A Última Chance - J e of
9 Capítulo 9 - Os problemas, nós encaramos de frente
Notas iniciais
POV Daniel
Chegamos ao hospital e ficamos esperando o atendimento da Julie. Era a segunda vez que íamos ao hospital. Só espero que não seja pelo mesmo motivo da outra vez. Eu me sentia mal só de pensar nisso. Seja lá o que fosse, eu ajudaria a Julie no que precisasse.
Vimos o médico caminhar até nós. E ele nos viu e começou a falar.
— Vocês estão acompanhando a Senhorita Julie?
— Sim. – Bia disse. – Como ela está?
— Ela está bem. Eu estivesse conversando com ela e pelo que puder perceber ela esteve passando por emoções muito fortes. A pressão baixou muito. Ela teve um aborto espontâneo e infelizmente perdeu o bebê. Nós já fizemos todos os procedimentos necessários. Ela está acordada. Podem entrar no quarto agora.
Ele disse e entramos eu, Bia, Martim e Félix. Ela parecia mesmo bem.
— Oi. Você está nos pregando cada susto. Hein? – eu disse.
— Desculpa. – ela sorriu envergonhada.
— Ei. Não precisa ficar assim. Desta vez é por outro motivo. – Julie ia começar a chorar. – O Nicolas não merece as suas lágrimas.
— Eu não estou chorando por causa do Nicolas. – ela disse chorando mais e mais.
— Não. – disseram todos em uníssono. – Então, por quê? – eu perguntei.
Julie chorava mais. Colocou a mão na boca tentando reprimir o choro. Porém foi totalmente inútil. Bia serviu um pouco de água a Julie, a fim de acalmá-la.
— E agora? Melhorou? Consegue fala? – Bia disse, Julie assentiu. – Fala então.
— O meu pai...
— O que tem ele? – perguntei, a incentivando a continuar.
— Morreu... Ele morreu.... – Julie dizia em meio ao choro que ela não conseguia controlar.
— Seu pai? Mas como? – Bia tentava falar.
— O avião que ele estava caiu. Não sobreviveu ninguém e... – Julie para de falar e chora.
— Calma meu anjo. – eu disse a abraçando. – Eu vou te ajudar. Todos nós.
— Primeiro minha mãe, agora meu pai. O que mais de ruim pode aconteceu na minha vida? Por que comigo? Eu não entendo. – Julie disse, acalmando o choro.
— Você já sabe o que aconteceu com o bebê, não sabe? – eu pergunto.
— É. Eu já sei. E foi melhor assim. Essa criança já ia nascer sem amor. Sem nada. – Julie disse, em tom de ignorância.
— Shhh. Não fala isso. Não fala, não pensa. – fiz carinho em seus cabelos. – Mas o Nicolas fez alguma coisa com você né? A Bia me disse que você foi embora mais cedo da escola por culpa dele.
— Ele falou coisas horríveis para mim. Não quero lembrar disso. Quando eu melhorar, eu conto. – eu a solto do abraço e a encaro. – Obrigada. – ela diz, sinceramente.
— Faço qualquer coisa por você Julie.
Ela corou. – Droga. E agora, como eu vou contar para o Pedrinho? E o coitadinho ainda está doente. – Julie parou e fez uma cara que parecia se lembrar de algo. – Caramba. Antes de viajar, meu pai tinha comprado remédio para ele. O entregador ia lá depois do almoço. Não tem ninguém para receber.
— Julie. Eu posso receber pra você. Vou lá e já volto. – Martim disse.
— Martim. Não fala nada pra ele. Eu mesma quero contar. – ela disse. Ele assentiu e saiu.
— E agora? O que vai acontecer com você e com Pedrinho? – Bia pergunta.
— Eu não sei. Sinceramente não sei. Acho que eu deveria começar a trabalhar pra ganhar algum. É minha obrigação agora cuidar do meu irmão. Ele ainda é muito pequeno.
— Vamos ficar do seu lado. No que você precisar. – Bia disse e sorriu amigável. – E como vai ficar? Com essa historia do seu pai?
— Tenho que ir o quanto antes no aeroporto. Lá eles resolvem tudo e... Bom, espero que eles pelo menos dêem assistência. Agora, no momento em que me encontro, vai ser impossível conseguir tudo sozinha. Pro velório, pro enterro... Enfim... – Julie diz isso, soltando um suspiro pesado logo em seguida.
— É. Espero por isso também. – Bia disse. – Bom. Eu já vou indo. Qualquer coisa dá uma ligada, ok? Vamos Félix. Vamos deixar os dois sozinhos. – Bia disse sorrindo maliciosa para mim e para Julie. Félix pareceu entender o recado e sorriu também. Os dois saíram.
— A Bia não presta. Haha – Julie disse e riu.
— Claro que presta. Me lembre de agradecer a ela depois. – eu disse rindo.
— Bobo. – ela fez uma careta, me fazendo revirar os olhos.
— Fala a verdade. Você também queria ficar sozinha comigo. – sorri malicioso.
— Eu-eu não. – ela ficou nervosa. – Eu... – ela foi interrompida pela porta que se abria. Fiquei visível só para a Julie.
— Julie, tem um garoto querendo falar com você. – a enfermeira disse. – O nome dele é... Como é seu nome mesmo? – ela se virou para quem estava na porta.
— É Nicolas. – a voz disse. Aquela voz. Senti o chão dos meus pés tremerem tamanha a fúria que eu sentia.
— Isso. Posso mandar entrar Senhorita Julie?
— É claro que sim. Sou o namorado dela, sua imbecil. – o cretino respondeu do outro lado da porta, deixando a enfermeira constrangida.
— Pode deixar entrar. – Julie respondeu doce, tentando tirar o clima chato que ficou no ar.
Ele entrou. – Oi Julie.
— O que você está fazendo aqui. Eu achei que tinha sido bem clara quando disse que... – ele a interrompeu colocando o dedo indicador nos lábios de Julie. Aquilo me deixou fervendo de raiva.
— Calma. É assim que você trata o seu namorado. Que mal educada.
— Nicolas. Eu não estou passado por momentos muito bons. Não é hora para as suas gracinhas. Então fala logo o que você quer?
— É. Eu fiquei sabendo de tudo. Seu pai morreu né. Que chato. – ele tocou o queixo dela. Ela tratou de afastá-lo e eu sorri com isso.
— F-a-l-a l-o-g-o! – Julie disse pausadamente.
— Eu vim aqui te dar outra chance. Já que você perdeu o bebê. Agora, somos só nós dois. Sem nenhum fedelho para nos atrapalhar. E então o que você acha?
Eu encarei aquele discurso nojento do Nicolas com olhos arregalados. A Julie não estava muito diferente de mim. Até ela criar coragem e falar.
— Eu não acredito. Você é um nojento desprezível. Você tem ideia do que acabou de falar. Você é mesmo um cretino, sem coração. Como você tem coragem de falar isso. Olha, quer saber? Me esquece. Não quero mais saber de você. Nosso namoro acaba aqui. Na verdade já devia ter acabado a muito tempo. Some da minha frente. Desaparece daqui.
— Julie. Você está terminando comigo. É isso? Você vai me pagar. Isso não vai ficar assim. – Nicolas saiu do quarto borbulhando de fúria. Achei que ele fosse quebrar a porta.
Confesso que por dentro eu estava explodindo de alegria. A Julie finalmente deu um pé no traseiro do Nicolas e eu vou poder ter a minha chance de ficar com ela. Eu olhei para a Julie e percebi que ela me encarava. Ela não parecia triste. Muito pelo contrário. Ela parecia encarar tudo numa boa, de cabeça erguida. Sorri, ela me sorriu de volta.
— Fiquei feliz por isso. – eu disse.
— Eu também fiquei. – ela deu uma pausa. – Vem aqui. – ela se sentou na cama e me estendeu a mão.
— Fala. – me aproximei e ela me abraçou. Foi um dos melhores momentos da minha vi... Quer dizer, da minha morte. Ficar abraçada a ela foi perfeito.
Continuei abraçada a ela por um tempo. Me soltei do abraço e encarei seus lábios. O desejo falava mais alto. Eu queria sentir aqueles lábios doces nos meus de novo. Julie pareceu ler a minha mente. Ela se aproximou e fechou seus olhos. Eu fiz o mesmo. Ela passou os braços por meus ombros e eu passei o braço por sua cintura. Senti o toque de seus lábios. Na mesma hora me senti arrepiar. Ficamos num selinho longo até que eu não estava mais agüentando tanta demora e quis aprofundar o beijo. Pedi passagem com a língua e ela cedeu. Começamos um beijo furioso, nossas línguas pareciam desesperadas, como se não conhecessem o local. Até agora, esse seria nosso melhor beijo, com certeza. Parei o beijo com pequenos selinhos. Às vezes eu esqueço que ela tem que respirar. Ela sorriu com o beijo. Quando eu ia beijá-la de novo, Bia entra. Eu disfarço, me despeço da Julie e vou pra casa.
POV Julie
Finalmente dispensei o Nicolas. Um transtorno a menos. Vi nos olhos do Daniel que ele adorou. Ele sorri e eu sorri também. Pedi que ele chegasse mais perto e acabamos nos beijando de novo. Estou cada vez mais convencida de que eu estou mesmo apaixonada por ele. O meu fantasma bobo, fofo e lindo. A Bia apareceu por aqui de novo e Dani foi embora envergonhando por te quase sido pego em flagrante. A Bia pelo menos não começou com aquela avalanche de perguntas de sempre, mas me olhou de uma forma que não precisou de palavras para que eu entendesse o que ela queria dizer. No fundo eu sabia que ela estava feliz por mim. Eu contei que terminei tudo com o Nicolas e ela adorou saber disso.
No mesmo dia, fui embora pra casa. Contei para o Pedrinho sobre a morte do nosso pai. Ele ficou arrasado, claro. Eu custei contar para ele. Foi muito difícil. Fui ao aeroporto e fiz o reconhecimento do corpo. Era mesmo meu pai. Foi difícil para mim essa situação, mas foi preciso. Preciso ser forte por meu irmão.
No outro dia, foi o velório e o enterro. E mais uma vez, usei o vestido preto. Por duas vezes, quase seguidas. Foram tantos acontecimentos ruins em menos de um mês. É... Pareci que a vida ou o destino... Sei lá... Que ela gosta de nos pregar peças. Talvez essas peças da vida sirvam como lição. Ou, talvez, para nos fazer abrir os olhos para enxergar os obstáculos que estão no caminho. Nos fazer ficar mais responsáveis, nos fazer “crescer”. Emocionalmente, estou cada vez pior. Perder meus pais, meu filho e meu namorado tudo de uma vez só, foi a pior coisa que pode acontecer na vida de alguém. Nesse caso, na minha vida. Mas, eu ainda espero superar tudo. Porém sinto que ainda não vou ser completamente feliz. Nesses últimos dias tenho estado muito com o Daniel. Talvez eu devesse lhe dar uma chance. Quem sabe? Estou fazendo a coisa certa agora, escolhendo o caminho certo.
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