A volta dos dragões
7 O renascido
Notas iniciais
O trajeto de Ponta Tempestade para Porto Real era ínfimo para quem já havia andado por tantos lugares nos continentes conhecidos. Aegon atravessara o Mar Estreito, até chegar na terra onde o pai deveria reinar, chegar a Porto Real agora parecia apenas uma cavalgada… Uma cavalgada cheia de pompa, e que estava demorando mais do que ele gostaria.
–O que houve agora? — Sua voz soou como um estrondo quando percebeu parte da comitiva desacelerar.
O olhar impaciente do rapaz, tão pomposamente vestido em sua armadura negra recém forjada, fez o cavaleiro, que usava o brasão da casa Dalt, se encolher um pouco, baixando o olhar, e em seguida a cabeça, em uma reverência um pouco sem jeito.
–Perdão, vossa graça, a carruagem das damas da princesa Arianne ficou com a roda presa. Mas não devemos demorar. — O cavaleiro respondeu, ainda um pouco encolhido diante do intimidador olhar púrpura que Aegon lhe lançava.
O Targaryen soltou um suspiro sonoro e esporeou seu cavalo, fazendo-o ir mais rápido pela estrada, e sendo acompanhado de perto por vários outros cavaleiros. Fora ele que insistira para que sua, agora noiva, fizesse aquela viagem na proteção de uma carruagem. Seu tio, Doran, já havia perdido um filho quando o enviara a Daenerys, e Aegon estava disposto a mostrar que tinha mais cuidado para com seus aliados de Westeros do que a tia. O mais novo rei pretendia conseguir apoio de seus súditos antes que a tia aportasse em Porto Real, assim não estaria tão a mercê dos dragões que ela controlava. Mas aquelas malditas carruagens pareciam quebrar a cada curva na estrada, e Aegon estava ficando cada vez mais impaciente.
Uma brisa fria balançava os cabelos prateados do jovem rei de direito de Westeros. Há alguns meses vinha deixando-os crescerem, desde que Lorde Velaryon levou até Ponta Tempestade uma das tapeçarias onde haviam representado seu pai, Rhaegar, com longos e belos cabelos de prata. Parecia um pouco infantil, mas se parecer com o pai o fazia sentir-se um pouco mais próximo dele.
–Não seria mais seguro só continuar a viagem com o resto da comitiva, vossa graça? — Sor Rolly tinha o cavalo emparelhado ao dele, e olhava para Aegon com um misto de preocupação e respeito, e até um pouco de receio, enquanto esperava a reação dele.
–Não pretendo deixá-los para trás, Rolly. — Explicou já começando a desacelerar o cavalo. Não sabia exatamente o que pretendia, talvez estivesse mesmo pensando em deixar Arianne para trás e seguir até Porto Real sozinho. Ele havia conquistado Westeros, o apoio das outras casas para a casa Targaryen se concentrava nele, o rei de direito. Era o herdeiro, o primeiro e único filho de Rhaegar. Parecia haver toda uma vida em Porto Real, que só estava esperando a sua chegada. -Acha que serei um bom rei, Rolly? — Ele perguntou quando o cavalo foi parando, embaixo de uma arvora próxima à estrada. O Targaryen virou os olhos violetas para o cavaleiro, que olhou para ele com seriedade, entreabrindo os lábios com hesitação.
–Westeros não tem um bom rei desde antes de eu nascer, vossa graça… Não saberia dizer como é um bom rei. — Falou aproximando o cavalo do de Aegon. A lealdade de Rolly fora o que motivara Aegon a nomeá-lo para a Guarda Real, e aquela lealdade também se estendia à sinceridade, quando sua opinião era pedida.
–Disseram que meu avô tinha muito potencial em sua juventude. Esperavam dele um bom governo, como agora esperam de mim. — Aegon virou o rosto na direção que a estrada seguia, onde bem ao longe, para aqueles que já estivessem acostumados com aquele trajeto, já se podia ver as sombras do que logo se descobriria ser Porto Real. -E se eu também enlouquecer? O que meu bisavô dizia? Aquilo sobre Targaryens e os deuses…
–Rei Jaehaerys II… Grandeza e loucura são dois lados da mesma moeda. Sempre que um Targaryen nasce, os deuses jogam a moeda e o mundo prende a respiração para ver de que lado irá cair. — O cavaleiro respondeu, engolindo o seco e olhando para o seu rei com bastante compaixão.
–De que lado terá caído minha moeda, Rolly? E quanto a minha tia? Eu ouvi coisas sobre ela…
–Não deve acreditar em tudo que ouve, meu rei. — O manto branco ousou interrompê-lo. -Ouvimos as mesmas coisas sobre a “mãe dos dragões”, e na baía dos escravos… Poucos são tão mal falados. — O cavaleiro começou a dizer, acariciando a crina de seu cavalo, que Aegon não pode deixar de observar, tinha uma pelagem de cor muito parecida com os cabelos de Rolly, agora escondidos pela malha de aço que também cobria parte de sua cabeça. -Mas nenhuma dessas coisas são ditas sem propósito. Cada homem fala dos outros da maneira como melhor lhe aprouver… Se para os mestres e vendedores de escravos que tentaram nos contratar, a sua tia é louca, certamente para os escravos que ela libertou a opinião é outra. — Rolly endireitou-se melhor em sua cela. -Lorde Caswell lhe diria as mais duras palavras a meu respeito… — O rei não pode deixar de notar o sorriso que brincou de não nascer no canto dos lábios de Rolly. Para Aegon, aquela história não importava, ouvira a versão de Rolly, e como o cavaleiro gozava de sua confiança, aquilo lhe bastava. -Sua preocupação em ser melhor do que aqueles que o sucederam e não mais poderoso, já o faz diferente do seu avô, meu rei. Vosso pai tinha a coragem, mas não o exército. Mas o senhor tem ambos… Aerys II só governava para si mesmo, os Lannister reinaram apenas para os grandes senhores, assim como vossa tia o fez para os escravos… Sei que saberá não cometer os mesmos erros que eles. Será rei de toda Westeros, não apenas dos grandes senhores ou do povo. Lembre disso, e será um rei melhor que os últimos cinco, pelo menos.
Aegon não disse nada, apenas ofereceu o sorriso de agradecimento para sor Rolly. Depois da morte de Jon Connington, não sabia o que teria feito se não tivesse Rolly para conversar. Os capitães da Companhia Dourada não eram exatamente um poço de sabedoria e gentileza, e ele não conhecia tão bem os novos lordes com quem fizera aliança recentemente. O rei voltou a olhar para a estrada que se seguia ao norte, e seu encontro com outra que vinha do oeste, ao mesmo tempo em que um dos guardas se aproximou dos dois homens ali.
–Tudo pronto, vossa graça. — O homem disse após fazer uma reverência. Este usava um brasão da casa Fell, fazia parte de cinquenta homens que haviam recebido como reforço do castelão de Felwood, quando por lá passaram na noite anterior.
–Que estrada é aquela? — Aegon perguntou, demonstrando bastante satisfação com a noticia de que poderiam seguir.
–É a Estrada da Rosa, meu rei. — O soldado abrira a boca para responder, mas sor Rolly respondera primeiro. -Leva até Bitterbridge, Highgarden, e finalmente, Vilavelha. — Explicou. -Mais algumas horas e estaremos em Porto Real.
–Ótimo. — Ele abriu um leve sorriso encarando a estrada. — Diga a sor Ryon para reunir seus homens e vir até mim. Minha irmã precisa ser informada de que chegarei em breve. — O tom do jovem Targaryen era um misto de ansiedade e autoridade, que fez o soldado virar seu cavalo e seguir até a comitiva que se aproximava. -Minha irmã… — Aegon assumiu uma expressão um pouco mais pensativa quando, ao que parecia, lembrou-se da tal irmã que diziam que ele tinha. Ele ouvira algumas histórias sobre Rhaenys, quando Lorde Jon ainda estava vivo, assim como também sobre sua mãe e seu pai. Mas aquela irmã ele não conhecia, e não passara muito tempo útil com Arianne para lhe perguntar sobre ela.
–Ouvi dizer que ela foi criada pela Víbora Vermelha de Dorne. — Rolly comentou, deduzindo pelas poucas palavras do rei, o que ele estaria pensando.
–Bom… Eu fui criado por um lorde exilado. — Sua resposta veio como reflexo.
–Desculpe, vossa graça, não quis dizer que…
–Esta tudo bem, sor, sei que não foi sua intenção. — Aegon interrompeu o manto branco com um sorriso agradável no rosto. -Vamos… Quando chegarmos a Porto Real você vai ter uma armadura branca para combinar com esse manto.
Embora ainda não tivesse se dado conta, Lyanna era parte da razão de sua ansiedade. Aegon não tinha mais família. A casa Targaryen se resumia a ele, Daenerys e Lyanna, e enquanto sua tia crescera nas Cidades Livres e estava do outro lado do Mar Estreito, ainda sem qualquer previsão para chegar em Westeros, Lyanna, por outro lado, fora criada em Dorne, em Westeros, pela outra metade da família de Aegon. Lorde Jon lhe contara uma vez da proximidade entre sua mãe e Oberyn, e como o tio perdera a vida para vingar a morte de Elia, contra o Montanha. Havia muitas questões do reino para serem resolvidas, anos de guerra e mais anos ainda de mal governo, haviam deixado Westeros no meio do caos, ele teria muito trabalho pela frente, mas mesmo assim, aquelas questões pessoais, aquela curiosidade a respeito de sua origem, dos “seus” que ainda estavam vivos, ele não conseguia deixar de lado.
Sor Ryon Allyrion, herdeiro de Graçadivina, logo chegou até a frente da comitiva, onde estava o jovem rei, acompanhado de aproximadamente vinte homens, sendo sete cavaleiros e outros soldados montados. A maior parte das espadas que trouxera de Graçadivina estava fazendo a segurança da princesa Arianne, inclusive o filho bastardo de sor Ryon, Daemon.
–Meu rei… — Sor Ryon e seus homens fizeram uma reverência simples com a cabeça, em cumprimento a Aegon.
–Siga para Porto Real, sor Ryon, preciso que avise a minha irmã, a princesa regente, que estamos chegando. — Ordenou, o tom menos agradável e mais ansioso.
O cavaleiro fez uma nova reverência para Aegon, e em seguida gritou aos homens, esporeando seu cavalo e seguindo pela estrada. O rei pode ver os homens passarem direto pelo ponto de encontro com a Estrada da Rosa e em seguida desaparecerem no caminho para Porto Real, enquanto ele permitia seu cavalo ir mais rápido, a medida que percebia a comitiva se aproximar mais e mais, até estarem no mesmo ritmo.
O resto da viagem se seguiu sem mais atrasos, e Aegon agradeceu internamente por sor Rolly respeitar o seu silencio. O rei ficara bastante pensativo naquelas horas finais da viagem. Pensava nas responsabilidades que iria assumir, nas primeiras decisões que iria tomar quando chegasse a Porto Real, e, como não poderia ser diferente, na família que iria conhecer. Arianne não lhe despertara tanta curiosidade, talvez porque já soubesse que teria de se casar com ela, para conseguir o apoio de Dorne, e mesmo o pouco esforço que ela fizera na tentativa de seduzi-lo, parecia ter deixado claro que ser rainha fora o maior atrativo para a dornesa naquele casamento. Aos poucos, Aegon estava aprendendo a ler as pessoas, com grande ajuda de Rolly, assim como alguns conselhos que recebera de Tyrion Lannister e Varys, a Aranha. Arianne lhe sorria com os lábios, mas não com os olhos, seus olhos pareciam estar sempre o ameaçando, e aquilo o incomodava. A princípio, queria conhecer a tia Daenerys mais do que qualquer outro, e não apenas por seus dragões, mas também por tudo que ela conquistara com tão pouca idade. Mas com o tempo passou também a vê-la como uma possível ameaça… Claro, ele tinha a melhor reivindicação, mas Daenerys tinha dragões, e Aegon, como já falara com Rolly, não sabia como funcionava a cabeça da tia, muitas de suas ações pareciam precipitadas, impulsivas. E se ela decidisse ignorar a linha de sucessão e tomar o trono para si? E se não aceitasse a proposta de aliança que ele iria lhe oferecer? Havia receio nele… Já Lyanna, bom… Ela não tinha exército, nem dragões, a única coisa que possuía era o mesmo sangue que ele, o mesmo pai, e pelos relatos que recebera de Porto Real, estava trabalhando divinamente em seu nome. No fundo, Aegon a considerava inofensiva, diante do pouco poder que ela parecia ter, talvez até um pouco responsável por ela, sendo agora o único homem de sua casa, e ela uma donzela. Pensava em Rhaenys, na irmã que nunca conseguira conhecer, e que havia sido brutalmente assassinada, enquanto ele havia sido salvo. Ouvira alguns se referirem a Lyanna de maneira negativa, como o simbolo da traição de Rhaegar, mas se até Oberyn, que fora leal à sua mãe até a morte, achara um espaço em seu coração para cuidar dela, Aegon certamente poderia fazer o mesmo.
Absorto em seus pensamentos, o rei demorou a perceber que já estavam quase chegando às muralhas da cidade. Sor Rolly, que não saíra do seu lado em momento algum, precisara chamá-lo uma segunda vez para ter sua atenção.
–Podemos chegar pelo Portão do Rio, e assim ir direto para a Fortaleza Vermelha. — Rolly sugeriu.
–Não… — Já estudara os mapas da cidade, sabia que aquela era a alternativa mais rápida, mas apesar de sua ansiedade em chegar e tomar posse de seu castelo e trono, Aegon tinha outros planos. -Daremos a volta e entraremos pelo Portão do Dragão. — Disse em um tom definitivo. -Há anos um rei dragão não entra em Porto Real… Os outros três reis se enclausuraram na Fortaleza Vermelha, eu não pretendo ser assim. — Explicou, virando então o rosto para Rolly. -Lorde Jon dizia que o povo amava meu pai, quero que me amem também… Vou atravessar Porto Real e deixar que meu povo me veja. A cavalo, sem carruagens ou liteiras, para me separar deles…
–Pedirei para avisarem a Patrulha da Cidade para fiscalizar o caminho, e enviarei um mensageiro para os homens da Companhia Dourada que estão em volta da cidade. Para melhor garantir a segurança do rei. — Rolly falou, já se esticando para chamar o escudeiro.
–Segurança? — Aegon repetiu, abrindo um sorriso simples e simpático para o cavaleiro. -Reis nunca estão em segurança, sor Rolly… Especialmente em Porto Real.
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