A Águia de Zeus

5 Um olho para três irmãs


Dessa vez, não era só eu que olhava para meu irmão. Hervy e a mulher que estava no meio também se voltaram para ele.

– Hum... Quer dizer que temos mais semideuses por aqui. – disse a mulher, que agora desviava o olhar por todos nós, desde Theo, até voltar a encarar meu irmão.

– Érm.. O que são semideuses? – perguntou Hervy, que estava mais confuso do que eu, pelo visto.

– Somos nós, eu acho. – respondi-lhe, enquanto voltei a me virar para a frente, assim como a mulher.

– Segurem-se, pequenos heróis, e me devolva o olho, Ira.

Ao mesmo tempo em que a mulher que estava á frente do volante disse tais palavras, ela arrancou com o carro, passando de raspão em várias árvores pelo caminho.

– Ei, não está comigo. Solte-o, Tempestade, me dê esse olho, agora. – a mulher que estava no outro canto, chamada Ira, avançou suas mãos contra o rosto de Tempestade, que estava sentada no meio, a fim de tentar pegar algo que não deu para eu ver, enquanto a mesma se debatia, movendo também suas mãos até onde seriam os olhos.

– Não! Está na minha vez de ficar com ele. – disse Tempestade enquanto se defendia de Ira.

– Argh.. Mas eu preciso dele para dirigir.

– Cale a boca, Vespa. – disseram Ira e Tempestade em um coro único.

Parei de prestar atenção na briga á frente e me virei novamente para Ethan. Ele estava totalmente ao contrário de mim. Enquanto eu estava tentando entender o que se passava e porque elas falavam de olho como se fosse um só, ele estava quase se dobrando de rir, como Theo, que do outro lado fazia o mesmo.

– Posso saber qual é a graça!? – sussurrei para Ethan, abismada.

– Toda. – sussurrou ele de volta enquanto parou de rir e abriu um sorriso nos lábios. Isso é uma das coisas que eu mais gosto no meu irmão. É muito raro você o encontrar triste, ele está sempre sorrindo.

– Mas.. Quem são elas?

– São as Irmãs Cinzentas. E acho que já deu para você descobrir o nome delas, né?

– Sim. E, uma última coisa.

Antes que eu pudesse perguntar o lance do olho, bati contra o banco da frente, assim como os outros três que estavam do meu lado. Só então quando voltei a me sentar direito que voltei minha atenção ás três irmãs, a fim de tentar entender o que acontecera.

– Ei, sua idiota, por que fez isso!? – perguntou Ira indignada, pois batera contra o vidro, assim como Tempestade. Apenas Vespa ficara parcialmente intacta.

– Só saio com o carro quando o olho estiver comigo! – e então cruzou os braços, a espera que a irmã que possuía o olho a entregasse.

– Mas, mas.. – começou a dizer Theo, com as feições entristecidas. – Isso só vai atrasar a gente, e precisam da nossa ajuda no acampamento. – essa última frase ele sussurrou virado para nós, de modo que as irmãs não ouvissem.

– Ei, fica tranquilo.. Nós daremos um jeito. – sussurrou Ethan, como se aquilo realmente não fosse um problema, e então nós quatro nos voltamos para as irmãs.

O movimento foi tão rápido que eu demorei um pouco para compreender. Então, realmente entendi o motivo de as irmãs falarem olho sem ser no plural.

Ele era pequeno, um pouco maior que uma bolinha de gude, e ele parou logo no colo de Ira.

– Ah, finalmente. – disse Ira enquanto observava a sua volta. Mas não por muito tempo.

– Argh.. Eu preciso mais que você. – disse Vespa que estava no volante, e pulou sobre as irmãs até chegar á Ira, na tentativa de pegar o olho, que estaria com a mesma.

Aproveitando-se da situação, Tempestade sentou-se na frente do volante, e enquanto ligou e começou a andar com carro, Vespa concluíra seu objetivo, e colocou o olho no rosto.

– Bem melhor, agora deixa que eu dirija, Tempestade. – disse Vespa enquanto ignorava Ira, que ao seu lado, tentava novamente roubar-lhe o olho.

– Não. – retrucou Tempestade enquanto desviava dos outros carros e dos pedestres que atravessavam a rua correndo. – Agora me passe o olho, quem vai dirigir dessa vez sou eu.

– Claro que não! Fizemos a escala a séculos, está na minha hora de dirigir. – disse Vespa enquanto tentava afastar Tempestade do volante.

E foi assim que a bagunça começou.

As irmãs estavam tão distraídas brigando e disputando o olho, que por fim, o alvo foi parar no colo de Theo sem elas perceberem. O carro andava agora de um lado para o outro, já que Tempestade se afastara do volante, então, Ethan correu para guiar o carro.

– Argh.. Tira isso daqui! – o sátiro deu um pulo quando o olho parou em seu colo, e então, sem querer, jogou-o para o colo de Hervy, que obviamente, com o desespero teve um resultado não muito legal, fazendo com que o olho parasse no meu colo.

– Ah.. Que legal. – foi o que eu consegui dizer.

– Q-quer que eu o pegue, Ally? – perguntou-me Theo com um pouco de medo em sua voz, talvez pela resposta que eu desse.

– Érm.. Não. – disse-lhe. – Já sei o que vou fazer. Só preciso de algo para segurá-lo.

– Ei, tome isso. – Hervy moveu a mão canhota até a sua mochila, e de dentro dela retirou uma luva, igual a que os jardineiros usam, e me entregou.

– Ah, hã.. Obrigada. – respondi-lhe enquanto coloquei a mão por dentro da luva, e logo após peguei o olho e fiquei a observá-lo, mas não por muito tempo. Era estranho segurar aquilo. Virei-me para as irmãs, que ainda disputavam entre si por um simples objeto que estava comigo, e disse-lhes. – Hey, acho que o que procuram não está com nenhuma das três.

– Não? – disse Vespa, enquanto as três irmãs se viraram em minha direção.

– Como não? – perguntou Ira.

– Então com quem está? – perguntou dessa vez Tempestade.

– Ele está comigo! – disse-lhes, enquanto segurava o pequeno objeto com a mão, em que estava com a luva de Hervy.

– Então devolva-o a mim, se eu não tiver com ele, nunca iremos chegar ao seu destino. – disse Tempestade enquanto esticou a mão em minha mão. Repentinamente olhei para Ethan que cuidava do volante, e então ele olhou para mim, piscou o olho e sussurrou algo do tipo “Eu dou conta.“

– Não escute ela. Entregue o para mim. Aliás, está na minha vez de dirigir, e enxergar, claro. – disse dessa vez Vespa, enquanto também esticou a mão em minha direção.

– Humpf.. Não estou nem aí que está na sua vez. Só quero me livrar de isso aqui logo. – disse para ela, e então ela bufou, mas continuou com a mão esticada, para o caso de eu mudar de ideia.

– Hum.. Uma semideusa sábia. Acho que já sabe para quem deve entregar o olho. – disse Ira, enquanto fez o mesmo movimento com a mão que as suas irmãs.

– Quase. Mas.. Me dê um verdadeiro motivo para que eu deva entregar o olho para você e não para suas irmãs.

– Hm.. Posso lhe contar mais a respeito de sua profecia.

– Ira! – protestou Vespa.

– Não podemos interferir na profecia deles. – completou Tempestade.

– Mas.. Espera. Que profecia é essa? – perguntou Theo, que agora estava a encarar Ira.

– Ora, é a profecia sobre a filha de ...

– Já falou demais. – Vespa dera uma pancada na cabeça de Ira, que fez a mesma ficar tonta e cambalear para trás, onde não demorou muito para ficar consciente novamente. – Agora entregue logo o olho!

– Érm.. Ally, acho que já chega de enrolar né. – sussurrou Hervy enquanto observava o olho em minha mão, como se ele fosse pular e atacá-lo.

– Certo, também acho. – sussurrei de volta e espionei rapidamente meu irmão que ainda nos guiava no volante, com dificuldade, pois ele estava sem nenhum apoio.

– Ande logo, menina. – disse Tempestade já perdendo a paciência.

– Mas com uma condição. – antes que as irmãs pudessem reclamar de novo, continuei dizendo. – Se eu lhe entregar Ira, promete que irá falar mais sobre essa tal profecia?

– Oh, sim, sim. Eu juro, queridinha.

– Certo, então.. Tome. – Levei a mão em que continha o olho até a mesma, e lhe entreguei o pequeno objeto, onde logo após, ela o colocou no rosto, e com um sorriso me disse.

– Muito bem, sabia que era esperta. Agora acelere o carro Tempestade.

– Não, já disse que só dirijo esse carro quando o olho estiver em minhas mãos.

– Pelo menos pode pará-lo? – disse Ethan ao seu lado, já suando para evitar que o carro não batesse contra nenhum poste ou pedestre.

– Também não. – Tempestade tornou a cruzar os braços e virou para frente assim como suas irmãs.

– Mas.. Nós já estamos chegando. – retrucou meu irmão.

– Ei, espere ai, Ira. Você ainda não me disse nada sobre a tal profecia. — retruquei para a mulher. Ela não iria me enrolar tão fácil assim. Além do mais, ela havia jurado.

– Ah sim. Bom, só posso dizer que além de você, em sua jornada, deverá levar mais três semideuses.

– Hã.. Só isso?

– Não enrole-a Ira, essa é a quantidade de semideuses que geralmente saem em uma missão, não é nenhuma novidade. – retrucou Ethan, que agora voltara a se sentar ao meu lado no banco de trás, e parecia meio impaciente.

– Ora, mas ela pediu que eu contasse algo sobre a profecia, e eu já disse quantas pessoas vão.

– Mas você jurou que contaria algo útil, conte algo que nós ainda não saibamos. – disse dessa vez Theo.

– Eu não jurei nada. – disse Ira em um tom irônico.

– Claro que jurou, todos nós ouvimos. – enquanto Theo disse tais palavras, se virou para nós, e então balançamos a cabeça em concordância.

– Pelo Estige? Ou o Styx talvez? Hm.. Que eu me lembre, não.

– Argh.. – murmurou Ethan.

– Deuses, por que não lembramos. – chiou Theo, enquanto deu um soco no banco da frente. – Ai...

– Certo, agora será que podemos ir para o acampamento logo? – perguntou Hervy entediado.

– Estamos quase chegando já. – disse Ethan, enquanto encostou a cabeça no banco, fechando os olhos.

– Não estou vendo o olho comigo. – retrucou Tempestade.

– Ande logo, Ira. Dê o olho para Tempestade de uma vez. Até eu já desisti. – reclamou Vespa.

– Eu não, já foi um custo para consegui-lo.

– Droga! – foi o que eu soltei, já não estava aguentando mais aquela discussão, e valeu a pena, pois todos se viraram para mim. – Entregue logo esse olho para Tempestade.

– Hm.. Conseguimos uma semideusa irritada, eim. – disse-me Ira enquanto soltava uma risada.

– Eu não pedi ou avisei. Eu dei uma ordem. – disse-lhe ao mesmo tempo em que sentia os meus olhos pegando fogo. – Entregue o olho para Tempestade. Agora!

– Érm.. Certo, certo. Não precisamos nos estressar.. Hehe. – Meio sem jeito, Ira retirou o olho do rosto, e o entregou para Tempestade que agora estava á frente do volante, e que logo o colocou sobre o seu próprio rosto.

– Pronto, bem melhor. Agora, — disse Tempestade, enquanto Ira assim como Vespa, se virou para frente. – se segurem firme.

E antes que pudéssemos fazer qualquer movimento, o carro se moveu mais rápido que antes, talvez mais rápido que a luz, o que fez nós quatro bater com as costas no banco, sem se mover por um breve tempo.

O resto da viagem passou muito depressa e silenciosa, sem contar com as três irmãs que às vezes ficavam discutindo em qual rua entrariam.

O carro parou a beira de uma colina, que me parecia familiar. E assim como antes, as portas traseiras abriram-se sozinhas.