ALATUS — Filha da Traição
1 Prólogo
Agosto de 1999.
Kiriel estava de tocaia atrás de uma árvore.
Embrenhado na floresta desde o início da tarde, montando armadilhas e recolhendo os animais de pequeno porte que conseguira abater, o exilado arqueiro Deniim, banido da frota sob acusações de traição contra seu povo, aguardava pelo momento adequado de agir. Treinado para enfrentar qualquer tipo de situação, ele observava seu mais novo alvo a uma distância consideravelmente segura, enquanto embebia silenciosamente a ponta de uma flecha, cujas penas curtas e lineares eram pintadas de azul e branco, na seiva de uma erva venenosa.
Olhou de soslaio para um corvo que acabara de se empoleirar num galho próximo. A ave, encarando-o de modo fixo, piou agourenta. O rapaz, preferindo acreditar que aquele pio não viera acompanhado de um mau presságio, deu de ombros e voltou a mirar seu alvo: um javali adulto de pelagem negra acinzentada, que fuçava o chão à procura de raízes para comer.
Embora caçar javalis não fosse exatamente a melhor representação do seu espírito aventureiro, tampouco uma tarefa fácil de ser executada, Kiriel gostava da sensação excitante que lhe era despertada sempre que se confrontava com aqueles animais. Os machos chegavam a pesar duzentos quilos e eram terrivelmente agressivos quando acuados. Seus caninos curvados para fora eram tão afiados quanto uma lâmina e, juntamente com as duas presas do maxilar inferior, formavam uma arma letal. Intimidavam pelo tamanho, além de causarem apreensão por possuírem um olfato apuradíssimo, capaz de detectar qualquer odor.
Mas isso, definitivamente, não o amedrontava.
Juntamente com seus parceiros, ele costumava rir na cara do perigo sem qualquer cerimônia. Estava no auge de sua juventude, portanto, gostava da adrenalina correndo por suas veias, incitando-o ainda mais. Quanto mais arriscado fosse, melhor. Naquele momento, no entanto, precisava ser cauteloso.
Com a ponta da flecha ensopada pelo veneno, Kiriel preparou-se para lança-la. Por sorte, o vento soprava a seu favor, impedindo que o cheiro do seu corpo chegasse à caça, dando-lhe, assim, a vantagem da surpresa.
O corvo voltou a piar.
Desta vez, de um jeito áspero como uma ordem de alguém que não admite ser desobedecido. Entrementes, a fera parou de fuçar e levantou a cabeça, farejando o ar com seu focinho e estremecendo o corpo na excitação do odor do desconhecido. Assim que enxergou o arqueiro, começou a resfolegar o solo, enraivecida com o invasor em seus domínios. No instante seguinte, o velho javali, experiente e que não se deixaria apanhar com facilidade, investiu em um trote alucinado, ferindo a terra com os cascos, rasgando as folhas dos arbustos com suas presas pontiagudas que poderiam causar danos irreparáveis.
Era uma besta disposta a matar.
Kiriel manteve a calma ao soltar a corda do arco, como se estivesse diante de um inofensivo coelho. A seta avançou veloz, diretamente no crânio da fera. O veneno percorreu numa aceleração impressionante a corrente sanguínea do animal, que seguiu em frente mais alguns metros antes de cair inerte. Ohargothriano, cujos olhos azul-acinzentado brilhavam em satisfação, pendurou o arco no ombro e se aproximou para recolher a flecha e guardá-la no coldre.
Ao ouvir o ruído abafado de cascos vibrando o solo, ele tratou de esconder o leve sorriso que brotara em seus lábios e se colocou em alerta. Acreditava que pudesse ser outro javali — ou os guardas do reino que ainda o procuravam incansavelmente —, então sacou a adaga prateada que estava presa ao cinto e virou-se para receber quem chegava com tanta rapidez. Logo que constatou estar fora de perigo, relaxou.
Mesmo com a distância entre eles, Kiriel reconheceu claramente o rosto juvenil da pessoa que montava aquele magnífico cavalo da cor das folhas de outono: Malÿah, irmã mais nova e confidente de sua amada Eryn.
— Pelos deuses, Kiriel! — disse a moça, arquejando. Ela trajava um longo vestido de seda roxo escuro e estava com os cabelos negros, assim como os de sua irmã, presos em um coque bagunçado pelo vento. — Você precisa vir comigo. Agora!
— Deixei meu cavalo…
— Não! Não há tempo para buscá-lo — Ela ainda tentava recuperar o fôlego. — É a Eryn… — balbuciou, os olhos verdes enchendo-se, subitamente, de lágrimas. 
O casebre usado para abrigar o casal ficava numa pequena clareira na floresta. Tinha apenas um andar, com uma sala principal ligada a cozinha, um corredor que dava acesso ao minúsculo banheiro, e o cômodo que servia como quarto. Estava longe de poder ser comparado aos palácios onde ambos viviam, porém aquele fora o melhor lugar que conseguiram.
Assim que desmontou do cavalo, na entrada da casa de pedras caiadas que brilhavam rosadas ao cair do sol, Kiriel disparou para dentro. Ele alcançou o quarto no exato momento em que um espasmo violento sacudia o corpo de Eryn. A jovem tankardiana, que naquele momento quase parecia uma criança, encontrava-se dominada por uma força invisível. Ela estava deitada numa cama improvisada sobre um amontoado de fenos cobertos por lençóis, com os olhos arregalados, quando deu um gemido que se tornou um grito e, finalmente, um choro angustiante.
— Há quanto tempo ela está assim? — indagou Kiriel, tentando ocultar o temor que o corroía por dentro. Ajoelhando-se ao lado dela, ele tomou sua mão e a apertou.
— Começou pouco depois que você saiu — respondeu Malÿah, trazendo consigo um recipiente com água fria e um pano. — Agora as contrações estão ficando mais fortes e… bem, não há nenhum sinal do bebê.
Até então, o parto consistira apenas em sofrimento.
Os longos cabelos de Eryn estavam úmidos e embaraçados sobre uma pilha de roupas que serviam como travesseiro. A pele, quase tão branca quanto um floco de neve, estava brilhante e quente de suor.
— Isso não é bom — murmurou o rapaz consigo mesmo, apreensivo. — Não é nada bom. Porque não me chamaram antes? E o que estão esperando para ajudá-la? Você traz nossas crianças ao mundo, Mab! — dirigiu-se à parteira, que estava ali somente para observar o desfecho. — Faça alguma coisa!
— Aquiete-se, garoto — articulou a velha, ajeitando o xale vermelho sobre os largos ombros ossudos. — Assim irá deixá-la assustada. Você sabe que não posso me intrometer.
— Oh, Mab! — sussurrou Eryn, os olhos marejados. — Por favor… — Seu peito arfava com o esforço e toda a dor que sentia, enquanto Kiriel agora enxugava seu rosto com o pano úmido. — Eu suplico… O bebê vai morrer, e eu também!
— Acalme-se, minha criança — Mab colocou as mãos esqueléticas na barriga da moça, que choramingou. — Não tenha medo. Os deuses estão com você.
O tempo dava a impressão de que estava passando cada vez mais depressa. Era preciso agir. Sabendo da tradição do povo tankardiano, onde somente seus familiares têm a permissão para ajudar nos partos, Mab mandou Kiriel buscar uma bacia de água quente. Pediu que Malÿah lavasse as mãos e as enxugasse com linho limpo antes de esfregar um pouco de óleo de lavanda.
Depois que a irmã mais nova se posicionou, com as mãos estendidas e pronta para receber o bebê, ela disse firmemente:
— Mostre-me que você é a primogênita do rei! Quando a dor vier, não fraqueje!
Ela mal havia concluído a frase quando uma contração poderosa atingiu a faery. Eryn, que estava fraca demais para gritar, só conseguiu emitir um gemido assustador.
— Vamos, empurre agora, criança! — incentivou a velha. — Força!
Com um último e gigantesco esforço, com forças vindas de um lugar desconhecido que existe dentro de toda mãe, Eryn gritou e empurrou. Na sequência, Malÿah emitiu um som de espanto ao ver o bebê ser expulso de uma vez. Tudo acontecera tão rapidamente que ela mal teve tempo de segurá-lo, ao passo que o recém-nascido escorregava pelos lençóis empapados de sangue.
— Olhem! — gritou Malÿah, os olhos esbugalhados. — Nasceu! É uma menina!
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