A Última Chance - J e of
14 Capítulo 14 - Run away
Notas iniciais
POV Julie
Já fazia alguns minutos que saí da minha própria casa junto com meu irmão. Depois de pensar seriamente no assunto, sinto como se tomasse um banho de água fria. Um choque de consciência. É. Talvez fugir de casa não era mesmo a melhor ideia. Mas agora já era tarde. Eu não quero desistir. Não dá mais pra voltar a trás. O que está feito está feito. Fiquei pensando no que eu iria fazer agora. Eu não fazia ideia do que fazer.
Fiquei pensando também nos meus amigos. Na Bia, no Martim, no Félix. E no meu namorado Daniel. Eu ainda tinha em minha mente a imagem dos seus olhos tristes que ele olhava pra mim quando eu saí pela porta. Me doeu lembrar disso. E sabia que no fundo ele estava chateado comigo. Eu tinha certeza disso. Eu o conheço e sei que apesar de dizer que estava tudo bem, a verdade é que não estava. Eu só espero que ele me entenda. Eu prometi voltar e eu vou cumpri. Uma promessa, pra mim, é uma questão de honra.
Estavámos andando como “baratas tontas”, até Pedrinho chamar minha atenção.
– Julie! Julie! – me virei para ele. – Para onde a gente vai?
– Não sei Pedrinho. Eu ainda não sei.
– E o que vamos fazer agora? Se você não sabe para onde vamos, o que vamos fazer?
– Ah, não sei. Você por acaso prefere ir para um orfanato?
– Não. Se você pelo menos soubesse o que nós vamos fazer agora e para onde iríamos... Mas não. Acho que o Daniel tem razão. É melhor irmos para o orfanato do que fugir.
Virei pra frente e continuei andando. Fiquei pensando no que meu irmão falou. Me senti mal por ele. Eu estou o obrigando a fazer uma coisa que ele não quer, o arrastando para um futuro incerto contra a vontade dele. Eu só estava pensando em mim, não nele. Mergulhada em pensamentos, nem percebi que uma voz chamava meu nome.
– Julie! Hey, Julie. Espera.
Virei pra trás. – Ah, não. Cabeça. Você de novo. O que você quer? – pausei – O que eu vou ter que fazer pra você evaporar da minha vida? – a última frase eu sussurrei para mim mesma.
– Calminha. Eu vim na paz. Bandeirinha branca. – ele veio na minha frente, me fazendo parar. – Eu te vi e queria saber o que está acontecendo. Por que essas malas?
– Eu... Eu... – olhei para o Cabeça e ele arqueou uma sobrancelha esperando a resposta. – Eu... Ah, quer saber. Não te interresa.
– Ow... Que isso Julie. Só estou tentando ser legal.
– Julie. Quem é esse? – Pedrinho perguntou. O ignorei.
– Eu fugi de casa, cara. — respondi a pergunta do Cabeça.
– Ué... Por quê? Você não é órfã. Como se foge de casa se não tem pais?
– Julie. Responde. Quem é esse? – Pedrinho perguntou outra vez.
– Não enche Pedrinho. – dei uma pausa. Voltei a olhar o Cabeça. – Não é isso. É que uma bruxa foi na minha casa obrigando a mim e ao meu irmão a irmos a um orfanato. Por isso eu fugi. Não quero ir a nenhum orfanato.
– Puxa... Que fria, hein? Mas aí? Pra onde você vai agora?
– Eu... – Pedrinho me interrompe.
– Julie. Quero saber quem é esse cara.
– Ó garoto... Não ta vendo que você está atrapalhando? Dá licença. – Cabeça disse. – E aí? Vai pra onde?
– Não sei. Vou dá um jeito. – disse. Olhei pro lado e vi Pedrinho me encarar irritado.
– Aí. Eu tenho uma sugestão pra você. Tem uma senhora que alugar um quarto. Ela mora sozinha. É 2 reais o dia por pessoa. Se você quiser, te passo o endereço.
– Não sei se posso confiar. Sem contar que você não é muito confiável...
– Ah. Assim você me ofende, gata. Mas, é serio. E pode crer que confiável sim. Eu seria incapaz de te fazer algum mal. Você é uma garota muito legal.
– Valeu. – dei um sorriso falso. Fazer mal? É claro que é capaz, senão não teria me vendido droga. – Me passa o endereço. — eu disse.
Ele me deu o endereço e se foi. Pelo jeito não era muito longe de onde nós estávamos. Chegaríamos rápido.
– Julie. Você ainda não me respondeu.
Tinha até esquecido disso. O Pedrinho não sabia das minhas atuais companhias.
– O nome dele é Cabeça. – mesmo contrariada, eu achei melhor não esconder a verdade dele. – Quer dizer, pelo menos o apelido dele é esse. – eu disse. Só então parei para pensar que eu não sabia o nome dele.
– Não respondeu exatamente a minha pergunta. De onde você conhece ele?
– Deixa pra lá. Você não entenderia.
– Entenderia sim. – ele parou. Achei que ele iria se calar definitivamente para esquecer aquele assunto. Ledo engano. – O Daniel me disse que você estava comprando drogas de um cara. Era ele? – ele continuou.
Respirei fundo. – Era. Era ele mesmo. Agora esquece isso. Ta? Não quero mais falar disso. – eu disse. Meu irmão me olhou decepcionado. Deixei pra lá.
Continuamos caminhando. Até chegarmos ao endereço marcado no papel. Era uma casa bonita. Típica daquelas senhoras que se reservam para cuidar da casa e do jardim e que aproveita o fim da tarde para dar uma volta na praça pra jogar comida para os pombos. Era uma casa rosinha, parecia casa de boneca, apesar de ser um pouco grande. Um jardim impecável. Fiquei na frente do portão e toquei a campainha. Um pouco depois, uma senhora que aparentava uns 50 ou 60 anos apareceu e me atendeu.
– Oi. Posso ajudá-la.
– Eu espero que sim. Eu fiquei sabendo que a senhora aluga um quarto. Eu e meu irmão precisamos de um lugar pra ficar por um tempo.
– Ah, claro. Tenho um quarto pra alugar sim. Tem uma bi-cama. Vai servi pra vocês. Não é? – assenti. – Tudo bem. Não sei se sabe, mas são 2 reais por dia por pessoa.
– É. Eu sei.
– Quanto tempo pretende ficar?
– Ainda não sei. Acho que 4 ou 5 dias já é suficiente. Até eu consegui outro lugar.
– Certo. Entrem, vou lhes mostrar o quarto. – ele nós abri caminho e eu agradeci mentalmente por ela não querer saber mais.
Entramos na casa dela e ela nos levou para o quarto. Era branco, nele só havia a cama, um pequeno armário e uma televisão pequena também, de 20 polegadas ou menos. A janela era de vidro e possuía uma cortina branca.
– Espero que esteja bom pra você. É simples.
– Não tem problema. Está de bom tamanho. Nós não somos de luxo. Muito obrigada.
– Não tem problema. E como eu gostei muito de vocês, vou fazer todas as refeições de vocês. – ela disse sorrindo.
– Eu ficaria muito grata por isso. E se a senhora quiser ajuda na casa, eu faço questão de ajudar.
– Não precisa. Eu mesma faço isso.
– Tudo bem. Mas se precisar mesmo, eu quero ajudar. – ela assentiu e saiu.
Arrumamos nossas coisas e aproveitamos para descansar.
POV Daniel
Já fazia uma hora que a Julie e o Pedrinho tinham indo. Me senti mal, não devia ter deixado ela ir. Eu devia ter prendido ela aqui, nem que para isso eu precisasse prendê-la no chão. Eu estava cabisbaixo na edícula. Não tinha vontade de tocar nem nada. Martim, Félix e Bia estavam me olhando. Não sei se eles estavam pensando a mesma coisa que eu.
– Eu devia ter impedido ela. – eu me queixei.
– Mas não ia conseguir segura-la por muito tempo. Você conhece a Julie. Ele é meio impulsiva. Mesmo se você dissesse a ela que não queria que fosse, ela daria um jeito de fugir. – Bia disse.
– Não fica assim. A Julie disse que volta. – Félix disse.
– É. Você vai ver. Ela logo vai estar aqui com você? – Martim disse.
– Não. Eu disse que iria aonde ela fosse. Se for preciso eu vou atrás dela. Só preciso descobrir onde ela está. – eu disse.
–Você vai mesmo atrás dela? – Bia pergunta.
– Vou. Ninguém vai me convencer do contrário. E eu vou agora.
Saí da edícula e fui a minha procura. Só espero encontrá-la o mais rápido possível e torcer para que ela esteja bem.
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