A Águia de Zeus
3 O sonho
– E.. O que isso quer dizer? – Eu estava começando a ficar confusa. E ele dizia como se fosse algo super normal. Tipo, “Ah, aquele ali na esquina? É um semideus.”.
– Acho que você sabe o que isso quer dizer.. Eu sempre lhe falo deles à noite. Hércules, Aquiles, Perseu, lembra-se?
– Sim, mas.. Isso é impossível. Além do mais, eles são filhos de deuses. E deuses não existem.
– Sim, infelizmente existem.
– Claro que não existem. Você só quer embaralhar a minha cabeça, ou ver se eu realmente lembro-me dos deuses gregos antigos. Sim, eu me lembro de todos e de tudo, mas não vai me convencer de que eles realmente existem. – Agora eu já estava começando a ficar com um pouco de raiva. Às vezes parecia que Ethan não acreditava que eu sabia as coisas. Eu podia ter TDAH, Dislexia, e tudo o mais, só que felizmente eu tinha uma ótima memória.
– Sei que é difícil de acreditar. Também descobri isso com a sua idade, e quase fiquei doido. Mas agora eu me toquei que querendo ou não, os deuses existem, e o nosso pai é um.
– Ah, ta bom.. Você mesmo me disse que ele partira após eu nascer, como me diz agora que nosso pai é um deus grego?
– E eu não menti. Realmente ele partiu, foi pro Monte Olimpo.
– Eu.. Hã.. É muita coisa para a minha mente processar no momento, ok? Aliás, onde está a Tia Jenn?
– Ela.. Não era nossa tia. E nem está mais aqui. Por enquanto.
– Argh.. Vai me dizer que ela é uma deusa também?
– Estaria bom se fosse.
– Então o que ela é.
– Era...
– Hã.. O que ela era?
– Infelizmente ela era um... Monstro.
– Monstro!? Só falta dizer agora que monstros existem.
– Não queria te decepcionar, mas.. Sim, existem também.
– Ai, ai.. Estou com a maior vontade de rir, sabia? – Descruzei as minhas pernas, e tornei, agora, a abraçá-las.
– Se eu lhe provar que essa história toda existe, você passaria a acreditar?
– Se for uma prova bem.. Convincente.
– Okay. Ótimo. Sei a prova perfeita. E fica exatamente à uma hora daqui.
– Hã.. Tudo bem, então.
– Certo. Vamos aproveitar o resto do dia, e amanhã bem cedo, nós iremos atrás de sua prova.
– Okay, então.
– Bom.. Vou passar o resto do dia aqui em casa, para a prevenção de monstros, e tal.. Nós, especialmente atraímos monstros demais. – Ethan levantou-se e seguiu em direção ao seu quarto em calmos passos, me deixando sozinha no quarto da Tia Jenn.
Deitei-me na cama, e fiquei pensando na chance de realmente eu ser uma semideusa. Achei algumas suposições, principalmente levando ao fato em que minha mãe faleceu na hora em que eu nasci por eu ter muito.. poder!? Talvez.
O tempo passou, e eu adormeci.
Fazia muito tempo em que eu tivera um pesadelo, mas nessa noite, eu tive um em que me atingiu como uma luz.
O sonho funcionou como lembranças de momentos que eu realmente esquecera que aconteceram em minha vida.
Eu sabia que eram verdadeiros, mas era como se eu nunca os tivesse vivido antes, não desse modo.
Primeiramente, eu tinha dez anos, e estava novamente no banco de trás do táxi, com Ethan ao meu lado. Á frente, no banco do carona, estava a Tia Jenn. E como todo inicio de verão, nós estávamos indo levar o meu irmão até ao acampamento no qual ele passava o verão inteiro, fazendo não sei o que, porque ele nunca me contava o que fazia lá.
Quando chegamos à beira do monte onde ficava o acampamento, Ethan apontou lá para cima, onde provavelmente ficava o portal de entrada, e sussurrou algo do tipo: “Hey, olhe. Está quase chegando a sua vez.”, e então saiu do carro, e foi correndo o morro acima, ao mesmo tempo em que o táxi começou a andar. Dessa vez, eu virei para trás e fiquei a observá-lo subindo, e pude jurar que vi uma árvore balançar um galho, como se estivesse me dando tchau. Por instinto, retribui o cumprimento, mesmo que fosse uma maluquice.
Outra imagem agora me aparecera.
Dessa vez eu estava sentada no sofá assistindo televisão, quando Ethan adentrou pela porta, com a mochila que ele levava ao acampamento de verão. Deduzi que o verão havia acabado e que ele estava chegando de suas “férias”.
Ao se aproximar de mim, com um sorriso no rosto pude perceber que havia algo de errado com seu tornozelo.
– Ethan, por que está mancando? – Resolvi perguntar.
– Eu, hã.. Não estou mancando, Ally. – Ele continuou a vir em minha direção, ainda mancando, até que sentou ao meu lado.
– Não? Então eu estou tendo uma ilusão?
– Hm.. Quase isso.
Ele esticou os braços, de modo que eu o abraçasse. Quando eu me aproximei, com os braços também esticados, percebi que a sua blusa estava toda rasgada e com alguns respingos de sangue.
Levantei-me do sofá e fiquei de frente para ele.
– Ethan! O que aconteceu com você? – Agora eu realmente estava começando a ficar preocupada.
– Nada, Ally. Já lhe disse.
– Então porque está parecendo um mendigo? – Cruzei meus braços, e fiquei esperando a sua resposta, enquanto ele continuava imóvel.
Ele iniciou uma risada, e levantou-se, me dando um abraço em seguida, ignorando a minha rejeição.
– Ah, irmãzinha.. Se eu lhe dissesse você não acreditaria. Não precisa se preocupar. Além disso, está tarde. Vá se deitar e amanhã nós conversamos com calma, combinado? – Disse Ethan após me libertar do abraço e caminhar comigo até a porta de meu quarto, onde logo após, se encaminhou até o seu quarto.
Eu fiquei a observá-lo enquanto chegava até a sua porta, e então, inesperadamente ele se virou para mim.
– Vamos fazer assim. Amanhã eu tenho que resolver umas coisas, então.. Quando se lembrar disso, me pergunte que eu irei lhe explicar o que aconteceu realmente. Só que você tem que estar mais velha, se não, irá achar que é uma brincadeira. Pode ser? – Então ele continuou o seu caminho, e fechou a porta. Segui o seu feito, e entrei no meu quarto também fechando a porta.
Veio uma ultima imagem em minha mente. E dessa vez não entendi o sentido dessa ultima lembrança.
Mas agora eu estava adentrando no Edifício Empire State, e segundos antes de o elevador se fechar, eu pude ver de longe novamente o homem musculoso de cabelos brancos, só que dessa vez ele sorria e dizia ao mesmo tempo, com um ar de felicidade, esperança.
– Está chegando a sua vez, Ally Wale.
Com a porta se fechando, o sonho se dissipou, e então eu acordei assustada na cama de minha ex-tia, com meu irmão ajoelhado ao meu lado da cama, igualmente a mim, assustado.
– Oh.. Graças aos deuses você acordou. Já estava começando a ficar preocupado.
– O que? Por quê? Eu só tirei um cochilo.
– Cochilo!? Tem noção de que horas são, Ally?
– Hã.. Não, que horas? – Perguntei, pois até eu já estava me preocupando, só com a reação de meu irmão.
Ethan retirou o relógio de seu pulso, e o jogou em cima de mim, onde eu o peguei um pouco sonolenta, e tentei enxergar os números. Com um pouco de esforço, pude compreender realmente que horas eram.
– Nove horas!? Por que você me acordou nove horas da noite?
– Sim, são nove horas, mas não da noite.
Ele levantou-se e caminhou até a janela, onde a abriu e um sol irradiou no quarto, ofuscando meus olhos. Percebi que já era de manhã.
– E qual é o verdadeiro motivo da sua preocupação?
– Ainda pergunta? Você foi dormir eram seis horas da noite. Tem noção de que você dormiu exatamente 15 horas? Eu pensei que havia acontecido algo com você, menina.
– Mas não aconteceu.. Então pode se acalmar.
– Ta, ta... Agora arrume suas roupas na mochila, porque iremos atrás da sua prova como semideusa.
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