A Órfã Doce
71 Papeis
Notas iniciais

A visão estava embaçada e a claridade me incomodava muito, sentia uma respiração quente e os batimentos cardíacos de alguém, um barulho de um livro sendo folheado e uma mão que carinhosamente deslizava pelo meu braço. Comecei a me movimentar, minha cabeça doía, minhas costas também.
Quando minha visão se normalizou, lembrei do acidente assim que vi que estava junto a Kentin. O olhei com os olhos semicerrados, havia um hematoma próximo a boca, vários outros espalhados pelos braços e alguns arranhões. Ele mantinha a visão em um livro enquanto acariciava meu braço com a outra mão, quando foi virar a página do livro, me viu acordada.
– Lembra de alguma coisa? – ele perguntou. Fiz que não com a cabeça. – Ah, claro... A médica disse que você não lembraria.
– O que aconteceu? – perguntei enquanto fazia força para me manter ao menos sentada.
Ele me explicou sobre o acidente, mas disso eu já sabia, eu me lembrava de tudo com todos os detalhes. Do sangue escorrendo pela minha cabeça, das lágrimas e Lana e quando eu me joguei em cima dos dois para protegê-los. Ele não me disse a quantidade de dias que eu passei no hospital, mas disse que eu estava consciente em alguns dias, o estranho é que eu não me lembrava de nada disso.
– Queria poder ter feito algo. – ele suspirou.
– Não foi culpa sua. – contestei. – Foi tudo um acidente.
– Quem sabe se eu tivesse prestado mais atenção na estrada nós não teríamos...
– Você desviaria de qualquer maneira! – insisti.
Pior que ver Kentin colocando a culpa nos outros, era o ver culpando a si mesmo quando não havia nada que se pudesse fazer para evitar. A dor continuava, quando eu percebi, havia pontos que começavam do meu ombro até a metade das minhas costas. Lembrei-me do destroço que tinha me acertado, deveria ter sido por culpa dele. Kentin me contou que eu passei três dias no hospital apenas fazendo exames. Fiquei imaginando quanto tempo eu tinha passado por lá. Outra coisa que eu me perguntava era se Lana estava bem.
– Ela está em casa com a mãe dela. – ele explicou. – Colocaram o ombro dela no lugar. Não se preocupe, ela está bem. Tem mais é que se preocupar consigo mesma.
De nós três, Kentin quase não tinha sofrido nada, acho que foi por conta de que ele estava usando cinto de segurança e eu e Lana não estávamos. Ele estava se reclamando porque não havia sofrido nada e mesmo assim tinha desmaiado. Bobagem, ele faria o mesmo por mim. E até mais, se duvidar. Kentin me deixou sozinha para descansar, disse que estava comigo porque aguardava o meu despertar, para que visse como eu estava.
Depois de uns minutos que eu me deitei, Kentin apareceu no meu quarto novamente, mas só para avisar que iria à farmácia. A farmácia poderia muito bem entregar o medicamento, mas era o tipo de medicamento que só era vendido com a receita e com a identidade de quem o consumiria. Fiquei me perguntando se meu estado era tão ruim assim.
Com muito esforço, fiquei de pé e fui tomar um banho para tirar aquele pijama, que já me dava um pouco de calor. Nevava lá fora, pelo menos eu me daria ao luxo de colocar roupas mais leves. Quando o aquecedor quebrou, foi terrível, por isso Kentin comprou um novo na mesma semana, e este era muito melhor que o antigo. Era ruim fazer treinamentos na escola militar nevando ou chovendo, muitos ficavam resfriados por causa disso.
Não sentia mais tanta dor, mas meus movimentos estavam meios descoordenados. Troquei-me e fui para meu quarto esperar. Esperei, esperei, esperei. Nada dele voltar.
“Será que aconteceu algo?” – perguntei a mim mesma com um nó na garganta. Fiquei com essa minha paranóia de sempre. O motivo da demora dele deveria ser coisa simples. Deveria ser por causa da neve que caía lá fora, ou por causa da fila da farmácia, ou até alguma estrada que fora bloqueada.
Tentei me acalmar pegando o telefone fixo para ligar para ele, o celular estava sem sinal. O telefone estava mudo, resmunguei e fui descendo as escadas levantando o celular de um lado para outro com intenção de conseguir sinal suficiente para uma ligação, ou até mesmo uma mensagem. Desci as escadas com total dificuldade, de vez em quando meus movimentos falhavam e eu quase tropeçava nos meus próprios pés desajeitados.
Assim que cheguei ao primeiro andar da casa, saí mancando de um lado para o outro com o braço erguido. Consegui mandar um SMS, só teria que esperar a resposta. Um vento gelado invadiu a casa, a porta se abriu com força e uma figura masculina me abraçou. Foi um abraço tão forte e inesperado que as condições do meu corpo não aguentaram, caí sentada no chão. O abraço continuou, comigo sentada e ele de joelhos no chão. A respiração quente, o toque cheio de ternura, aquele abraço, aquelas roupas.
– L-lysandre. Está me machucando!
Ele me soltou rapidamente, se desculpou, levantou-se e me ajudou a levantar. Já que já havia mandado a mensagem para Kentin, quis voltar ao quarto, mesmo com Lysandre ali. Acho que ele não se incomodaria, e nem Kentin se chegasse e nos visse no meu quarto. Talvez fosse Kentin quem tivesse o pedido para vir ver como eu estava.
Não precisei dizer que queria subir, ele me pegou no colo e me levou até meu quarto, me colocou em minha cama e puxou uma cadeira próxima para sentar-se próximo de mim. Ele não havia falado muito, mas sua face esboçava um sentimento de culpa, remorso, angustia, não sabia como definir exatamente. Mas talvez soubesse o porquê de ele estar assim... No dia do acidente, Kentin havia pedido que Lysandre saísse comigo e o mesmo se recusou. Talvez se ele tivesse saído comigo, isso não teria acontecido.
– Eu sinto muitíssimo. – ele falou tocando na minha mão.
– Não precisa. – tentei acalmá-lo. – Estou bem.
– Sim... Você está. – ele murmurou com um olhar lançado ao chão. – E o motorista?
– O idiota que fez o Kentin capotar o carro? – ele fez que sim com a cabeça me encarando. – Se foi esperto, saiu do país. Aposto como estava embriagado. Que tipo de animal anda na contramão no escuro?
Lysandre ficou ouvindo aqueles insultos grosseiros que eu soltava para um mero desconhecido que foi o culpado por tudo aquilo que eu estava passado. Embora eu não estivesse tão mal assim, me doeu o coração ver Lysandre com aquela expressão tão triste. Já não bastava minhas burrices, agora ele teria que suportar as dos outros. Eu me sentia a pior pessoa do mundo, a mais suja, mais desprezível.
– Kentin pediu-lhe para vir aqui?
– Não. Para falar a verdade, só vim saber sobre o acidente há pouquíssimo tempo.
Arregalei os olhos. Kentin disse que eu havia passado alguns dias no hospital, só três foram de exames. No mínimo deveria ter sido uma semana. Se provavelmente eu passei uma semana no hospital, como ele não notara a minha ausência?
– Viajei. – ele explicou. – Fui à França com Leigh. Nossos pais querem mudar-se para lá, mas houve alguns conflitos entre mim, Leigh e eles. Só retornei hoje. Fui até o restaurante desculpar-me com você por não ter-lhe ajudado com a Debrah. Quando eu cheguei lá e vi Lana com o braço imobilizado na tipóia, ela me contou sobre o acidente e eu tive que vim te ver o mais rápido possível. Desculpe-me se eu pareço inconveniente. Se quiser, eu posso ir agora. – ele falava tão rápido que qualquer um perceberia seu desespero.
– Acalme-se. Não precisa ir, pode ficar mais um pouco. Ainda mais porque está nevando e você pode se resfriar.
Disse isso, apesar de saber que Lysandre era do tipo de “garoto das neves”. Ele sempre saía, não importava se nevava ou não, normalmente ele perambulava por aí procurando inspiração para escrever suas músicas ou fazer alguma anotação no seu bloco de notas. Além disso, ele nunca se resfriava por sair durante os dias de frio.
Lysandre tirou o casaco grosso que estava usando, disse-lhe que poderia colocar sobre o criado mudo, e assim ele fez. Continuamos a conversar, ele me contou sobre coisas que havia visto na França. Além disso, ele murmurou algumas vezes por ter percebido que na sua mala faltavam coisas, no caso, coisas que ele esqueceu-se de por na mala. Às vezes era engraçado ver que Lysandre tinha uma memória tão fraca e um talento tão grande para compor e cantar.
Ele continuou a falar e a falar, estava bem falante naquele dia. Normalmente quando conversávamos, ele falava o mínimo possível e se entretia com minhas histórias, naquele dia estava sendo ao contrario. Talvez ele achou que eu precisasse esquecer mais sobre o acidente.
– Oh! Claro! Ia me esquecendo de falar-lhe. Trouxe um presente. – ele sorriu indo em busca de algo nos bolsos do casaco.
Kentin me disse que Lysandre sempre trazia alguma lembrança para os amigos da terra da qual visitou. Aquele porta-retratos que havia a foto do F4 quando criança, foi Lysandre quem havia dado de presente a Kentin. Era um porta-retrato bem bonito, e que eu me lembre, boa parte de seu material, era a prata. Lysandre procurou por uns instantes e logo revelou uma caixinha vermelha. Lembrava um pouco aquelas caixinhas onde se guardam alianças de casamento, só que esta era mais comprida. Ao abrir, vi um cordão dourado com um pingente da torre Eiffel.
– Já estava com ele porque iria ao restaurante entregar-lhe, mas você não estava lá. – ele explicou.
– Posso colocar o cordão em você? – fiz que sim com a cabeça.
Desencostei-me do travesseiro que apoiava minhas costas para dar acessibilidade a Lysandre. Ele sorriu ao levar o belo cordão dourado em direção ao meu pescoço. Quando ele terminou de colocá-lo e eu o encarei, ele parecia meio surpreso.
– O seu ombro...
Baixei a cabeça. Pelo visto havia uma leve protuberância que era causada pela linha de sutura que costurava minha carne.
– Quando você se importa com as pessoas, se machucar está incluído no pacote. – expliquei. Lysandre deu um leve sorriso.
– Acho que eu faria o mesmo se fosse você.
Ele sorriu e eu retribuí o sorriso. Ficamos feito dois bocós sorrindo um para o outro num silêncio que eu achava que iria durar para sempre. Fiquei procurando na minha mente alguma coisa para quebrar o silêncio.
– Esse cordão é bem bonito e...
Alguns passos no corredor vieram em direção a meu quarto e a porta abriu calmamente, interrompendo o que eu iria falar, Kentin havia chegado com um frasco de remédio na mão e com algumas cartelas de comprimidos, ele os encarava quando entrava no quarto.
– Lynn, eu comprei isso aqui, a médica disse que tinha um gosto ruim pra caralho... – ele parou ao olhar para mim e ver que Lysandre também estava presente. – O que faz aqui?
– Kentin! Isso é forma de falar?! – reclamei.
– Tudo bem. Eu sei que ele fala dessa maneira. – Lysandre sorriu. – Eu vim ver a Lynn, já que você não me disse o que havia ocorrido. – Lysandre cruzou os braços olhando para Kentin.
– Não contei porque não era necessário, tinha mais coisas das quais me preocupar. – ele deu passos em direção à cama. – Não querendo ser grosso, claro.
– Mas já sendo. – fiz bico, reclamando mais uma vez.
Kentin fez cara feia para mim, como se já fosse me bronquear me mandar parar com aquela bobagem. Lysandre levantou-se e disse que teria que ir embora, insisti um pouco, mas eu acho que Kentin não queria muito que ele ficasse lá, acho que foi por isso que Lysandre acabou indo embora. Naquele dia eu e Kentin não brigamos, mas se houve um momento do qual eu quis brigar, tinha sido aquele. Quanta grosseria da parte dele! Achava que ele tinha ficado menos chato e menos ciumento, mas parece que teve uma recaída.
– Tem que tomar esse remédio aqui. – ele falou me entregando uma cartela de comprimidos enquanto foi pegar água. – Venho já.
Kentin desceu as escadas até a cozinha em busca de água. Fiquei olhando para os lados, acabei notando que o um dos papeis de parede era mais escuro que os outros, embora que era para que todos fossem da mesma cor. Lembrei que o papel de parede mais escuro (e mais novo) tinha sido substituído no dia que Miki rasgou e tentou tirar aquela frase da parede. Eu até tiraria, mas não quis me intrometer mais ainda na vida da tia. Se ela não tirou e não pediu para Kentin tirar, ela tinha um bom motivo, então decidi que não me intrometeria em mais nada.
Kentin trouxe a água, tomei aquele comprimido que quase entalou na minha garganta. Tomei mais dois goles de água para descer.
– Amargo! Amargo! – reclamei fazendo careta e entregando o copo a ele. – Para quê tantos remédios? Foi só um corte.
– Não interessa! – ele exclamou. – Tem que tomar todos. Você não é médica, é? Então tome o que a médica disse para tomar.
Fechei a cara. Quando ele estava doente eu tentei ser mais paciente, e pode crer que ele era bem mais chato do que eu. Ele me acordava no meio da noite para coçar as costas dele, e isso era a gota d’água! Eu estava sendo menos chata que ele, e bem que ele poderia ser mais legal comigo, salvei a vida dele!
– Ainda gosta de atirar?
– Não posso atirar, se eu atirar, os pontos se abrem.
– Não estou falando de ir atirarmos agora. – ele cruzou os braços. – Só quero saber se ainda gosta de atirar.
– Até que sim. – suspirei. – Mas acho que isso não é mais necessário para mim.
Eu juro que quase deixei algo escapar sobre a escola militar. Eu bem que queria compartilhar esse segredo com Kentin, mas eu tinha medo do modo que ele poderia reagir. Talvez ele ficasse zangado por eu ter escondido isso por todo esse tempo.
– Que pena. – ele murmurou. – Eu contei para a vó que você sabia atirar, ela ficou feliz por saber disso.
É, agora a diretora da escola militar era minha avó, havia até me esquecido disso! Na verdade, ela não era bem a minha avó. Como eu soube anteriormente, a mãe da tia Mika havia morrido. Eu já sabia que a diretora da escola militar era a mulher da qual a tia Mika chamava de mãe, mas aquilo tudo era coisa da cabeça dela, a mãe dela havia morrido quando caiu da escada. Talvez fosse melhor para ela, para a diretora e para todos. Talvez a mentira reconfortasse todo mundo que sofreu pela perda da tal mulher. E talvez Kentin tivesse aderido a ideia porque queria pensar como a mãe e ao mesmo tempo reconfortá-la, aposto até como ele já se acostumou com isso, tanto ele como a diretora.
– Quando falou com ela? – perguntei.
– Há alguns dias.
Com certeza a diretora não falou de mim para Kentin, mas claro que ela já devia saber quem era a filha adotiva da Mika Takamura. Não queria que Kentin soubesse, ele acabaria indo mais a fundo nessa história e com certeza descobriria sobre o garoto que eu baleei. Só Armin sabia dessa história, e só soube porque foi muito esperto para estudar o caso de perto, além do fato de ele só ter descoberto porque sabia sobre a história do campo de paintball.
O remédio que havia tomado fez meus olhos pesarem de sono. Encostei a cabeça no travesseiro e fiquei a piscar os olhos de vez em quando. Em um momento eu notei que Lysandre havia esquecido o seu casaco em cima do criado mudo. Dei um sorriso, apertei levemente o cordão que estava em meu pescoço com uma das mãos. Adormeci.
Acordei no meio da noite, tentei chamar Kentin para que ele me trouxesse água, chamei umas três vezes e nada. Levantei-me e desci as escadas com medo de cair. Fui em direção a cozinha e vi que ele estava dormindo no sofá da sala, estranhei, mas logo deixei de estranhar quando vi uma garrafa de Wodka vazia.
“Pelo menos não é mais Whisky”. – pensei.
Bebi água e voltei a subir as cansativas escadas. Ao subir, a luz clara do corredor revelava, dentro do quarto de porta semi-fechada, uns papeis estranhos na cômoda de Kentin. Fui ao meu quarto pegar uma lanterna para olhar, a lâmpada do quarto dele estava queimada, vi isso quando apertei o interruptor e nada aconteceu. Ao entrar e olhar alguns papeis, vi que eram os resultado dos tais exames que ele havia me falado. Enquanto via os papeis, algo me fez congelar. Um gemido de mulher.
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