A Última Odisseia do Sertão Brasileiro
1 A Última Odisseia do Sertão Brasileiro
Numa época em que a coragem e a violência tinham muito mais valor do que o dinheiro, numa terra seca por água e alagada por sangue inocente, prestes a entrar em colapso, surge um grupo designado a impor novas leis e ordem.
Os denominados "Cangaceiros" estavam em constante conflito com a sociedade dos "Coronéis", enquanto a colônia de "Escravos" se protegia da sangrenta disputa, combate este, que se estendeu por anos.
Identificados como "Ordem do Governo", o grupo forasteiro lutou contra os Cangaceiros, os Coronéis e traçou limites de terra para ambos. Todos estavam sob a jurisdição do Governo Brasileiro.
Com o nascer da ordem, Cangaceiros e Coronéis tomaram gosto pelo modelo gestor aplicado em sua sociedade através do Governo Brasileiro. Seus conflitos deixaram de ser sangrentos e passaram a ser políticos. Sua gente estava crescendo com educação e saúde. Para representar o Governo, um homem de meia idade fixou-se na fronteira territorial entre Cangaceiros e Coronéis. O chamavam de Padre Constantino. Mas ele não habitava uma igreja. Ele morava num alto e grandioso celeiro. Ele era o único homem com permissão para andar entre os dois mundos.
Curioso para saber mais à respeito de seu passado, um rapaz da ordem dos Cangaceiros visitava constantemente o Padre Constantino em seu canto sagrado, o Celeiro. O Padre contava o que era necessário e o que poderia acrescentar pontos positivos. Em uma de suas visitas aleatórias, o rapaz Cangaceiro encontrou Constantino contando à uma jovem da ordem dos Coronéis, sobre o passado de sua gente. O rapaz ficou em silêncio e ouviu a história sobre o outro lado da fronteira. O lado em que ele era proibido de entrar.
Mantendo em segredo sua descoberta, o jovem Cangaceiro, desejando o fruto proibido, arriscava ir ao Celeiro enquanto o Padre fazia suas visitas rotineiras em alguma das terras separadas pela ignorância do homem. Foi numa dessas idas, que ele encontrou a bela jovem da sociedade dos Coronéis. Ambos se falaram distantes. Eles não tinham medo da situação, mas receio do que poderia acontecer. E em segredo, prometeram sempre se encontrar naquele local e compartilhar suas rotinas de vida.
Mas eles compartilharam algo muito além dessa rotina. Eles violaram as leis e exerceram naquele lugar sagrado e de respeito, a ambição pelo desejo da carne. Em poucos dias, o Padre veio a saber, pela própria boca da bela moça, que carregara em seu ventre, o filho de um Cangaceiro.
Temendo que uma guerra estivesse por vir, o Padre comunicou à Ordem dos Coronéis, que a jovem moça foi escolhida para fazer parte do Governo Brasileiro e representar seu povo numa reunião na Capital. Ele convocou o rapaz Cangaceiro da mesma forma e escondeu o casal no Celeiro.
Representantes de ambas as ordens questionavam ao Padre Constantino sobre os jovens que não voltavam. Meses haviam se passado. Nenhuma notícia era compartilhada. O Padre tornava a repetir que eles trabalhavam para o Governo na Capital e que estavam lutando pelo direito de ambas as sociedades.
Em plena lua cheia, na noite em que jamais deveria acontecer, veio à vida o filho dos dois mundos. Mas em troca deste milagre, a jovem moça foi levada para um plano diferente. Olheiros dos Cangaceiros descobriram o nascimento da criança proibida e invadiram o Celeiro em busca dela. O jovem Cangaceiro fugiu com o filho para as terras proibidas e o Padre Constantino, foi sentenciado naquela madrugada, à morte.
No ano em que Coronéis e Cangaceiros foram separados, a Colônia de Negros ex escravos dominaram a terra fértil depois do desértico sertão, lugar à beira mar com sustentabilidade ao povo que ali vivia isolado, preservando cultura e história, assassinando qualquer Coronel ou Cangaceiro que colocassem os pés em teu sagrado solo.
Em uma de suas vigias rotineiras, um dos Negros da colônia encontrou o corpo de um jovem rapaz à beira da morte no único e mais belo oásis a existir na terra. A criança envolvida em seus braços estava viva. E por esta ele tomou e levou ao seu povo.
Vinte anos se passaram desde o terrível acontecimento no Celeiro do falecido Padre Constantino; desde o achado feito por um membro da Colônia de ex escravos.
O ancião chamou o único cara branca para uma conversa que colocaria o destino de muitos em suas mãos.
Durante todo o tempo que se passou, escravos foram designados para investigar a real origem da criança com sangue dos dois mundos. E foi revelado à ele o seu parentesco: neto do Senhor dos Coronéis e primo de primeiro grau do neto do Senhor dos Cangaceiros. Ele deveria voltar ao local de seu nascimento e escolher a qual sociedade faria parte.
Para que a missão fosse bem sucedida, uma jovem negra acompanharia o jovem branco até o Celeiro.
Na sociedade dos Coronéis, uma das netas do Senhor Coronel, muito fiel ao avô, costumava rondar a fronteira para alertar qualquer invasão do Cangaço. Ela entrava muitas vezes no Celeiro para ler alguns livros entre centenas escritos pelo próprio Padre. Num desses atos proibidos, ela deu de cara com um homem cangaceiro, lendo um dos livros que ela já havia lido. Sem demonstrar medo, ela fez questão de expressar a opinião daquele manuscrito. O Cangaceiro a reconheceu, mas insistiu em perguntar se ela era de fato, a neta do Senhor Coronel. Ela confirmou tal informação e lembrou à ele, que aquele ponto era neutro. Ali dentro, qualquer crime poderia ser cometido.
Ele gargalhou com tamanha tolice. Disse que jamais ousaria ferir uma moça tão bela.
Impertinentemente, ela retrucou dizendo que não hesitaria em fazer um homem tão insignificante sangrar.
O Cangaceiro colocou o livro de volta na prateleira de madeira à sua frente. Ficou um passo mais próximo da moça, que recuou dois. Uma troca de olhar no silêncio quebrado pelo som de um trotar. Ambos curiosos olharam pela brecha da parede feitas de madeira. Uma cena que trouxe a eles inquietação. Um homem branco montado num cavalo acompanhado de uma mulher negra. Seria ele o filho bastardo que desapareceu nas terras proibidas? O Cangaceiro e a jovem neta do Coronel se esconderam juntos na parte superior do Celeiro, lugar que anteriormente, era o dormitório do falecido Padre Constantino.
O casal Café com Leite parou no Celeiro e do poço que havia lá dentro, retiraram água para o cavalo e num recipiente separado, para eles. Dialogaram por alguns minutos até a representante da Colônia dos Negros retornar para sua terra em seu cavalo. Tudo o que ele sabia, era que o Coronel tinha interesse em descobrir o que houve com seu perdido neto. E este foi o caminho que o rapaz tomou, seguiu para a Sociedade dos Coronéis.
Sua feição mesclada causou desconfiança na Sociedade dos Coronéis quando por lá adentrou. Ele se vestia como um antigo escravo, tinha o mesmo olhar que os membros do Coronelismo, mas fortes traços da sociedade dos Cangaceiros. As pessoas ainda se perguntavam se ele era o neto bastardo do Senhor Coronel.
A notícia de que ele havia chegado na companhia de uma negra, ambos montados num cavalo, motivou o Senhor Coronel à convidá-lo para um almoço com toda a família. A neta do Coronel não estava gostando nenhum pouco desta situação.
Em poucos dias, o jovem bastardo ganhou seu lugar na família. Ele foi chamado pelos Cangaceiros de traidor, pois também carregava o sangue daquele povo nas veias.
Com o passar do tempo, ficando muito doente devido sua idade, o Coronel pediu para sua neta vigiar os passos do novo neto. Ela já fazia aquilo; concordou em continuar.
Numa breve visita que fez ao Celeiro, o Bastardo lembrou da infância que teve na Colônia dos Negros ex escravos. Um rapaz aparentando ter sua idade entrou no Celeiro e ficou surpreso ao vê-lo. Logo deduziu que era por quem procurava. Se apresentou como neto do Senhor Cangaceiro. Revelou que ambos eram primos de acordo com o contexto histórico. Curioso para saber o por que do Bastardo ter ficado do lado dos Coronéis, o mestiço respondeu que no dia de seu nascimento, os Cangaceiros foram os primeiros à atacar. O rapaz Cangaceiro disse que nada daquilo era verdade. Afirmou que o mestiço estava sendo vítima de um golpe político, pois de acordo com a lei, ele era o único a ter direito à herança das duas sociedades. E o Coronel pretendia usar aquilo à seu favor para no futuro, contra-atacar.
Confuso com tantas especulações, ele decidiu abrir uma exceção e dar a si mesmo, a oportunidade de conhecer os Cangaceiros; e foi conduzido por seu novo primo até àquela sociedade. Retornou para casa no fim da tarde. Revelou ter passado o dia lendo as memórias do falecido Padre, homem que o protegeu dos ataques sucedidos ao Celeiro na noite de seu nascimento.
Nas horas em que ele não estava aprendendo sobre a Sociedade dos Coronéis, passava seu tempo livre explorando as memórias do Padre Constantino em seus manuscritos, ao lado de seu primo Cangaceiro, ambos sendo espiados pela neta do Coronel, que buscava entender o motivo para tamanha aproximação.
Na noite em que o Bastardo demorou para voltar pra casa, a neta do Coronel foi a mando de seu avô atrás dele. Ela foi diretamente para o Celeiro. Pelas brechas existentes nas paredes de madeira, ela testemunhou algo que estava além de qualquer especulação. Ela ficou incrédula por descobrir que eles estavam tão próximos.
Ao chegar em casa, o Bastardo encontrou a mesa do jantar posta. Seu avô o olhou e o mandou tomar um banho para tirar o pecado do corpo. O mestiço obedeceu, sem entender muito bem.
Na fronteira entre as Sociedades, a neta do Coronel revela ao mensageiro dos Cangaceiros o que o neto do Senhor do Cangaço havia feito com o primo, neto do Senhor Coronel.
Com todos reunidos para jantar, já sentados ao redor da mesa, o Coronel começou a falar sobre a história que envolveu os pais do Bastardo. Uma história de profunda traição para ambas sociedades. A punição que o Padre Constantino teve por proteger o filho das duas sociedades, foi a morte. Mas o Coronel não daria a mesma punição ao seu novo neto, que começou a ficar tonto. Sentiu algo queimar em sua garganta. Havia sido envenenado.
Na mesa de jantar da família do Senhor Cangaceiro, o mesmo aconteceu com seu neto. Porém, o próprio pai do rapaz tomou a iniciativa. O herdeiro do Cangaço não poderia ser perdoado por sua violação moral.
O Bastardo foi colocado inconsciente dentro de um caixão cuja fabricação era artesanal. Ainda vivo, foi trancado lá dentro e enterrado num buraco à sete palmos do solo; buraco este, cavado no meio do Celeiro, que foi ateado por fogo pelos Coronéis.
Amordaçado, o neto do Cangaceiro foi amarrado pelos pés à um Cavalo e montado nele, um membro da sociedade cangaceira disposto a cavalgar e somente parar, quando o garoto morresse nas terras secas do sertão, por onde tomou rua à aquela cavalgada mortal.
Ambas as famílias retornaram para jantar como se nada daquilo tivesse ocorrido. Estavam compartilhando a melhor comida, a melhor sensação de vitória.
Dos escombros que restou do celeiro, eis que surge uma mão; e dela se estende um braço, onde se levanta um corpo por inteiro ofegante por ar.
Na escuridão rumo a entrada para a Sociedade dos Cangaceiros, o pálido rapaz, coberto por uma poeira seca segurava com firmeza o facão na mão direita, enquanto na outra, a cabeça do homem que cavalgou com seu corpo até o deserto.
Quando a figura do Bastardo surgiu diante de todos no final do jantar, o Coronel sentiu pela primeira vez em muitos anos, aquele arrepio na nuca. Ordenou que ninguém se mexesse. O bastardo carregava uma espingarda de cano curto; espingarda esta, denominada pelos coronéis por Garganta do Diabo.
Na apreciação da sobremesa, a família dos Cangaceiros foi surpreendida quando aquela cabeça foi jogada no meio da mesa, exatamente no centro do pudim. O neto do senhor do Cangaço segurava o facão ensanguentado e olhava para cada um deles com um desejo insaciável de vingança.
Quando a neta do coronel levantou-se da mesa, foi baleada diretamente no peito. O sangue espirrou na cara do Coronel e de seus filhos, um deles, pai da moça atingida, jogada contra a parede pela força do tiro, falecendo naquele momento.
- Filho da puta! — berrou o Coronel sem ousar se levantar; a Garganta do Diabo estava na direção de sua cabeça.
Incluindo o Senhor Cangaceiro, o neto banido estava diante de sete alvos. Ele correu e subiu na mesa, correndo por cima dos pratos e panelas que ali estavam, apunhalando seu facão na cabeça de seu avô, o homem que permitiu sua morte.
Todos ao redor gritaram desesperados e não conseguiram escapar do ataque violento do jovem cangaceiro banido.
Num ato desesperador, o Coronel levantou-se e foi atingido no meio da cabeça pelo último e mortal tiro. Seus filhos pularam raivosamente na direção do bastardo, que sacou uma pistola de forma inesperada e ali mesmo, terminou de banhar a mesa do jantar em sangue.
Com a queda dos líderes de ambas sociedades, o sertão foi palco de uma batalha sem precedentes. Seguidores dos Coronéis e Discípulos dos Cangaceiros se degolaram até o último suspiro.
No fim de todo o conflito, no raiar de um novo dia, a Colônia de Ex escravos se aproximou das terras marcadas por sangue. Procuraram pelo mestiço e o encontraram ao lado do último Cangaceiro vivo, também seu primo.
Com a permissão do Bastardo, os negros tomaram todo o território que pertenciam aos Coronéis e aos Cangaceiros.
Não se sabe que rumo levou o mestiço e seu primo cangaceiro. Mas o que se pode confirmar, é que o Sertão tornou-se uma terra livre...
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