A Última Música
1 Capítulo único
Notas iniciais
De volta com as ones :v Dessa vez não é songfic, mas a protagonista é pianista então n muda muito kkkkkk
Boa leitura :3 E nos vemos nas notas finais!
— Tome os remédios, mãe. — A filha pede, já cansada. É a quinta vez só naquele dia, que garota teimosa.
Porém, a mãe é mais teimosa ainda.
— Não quero. — Ela murmura, aborrecida. A mais jovem dali parece resmungar e sai do quarto. Com certeza vai pedir socorro à alguma das enfermeiras.
Até ela parece estar contra mim, pensa a idosa, se levantando e dando alguns passos pelo quarto. Porém, seu frágil par de pernas não consegue mais sustentá-la, e ela cai no chão. O barulho sai mais alto do que gostaria, o que atrai as enfermeiras.
— O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO?! — A filha entra, histérica, e corre para salvar sua mãe. Amanda solta um pequeno gemido quando a filha a põe novamente na cama. As enfermeiras, sempre preparadas, arrumam tudo. Ajeitam o cabelo de Amanda. A deitam confortavelmente. Puxam o cobertor, que é precioso para se passar um inverno, especialmente se for o inverno do sul. — Obrigada, podem ir. — As enfermeiras se retiram sem soltar uma única palavra. — Mãe, por que fez isso?
— Estou cansada de ficar aqui no quarto! Quero sair!
— Você não pode! Está muito frio, e pode pegar uma gripe.
— Gripe? — Amanda ri com escárnio — Estou morrendo, Clarice. Que diferença faz pegar alguma gripe?
— Mãe, por favor, não diga isso. — Clarice repreende, e Amanda se sente culpada quando vê os olhos da filha, tão negros quanto os seus, marejarem. A mais nova funga, abaixando a cabeça. — Você precisa tomar os remédios. — Torna a dizer depois de alguns minutos, encarando sua mãe.
— Não quero. São horríveis, e de nada servem.
— Servem sim! Afinal, eles diminuem sua dor! E aumentam o seu tempo de vida!
— O que eu ganho vivendo mais?! — Ela grita — Mais tempo para passar aqui, neste quarto sem vida?! Mais horas para chorar, por ser tão inútil?! Mais dias para reviver minhas amarguras e infelicidades?! Para você, mais alguns dias podem ser preciosos, mas para mim, a vida já perdeu todo o encanto que tinha! Quero mas é morrer, ser enterrada, e finalmente descansar em paz!
— Mas e quanto a mim? Tem coragem de dizer isso para a única filha que a ama?
— Pare com isso, Clarice! — Amanda certamente teria socado a parede, se tivesse forças para tal. Mas ela transmite toda a sua raiva e frustração em sua voz, e isso é o suficiente para amedrontar a filha. — Você é egoísta! Não vê que sua mãe está sofrendo? Me deixe partir!
A mulher se levanta e caminha até a janela. Se recusa a encarar sua mãe. Se recusa a deixar que as lágrimas caiam. Respira fundo e conta até três.
— Você sempre foi sensível demais. — Bufa Amanda, cruzando os braços — Como seu pai.
— Por favor, não fale dele. — Implora Clarice com a voz embargada. Amanda se cala e observa a filha sair do quarto apressada.
As palavras voltam, a acertando. Ela sente a amargura e engole em seco. Deita e vira de lado, de costas para a porta e de frente para a janela.
As horas passam — ou melhor, se arrastam — pelo quarto, e Amanda desperta do seu cochilo ao ver que a filha entra novamente e se senta na beira da cama. Ela pega os frascos de remédios que estão sobre a mesa e encara a mãe com um olhar desafiador.
— Não vou tomar. — Diz Amanda prontamente, sem mover um músculo.
— Vai sim. Sabe por quê? — Clarice cerra os punhos.
— Se levantar uma mão contra mim eu grito. — Devolve a mãe, tornando a fechar os olhos.
— Não vou bater em você. Tenho uma proposta.
Amanda abre os olhos e encara a filha, que está com um sorriso no rosto.
— Diga. — Ordena, se sentando na cama.
— Disse que passar aqui é muito chato, não? — Amanda concorda — Pois bem, posso arrumar você e levá-la para um passeio pela cidade. Para onde você quiser.
— Mas... — Amanda ergue uma sobrancelha, esperando a continuação.
— Mas você terá que tomar todos os remédios.
— Claro que tem algo por trás...
— Mãe. — A mulher segura sua mão frágil e gentilmente a aperta — Você não quer tanto sair deste quarto? Vamos, para onde quer ir?
Amanda reflete e novamente encara a janela. Sim, ela quer muito sair dali. Mas, para onde?
Então ela se lembra do piso envelhecido. O cheiro de antiguidades no ar. O velho quadro de família, com a sua bisavó sentada, totalmente ereta, o rosto sério. E, principalmente, o motivo principal de Amanda querer estar lá: o piano.
O último dos excelentes presentes que seu avô trazia do velho mundo. Grande, escuro, com as teclas já velhas e amareladas, porém em ótimo estado. Amanda nunca permitiu que ninguém o polisse, não, jamais! Ela mesma o fazia, como se cuidasse de um filho. Todos estranhavam essa paixão pelo piano, mas, e isso apenas Amanda sabia, nunca foi pela aproximação que tinha com o avô, e sim o piano em si. Amava passar horas tocando, sentia-se livre, como um pássaro quando foge de uma gaiola...
— Mamãe? — Clarice levanta uma sobrancelha, ainda esperando resposta. — Já pensou em alguma coisa?
— Sim, tenho um lugar em mente.
♫
Amanda se enrola em seu xale e cola a testa no vidro do táxi. Clarice dá as coordenadas e se arruma, olhando para a mãe pelo canto dos olhos. O silêncio as esmaga, porém não há o que falar. O que pode se dizer? Amanda sabe tudo. Não lhe importa qual é o seu problema, não precisa saber o nome da doença que pouco a pouco suga sua vida e sua alma. Sabe que está em estágio final, e que lhe sobra pouco tempo de vida. Antes mesmo da filha descobrir ela já sabia.
Clarice...Pobre menina. A mais nova, que sofreu nas mãos da mãe. Claro que Amanda jamais a torturou, mas Clarice sempre preferiu ao pai, ao passo que Amanda sempre amou mais Gabriele, primogênita do casal.
Dificilmente brigavam, e pouco falavam. Porém, quando a mais velha completou vinte, tudo se desenrolou como uma bola de neve que só aumenta: a morte do pai. A depressão da mãe. A faculdade da filha mais velha, que aos poucos se distanciou. E, por fim, quando a mãe descobriu a homossexualidade da filha que lhe restava. Amanda não entendia o comportamento estranho, e Clarice não entendia a rejeição.
E veio a doença. Ironicamente, a filha que mais rejeitou foi quem abriu os braços e a pegou, como um bebê. A levou para um hospital caro, e está sempre presente, mesmo que viva se incomodando com a mãe.
Amanda pensa em perguntar o porquê, mas sente o gosto ruim dos remédios, então fica calada. Tenta ao máximo se conter e fecha os olhos.
O caminho parece longo para ambas. Clarice pousa a mão sobre o espaço entre elas, como que querendo segurar a de sua mãe. Mesmo não obtendo resposta, a mão fica ali, abandonada.
Depois do que lhes pareceu uma eternidade, a fachada da casa é avistada. O taxista para e Clarice lhe entrega o pagamento, ajudando a mãe a sair do carro.
A casa está arrumada como sempre. A filha abre a porta, e Amanda sente uma nostalgia gigante com a atmosfera familiar. Caminha pela sala e avista o sofá grande e roxo, já desbotado. Os quadros que enfeitam paredes e porta-retratos nas mesas. Duas garotinhas contentes. Um casal alegre. Uma família feliz.
— Tudo parece tão longe agora... — Clarice fala ao se sentar no sofá com cuidado, como se fosse uma visita — Inalcançável.
— Vou dar uma volta pela casa.
— Precisa de ajuda?
— Não, obrigada. — Ela praticamente se arrasta pelo velho piso de madeira, e o corredor lhe parece infinito. O orgulho a domina quando finalmente chega, sozinha, em uma sala mais afastada.
A sala que queria tanto ver.
Entra com cuidado e olha ao redor. A decoração antiga. O quadro de sua bisavó.
O piano.
Ela mal pode acreditar. O admira, encantada. Exatamente como estava antes de ser internada. Ela puxa o banquinho e se senta, erguendo a tampa que cobre o teclado.
Amanda é fraca. Frágil. Mal se sustenta em pé. Com tão pouca energia, ela não conseguirá tocar. Porém, ela estala os dedo e posiciona as mãos sobre as teclas adequadas, enquanto uma partitura passa por sua mente.
E então o primeiro acorde sai. Amanda fecha os olhos. A música prossegue, lenta. Os dedos percorrem a superfície do piano com leveza. As notas enchem a sala, dando vida aos objetos antigos. Sente como se finalmente tivesse fugido da gaiola. Livre. Leve.
Feliz.
Os dedos passam em uma velocidade surpreendente para o seu estado. Um sorriso jovial surge em seu rosto. Ela não é mais amargura e solidão. É alegria.
A música avança, ao passo que Amanda começa a gargalhar. Mesmo o som estridente da sua gargalhada não atrapalha o ritmo.
Ela se sente como uma criança. Rejuvenescida pela música. Pelo piano.
Pelo seu avô.
Logo a música acaba, e o mundo volta a ser como era antes. Os móveis perdem sua cor, e a vida perde seu encanto. Ela volta para sua gaiola. Volta ao seu corpo, que agora tem tantos limites.
— Já acabou? — Amanda vira-se assustada para Clarice, que está encostada na porta.
— Claro. — Diz, fechando a tampa e se erguendo com dificuldade. Clarice corre para ajudá-la, e, embora ela proteste, Clarice a leva até o sofá roxo da sala e a deixa por ali.
— Está tudo bem? Já quer voltar?
— O que fará quando eu morrer?
— Hm? Bom...Se você morrer...
— Quando.
— ...Quando você morrer... — Ela suspira — Não sei. Ainda não pensei nisso. Por quê?
— Promete não vender o piano?
— Está preocupada com o piano?
— Estou. Promete?
— Mas...
— Clarice. — Ela se aproxima e segura a filha pelos ombros — Foi um presente muito importante do seu avô. Por favor.
— Claro, mãe. Não venderei o piano. Prometo.
— Promete?
— Prometo.
Amanda sorri e se encosta no sofá. Clarice aperta suavemente sua mão. As duas apreciam o silêncio.
— Desculpa. — Murmura a senhora.
— Desculpar o que?
— Por não tentar compreendê-la enquanto era tempo.
— Está tudo bem. Você é minha mãe, sempre vou aceitar suas desculpas.
— Não terão muitas.
— Claro que não. — A mais jovem ri — Mas obrigada por se esforçar.
Novamente o silêncio, que as consome. Amanda olha ao redor, querendo guardar cada detalhe em sua mente.
— Quero que saiba... — Clarice se encosta no sofá — que Laura também toca piano. Por isso não quero vender o seu.
— Ela toca? — A senhora arregala os olhos.
— Sim. Sempre foi apaixonada. Queria lhe contar isso antes de...tudo aquilo acontecer. — A mulher encara a parede branca e sorri, com certeza pensando na namorada. Então pigarreia e encara a mãe — Vamos?
— Sim. — Murmura a outra sem nenhuma animação.
— Podemos dar mais umas voltas por aí.
—Não precisa. Vamos direto para o hospital.
Clarice tira o celular da bolsa e se levanta, caminhando pela sala enquanto digita o número no celular.
— Vai levar alguns minutos. — Diz para a mãe quando a ligação termina. — Tudo bem?
— Claro.
O silêncio reina pela sala. Não estão acostumadas a tanta aproximação, mesmo agora que Amanda vive no hospital e Clarice está sempre presente, elas dificilmente mantém algum diálogo. Sempre que ficam sozinhas é assim, o silêncio. Porém, diferente de tantas outras vezes, agora é um silêncio calmo, não sufocante. Nenhuma das duas quer sair.
Pela primeira vez em muito tempo, Amanda sente melhor o perfume da filha. Admira o modo como ela se senta, sem muitos modos. Sempre tentou mudar esse péssimo hábito, herdado do pai. Claro que jamais conseguiu, afinal, certas coisas não mudam nunca.
Clarice observa as mãos, sem coragem de encarar a mãe. Pensa no que o médico falou. Sua mãe não tem muito tempo. Apenas agora que ela pensa nisso. O que será dela, sozinha? A irmã nunca mais teve contato. O pai, este já partira a tempos. Ficará ela, Clarice, sozinha no mundo. Não totalmente, afinal tem Laura. Mas não terá uma mãe, mesmo que a sua não converse muito. Ela vai sentir falta das obrigações no hospital, e de ter sempre o que fazer. Cuidar os remédios. Conversar com o médico. Ajudar as enfermeiras. Brigar com a sua mãe.
Sua mãe...
Uma buzina toca do lado de fora e Clarice logo se levanta.
— Está na hora. — Ela ajuda a senhora a se levantar e caminham juntas até a porta. Amanda lançou mais um olhar para o corredor, a última porta. O piano. — Está tudo bem?
— Sim.
Clarice lança mais um olhar pela sala e tranca a casa, levando a mãe até o carro amarelo parado na entrada. Abre a porta de trás e acomoda Amanda ali.
— Para o hospital? — Pergunta, depois que já está acomodada do outro lado.
— Para o hospital. — Confirma a outra, olhando para a janela e vendo sua casa se distanciar.
Involuntariamente, a mão de Clarice pousa no banco do meio. Dessa vez, porém, Amanda reúne todas as forças para pousar a sua por cima, a apertando. Clarice se sobressalta e encara a mais velha, logo sorrindo. Amanda retribui o sorriso e torna a olhar para a janela.
É quase como uma mensagem, que Clarice entende perfeitamente.
Tudo ficará bem.
♫
Amanda esperava que, ao ver a construção antiga e pálida à sua espera, sentisse frustração e raiva. Entretanto, tudo o que sente é paz. Talvez seja a música. Ou a companhia de Clarice. O que importa é que ela não protesta ao ser levada pelas enfermeiras até o seu quarto.
A cama está arrumada, e as cortinas estão abertas, revelando o céu cinza. A senhora se senta na beira da cama e de repente todo o cansaço pesa sobre seus ombros. Clarice parece compreender e a ajuda a colocar aquelas vestes costumeiras. Amanda deita e encosta a cabeça no travesseiro.
— Parece cansada. — Começa a filha, mostrando preocupação.
— Um pouco, apenas. Por fugir da rotina. — Elas se encaram — Laura toca mesmo?
Clarice ri:
— Sim. Toca. Desde os dez anos.
— Nunca imaginei que conheceria uma outra pianista. Pena que já é tarde. — Amanda ri, porém a risada dura poucos segundos e ela começa a tossir.
— Você parece cansada. Não deveria tê-la deixado tocar piano.
— Se não tivesse deixado, eu estaria quebrando tudo agora.
— Você mal tem forças para se levantar. Como quebraria alguma coisa?
— Com palavras. Foi assim que eu quebrei nossa relação.
Aquilo atinge a mais nova, e ela imediatamente abaixa a cabeça.
— A culpa também foi minha. Não me esforcei para mudar nada.
— Mas agora está aqui. E acho que é isso que importa.
— Sim... — Ela aperta suavemente sua mão. — É isso que importa.
O silêncio agradável novamente. Amanda solta um pequeno bocejo, e então Clarice se ergue e a cobre até os ombros com um cobertor branco, como tudo naquele quarto. Caminha até a janela e puxa as cortinas, que escurecem o quarto.
— Descanse, certo?
— Claro... — É só o que eu faço, pensa Amanda, porém não tem forças o suficiente para soltar em um tom sarcástico. De qualquer forma, só causaria brigas desnecessárias. Observa a filha se aproximar e ajeitar seus cabelos grisalhos.
— Durma bem. — Ela sorri e beija sua testa. — Amo você, mamãe.
— Também amo você. — Ela sussurra, sem forças para falar alto. Clarice se retira silenciosamente e fecha a porta.
Fica por alguns instantes encarando a parede branca e sem vida, imaginando quantas pessoas mais estiveram por aquele quarto. Amanda nunca pensou nisso antes.
Deixa os pensamentos de lado e fecha os olhos, aceitando a paz que a invade, e mergulha para o que pode ser seu sono infinito.
Notas finais
Até a próxima!
Fale com o autor