A voz
1 Capítulo 1 - A Voz
Notas iniciais
A chuva que caía era a desculpa perfeita para que eu pudesse continuar dormindo o dia todo, como tinha feito durante a semana inteira, no mundo dos sonhos podia fugir da realidade, podia deixar de existir, tudo que eu queria.
Meus sonhos foram interrompidos por batidas na porta mais altas e irritantes que trovões, me levantei e fui ver quem era, quem me importunava na sagrada hora do cochilo?
Abri a porta e um homem ensopado tentava falar tão rápido que as palavras saíam desordenadas de sua boca, com uma voz de autoridade e quase irritada eu disse – “Se acalme homem! O que você quer?”.
Ele respirou profundamente parecendo se acalmar e disse – “Minha filha foi raptada pelos homens-lagarto, me disseram que sua habilidade com a espada é incrível, por favor a resgate, não tenho muito dinheiro, mas posso pagar um valor justo”.
Olhei para mesa e vi que ainda tinha alguma comida, poderia ficar mais alguns dias dormindo, sem trabalhar, na hora fiquei com vontade de recusar o pedido, mas por outro lado enfrentar criaturas poderia significar o meu fim, o que poderia ser melhor que ter comida para encher a barriga.
Com a voz preguiçosa e de desdenho então eu questionei – “Para onde eles foram?” – enquanto pegava minha espada e vestia minha cota de malha.
Respirei fundo, meu corpo estava quente e a chuva fria, o choque térmico me acordou e parti na direção que o homem disse, depois de uma hora caminhando a chuva afinou e finalmente podia ver a entrada do pântano, acendi uma tocha, a luz da lua não me ajudaria naquele lugar, e eu sabia que a luz atrairia as criaturas.
Depois de alguns minutos dentro daquele lamaçal percebi que estavam me cercando, mantive uma postura normal para que me atacassem e funcionou, três correram em minha direção segurando suas adagas envenenadas.
Eles não contavam com minha velocidade, saquei a espada e decapitei o primeiro com um único golpe, logo percebi que eram fracos, não passavam de prole e meu sonho de morte foi despedaçado, substituído por uma forte ira, decepei o braço do segundo e então perfurei seu coração, o terceiro assustado tentou fugir, mas arremessei uma adaga de seus companheiros em suas costas, um golpe certeiro.
Continuei pela trilha e percebi que os outros me evitavam, provavelmente eram proles, até que cheguei no que parecia ser um pequeno acampamento, algumas barracas rodeadas por árvores sem folhas e uma grande fogueira no centro, a garota estava enjaulada no fundo, de longe podia perceber que estava nua.
Dessa vez cinco vieram em minha direção, eles falavam um idioma que eu não era capaz de entender, pareciam grunhidos e aquilo me irritava, pude ver que não eram fracos como os de antes, usavam armadura de couro e seguravam espadas, tentaram me cercar, me aproximei do primeiro que tentou me estocar com sua espada, desviei e cortei sua perna, caiu no chão agonizando de dor e parti para o próximo.
Dois deles tentaram me acertar de uma só vez, mas eram lentos, cortei a jugular de um e cravei a espada sob as costelas do outro, os dois que sobraram vieram furiosos em minha direção, a fúria os cegou e eu os subestimei, enfiei a espada no pescoço do primeiro, mas o segundo foi mais rápido que eu esperava e me acertou no braço, não foi um corte profundo, mas sabia que o veneno me prejudicaria.
Quando os cinco guerreiros foram derrotados os outros fugiram, somente um com uma cicatriz no olho ficou, ele carregava um machado que era da metade do meu tamanho, precisava finalizá-lo rápido, morrer para o veneno não era o que eu tinha em mente.
Corri na direção da criatura que logo percebi ser lenta, tentei fincar minha espada em seu peito, mas não consegui sequer arranhá-la, sua pele era dura como pedra, ele me deu um soco me arremessando para longe, minha visão ficou turva, o veneno estava começando a se espalhar.
Ela veio em minha direção girando o machado como se fosse um bastão, um golpe daqueles me finalizaria facilmente, estava gostando da ideia quando escutei uma voz em minha mente, aquela maldita voz que dizia: Ainda não chegou sua hora, não permitirei que morra assim.
Perdi o controle do meu próprio corpo, me levantei e saí correndo em direção àquele monstro que tentou me acertar com o machado em um golpe furioso no chão, escalei seu braço e subi em suas costas, quando olhou para cima cravei minha espada em seu olho e girei, ela caiu no chão se contorcendo em dor e então a finalizei cortando sua cabeça por dentro de sua boca, essa foi a última coisa que me lembro daquele dia.
Quando acordei estava em casa e a moça que resgatei cuidava de meus ferimentos, ela me disse que tive febre e que quase morri, seu pai agradecido a ajudava e me entregou uma bolsa de moedas.
Naquele momento jurei que me livraria daquela voz para que pudesse escolher o destino que eu realmente queria, descansar em paz.
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