E lá continuava ela, solitária e triste. Pobre de sua copa, sem uma folha sequer. Pobre de seus galhos, velhos e ultrapassados que mal aguentavam o vento. Pobre da árvore, que que não se exibia como antes. Ela era grande e imponente. Mas o tempo a abraçou e a Morte passou a dar mais atenção a ela. Já não fazia diferença; era triste, sem razões para se erguer. Chorava, derramando seus orvalhos pelo solo escasso que a cercava. A Morte adorava aquilo. Certo dia, a ceifeira lhe perguntou:

– Por que choras? Qual o motivo do teu semblante triste e contínuo?

– Contarei: -começou a árvore- já não tenho a formosura de antes, já não tenho futuro algum. Já não tenho nada!

A Morte, esperta, indagou:

– Ora, seu senso estético não me preocupa, muito menos seu futuro. O que esconde de tão puro?

A Árvore olhou para os lados, mexeu nos galhos e não respondeu nada. Parecia nervosa. Após alguns segundos, finalmente:

– Não é importante ter alguém — finalizou em silêncio.

– Como? -a Morte sorriu- Ah! O amor... E se você se tornasse meu amante? Tem ideia de como seria viver com a Morte, ser sua única paixão e receber dela beijos frios e inocentes?

– Sinto muito. — lamentou — Porém, posso me tornar seu amante no fim, quando sua prima, a Tristeza, me levar para seu eterno abraço. Quero apenas repousar e apreciar o depreciar. Terei de recusar seu tentador convite.

Revoltada pela rejeição, a Morte enfeitiçou a Árvore rogando que morreria em três dias, enterrando a si mesma, indo com seus galhos em direção à terra, por conta da maldição. Assim, a Árvore inconscientemente começou a mirar seus galhos no solo. Aquele era o fim.

Toda a época gloriosa da amaldiçoada passou por sua mente. Lembrou-se com orgulho de seus frutos, suculentos; suas flores, amigos, sua valsa com as estrelas, seu louvor para o Sol, suas histórias bem guardadas entre as rachaduras dos troncos. Só faltou seu amor.

Oh! A cada hora que passava, mais perto da sufocante terra estava. Percebeu que em toda sua vida fez de tudo, menos amar. Oh! Não podia morrer assim. Mas já era tarde. O terceiro dia chegou, tentava de todas as formas se debater e se virar, mas nada tinha efeito. Então, subitamente, toda a sua copa foi enterrada de forma brusca e quase mortal.

Era escuro, silencioso, calmo e apertado. Um pouco molhado e difícil, muito difícil de respirar. "É o fim, finalmente" pensou a Árvore. Morreria com a desgraça de nunca sentir o coração disparado quando visse a criatura amada. Repito, pobre Árvore, escrava do que nunca teve.

Porém, algo incomum aconteceu.

Antes de fechar os olhos e descansar pela última vez, olhou por de baixo da terra o seu fundo, seu "horizonte" -se é que existe- e testemunhou a coisa mais linda que já viu e sentiu: inúmeras raízes atrás dela. Raízes robustas, jovens como sua alma que formavam belos desenhos e obras de arte no submundo. Eram tão profundas e longas quanto veias percorrendo o corpo. Possuía aquele aroma singular. Seu coração acelerou e, antes do último suspiro, descobriu, enfim, o que era o amor. Era maior que a indignação de não saber exatamente de quem era aquilo, maior que a tristeza que a perseguiu por anos, maior que as lembranças... Maior que o simples fato de existir. Maior que sua própria importância.

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