AKAI ITO 01 - Amor a segunda vista

38 Capitulo 39 - UMA IRRESPONSABILIDADE DIVERTIDA


No meio da noite eu tive que voltar para o quarto de hospede, acordei bem tarde no dia seguinte, precisava me acostumar com as noites que eu passava com o Percy, eu sempre amanhecia cansada. Não sei que desculpa ele deu a dona Sally sobre eu não ter ido a escola, mas ela também não fez perguntas sobre isso. Passei a manha toda ajudando dona Sally com a pequena Julia e estava ansiosa pela chegada do Percy, o horário de almoço já tinha passado então ele estava prestes a chegar.

A porta se abriu, era ele. Percy me deu um longo sorriso quando me viu e eu fui até ele abraçá-lo. Ele me deu um beijo na testa e depois enterrou seu queixo em meu pescoço.

— Que sensação boa chegar em casa e ser recebido por você – Sua fala fez cócegas no meu pescoço.

— Como foi à escola? – Perguntei impaciente

— Acredite se quiser... Foi tranqüilo – Ele se afastou e se sentou no sofá.

— Como assim tranqüilo? – Perguntei surpresa

— A Piper e a Hazel contaram a versão certa da história para as pessoas curiosas, os comentários se espalharam rapidamente – Percy deu de ombros – Eu nem precisei me meter.

— A Caly não falou com os pais? – Perguntei receosa

— Não – Percy deu um ar de riso – E nem vai.

— Não? – Perguntei surpresa

— Falei com ela na saída da escola... Tentei ser o mais firme possível, ela não vai criar mais problemas. – Percy sorriu.

Ele me contou sobre a conversa com a Caly, sobre o tapa, sobre as coisas que ela disse e confesso ter ficado aliviada, apesar de não ter gostado da história do tapa.

— O engraçado, era que ela estava com o Leo – Percy disse – E acho que isso é uma coisa boa

— Por quê? – Perguntei

— Porque se tem uma pessoa que pode frear qualquer ação da Caly, é ele. – Percy desabotoou a camisa do uniforme. – Leo pode parecer inofensivo por sempre esta rodeado de piadas idiotas, mas ele é um garoto de gênio forte.

Eu pensei sobre aquilo. Lembrei da conversa do Percy e Caly, onde o Percy dizia que gostava do sorriso dela, quando ela sorria das piadas do Leo.

— Você sabia que o Leo gostava dela? – Perguntei confusa

— Antes não, percebi depois – Ele admitiu

— Percy... – Eu o repreendi

— Annie! – Ele me encarou – Qual parte do não sou perfeito, você não entendeu? Eu também cometo burradas, eu também cometo erros, mas me arrependo... Foi uma época que eu estava pensando apenas em mim, ok? Não da pra entender, não foi legal... Mas me arrependi.

Eu fiquei em silencio, o que eu podia dizer? Ele havia feito aquilo pra tentar me esquecer, porque eu era uma garota lerda que não conseguia ver o obvio. Eu o ajudei a tirar a camisa em sinal de trégua a uma possível discussão, Percy não queria falar sobre o passado, ele queria a muito tempo se livrar desse peso.

— Oi filho, chegou – Dona Sally apareceu

— É, mas preciso sair daqui a pouco e... Levar a Annie pra casa – Ele se levantou do sofá já sem camisa.

Era difícil desviar o olhar.

O Percy se apressou em se ajeitar, tínhamos combinado de ir a consulta, eu me senti um pouco constrangida com isso, mas trato era trato. Eu pedi para ir de moto, fazia tempo que não dávamos umas voltas com curvas da morte. Percy concordou e seguimos ao destino, a consulta foi legal, não foi um bicho de sete cabeças como eu imaginava, não foi tão constrangedor quanto eu imaginei, até porque o Percy ficou do lado de fora da sala. A medica me receitou alguns remédios com nomes esquisitos que pareciam ser caros.

— Deixa eu ver – Percy tomou a receita da minha mão – Eu fico com isso. – Ele dobrou e colocou no bolso.

— Isso é realmente necessário? – Me encolhi ao perguntar

— Não se preocupe – Ele sorriu antes de montar na moto.

Eu observei a grande e linda moto, Percy foi a pessoa que me apresentou a adrenalina de uma viagem contra o vento e eu adorei. Talvez um dia eu pudesse ter dinheiro suficiente para comprar uma igual.

— Um dia eu terei uma dessas – Eu disse em voz alta.

Percy olhou para moto.

— Você nem sabe como pilotar – Ele riu

— É claro que eu sei, eu aprendo as coisas apenas observando – Cruzei os braços

— Ah é? – Percy saiu da moto – Então tenta! – Ele me deu a chave

— Isso é serio? – Perguntei rindo – Vai confiar?

— Se você disse que sabe... – Ele deu de ombros

— Você sabe que isso é irresponsável, não é? – Perguntei sorrindo

— Sei... – Ele cruzou os braços

— Ok! – Eu balancei a chave.

Montei na moto, me senti ansiosa, ela era imensa, mas eu conseguia colocar os pés no chão. Percy se sentou atrás de mim e me entregou o capacete, eu o coloquei.

— Dê a partida...

— Eu sei – Eu o interrompi.

Sim, na teoria eu sabia. Eu gostava tanto de moto que acabei pesquisando como usa-las, assisti vídeos e observava como o Percy fazia. Dei a partida e a moto ligou, apertei na embreagem com a mão esquerda, tirei a macha do ponto morto e lentamente fui acelerando enquanto soltava alinhadamente a embreagem.

— Uou! – Percy disse surpreso quando percebeu a moto andar – Você realmente sabe, estou com medo agora.

Pude ouvir um riso nervoso. Eu acelerei mais ainda, ao ponto de não mais conseguir ouvir nada, apenas o vento. Era uma sensação incrível, apesar de que eu não estava indo tão rápido, Percy com certeza era o cara mais irresponsável do mundo por confiar isso a mim, e eu adorava isso. Foi a irresponsabilidade mais divertida que já vivi.

Quando cheguei em uma pista vazia e reta, Percy colocou seus braços por cima dos meus alcançando o acelerador e a embreagem, não entendi o que ele estava tentando fazer, mas deixei que ele pudesse fazer. Percy empurrou lentamente meu corpo pra frente de uma forma que eu ficasse colada contra a moto, seu pé foi deslocado para cima do meu me forçando a subir uma macha, por cima da minha mão ele acelerou ainda mais. Era como se nós dois fossemos um naquela moto, ele estava me guiando e me instruindo a fazer aquilo, imaginei que ele pudesse estar sorrindo, eu entendi o que ele queria fazer... “curvas da morte” Meu coração quase saiu pela boca quando senti a moto virar para esquerda, cheguei a fechar os olhos, afinal Percy já tinha tomado o controle, mas logo os abri quando vi que havia conseguido. A adrenalina corria pelo meu corpo e nós acelerávamos, mais e mais. Com os corpos colados e inclinados sobre a moto parecíamos um foguete cortando o vento, não tinha palavras pra descrever aquilo, era incrível.

Quando chegamos em uma via mais movimentada, Percy voltou a posição ereta e eu também, ele tirou os braços de cima dos meus, e os colocou de volta na minha cintura, eu diminui a macha e a velocidade. Consegui subir a ladeira que dava acesso a rua onde eu morava e parei a moto em frente a minha casa.

— Ai meu Deus, isso foi... – Eu dizia antes mesmo de sair da moto – Incrível!

— Foi mesmo! – Percy concordou

— E então cabeça de algas, o que tem a dizer? – Eu empinei o nariz.

— Que você é incrível – Ele tirou o capacete e me encarou com um sorriso de admiração – Em tudo que faz.

Eu corei.

— Você me deixa tão sem graça às vezes – Eu revirei os olhos

— Nos vemos amanha – Ele se ajeitou para frente da moto.

— Até amanha – Eu me despedi com um beijo.

Quando me afastei, ele me puxou novamente pra outro beijo.

— Você não quer entrar? – Perguntei

— Achei que não ia perguntar – Ele sorriu.

Nós entramos de mãos dadas, minha mãe já estava em casa preparando o jantar e a vovó Anna estava no sofá tricotando algo.

— Vovó – Eu me apressei até ela e a abracei – Demorou nessa viagem – Reclamei

— Férias – Ela sorriu – Ah... Esse é seu namorado?

— Sim... – Eu fui até o Percy e o puxei – Esse é o Percy.

— Que garoto lindo, que olhos lindos – Vovó Anna o cumprimentou.

Percy ficou um pouco sem graça com os elogios da vovó, mas acabou se acostumando.

— Vai jantar aqui, Percy? – Minha mãe perguntou

— Ah... – Ele me olhou e eu fiz que sim com a cabeça – Sim, dona Elena, obrigado.

— Como foi a viagem da escola? – Minha mãe perguntou

— Foi divertida – Não existia outra palavra que se adequasse.

— Annie, querida... Chegou uma carta pra você, esta sobre a TV – Minha mãe avisou

Eu fui até o pequeno envelope e meu coração disparou.

— É da universidade da Alemanha – Eu disse surpresa. Todos olharam pra mim

Eu abri o envelope rapidamente e o conteúdo me fez ficar mais surpresa ainda. Eu quase cai.

— Annie? – Percy me fez voltar para a realidade do momento

— Eu... Eu passei – Gaguejei

— Você passou no concurso internacional? – Minha mãe perguntou

— Passei – Eu disse sorrindo – Ai meu Deus, eu não acredito que passei.

Olhei para o Percy, ele tinha uma expressão difícil de descrever, tentando formar um sorriso e parecia estar com um pensamento longe. Vovó Anna o observou, minha mãe o observou e eu não entendi porque todos estavam tão apreensivos.

— Então você vai pra Alemanha – Vovó Anna finalmente disse – Parabéns minha querida, eu sempre soube que você seria capaz de realizar seus sonhos.

Meu coração gelou, então entendi porque o Percy ainda parecia estar em outro mundo. Eu iria pra Alemanha e ele sabia que eu não teria como desistir disso.

— Eu... Eu sempre soube também – Ele disse com um meio sorriso forçado – Parabéns Annie, eu... – Ele finalmente sorriu – Me sinto orgulhoso disso.

Eu devolvi o sorriso, confesso que desanimei ao perceber a tensão do momento. O jantar ficou em um clima pesado, Percy parecia estar com dificuldade de engolir a comida, ainda com pensamento aéreo, eu não conseguia deixar de ter um sentimento ruim sobre aquilo, mas eu precisava tentar organizar as coisas em minha cabeça.

— Tchau! – Percy e eu estávamos na porta da minha casa nos despedimos.

— Sinto que a noticia não te agradou – Eu disse de uma vez

Percy suspirou, pareceu querer dizer algo, mas apenas sorriu.

— Annie... – Ele pegou minha mão – Eu sou louco por você... – Ele disse der repente – Seu futuro é importante pra mim também, e eu quero fazer parte dele... Então... Bem... Eu... Eu sou louco por você – Ele repetiu me encarando – É só o que tenho a dizer.

Eu não sabia o que aquilo significava, mas não me senti bem ao ouvir, era como se de alguma forma eu não estivesse me encaixando no mesmo sentimento. Percy me deu um beijo de despedida e saiu. Assim que voltei minha mãe me encarou.

— O que vai fazer? – Ela perguntou

— Sobre? – Perguntei de mau humor

— Alemanha? – Ela disse como se fosse obvio

— Mãe... Eu... Eu não sei – Admiti – É meu sonho

— Eu sei – Minha mãe suspirou – Por isso precisa ter certeza das suas decisões.

— O Percy entende, ele acabou de dizer que, meu futuro também é importante pra ele – Eu disse irritada.

— Ok! – Minha mãe levantou os braços em trégua.

— Desculpa – Eu me sentei no sofá – Mãe... Percy e eu tivemos nossa primeira vez

— Vocês... O que? – Minha mãe deu um surto

— Não briga comigo, ok? Foi... – Eu gaguejei – Eu finalmente superei, foi como substituir fragmentos passados pelos novos, só que... Bem... Você sabe... Foi bom dessa vez – Eu tentei sorrir.

Minha mãe não disse nada. Ela sabia que falar sobre passado afetava nós duas.

— Não foi ele quem conduziu isso – Eu continuei – Eu quis, e ele tem sido bem responsável – Eu contei a ela sobre a consulta e os remédios. Minha mãe ficou bastante surpresa.

— Obrigada por não esconder isso de mim – Minha mãe alisou meu rosto – Tenho orgulho de você, querida.

— Eu que tenho orgulho de você mãe. Por abrir mão de muita coisa pra poder me dar do melhor, é por isso que quero fazer esse curso, eu quero poder mudar de vida, dar a você e a vovó Anna tudo que estiver ao meu alcance. – Eu a olhei com tristeza

— Eu sei, e eu te darei o apoio que precisar – Minha mãe sorriu pra mim.

Eu sabia que esse seria mais um obstáculo a ser enfrentado, mas era por uma boa causa, eu só precisaria de um ano fora do meu pais, um ano pode não ser pouco tempo, mas seria o suficiente para construir meu sonho. Eu sabia que teria o apoio do Percy, eu tinha certeza disso, mas então porque meu coração doía? O que eu ainda precisava entender para tomar decisões certas? Dei um grande suspiro, eu tinha que saber lhe dar com o tempo que me restava.