AMOR EM CAMPO
2 Capítulo 1: A Aposta
Notas iniciais

Dedicatória:
Para os meus primeiros torcedores... 🖤🤍
Que viram o primeiro rascunho, acolheram os meus personagens e me deram a coragem necessária para reescrever o destino deles com o dobro de paixão, maturidade e química.
Amor em Campo só existe na sua versão definitiva porque vocês acreditaram no potencial da UC desde o primeiro capítulo. Esta vitória é nossa. 🏆🖤🤍

O quarto cheirava a uma mistura de perfume feminino e ao suor típico de quem não perde uma oportunidade.
Gabriel não estava ali pelo romance; corria de envolvimentos emocionais com a mesma agilidade com que arrancava em direção ao gol quando a defesa adversária falhava. Estava ali única e exclusivamente por diversão. Seu movimento era rítmico, preciso, digno de um atleta que conhece cada músculo do próprio corpo.
Ele desviou o olhar por um segundo, checando o relógio digital sobre a mesa de cabeceira. Os números em vermelho gritavam que o treino começaria em trinta minutos. O futebol não era apenas sua carreira; era a única coisa que vinha antes de qualquer prazer.
— Você está quase chegando lá, né, gata? — A voz dele saiu arrastada, mas sem um traço de emoção, enquanto ele deslizava para dentro e para fora da morena embaixo dele.
Em resposta, Brunna arqueou as costas, um gemido longo escapando enquanto suas unhas marcavam os ombros largos do craque do time. Gabriel nem sequer franziu a testa com o arranhão. Para ele, aquilo era apenas um bônus do jogo.
— Então, dá para acelerar o passo, Brunninha? — Ele soltou um suspiro impaciente, o corpo mantendo o atrito mecânico, mas a mente já no gramado. — Tenho tático daqui a pouco, e você sabe que o Moura barra do próximo jogo quem atrasar. Mesmo que o motivo seja você gozar em grande estilo.
Brunna piscou, a névoa do prazer sendo cortada pela frieza dele como uma lâmina.
— Você está falando sério?
Gabriel deu de ombros e continuou, sem dar uma resposta. Ele sabia que, apesar do tom escroto, ela estaria na arquibancada no próximo sábado, gritando o nome dele.
Elas sempre estavam.
Enquanto isso, no ônibus da linha 575, o ar-condicionado havia desistido de funcionar três pontos atrás. Rafaela sentia o suor começar a brotar na nuca, bem onde o rabo de cavalo apertado encontrava a pele. Ela balançava, uma mão agarrada à barra de metal e a outra protegendo a mochila que guardava seu bem mais precioso: o relatório de microbiologia, impresso e sem um único amassado.
Um relance rápido no pulso confirmou o pior. Se o coletivo não ficasse preso no sinal da Amaral Peixoto, ela teria exatamente doze minutos para atravessar o campus, entregar o trabalho e decidir o destino do seu estômago.
O café com gosto de gasolina adulterada do bandejão ou o sanduíche "natural" da cafeteria?
A segunda opção provavelmente tinha sido montada Deus sabe lá quando, e a primeira com certeza a deixaria com uma queimação no estômago pelo resto do dia. Entre as aulas da manhã, a monitoria e o turno na livraria à tarde, a vida de Rafaela era uma sequência de "quases". Quase descansada, quase alimentada, quase sem paciência para a bolha de privilégios que era a Universidade Central.
Quando a linha 575 finalmente parou, ela saltou antes mesmo que as portas se abrissem completamente. Enquanto caminhava pelo gramado central, ajustando a alça da mochila, ela viu o "comitê de boas-vindas": os atletas. O grupo parecia prestes a estrelar um comercial de roupa esportiva ao ar livre, exalando uma autoconfiança que parecia não conhecer o conceito de pegar transporte público às sete da manhã.
Para eles, o campus era um parquinho de diversões. Para ela, era um campo de batalha em que o prêmio era um diploma e a sobrevivência financeira.
Rafaela apertou o passo, os olhos fixos na entrada do bloco de Biologia. Faltavam sete minutos. O suor na nuca agora era frio, fruto da adrenalina de quem não pode falhar.
Foi quando o mundo dela colidiu com a arrogância em forma de gente. Gabriel Duarte surgiu como um raio vindo do estacionamento. Ele não caminhava; ele possuía o espaço. Estava terminando de abotoar a camisa polo azul-marinho, os cabelos ainda úmidos e uma mochila pendurada displicentemente em um dos ombros.
Ele não viu a garota de blusão e rabo de cavalo. Ou, se viu, assumiu que ela sairia da frente. O impacto foi seco. Um ombro rígido como pedra atingiu o dela, lançando-a para o lado.
— Droga! — O xingamento foi abafado pelo baque da mochila no chão. O zíper velho cedeu. O relatório de microbiologia — fruto de três madrugadas em claro — deslizou para fora. As folhas, até então imaculadas, beijaram a grama úmida e, para completar o desastre, uma mancha de lama carimbou o papel branco bem no meio do título.
Gabriel lançou um olhar distraído por cima do ombro. Ele não viu o rosto dela, não viu o estrago. Viu apenas um vulto de alguém que estava no seu caminho.
— Ih, mal aí, gata. — Ele sequer girou os calcanhares, a voz saindo com a mesma pressa oca que usara entre quatro paredes.
E seguiu. Saltando um pequeno canteiro com a agilidade de quem foi feito para estar sempre em movimento, indo direto para o grupo de amigos que o esperava com risadas e tapinhas nas costas.
Rafaela ficou estática. O coração martelava contra o peito, não de admiração, mas de um ódio puro e concentrado. Ela se ajoelhou, os dedos trêmulos tocando o papel agora manchado. Enquanto tentava limpar a lama com a barra da blusa, praguejou em silêncio. Gabriel era o sol daquela universidade, mas, para ela, ele acabava de se tornar o ponto preto que ela faria questão de apagar.
A Universidade Central — ou simplesmente UC para os íntimos e deslumbrados — funcionava sob um equilíbrio caótico que Rafaela aprendeu a ler logo no primeiro semestre. Pelos corredores, a divisão era quase geográfica: de um lado, os que, como ela, carregavam olheiras e livros pesados na tentativa de construir um futuro sólido; do outro, a "realeza" de chuteiras, cujos valores, aos olhos da instituição, pareciam flutuar muito acima de qualquer média acadêmica.
Para Rafaela, o ecossistema era óbvio e irritante. Ela não pertencia ao universo de festas e troféus, e muito menos aguentava a presunção daqueles jogadores que caminhavam como se tivessem escriturado o campus em seus nomes. No topo dessa cadeia alimentar, reinava Gabriel.
O camisa 10, o capitão dos Falcões, era mais que um atleta; era uma marca. Onde ele passava, o ar parecia se preencher com risadas ensaiadas e olhares de adoração que Rafaela considerava patéticos. Ele tinha aquela beleza agressiva, de quem nunca precisou se esforçar para nada: a pele sempre bronzeada, a mandíbula que parecia esculpida por algum algoritmo de perfeição e olhos castanhos tão profundos que serviam de armadilha para as desavisadas.
Até o cabelo castanho-claro, caindo com um desleixo milimetricamente calculado sobre a testa, gritava o privilégio de quem não precisava se preocupar com o despertador às cinco da manhã. Enquanto Rafaela queimava neurônios e o estoque de café de casa para garantir um décimo na prova, Gabriel brilhava sob os refletores do campo, colhendo os louros de uma tradição que a UC protegia a sete chaves. Incentivos, bônus e a complacência de alguns professores que fechavam os olhos para atrasos, desde que o gol da vitória viesse no jogo seguinte.
Gabriel sabia exatamente como usar cada uma dessas vantagens. E Rafaela, agora com o fruto de suas madrugadas em claro manchado de lama, sabia exatamente o quanto o odiava por isso.
Mais tarde, depois do treino físico, Gabriel estava jogado em um dos bancos de cimento, sob o sol escaldante que batia no gramado central — habitat natural dos atletas —, as pernas abertas ocupavam o espaço de três pessoas e a postura era de quem era dono do terreno. Ele deixava o calor aquecer sua pele enquanto ouvia o resumo dos seus próprios feitos.
— Mano, aquela partida foi histórica! — Diego, o meia-atacante, comentou, animado. Ele passou a mão pelos fios escuros que emolduravam seu rosto de traços marcantes, parecendo um golden retriever depois de ganhar um petisco. — Mas o ponto alto foi quando aquela loira gostosa levantou a blusa e mostrou os peitos depois do seu segundo gol. Aquilo que eu chamo de torcida apaixonada!
Gabriel passou a língua pelos lábios, um gesto lento que ele sabia que atrairia os olhares das calouras que orbitavam o grupo.
— Aquilo foi bom, mas o pós-jogo foi muito melhor, Dieguinho... — Ele se recostou, o sorriso de lado carregado de cinismo. — Digamos que a gratidão dela foi bem... profunda. E muito molhada.
Os amigos riram, trocando tapas nos ombros, mas Gabriel sentiu um gosto metálico de tédio.
— Você não presta, cara! — Daniel disse, balançando a cabeça. Sua pele negra brilhava sob o sol, contrastando com os cachos perfeitamente definidos do cabelo que se moveram junto com o gesto.
— O que eu posso fazer? Elas se jogam, Dan. Eu só dou o que elas querem — Gabriel deu de ombros, a voz perdendo o brilho. — Mas, papo reto? Está ficando fácil demais. O roteiro é sempre o mesmo: sorriso, conversa fiada, cama e o nome delas nos meus contatos, mesmo sabendo que eu nunca vou ligar depois.
Diego varreu o jardim com o olhar, procurando algo ou alguém que pudesse quebrar o tédio do capitão. Ajeitando a postura que sua altura imponente exigia, ele ignorou o trio de garotas que cochichava enquanto assistia de longe e parou os olhos na sombra da grande árvore frondosa, a cinquenta metros dali.
Lá estava ela. Isolada em seu próprio universo, os fones no ouvido, enquanto folheava um livro grosso com uma reverência que Gabriel nunca tinha recebido de mulher nenhuma.
— Sabe o que eu acho? — Diego sorriu de canto, uma ideia perversa brilhando nos olhos. — Acho que você está ficando mal acostumado, Gabe. Agindo por aí como se seu pau fosse uma varinha mágica que abre todas as portas da UC. Mas tem gente aqui que nem sabe que você respira.
— Impossível — Lucas interveio,empurrando os óculos escuros para o topo da cabeça e passando a mão pelo cavanhaque bem aparado. — Tem mina aqui que não sabe o nome do reitor, mas sabe exatamente o tamanho do preservativo que o Gabriel usa. Duvido que alguma mulher resista a esse cara.
— Isso é o que eu quero ver, — Diego se pôs de pé, parando de frente para Gabriel com os braços cruzados. O sotaque que ele nunca conseguiu perder totalmente desde que voltou de La Plata para o Brasil aos doze anos arrastava levemente as palavras. — Topa elevar o nível do jogo?
Os meninos encaravam Diego, ainda sem entender onde ele queria chegar, então ele continuou.
— Você já pegou as líderes do diretório dos estudantes, as veteranas da Med e as calouras emocionadas. Mas e a nerd de biologia?
Diego apontou com o queixo para Rafaela. Gabriel estreitou os olhos, focando na silhueta que ele tinha atropelado mais cedo. Desta vez, com a luz filtrada pelas folhas, ele notou os detalhes: a pele de um marrom rico, as sardas que pareciam constelações no nariz e a boca travada em uma expressão de absoluta seriedade. Ela usava um blusão cinza que escondia tudo, mas havia uma dignidade naquela coluna ereta que o irritou instantaneamente.
— A nerd de Biologia? — Gabriel soltou uma risada seca. — Cara, ela não faz meu tipo. Parece que vive em outro planeta e cheira a formol.
— Fiquei sabendo que ela não beija ninguém para não trocar bactéria — Lucas debochou, lançando um olhar de desprezo. — É do tipo que prefere um microscópio a um cara de verdade.
— Por isso mesmo. E aí, Gabriel? Vai encarar ou tá com medo de levar um "não" de uma garota que usa blusão? — Diego provocou, subindo o tom. — Milzinho, Gabe. Milzinho que você não consegue fazer ela fechar aquele livro e abrir as pernas para você. Aposto que, em um mês, ela ainda vai te tratar como se você fosse algum micróbio nojento no microscópio dela.
Gabriel sentiu o sangue ferver. A competição era sua única droga real. Ele a fitou novamente, vendo o perfil dela iluminado. Ela parecia tão... em paz sem ele. E, para ele, aquilo era quase uma ofensa pessoal.
— Você quer jogar, Diego? Então bora jogar — Gabriel rebateu, o instinto de predador assumindo o comando. — Em quatro semanas, ela não só vai saber meu nome, como vai estar implorando por um minuto da minha atenção.
Daniel suspirou fundo e se levantou, já prevendo o desastre iminente. Com seu porte robusto, que lhe rendeu o título de Muro da zaga da UC, e uma elegância natural que nenhum dos outros três conseguia replicar, ele encarou o amigo.
— Meu Deus, vocês são ridículos — ele disse, a voz calma e direta como um tiro de precisão. — Ela é uma pessoa, não um troféu para a estante de vocês. E um conselho, Gabriel: essa daí não se ganha com sorriso de comercial de pasta de dente, não. Se você tentar o seu lero-lero padrão, ela vai te moer vivo.
Mas Gabriel já não ouvia. Ele observava Rafaela ajustar os fones, completamente alheia ao fato de que, para o capitão dos Falcões, ela acabara de se tornar o jogo mais importante da temporada.
A aposta estava feita. E o adversário nunca pareceu tão perigoso.
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