A Última Aurora
10 Onde a Noite Descansa
A Noite permanecia sobre Nightreign, como sempre permanecera. Não se dissipou, não foi vencida, nem perdeu o seu lugar no mundo. Apenas mudou a forma como era sentida.
O Guardian caminhava lentamente pelas colinas que outrora haviam sido campos de batalha. A terra continuava marcada, sulcada por feridas antigas, mas já não parecia hostil. Havia silêncio, sim, mas não aquele silêncio pesado que precede a morte. Era um silêncio que aceitava a existência de quem o atravessava.
A Recluse seguia-o alguns passos atrás, com a criança envolta num manto simples, junto ao peito. Já não escondia o rosto quando atravessavam lugares sagrados, nem baixava os olhos perante as Remembrances. Aprendera, com dificuldade, que viver não era negar o que fora feito, mas carregar o peso sem deixar que esmagasse tudo o resto.
Pararam junto a uma elevação de pedra, de onde se via o mundo estender-se até ao horizonte velado. O Guardian pousou a mão sobre a superfície fria, fechando os olhos por um instante.
— Aqui — disse. — Foi aqui que tudo começou a quebrar-se.
A Recluse aproximou-se e ficou ao seu lado. Não tentou suavizar a memória, nem desviá-la. Apenas esteve presente.
— E é aqui — respondeu — que escolhemos não deixar que termine da mesma forma.
O Guardian virou-se para ela. O tempo marcara-lhe o rosto, mas não com amargura. Havia linhas novas, sim, mas eram de quem sobrevivera, não de quem fora consumido.
— Nunca te pedi que reparasses o passado — disse ele. — Apenas que caminhasses comigo no que resta.
Ela pousou a mão livre sobre a dele, apertando-a com cuidado.
— O que resta é suficiente.
A criança mexeu-se ligeiramente, soltando um som suave, quase um murmúrio. Ambos olharam para ela. Naquele pequeno gesto havia algo que nenhuma Remembrance conseguira mostrar-lhes: continuidade.
Mais tarde, quando a noite se adensou, acenderam uma fogueira modesta. Sentaram-se próximos, os ombros a tocarem-se, como tantas vezes antes. O Guardian envolveu-os com o manto, num gesto já automático, já íntimo.
— Ainda sonhas? — perguntou a Recluse, em voz baixa.
— Às vezes — respondeu ele. — Mas já não acordo sozinho.
Ela sorriu, encostando-se a ele. Não era um sorriso pleno, nem isento de tristeza. Era real. E isso bastava.
A Noite observava-os, imóvel. Pela primeira vez desde a sua criação, não exigia sacrifícios. Não cobrava escolhas impossíveis. Limitava-se a existir, como eles.
Nightreign continuaria a ser um mundo marcado pela perda, pela memória e pela dor. Mas ali, naquele pequeno espaço entre dois corpos cansados e um futuro frágil, havia algo novo.
Não à redenção. Não ao esquecimento. Apenas uma a decisão, repetida todos os dias, de permanecer. E isso, na Noite eterna, era o mais raro dos milagres.
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