A Última Carta
1 A Carta
Notas iniciais
Querido Pai,
É com lágrimas nos olhos que escrevo-lhe pela última vez. Eu ainda sinto sua falta, e muito. Sonho com você todas as noites, mas de nada adianta, pois quando acordo você não está ao meu lado. Eu achava que com o tempo a saudade ia embora, e a ferida em meu peito cicatrizaria, mas não é bem assim. Espero que você também sinta a minha falta, e que se lembre de mim aos sábados, sentada em frente a TV vendo desenhos e comendo sorvete.
Eu estou tentando seguir em frente, eu juro, mas é tão difícil. James tem tentado me ajudar, ele me leva ao cinema e vê romances melosos comigo, ele reclama tanto quanto você reclamava antes de partir, mas não tem a mesma graça. Ele é tão bom comigo, eu acho que merece alguém melhor, mas nunca me deixa tocar nesse assunto, diz que nunca vai me deixar e que sou o melhor que poderia pedir, mas ele está errado. Ele merece um alguém completo e especial e não esses cacos que eu sou. Mas eu não tenho coragem de deixa-lo, ele é o único que me resta, pois aos poucos todos foram me deixando, assim como você.
Eu ainda durmo com a luz acesa, esperando que você volte, me dê um beijo na testa e apague-a, como você fazia toda noite. Eu moro sozinha agora, e tudo é tão silencioso e assustador, não tem mais risadas e nem amigos saindo as altas horas da noite. Sou só eu e meu silencio, e James ocasionalmente.
Ele tem sido tão bom comigo, as vezes vem no meio da madrugada apenas para me confortar dos pesadelos, e dormir ao meu lado. Ele já não é mais aquele menino desengonçado e cheio de espinhas, esta alto agora e elegante, até barba ele está deixando crescer. Mas os olhos dele ainda tem o mesmo brilho esverdeado, ele ainda é tão doce como no dia que nos conhecemos, quando ele me levou no colo para casa depois que eu caí da árvore. Você ainda se lembra daquele dia? As piadas dele ainda continuam as mesmas assim como seu lindo sorriso, mas elas estão cada vez mais sem graça. Nada tem mais graça depois que você se foi.
Porque você foi embora ? Essa é a pergunta que mais me assola. Eu não fui o suficiente para você? O que eu fiz de errado? Eu te amo tanto!
As vezes eu acho que eu sou a culpada de tudo, que não te amei o suficiente, que não fui o bastante. Me desculpa. Eu fui egoísta, eu devia ter percebido que havia algo errado, que você precisava de mim. E essa culpa me mata devagarzinho todos os dias. Eu fui tão estúpida, e agora você foi embora. Não me deixou sequer um bilhete, um cartão, só uma casa escura e vazia.
Talvez tivesse doído menos se você fosse levado pelo acaso, mas você me deixou porque quis. Eu chorei lágrimas de tristeza, de culpa e de saudade.
Agora eu choro de medo, porque o que mais me dói é que já não me lembro mais do seu cheiro, eu não sei a cor dos seus olhos, eu só lembro-me de suas mãos duras e calejadas, e do seu anel no dedo anelar. Aquele que machucava o meu dedo quando você apertava minha mão entrelaçada a sua.
Esta é minha última carta. Espero que você tenha recebido as outras, que não foram poucas, que lhe escrevi ao longo desses anos desde a sua partida. Mas como você mesmo me disse uma vez é hora de seguir em frente, e deixar o passado para traz. e mesmo que seja duro, agora você faz parte dele. Eu ainda te amo, mas agora é hora de dizer adeus.
De sua eterna pequena,
Julie Hills.
Selo a carta e dou-lhe um beijo, sentindo as lágrimas descerem pelo meu rosto. Faço o já conhecido caminho e despejo a carta sobre o seu descanso final.
† Peter Hills †
1953 — 2010
É a última coisa que eu leio antes de virar as costas e seguir a minha nova vida.
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