A Órfã Doce
64 Deboche
Notas iniciais

Saí rapidamente do vestiário, minutos depois Kentin apareceu no portão da escola e fomos para casa. Estava furiosa ao ponto de querer arrancar a cabeça dele e depois comer. Apenas permaneci em silêncio até chegarmos em casa. Quando chegamos, joguei minha mochila em cima do sofá, ele fez o mesmo.
– Por que demorou tanto a ir lá para o portão? – perguntei.
– Fui à sala do F4. – fiquei boquiaberta, ele iria mentir mesmo na cara dura.
Assim que ele virou de costas para mim, minha cabeça fritou de vez. Meti-me na frente dele, o primeiro soco foi no ombro, chute na articulação do joelho, assim que ele bateu o joelho no chão, dei uma joelhada no peito dele e o empurrei para o chão. Fiquei meio que sentada na barriga dele e o puxei pela gola da camisa, ele segurou meus pulsos tentando tirar minhas mãos dali.
– Ficou maluca?! – ele bradou. – O que houve com você?
– Você beijou a Lety! Você beijou a Lety! – bradei freneticamente enquanto o sacudia. – Não acredito que você beijou a Lety!
– Para de ser idiota, Lynn! – ele se irritou e me empurrou pelos ombros. – Você sabe muito bem que em briga desse tipo, eu sempre ganho.
Já ia abri a boca para falar da primeira vez em que brigamos, na qual eu ganhei. Mas aí ele virou as costas para mim e subiu alguns degraus da escada, corri até ele e fiquei na sua frente. Ele ia ouvir umas poucas e boas, isso sim!
– Não vire as costas para mim! – exclamei. – Por isso que ela pediu para eu te entregar o número dela? Você é muito HIPOCRITA! – dei ênfase no final da frase. – Disse que odiava ela e depois ficou lá no escuro do vestiário com ela!
Kentin me empurrou contra o corrimão da escada, juro que senti como se minha coluna tivesse quebrado. Tossi três vezes com falta de ar, ele me colocou nos ombros e subiu as escadas comigo. Quando chegou à porta do meu quarto, a abriu e me jogou na cama. MALDITO PERVERTIDO!
– Fica aí, e vê se não enche mais o saco. – ele falou colocando as mãos nos bolsos. – Eu como quem eu quiser, e você não pode fazer nada. – ele falou por fim saindo do quarto e fechando a porta.
Sentia TANTA raiva e ao mesmo tempo tanta dor. Se não estivesse com dor, juro que iria lá castrar aquele idiota! Ele se metia na minha vida como ele queria, por que eu não podia fazer o mesmo? O que ele tinha na cabeça?! Ainda mais logo com a Letyque já o humilhou! Kentin estava precisando de umas tapas para cair na real! Apesar de que... Ele não a beijou, ela que o beijou... MAS ELE DEIXOU!
“Espera... Isso é ciúme?” – pensei. – “Não, não é!”.
Fiquei tão bolada com isso que nem tive tempo para perguntar sobre a menina nova. Se Debrah era popular, isso já era um problema, se anda com Lety, é um problema maior ainda. Mas quem sabe eu estivesse errada, será que eu tinha pegado aquela mania dos outros? De tirar conclusões sem nem ao menos conversar com a pessoa? É... Deveria ser bobagem... Ou não. Lana disse que teve um mau pressentimento sobre Debrah. Eu sempre confio no que Lana diz, quando ela diz essas coisas, ela sempre está certa. Quando pequenas, às vezes eu até me assustava quando via que ela sempre tinha razão em tudo que falava, devia ser o tal “sexto sentido” das bruxas ou algo do tipo.
Meu celular tocou, mensagem, de quem? Não sabia, não tinha o número salvo.
“Quer dar uma volta comigo?” – li mentalmente. – “Quem é você?”. – respondi com outra mensagem.
A próxima mensagem disse para que eu olhasse pela janela, assim que a li, coloquei a cabeça para fora da janela. Armin estava no portão da minha casa, a me ver, acenou para mim. Peguei meu casaco e saí de casa antes que Kentin visse, estava zangada com ele, não iria lhe dirigir a palavra por um tempo.
Eu e Armin fomos até um parquinho que ficava perto da minha casa, aqueles parquinhos eram estranhos, sem crianças... Talvez seja porque as crianças de hoje crescem muito rápido. Ainda mais porque eu não acho muito seguro crianças brincarem em brinquedo que normalmente estão molhados ou cobertos de neve. Como não chovia há dois dias, estava tudo seco.
– Então... – pausei sentando-me no balanço. – Como sabia meu número?
– Está preocupada com isso? – ele riu. – Não se perguntou por que eu te chamei aqui? – balancei a cabeça negativamente, na verdade eu nem ligava. – Hoje mais cedo eu saí com a Lana...
– VOCÊ SAIU COM A LANA? – arregalei os olhos sem nem ao menos deixa-lo terminar.
– Não! Não é isso! Não foi um encontro! – ele corou, apressando-se para explicar.
– Eu só fui com ela no pet shop pra comprar a areia do gato. – ele explicou emburrado e cruzou os braços logo em seguida. – Ela comentou algo sobre a Debrah e eu suponho que você ficou bem curiosa sobre ela.
– Sim, o que ela disse? – perguntei.
Estranhei, Lana sempre me conta as coisas, ou quase sempre. Será que foi grave ao ponto dela não querer me contar?
– Ela falou que as duas fizeram uma piada de mau gosto sobre... – Armin corou e coçou a cabeça. – Eu não sei como falar. – ele fez gestos e mais gestos incompreensíveis, logo colocou as duas mãos contra o peito, uma do lado direito e a outra do lado esquerdo.
– FALARAM DOS SEIOS DA LANA?! – arregalei os olhos. – Quem elas pensam que são?!
– Bem... Elas são peitudas. – Armin riu. – Eu sabia que você iria ficar explosiva, por isso te contei. Você sabe que eu adoro um barraco.
– Eu sabia que aquela Debrah tinha um pacto com “o coisa ruim”. – cruzei os braços bufando de raiva, falei o que veio primeiro à cabeça. – Me conte o que sabe dela!
– Para quê? Sem “spoiler”, fica sem graça. – ele brincou, ainda rindo do que eu tinha falado.
Armin sentou-se num brinquedo que ficava próximo ao balanço, aparentava que iria abrir a boca sobre Debrah. Notei que Armin estava usando um headphone, aparentava ser o de Alexy, aposto como Alexy ficaria furioso se soubesse.
– Quando a Debrah foi formar a banda dela, chamou o Lysandre e o Castiel, mas por algum motivo, o produtor avisou de ultima hora que só daria certo se só ela exclusivamente fosse gravar o CD. – Armin suspirou. – Eu sempre desconfiei dessa historinha, isso realmente foi uma coisa meio mal contada, ou talvez fosse o Castiel que contou errado para a gente, ele chorava feito uma garota.
– Era verdade que eles eram namorados? – perguntei, será que o que Kentin falou era verdade?
– Eram. – Armin riu. – Era engraçado, eles não combinavam nem um pouco. O Castiel ficava com cara de bocó quando estava com ela, é mais ou menos como ele fica quando está com você.
“Engraçado é que ele fez cara de bocó para outra menina”. – pensei mordendo o lábio inferior, estava zangada novamente. Suspeitava que isso fosse ciúme, de novo!
– Castiel havia me dito que a única menina que ele havia beijado...
– Foi a Angela. – Armin completou. – Castiel é muito mentiroso. Kentin me contou essa história, foi um dia antes da partida de Angela, não foi? – fiz que sim com a cabeça.
– Saiba que Castiel é um perfeito ator quando ele quer. Talvez ele tenha mentido porque achava que você não iria aceitar um “pegador” como namorado.
– Ele não é meu namorado. – fiz careta. – E não vai ser tão cedo até eu tirar essa história a limpo!
– Ui durona! – Armin provocou. – Vai bater nele como fez com o Kentin? – ele riu. KENTIN, SEU IDIOTA FOFOQUEIRO, ATÉ O ARMIN JÁ ESTAVA SABENDO?! – O Kentin disse que te nocauteou. Covardia da parte dele, quer dizer... Você é menina e... Ele tem o dobro do seu tamanho.
– Não exagere! – fiz careta. – Ele é só um pouco mais alto que eu.
– Um pouco? – Armin riu. – Eu entendo porque seu apelido é “tampinha”.
Armin brincou e brincou, acabou até falando sobre outras coisas que desviavam do assunto, acho mesmo é que o videogame dele quebrou e ele veio me perturbar porque não tinha nada o que fazer, mas digamos que ele foi útil me dando informações. No outro dia eu queria falar com Lana, falar sobre o que aconteceu no vestiário com Lety e Debrah, talvez Armin tivesse dado alguma informação errada de propósito para ver barraco, então eu tinha que manter a calma, embora fosse meio difícil. Não aguento ver ninguém debochando dela, deve ser instinto de irmã mais velha, naquela hora eu pensei em Kentin e passei a compreendê-lo um pouquinho mais. Mas no meio dos meus planos tinha um problema, eu não achava Lana. Procurei e procurei, nada.
Quando a avistei, ela estava falando com a Debrah. Por que ela estava falando com a Debrah? Não foi a Debrah quem debochou dela? Vi Debrah saindo, segundos depois Lana foi andando, a segui.
Ela foi até o porão da escola, Debrah estava lá, então fiquei observando escondida. Então Debrah tomou a palavra.
– Eu era a namorada do Castiel. E só para constar, ele me pegava para fazer ciúmes aquela mocreia da Angela, então digamos que eu tive o prazer de brincar com o coraçãozinho traidor dele.
“Por que ela está falando isso para a Lana?”. – pensei.
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