A Órfã Doce
67 Testando
Notas iniciais

– C-como?! – gaguejei. – Espera Armin, eu não sei se isso é uma boa...
Ele me beijou, por uns segundos eu retribuí, mas logo que caí na real, tratei de empurra-lo.
– Por quê? – perguntei.
– Estava testando. – ele se afastou e colocou as mãos nos bolsos.
– Testando? Que tipo de brincadeira é essa?!
– Estava testando, só isso. – ele esboçou um sorriso. – Quando se beija alguém que você gosta, o coração acelera e você fica feliz. Mas não aconteceu nada, agora eu sei que realmente você não faz mesmo o meu tipo. – ele brincou. – E não fique com essa cara de bunda! Foi só um beijo. Você é freira por acaso?
Tinha que me acalmar, acho que um beijo não era muito bem o que eu precisava, ainda mais com a possibilidade de alguém nos ver e as coisas se complicarem. Dei uma risada, era a segunda vez que ele me dizia aquilo. O mais importante é que ninguém tinha nos visto. Minha situação já não estava boa, não era me agarrando com o Armin que ela iria melhorar.
– A piada não é mais original, mas você ainda riu. – ele sorriu e bagunçou meu cabelo. – Eu acho que devo acreditar em você. Não achei muito certo o modo que o Alexy falou contigo no corredor. As pessoas começaram a falar mal de você, mas aposto que só falaram por inveja.
Sorri. Na verdade eu esperava que Alexy me apoiasse, e não Armin. Armin se comporta como os pais de Lysandre, com um grande “tanto faz” na vida. As mocreias devem ter pirado na batatinha, e olha que só souberam de Lysandre e Armin, imagina se soubessem de Alexy e Castiel.
“Porra, eu tô virando puta, só pode” – balancei a cabeça.
Talvez pensar de um jeito “tanto faz” como Armin pensava ajudaria na minha situação. Ou não, eu já tinha começado a pensar em um plano para desmascarar aquela mocreia... Mas faltavam pessoas para isso. Nathaniel! Claro! Nathaniel sabe de toda a verdade, ele poderia me ajudar e ao mesmo tempo eu limparia o nome dele.
Assim que Armin resolveu ir embora, eu fui à sala dos representantes. Nem ao menos cheguei a bater na porta, ouvi conversas na sala.
– Mas você tem que...
– Não, Lana. Não seja teimosa! Ela já ganhou.
– Não! Ela não ganhou. Só está começando. Se quiser ficar se esfregando com a Melody, pode ficar. Você sabe que nós não temos nenhuma espécie de relacionamento. Mas se ficar se esfregando com a Melody, saiba que você não pode mais ficar dando um de certinho. Você é fraco, isso sim! Fica se cortando, fica desistindo. Sua vida está uma merda por culpa sua.
– Você não sabe de nada. – ouvi um suspiro. – Eu entendo que você está zangada, mas eu sei que você brigou com a Melody porque ela disse aquelas coisas sobre mim. Eu sei que você gosta de mim, Lana.
“PORRA!” – pensei. – “EU SABIA, EU SABIA!”. – sorri. Estava certa, finalmente. Lana ia dar o primeiro beijo de VERDADE, sem ser uma encenação, eu tinha que ver aquilo, fiquei olhando pelo buraco da fechadura. Truque velho, idiota e imprestável, mal dava para ver nada. Mas dava para ver que ela estava próxima a mesa dele.
– E-eu não...
– Não adianta negar. Se não foi por isso, por que brigou com a Melody? – Lana permaneceu em silêncio. – Desculpe, Lana. Mas você e eu... Acho que não dá certo... Não do jeito que as coisas estão para mim.
Afastei meu olho da fechadura, eu não aguentaria ver Lana chorando. Fiquei boquiaberta. Ele deu um fora nela, que merda! O primeiro menino que ela gosta deu o fora nela.
– Nathaniel. Você me viu dizer que gosto de você? Aliás, você me ouviu te pedindo chances? Engraçado que é só a Melody estalar os dedos que você vira o cachorrinho dela. Você é muito equivocado, isso sim! E quem ficou me levando para a sua casa com desculpas de “estudar” foi você! Você ficava lá dando em cima de mim!
– Eu não ficava...
– FICAVA SIM!
– E se eu ficava, por que ainda ia para lá?
– Porque eu não tinha nada melhor para fazer.
O silencio se instalou. Um sorriso brotou nos meus lábios. Até que eles dois formavam um casal bonito, mas ver que Lana era uma garota de atitude me fez ficar feliz.
– Bem... Se você não quer tentar, não tente. Até que a sua ajuda seria um ponto a mais para o nosso lado, mas se você é covarde, é melhor nem fazer nada mesmo. Pode ficar aí, e engole a Melody na próxima vez que ela vier na sua sala. Idiota.
Lana saiu da sala dele rapidamente da sala dele. Saiu quase correndo, nem ao menos me viu. Entrei na sala de Nathaniel minutos depois.
– Nathaniel, podia me fazer um favor?
– Se é sobre a Debrah, pode esquecer. – ele suspirou. – Céus! Por que vocês não ficam na de vocês e ignoram isso tudo. Que necessidade é essa de querer derrubar a Debrah?
– Você sabe muito bem que a Debrah não é santinha e nunca foi. Se você gosta da Melody, você é um babaca. Ela sempre usou você, sempre. E por sua culpa, aquelas informações sobre mim vazaram para a escola inteira. Eu tive que chantagear o Castiel para que ele desmentisse tudo.
– E por que gritou no corredor que era órfã? – ele perguntou, o encarei fixamente.
– Eu não me envergonho mais disso. Mas parece que você se envergonha da sua família e principalmente se envergonha de quem você é. Você sabe muito bem que poderia voltar atrás e dessa vez fazer diferente, mas parece que você prefere persistir nisso.
– A Lana contou sobre nossa conversa? – fiz que não com a cabeça. – Bem... Eu sei que ela gosta de mim e eu não vou dizer que não gosto dela, mas mesmo assim acho que nós dois não daríamos certo. Por causa da minha família, não quero que nenhuma garota tenha que aguenta-los. Acho que é melhor assim.
É! Que grande amiga eu era! Antes de Nathaniel ir embora do antigo prédio que eu morava, eu prometi que o ajudaria... Eu tentei, pelo menos. Agora eu estava meio que contra ele, mas... Ele virou as costas para mim primeiro quando não quis em hipótese alguma ajudar a desmascarar a Debrah. Achei meio errado ter que escolher entre dois amigos. Mas eu ficaria do lado da Lana, lógico. Conhecia Lana há muito mais tempo, e eu acho que não teria muita lógica ficar 100% do lado de Nathaniel. Será que... Alexy pensava assim em relação a mim e a Debrah?
Eu meio que compreendi Nathaniel, a família dele era uma bagunça. Talvez ele gostasse da Lana e tivesse esse problema. Por uns momentos eu fiquei lembrando que os pais dos garotos do F4 eram divorciados ou tinham problemas no casamento. Mas olhando por outro lado, isso não é anormal nos dias de hoje. Os casais não sabem mais honrar o “até que a morte nos separe”. Hoje em dia a “morte” é uma piriguete com um decote grande ou um cara musculoso e rico. Poucos casais permanecem juntos todos os dias se aturando e ao mesmo tempo se amando, dividindo e comendo aquele “saco de sal” até a velhice. Mas não sei se eu sou a pessoa certa para comentar sobre esse tipo de coisa. Eu nem ao menos tinha arrumado um namorado, só havia encontrado no meu caminho um bando de garotos complicados!
Armin tinha razão, eu gostava de Castiel. Na verdade eu era “louca e esfaqueada” de amores por ele. Concluí isso porque me doía muito só em pensar como seria se ele me deixasse por ela. Confesso que as coisas não estavam TÃO bem assim antes dela chegar, mas tudo estava andando devagarinho e ficando melhor a cada dia. Eu me entendia e me dava bem com ele a cada dia que se passava. Eu ficava feliz por Castiel me mostrar outro lado dele que eu não conhecia muito bem, o lado que eu só via e estranhava. De qualquer forma, por mais que eu negasse, eu sabia que eu sentia algo forte por ele... Mas não só por ele. O que eu sentia por ele meio que “empatava” com o que eu sentia por Lysandre. Ótimo! Eu quis jurar para mim mesma que não sentiria nada por Lysandre justamente por causa de Castiel, mas Lysandre tinha que vim para cima de mim com aquela voz e aquele charme que me deixam simplesmente derretida! E outra coisa! Quando Lysandre me beijou, ele sabia muito bem que Castiel gostava de mim! Mas... Eu deixei! Oh céus! Quando eu pensava sobre aquilo tudo simplesmente se tornava um nó cego dentro da minha cabeça.
Ainda não tinha descoberto sobre as saídas secretas de Kentin e muito menos sobre esses lances da Lety, se eles ainda continuavam, se ele estava saindo ou tendo contato com ela. De qualquer forma, ele já era bem grandinho para se cuidar! Mas se eu souber que ele está saindo com ela, mesmo que ela seja uma garota superficial e vazia, eu desço o braço nele! E se ele acha que dessa vez eu vou apanhar, ele está REDONDAMENTE enganado. É até meio bobo esse meu comportamento com Kentin, mas nós somos assim mesmo. Um mais bobo, chato e ciumento que o outro.
Durante a aula, eu ouvia os cochichos das meninas fofoqueiras e eu sentia meu corpo FERVER de raiva. Eu tinha um sentimento forte por Castiel, mas outra coisa forte que eu sentia era a vontade de bater nele. Ele estava do lado dela! Ele gostava de mim e não dela, então por que isso? Isso não é justo. Ainda mais porque ela é a “vítima” e eu e Lana somos as vilãs barraqueiras.
Falando em barraco, depois daquela briga super espetacular de Lana com Melody, Melody começou a usar boinas. Aqueles chapeuzinhos frufrus de franceses. Por que ela usa? Porque Lana simplesmente arrancou o cabelo dela e o cabelo da cabeça ficou faltando, ficava supervisível se ela não usasse aquele negocio na cabeça. E depois daquela conversa com Nathaniel, notei que Lana estava sem brilho, totalmente opaca, e quando o assunto era a Debrah ou a Melody, ela desviava. Será que era um sinal de que ela iria desistir?
– Está bem aérea, tampinha. – Kentin comentou quando me viu sentada à mesa.
– Quer tomar banho em família? – ele provocou. Já ia começar aquela putaria. Fiz logo um sinal feio com o dedo e uma careta. Ele riu. – Quando está pensativa, você fica estranha. Eu não te imagino pensando em algo produtivo, se você fosse loira, eu comprovaria essa teoria. Prefiro essas caretas que você faz, pelo menos são engraçadas.
O pior é que ele não fazia a mínima ideia de que eu era loira natural. Particularmente, eu não gostava nenhum pouco da cor do meu cabelo natural, por isso o tingia. Ele fez piadinhas de loiras, muito engraçado! Há uns dias atrás, ele era morto de amores pela Angela.
– Está pensando em um plano para exterminar a Debrah? – ele riu.
– Está saindo com a Lety? – mudei o assunto radicalmente, automaticamente o sorriso de Kentin sumiu e foi para o espaço.
– Por que quer saber? – ele retrucou.
– Porque ela é uma babaca que te fez chorar, ou você não lembra disso? – cruzei os braços.
– Problema meu. – ele respondeu rude.
– É seu mesmo! – exclamei. – Ainda mais porque se eu ver você chorando por causa dela, eu vou te bater até você virar homem.
Ele sorriu e ouvi uma risada sendo abafada pelos seus próprios lábios que estavam cerrados e não permitiam a passagem do som. Estava muito ranzinza naqueles dias, por isso ele evitava papo ao máximo. Por sorte, Debrah não veio mais se fazendo de vítima para o meu lado, mas o que veio a seguir foi bem pior.
No dia seguinte, eu notei que na sala do F4 os meninos estavam bem tensos, o clima pesado. Todo mundo olhando uns para os outros, um mais desconfiado que o outro. E ficou lá, aquele clima tenso de peido em elevador.
– Eu perdi alguma coisa? – perguntei, já que tinha chegado agora a pouco. Fizeram que não com a cabeça. Olhei para os lados notando a ausência de alguém. – Cadê o palito de fosforo? – perguntei fazendo referencia à Castiel.
Pronto, parecia que a conversa tinha morrido, ninguém se atrevia a falar, nem mesmo Kentin. Tinha algo errado, e muito errado!
– Lysandre. – chamei a atenção do mesmo. – Poderia contar-me?
– Contar-lhe o que? – ele se fez de desentendido.
– Onde o Castiel está. – fiz bico. Mais silencio, que raiva. – Lysandre!
– Na outra sala do F4. – Armin respondeu de uma vez. Todos o olharam ao mesmo tempo. Notei até uns olhares de censura vindos de Lysandre e Kentin.
Fui diretamente em direção a porta, Kentin pediu que eu ficasse por ali. Bati a porta e fui andando rapidamente até a outra sala, já tinha impressão de que alguém me seguia. Assim que cheguei, abri a porta bem devagar. DEBRAH! Ela estava com Castiel! Os dois conversando, nem ao menos notaram a minha presença.
– Sério mesmo, gatinho? – ela perguntou sorridente.
“VÍBORA! VACA! EU TE ODEIO!”. – gritei internamente.
– Eu tenho quase certeza... – ele encarou o chão. – É que eu tinha umas coisas para resolver, como aquilo da...
– Está falando da Lynn? – ele confirmou com a cabeça. – Você não deve satisfações a ela.
Castiel ainda teve a audácia de confirmar com a cabeça, senti uma pontada no coração. Ela desviou discretamente o olhar para a porta, que era onde eu estava. Finalmente tinha percebido minha presença, mas... Na hora que ela viu que eu estava lá, tratou de beijar Castiel na minha frente. Entretanto, eu não vi se eles dois se beijaram ou não. Duas mãos taparam meus olhos. Com os barulhos que eu fiz, óbvio que Castiel já devia ter percebido a minha presença. Lágrimas escorreram involuntariamente, mesmo que eu não tivesse visto os dois se beijando, doía como se eu tivesse visto.
– O que vocês estão fazendo aqui? – Castiel perguntou.
Empurrei as mãos para que as mesmas deixassem de atrapalhar meu campo de visão, a mão direita repousou no meu ombro esquerdo e a mão esquerda repousou no meu ombro direito. Era como se fosse um abraço, mas ouvi um suspiro de alivio.
– Você fez de proposito. – aquele tom de voz grave. Era Lysandre, sem duvidas. Ele deve ter se referido a Debrah. Suas mãos afastaram-se de mim. – Castiel, temos que conversar. Temos que conversar muito.
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