Notas iniciais
Reportem se encontrarem algum erro.

Inglaterra, 1895

Um grande alvoroço se formou na casa da família Campbell. Malas espalhadas na entrada denunciavam o final de uma grande viajem. Quando os portões principais foram abertos os interiores da grande mansão se iluminaram. Um grande lustre suspenso com pedras que pareciam cristais fizeram os olhos de Elene e John se encherem de surpresa. O salão principal continha duas escadas laterais, e um grande piano entre as duas. John e Elene foram levados aos seus quartos, os quais dividiriam entre si. Imaginavam como uma só pessoa poderia morar em um lugar tão imenso.

Desde a partida de seus pais, John e Elene não sabiam o que lhes aconteceriam. Tudo continuou como de costume na ausência dos seus pais. A ida a escola, os cultos aos domingos, que a tia Ana fazia questão que fossem. As visitas dos seus primos Martin e Lucia todas as terças, e outras atividades extras.

Certa noite, uma movimentação estranha vinha da sala de visitas da casa. Havia grande silencio exceto pelo barulho de pegadas que iam e vinham rapidamente. Os jovens já estavam inquietos com a situação.

—Elene, consegue ouvir?

—Sim, esta vindo da sala.

—Venha, vamos descobrir o que é.

Sem pressa eles desceram as escadas, a tia Ana andava inquieta já havia dias, mas agora, ela não parecia impaciente e sim com medo. Sua mão na boca e seus passos apressados denunciavam sua apreensão. Andava de um lado para o outro rapidamente e sussurrava entre os dedos palavras que não poderiam ser ouvidas.

—O que ela está segurando? –Perguntou Elene.

—Uma carta, talvez.

—Acho que é dos nossos pais.

—Crianças, o que estão fazendo? Já deveriam esta na cama. –Disse Ana, ainda mais apavorada com a presença dos dois jovens, se apressou para esconder a carta que levava nas mãos. Jogando dentro de um pequeno caixote na estante.

—Não conseguimos dormir. –Disse John. – Alguma notícia dos nossos pais?

—Não querido, eles ainda não entraram em contato. Mas amanhã vamos ao mercado. Então, precisam ir dormir.

Ana soltou um risinho tímido para acalmar os pensamentos das crianças e os acompanhou até seus quartos. Os irmãos obedeceram sem reclamar, subiram novamente as escadas para o quarto e se trancaram.

—Você viu? Ela estava muito estranha. –Disse John.

—Ela esta escondendo alguma coisa de nós.

—Gostaria de saber o que é.

Elene correu para a porta para ouvir a movimentação do corredor. Dava-se para ouvir os pequenos saltos de sua tia descer as escadas em grande vapor. Aos poucos os barulhos foram sessando.

—Vamos John, rápido.

Elene correu nas pontas dos seus pequenos pés descalços e desceu com todo cuidado e delicadeza as escadas. John a seguiu se perguntando qual seria a próxima artimanha daquela pequena audácia. Ao chegarem à sala, todas as luzes estavam apagadas. Elene pegou a carta do caixote e antes que pudesse correr viu John a encarando com desaprovação.

—O que acha que esta fazendo? E se ela descobrir?

—Ela não irá descobrir. –Respondeu Elene.

—Neste caso, leia a carta aqui mesmo.

Elene não encontrou outra opção a não ser obedecer. Observou por um instante o selo quebrado que antes fechara o envelope, era uma grande árvore que ela jamais havia visto antes. Elene retirou do bolso sua lanterna inseparável para ler as palavras. Seus olhos ficaram semicerrados com a intensidade dos fatos. John percebeu a preocupação da irmã e tomou de sua mão a carta. Em instantes ouviram passos em um dos corredores. Os irmãos correram para se esconderem quando Ana passou apressadamente pela sala e entrou em seu quarto.

—Vamos Elene, antes de sermos descobertos.

Ao chegarem ao quarto não disseram nenhuma palavra, Elene deitou-se perplexa em sua cama. John não pensou em importuná-la, pois aquela altura as crianças sabiam, que em algum lugar, em algum momento seus pais falharam e que eles não voltariam para casa.