A Órfã Doce
11 A sombra cansada
Notas iniciais

Dei plantão no Culinária Mágica desde que o mesmo abriu suas portas pela manhã. Após o horário do almoço, tive a inconveniente visita de Alexy. Mas aparentemente, meu esquecimento era o inconveniente da vez.
— O que faz aqui? — interroguei para ele. A primeira coisa que se passou pela minha cabeça foram as cenas da "brincadeira". Isso decorreu porque Lana anunciou a chegada de Alexy com risinhos baixinhos que me deixaram tremendamente nervosa e ruborizada.
— Você disse que iríamos sair no sábado. — o garoto explicou paciente. Seu pé batia no chão e sua testa franzia, indicando que os níveis de paciência estavam baixando.
— Sinto muito. — dei de ombros. — Tenho que ficar. Esqueci-me de dizer que trabalho aqui nos sábados também.
— Lynn. — chamou-me Lana timidamente para um canto do restaurante. — Eu cubro você, não se preocupe. Eu sei que não é todo dia que se pode sair com o garoto. Ainda mais quando ele é bonito. — cochichou ela, ruborizada e dando-me uma piscadela. Retribuí com um sorriso e assenti com a cabeça, retirando o avental do restaurante e agradecendo-a.
Até mesmo pensei que iríamos voltar cedo, já que imaginei que seria apenas uma voltinha para me "compensar" da tal brincadeira. Que nada! Aquele garoto era muito estranho. Não paramos um minuto sequer no shopping. Me senti como aquelas crianças chatas que enchem o saco de suas mães pedindo um assento ou uma volta para casa imediata. Alexy me arrastava de um lado para outro, como uma marionete.
A primeira parada foi em uma loja de cosméticos que estava em liquidação. Ele comentou que estava sem pó compacto e base. Quando o mesmo tocou nesse ponto, foi quando notei que sua pele estava absurdamente branca. Parei até um pouco para pensar se aquilo era normal.
— Você está doente? — indaguei preocupada.
— Não. — respondeu o garoto estranhando a pergunta. — Por quê?
— Está muito branco.
Dito isso o garoto correu rapidamente em direção a um dos banheiros do shopping. Só soube disso, aliás, porque corri atrás dele como uma maluca. Alexy voltou com a maquiagem recém adquirida em mãos e com a pele mais escura. A cara de desconfiado era vista até pelos cegos.
— Por que saiu correndo? — indaguei asperamente. Estava aborrecida porque escorreguei no chão molhado e quase levei um tombo enorme na frente de todo mundo.
— Xixi? — tentou ele a primeira desculpa esfarrapada. Meus olhos se estreitaram e o mesmo entendeu que aquilo não colaria nem aqui e nem na China. — Cocô?
— Parece que você só sabe fingir quando se passa pelo seu irmão. — concluí arqueando as sobrancelhas. A expressão do garoto não era nada boa, era tão mesclada que mal pude interpretar a mistura de seus sentimentos. — Cara, eu quase tombei no chão tentando te seguir. Eu sou bem insistente, pode crer.
Ele silenciou e ficou assim por muito tempo. Passamos em várias lojas — com ele sofrendo investidas insistentes — até o gêmeo me arrastar para dentro de um trocador e cochichar a verdade.
— Primeiro eu quero de advertir que, se contar para alguém, eu não vou hesitar em te enforcar. Me entendeu? — assenti com a cabeça. Claro que em meu estado normal, teria me revoltado completamente com a ameaça daquele garoto cara de pau. Mas, como já disse uma vez: as vezes a curiosidade toma conta do meu corpo. — Minha pele é branca desse jeito porque eu tenho um distúrbio genético chamado "Gêneses de Alexandria".
— Que desproposito. — rebati.
— Estou falando sério. — insistiu ele me agarrando pelos ombros. — Olhe nos meus olhos com atenção e tente ver alguma lente em meus olhos. — ele tinha razão, não havia lente alguma. Seus olhos eram assim mesmo. Eu já havia lido na internet sobre esse distúrbio genético, mas nunca pensei que fosse real. Pois até onde eu li, essa doença não passada de mito.
Alexy complementou sua tese, e tudo se encaixava com o mito. Pele resistente a queimaduras ou bronzeamento, por isso esse aspecto claro. Os pelos eram poucos, até mesmo seu próprio cabelo não era tão volumoso como o de seu irmão. Seus olhos cor púrpura e, assim como eu li, ele complementou que seu sistema imunológico era muito mais resistente do que o de uma pessoa comum.
— Achei que isso não passava de um mito. — confessei, estava abismada com tudo aquilo. Parecia irreal, parecia mentira. — Por que está me pedindo para guardar segredo? Você sabe o quão bom seria para a ciência? Poderiam descobrir muitas coisas a partir disso. Coisas que salvariam muitas pessoas.
— Pobre coitada é você que acha que a ciência só salva vidas. — questionou ele duramente, senti um arrepio com o impacto de seu olhar tão perto de mim enquanto nos espremíamos no trocador da loja. — Tive muitos problemas na Alemanha quando meus pais tiveram o mesmo pensamento ingênuo que o seu. Me usaram como um rato de laboratório, como se eu fosse obrigado a me submeter a tantas coisas que me machucaram e me denegriram. É por isso que você não deve contar para ninguém. E se contar, eu vou me vingar da forma mais terrível que possa imaginar.
Meu choque pareceu o convencer de que minha boca continuaria fechada em relação àquilo. Um sorriso triunfante foi esboçado e a porta do provador aberta, finalmente dando espaço para que eu pudesse respirar bem. Repassei tudo por minha cabeça pela ultima vez antes de ser puxada pelo braço novamente.
— Então vamos as compras! — exclamou ele.
Confesso que nunca vi ninguém comprar tanta coisa num cartão. Ele comprou sapatos, roupas, maquiagem, descolorante para cabelo e aposto como compraria dinheiro se permitissem.
— Um platino ilimitado! — exclamou ele risonho.
Estávamos na praça de alimentação. Foi minha primeira degustação de comida japonesa. Sushi realmente é algo muito exótico e gostoso!
— Onde conseguiu? — indaguei. Cartões ilimitados era coisa de gente muito rica. Tanto que Alexy era a primeira pessoa que eu vi possuir um.
— É do Armin. — ele deu de ombros. — Ele passa muito tempo sentado e seu traseiro fica dormente. É fácil pegar a carteira sem que ele note. — concluiu o risonho com um piscadela seguido de uma risadinha.
Saí do shopping com um vestido lindo, era todo escuro e chegava até o joelho. Alexy comprou dois pares de botas para mim: uma mais longa e a outra mais curta, a mais longa tinha um salto maior e mais grosso.
— Algumas mulheres vestem preto para tentarem parecer mais magras. — comentou Alexy pensativo. — Mas preto definitivamente é uma cor que te cai bem. Te deixa muito sexy.
— Obrigada. — confesso que não era todo dia que ouvia aquele tipo de coisa. Mesmo que Alexy tivesse tirado apenas uma brincadeira comigo, aquele seu jeito invasivo me deixava um pouco incomodada. Envergonhada, para ser exata. — O que comprou nessa ultima loja?
— Tinta. — respondeu ele dando-me uma piscadela.
— Vai pintar alguma coisa em casa? — ele assentiu com a cabeça. — O que?
— Você verá. — disse o garoto risonho. — Vamos para minha casa.
— Nosso acordo não foi esse. — lembrei-o. — Íamos apenas sair e você me deixaria no restaurante.
— Você só esqueceu de uma coisa: não fizemos acordo algum. — cortou-me ele com um bom humor nos lábios. Este que fora quebrado por uma incrível cara de mal humorada. — Ah, vamos lá. Por mim! Desmanche essa cara de bruxa e venha comigo.
— Não posso, tenho que voltar para ajudar a Lana. — insisti. Alexy passou a mão na lateral do rosto e suspirou pesado, voltou a me encarar tentando manter a paciência.
— Não se preocupe, eu fiz um acordo com uma amiga minha. Ela irá para o Culinária mágica e ajudará a Lana. Certo? — assenti. — Pois bem. Eu queria saber se você sabe jogar alguns dos jogos idiotas do Armin.
— Depende de qual. — dei de ombros.
Alexy me pediu que eu ficasse na companhia de Armin até que ele voltasse do banheiro. Eu concordei, apesar de que estar sozinha ou estar com Armin — parecendo um zumbi em frente a TV com um controle na mão — faz o mesmo efeito.
— Hei, seu nojento. — Alexy o chamou fazendo cara feia. — Eu trouxe a Lynn, vê se pelo menos faz companhia a ela enquanto eu tomo banho.
Armin estava a jogar um survival horror que já era familiar a mim. Além de estar frustrado, ele xingava muito.
— Se tem um bicho desses querendo comer meu cu e o objetivo é para o outro lado, qual é a finalidade de se fazer um missão secundária? — questionou ele sem paciência. Frustrado, novamente. Um Game Over se estampou na tela.
— Você ganha conquistas. E é mais por divertimento. Por mais que algumas missões secundárias não valham bosta, outras são criativas. — expliquei calmamente, até mesmo ele havia parado de dar atenção ao jogo para prestar atenção no que eu falava. — Essa é aquela do cara que mata a mulher com um machado e a cena passa de trás pra frente? — ele assentiu com a cabeça. — É só ir até o quadro do homem e queima-lo.
O gamer me olhou surpreso e estreitou seus olhos, me encarando como os camponeses encaravam as bruxas na inquisição.
— Como você sabia disso?
— Porque já fiz essa missão secundária.
— Impossível! — exclamou ele incrédulo.
— Impossível nada! — rebati. — Esse jogo foi lançado ano passado. E falando nisso, estou com vontade de te desafiar! Topa um duelo?
O gamer escolheu um jogo, até mesmo carregando o sentimento de ofensa. É muito idiota, mas sei que alguns garotos acham que só garotos podem jogar video game bem. Excluindo assim as garotas nesse meio. Armin escolheu um jogo em que o objetivo era acertar o máximo número de notas musicais na extensão de uma guitarra enquanto uma música tocava. As notas vinham em linha reta, em bolinhas de cinco cores diferentes em fileira. Ele escolheu o nível mais difícil, mas acabamos levando o duelo a um impasse. Empatamos em todas as cinco partidas.
— Terminei. — anunciou Alexy entrando na sala.
Quando virei a cabeça para cumprimenta-lo, fui surpreendida com uma cor surpreendentemente viva em sua cabeça. Meu queixo caiu e Armin começou a ter um troço do meu lado.
— O que você fez? — trovejou o mesmo.
A cabeleira que antes era negra, agora era de um azul intenso. Seu corpo vestia apenas uma bermuda enquanto uma toalha molhada permanecia pendurada em seu ombro. Seu rosto, que entrara no ambiente de bom humor, já estava rançoso.
— Não fiz nada. — rebateu o gêmeo. — Se não está falando do cabelo, claro.
— Porra, Alexy! — trovejou Armin erguendo-se revoltado. Que bobagem de reação, só por causa de um cabelo? — Que viadagem é essa?
— Viadagem é ficar com a bunda dormente! — retrucou Alexy. — Ah, falando nisso. Toma aqui o seu cartão platino.
— Nem pense em mudar de assunto. — advertiu o gamer tomando rudemente o cartão platino da mão de seu gêmeo. — O que eu vou dizer para as pessoas quando te virem amanhã assim? Você foi longe demais.
— "Blá blá blá você foi longe demais". — arremedou Alexy em um tom irritante aos ouvidos. O azulado estava irado com o modo intolerante de seu irmão. — Cansei de ser a sua sombra!
— Você nunca foi minha sombra. — negou. — Sabe o quanto eu me fodi para limpar a sua barra? Como você é mal agradecido!
— Eu não preciso mais das suas mentiras para me cobrir! — Alexy balançou a cabeça para a esquerda e para a direita. Seu tom de voz mostrava pontas e pontas de determinação. — Contei a verdade para nossos pais. Por isso vim embora.
— Eu não acredito que você jogou a minha ajuda fora! — exclamou Armin indignado. O gamer saiu de perto de mim e ficou frente a frente com seu irmão. Senti uma tensão tão grande no ar que já estava prevendo os dois socando a cara um do outro.
— Essa sua ajuda me impedia de assumir as consequências pelas minhas ações. Era eu que deveria ter voltado para cá primeiro, eu deveria estar morando sozinho. — continuou ele, batendo em seu próprio peito, dando ênfase e força a suas palavras.
— Você não passa de um monte de lixo! — trovejou o gamer.
Alexy quase entrou em erupção, foi aí que seus olhos encontraram os meus. Por minutos a fio os dois discutiram como se minha presença não existisse. Mas quando finalmente Alexy lembrou-se de mim, o rubor tomou conta de seu rosto.
— Eu levo você. — insistiu Alexy.
— Não precisa. — neguei com a cabeça. — O Culinária Mágica fica perto daqui.
Aquela briga foi originalizada por um motivo tão misterioso que quando cheguei ao restaurante, não pude me conter. Comecei a contar tudo a Lana, quem sabe ela pudesse dar um palpite.
— Você sabe o porquê da discussão? — indagou ela.
— Não faço a mínima ideia. — dei de ombros.
— Espera, deixa eu ver se eu entendi. — pediu Lana gesticulando com as mãos. Tentando organizar os fatos em ordem para fazer uma recapitulação. — O Armin pintou o cabelo...
— Não. — a interrompi balançando a cabeça. — Este foi o Alexy, aquele que veio aqui naquele dia e...
— Comeu sua boca? — Lana sorriu provocando. — Ah, sim! Lembro-me dele.
— Pelo o que eu entendi, aquele dia não passou de uma brincadeira. De muito mal gosto, devo ressaltar. Pois bem, eles são gêmeos! — acrescentei. — E enfim. Hoje depois que voltamos do shopping Alexy me disse para ir a casa dele. Eu fiquei jogando com o Armin e depois o Alexy apareceu com o cabelo tingido de azul. Foi aí que eles dois começaram a brigar como dois torcedores de times rivais. Parecia ser algo muito idiota.
— É idiota mesmo. — concordou Lana. — Só por causa do cabelo?
— Se bem que... Parecia que o cabelo foi só um pretexto para discutir muita coisa. — palpitei com o indicador e o dedão roçando em meu queixo.
Quando repassei toda a cena por minha cabeça, ficou claro que o cabelo foi apenas uma desculpa para brigar. Quem começa uma briga por um motivo tão idiota?!
— Falando nisso. — comentei. — Alexy disse que mandou uma amiga para te ajudar. Foi assim que ele me convenceu a ir na casa dele depois que saímos do shopping. Quem era a garota?
— Que garota? Não apareceu ninguém aqui.
— Alexy, seu mentiroso desgraçado!
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