— Interessante. Achei que você fosse mais do tipo que gosta de biografias de cientistas mortos, não de naves espaciais.

A bióloga fechou os olhos por um segundo, inspirando o aroma que agora competia com o perfume das páginas dos lançamentos. Virando-se, encontrou o capitão encostado em uma das estantes de madeira. Ele usava uma camisa cinza e, com o olhar menos presunçoso, parecia estranhamente... humano. E muito real.

— E eu achei que a cota de importunação diária tivesse sido batida no bandejão — ela disse, voltando a atenção para o carrinho e resgatando um exemplar de Duna.

— Calma! Só vim te devolver uma coisa — ele respondeu, desencostando-se da estante e reduzindo a distância entre eles.

Ele estendeu a mão. Entre os dedos longos estava uma das canetas de ponta fina de Rafaela, que ela achou que havia perdido no laboratório. Ela esticou o braço para pegá-la, mas Gabriel não a soltou de imediato. Ele segurou a outra extremidade do objeto, forçando-a a sustentar o contato visual.

— Devo ter guardado no meu estojo sem querer.

— E você não podia ter esperado até a próxima aula para me devolver?

— Bom, na verdade, eu não vim só para te devolver isso… — respondeu ele, a voz baixando para aquele tom rouco que fazia a temperatura do corpo de Rafaela subir de forma perigosa. — Eu queria te fazer um convite.

Ela puxou a caneta com firmeza, guardando-a no bolso do avental para disfarçar o leve tremor nos dedos.

— Convite?

O jogador suspirou. A fissura que ela tinha visto no corredor na sexta-feira estava ali de novo, espiando por trás dos olhos escuros.

— Sim. Quero que você me veja jogar no sábado. Quero que veja outra parte minha, uma que talvez você não conheça. Sem festas, sem máscaras... Só eu fazendo o que realmente gosto.

Ela estreitou os olhos, surpresa pelo convite.

— E por que eu faria isso? — perguntou, em um tom defensivo.

— Porque acho que você me vê de um jeito que ninguém mais vê — ele deu um pequeno sorriso, quase hesitante. — E eu gostaria que você visse o que realmente me motiva, em vez de apenas me rotular como o cara arrogante que só pensa em sexo e flertes. Prometo que, mesmo que você não entenda nada de tática de jogo, a energia lá vai ser diferente.

Rafaela sentiu o silêncio da livraria se tornar subitamente pesado. O pedido dele não tinha o deboche do bandejão nem a possessividade do auditório; era um convite para entrar em um espaço que, ela percebeu agora, ele não abria para qualquer um.

— "O cara arrogante" é um rótulo que você mesmo se esforça muito para manter, Gabriel — ela rebateu, sentindo-se exposta sob aquele olhar excessivamente sincero. — Você tem uma arquibancada inteira gritando seu nome a cada jogo. Porque quer que eu vá?

Gabriel se aproximou devagar. Ele baixou o tom de voz, buscando o olhar dela de um jeito tão sincero que tornava impossível não escutá-lo.

— Porque a arquibancada grita pelo número dez. Eles não estão vendo o que você vê. Você me olha como se eu fosse um problema que você ainda não conseguiu resolver. E, honestamente? Eu prefiro mil vezes isso a ser o troféu de alguém.

Ele observou a reação dela, notando como ela apertava a borda do exemplar de Duna até as pontas dos dedos ficarem brancas. Rafaela engoliu em seco; a insistência dele em querer que ela o conheça de verdade estava quebrando todas as suas defesas.

— Sábado à noite, Rafaela. No estádio da universidade. — Ele deu um meio-sorriso, resgatando um pouco daquela marra clássica. — Amigos se apoiam, não é mesmo?

Rafaela soltou um riso curto, balançando a cabeça diante da sagacidade dele. O desgraçado vinha usando o escudo da "amizade" que ela criou como arma contra ela.

A garota olhou para ele. O plano de Letícia gritava no fundo da sua mente: "É a oportunidade perfeita. Vá ao jogo, finja interesse e depois use isso para a queda final." Mas, no fundo de sua mente, uma nova variável surgia: ela não tinha mais certeza se conseguiria sair daquele estádio sem que os seus próprios sentimentos sofressem uma goleada irreversível.

— Tá, eu vou — ela disse, tentando recuperar a postura rígida de sempre. — Mas... não espere que eu use uma camiseta com o seu número ou balance pompons.

Gabriel abriu um sorriso largo, o primeiro sorriso real, leve e sem segundas intenções que ela viu no rosto dele.

— Só de você aparecer, já vai ser a maior vitória da minha temporada.

Ele se afastou, caminhando em direção à porta da Páginas & Prosa, mas parou antes de sair, olhando-a por cima do ombro com um brilho divertido e desafiador nos olhos.

— Ah, e avisa ao "Senhor Química Perfeita" que ele está convidado também. Seria uma pena ele perder o show.

O sino da porta badalou, e Gabriel desapareceu na claridade da tarde. Rafaela soltou o ar que nem percebeu que prendia, olhando para o exemplar de Duna ainda em suas mãos. A capa estava amassada onde seus dedos tinham pressionado com força — a primeira evidência física de que, não importava o quanto tentasse negar, Gabriel Duarte tinha o poder de desorganizar toda a sua ordem.

⚽️📖⚽️

Rafaela estava sentada em sua cama com o notebook sobre as pernas, revisando um artigo imenso sobre a influência dos polímeros sintéticos na degradação de microambientes marinhos. A quietude do quarto, no entanto, foi brutalmente interrompida quando Letícia entrou batendo a porta e se jogou no colchão com os olhos vermelhos e o nariz entupido.

— O Guilherme é um idiota! — ela exclamou, socando o travesseiro com força. — Um babaca completo, Rafa!

Aquela cena era mais comum do que o desejado. Pelo menos uma vez por semana, o roteiro se repetia. As duas se mudaram de Saquarema para Niterói juntas, e Letícia, sempre a mais sociável, arrastava Rafaela para cada barzinho da Cantareira ou tarde de sol em Itacoatiara possível logo após a mudança. Foi em uma dessas saídas que ela conheceu o Guilherme.

Só depois, em casa, enquanto faziam a "investigação padrão" no Instagram dele, descobriram que o cara era herdeiro de uma das maiores agências de publicidade do Rio. Letícia tentou resistir; ele era quatro anos mais velho e exalava aquele ar de "riquinho babaca" que ela tanto temia. Mas o rapaz a venceu pelo cansaço e pela insistência. Agora, quase um ano depois, o relacionamento deles era um ciclo infinito de paixão avassaladora e choros compulsivos na cama de Rafaela.

— O que houve dessa vez, Lelê? — Rafaela perguntou, suspirando e colocando o notebook de lado.

— Ele está surtando porque… Ah, quer saber? Deixa para lá. Eu não quero mais gastar meu oxigênio falando dele hoje — Letícia fungou, limpando o rosto com a manga do pijama e encarando a amiga.

Houve uma pausa dramática enquanto Letícia se ajeitava de bruços, apoiando o queixo nas mãos com um brilho malicioso que substituiu o choro em tempo recorde.

— Vamos falar de outro relacionamento complicado — ela decretou, arqueando uma sobrancelha. — Você e seu best friend, Gabriel Duarte.

Rafaela revirou os olhos, puxando o notebook de volta para o colo como se ele fosse um escudo.

— Você não quer falar de um idiota só para poder falar de outro? — rebateu Rafaela, tentando focar nos polímeros marinhos, embora soubesse que, com Letícia naquela posição, a concentração era uma causa perdida.

— O Gabriel não é "outro idiota" e você sabe disso. O Guilherme é um drama mexicano, mas o Duarte... — Letícia deu um sorriso conspiratório. — O Duarte é um experimento que está saindo do controle da cientista. E aí? O que ele queria na livraria?

Rafaela fechou o notebook e se levantou, caminhando até o guarda-roupa apenas para ocupar as mãos e fugir do olhar clínico de Letícia.

— Ele queria devolver minha caneta que ficou com ele, só isso.

Letícia pareceu subitamente desanimada com aquela informação. Depois da interação intensa entre eles no bandejão, ela esperava mais pirotecnia.

— Só isso? — Letícia repetiu, a voz carregada de decepção, enquanto se jogava de costas no colchão. — Ele cruzou a cidade, entrou no seu "templo sagrado" de livros só para devolver uma caneta? Rafa, até o meu cachorro seria mais criativo que isso.

Rafaela continuou de costas, organizando desnecessariamente as roupas dentro do armário. O silêncio no quarto se prolongou por um segundo a mais do que o normal, e Letícia, que tinha um faro treinado para as hesitações da amiga, sentou-se num salto.

— Espera aí — ela entreabriu os olhos, observando Rafaela. — Tem mais coisa. O que foi? Ele tentou te beijar entre os clássicos? Te jogou em cima da mesa de leitura?

— Ele me fez um convite — Rafaela soltou de uma vez, virando-se finalmente, mas mantendo as mãos escondidas nos bolsos do moletom surrado. — Quer que eu vá ao jogo sábado.

O grito que Letícia deu foi abafado pelo travesseiro que ela mesma puxou contra o rosto para não acordar os vizinhos. Quando ela emergiu, os olhos brilhavam com uma intensidade maníaca, o rastro do choro pelo Guilherme completamente esquecido.

— Eu sabia! — ela exclamou, apontando o dedo para Rafaela. — O convite do estádio! É o movimento clássico do Duarte. Ele não quer apenas você lá, Rafa. Ele quer você na arquibancada para o mundo ver.

— Ele disse que queria que eu visse quem ele é de verdade. Sem máscaras, sem festas — Rafaela murmurou, caminhando até a janela e olhando para as luzes de Niterói lá fora. — Foi... estranho, Lê. Ele… tem sido difícil, sabe? Ele não parece o mesmo Gabriel de quando tudo isso começou… parece mais sincero.

Letícia desceu da cama e parou ao lado da amiga, o tom de voz mudando de brincalhão para algo visivelmente mais sério.

— É aí que mora o perigo, amiga. O babaca a gente sabe como tratar. Mas o cara sincero? — Letícia tocou o ombro de Rafaela. — Esse é o que destrói qualquer plano de vingança. A gente vai, não vai?

— A gente? — Rafaela ergueu uma sobrancelha.

— Claro! — Letícia voltou para a cama de Rafaela, enfiando-se entre os lençóis de vez. — Eu não perderia isso por nada.

Rafaela suspirou, sentindo o peso do objeto devolvido no bolso.

— Mas tem um detalhe... Ele mandou avisar que o "Senhor Química Perfeita" também está convidado.

Letícia soltou uma gargalhada tão alta que precisou tapar a própria boca.

— Ah, ele é um gênio! — exclamou, rolando pelo colchão. — Ele quer um duelo de titãs! E eu quero só ver como você vai materializar um namorado fictício até sábado à noite.

Rafaela encarou o reflexo das duas no vidro da janela. O plano de Letícia continuava de pé, mas agora ela tinha três dias para descobrir como sobreviver a um estádio lotado sem deixar sua farsa cair diante dele.



Notas finais
EU AVISEI QUE O GABRIEL NÃO TINHA FILTRO. E O HOMEM SIMPLESMENTE METEU UM: “Quero você, Rafaela.” MEIO DO BANDEJÃO. NA FRENTE DA LETÍCIA. DA COMIDA. 😭😭😭 Inclusive… um minuto de silêncio pela Letícia. Ela só queria almoçar. E quase precisou de manobra de Heimlich por causa de uma declaração romântica. KKKKKKKKK E AÍ VEM O GOLPE FINAL… O convite para o jogo. Porque o Gabriel não quer mais que ela conheça só o “camisa 10”. Ele quer que ela conheça o Gabriel. (E isso é perigosíssimo para alguém que estava planejando partir o coração dele. 👀) Agora eu preciso saber… 📌 Vocês aceitariam o convite ou inventariam uma desculpa? E, por último… Será que sábado vai terminar em romance… ou em uma catástrofe digna de final de campeonato? 👀⚽❤️ Nos vemos no próximo capítulo! 📚❤️⚽️