Notas iniciais
eu sempre volto

Ele estava ansioso. Ultimamente aquele era um sentimento comum para o rei do Norte. “Rei do Norte”, aquilo soava muito estranho quando dito logo atrás de seu nome. Jon não conseguia não pensar em Robb a cada minuto de cada dia. Aquele lugar não era dele, aquele título não era dele… Pertencia a Robb, Bran, Rickon. Ainda assim, os lordes insistiram, pela pouca idade de seu caçula, e os selvagens que conseguiram abrigo a sul da Muralha não seguiriam um garoto que ainda não tinha aprendido a balançar uma espada. O novo meistre tinha oferecido uma solução para sua consciência, deixar as terras e títulos para seus irmãos como seus herdeiros. E ainda assim, aquele peso e constante lembrança da incompatibilidade das “posses” que agora tinha era o menor de suas preocupações. Como podia sequer planejar um futuro, uma continuidade para sua casa, seu “reino”? Lutavam por sobrevivência, contra um inverno que prometia devastar todos os campos, uma Patrulha da Noite enfraquecida, e inimigos ao sul que se multiplicavam.

Cada dia mais patrulhas se perdiam para além da Muralha, e mais selvagens desesperados tentavam escalar e implorar por asilo. Jon ainda sentia a dor fantasma em seu peito, da adaga que quase lhe acertou o coração, e algo lhe dizia que aquilo do que os selvagens fugiram seria pior do que o motim que enfrentou ao deixá-los entrar.

—Vossa graça, eles chegaram.

O intendente acordou o rei do Norte de seus devaneios para além da Muralha, voltando a atenção para o fecho do gibão preto com o lobo gigante da casa Stark em seu peito. O intendente ajudou a prender o broche prateado de lobo que segurava sua capa. O rei deixou seus aposentos em passos largos, ainda terminando de prender a espada em volta da cintura. Os cabelos de sua nuca se arrepiaram quando se sentou no cadeirão do Lorde de Winterfell, como sempre desde que pela primeira vez usara as coisas que um dia haviam sido de seu pai. Cavaleiros do Vale, bem como do Tridente começaram a encher seu grande salão, até por fim entram os mantos vermelhos com o leão dourado.

—O bastardo de Winterfell…

As palavras de Tyrion tinham o mesmo tom despreocupado, um pouco debochado, mas ausente de crueldade, de quando tinham se conhecido. A guarda pessoal de Jon, formada por alguns homens de armas de casas nobres do Norte não pareceu gostar do gracejo, mas o rei abriu um sorriso no canto de seus lábios.

—O anão de Casterly Rock…

—Veja como chegamos longe. — Tyrion prestou uma reverência educada diante de Jon, e este pode observar as cicatrizes que o Lannister tinha ganho desde a ultima vez que se viram. -Um dia vai ter que me contar como um bastardo do Norte virou rei.

—E na oportunidade você me dirá como um Lannister terminou no pequeno conselho de uma rainha Targaryen.

Jon podia sentir os homens a sua volta um pouco impacientes. Chegar no Norte com a maior parte da escolta formada por soldados Tully tinha sido uma boa estratégia para acalmar os animos dos nortenhos, mas não o suficiente para fazê-los esquecer a razão da viagem de Tyrion. Daenerys Targaryen, ou Aegon Targaryen, ou mesmo a garota dornesa que diziam também ser uma princesa, nenhum deles aceitaria que a maior parte do reino simplesmente se tornasse independente com um bastardo como herdeiro.

—Vossa graça, a rainha Daenerys da casa Targaryen, primeira de seu nome, gostaria de recebê-lo de volta como súdito fiel. Westeros provou de grandes períodos de paz e prosperidade quando havia um Targaryen no trono de ferro, e um Stark cuidando do Norte. — Jon percebeu que, apesar de falar olhando para ele, as palavras de Tyrion eram para os demais presentes. — A rainha compreende que a independência do Norte seria uma grande perda para os Sete Reinos, e garante que as razões que os levaram a se amotinar não existem mais. Os responsáveis pelas mortes de Eddard e Robb Stark receberam a justiça da rainha, e eu acredito que vocês mesmos conseguiram se livrar dos traidores no Norte. Não há nada que nos impeça de voltarmos a ser um único e próspero reino.

—Há o inverno, milorde, e o rei da noite.

Tormund respondeu quase como um grunhido, fazendo Tyrion encarar Jon com uma expressão confusa.

—Acha que sou um mentiroso? — Jon perguntou com seus olhos de inverno encarando o Lannister com intensidade.

—Não me lembro de conhecer muitas pessoas sinceras como vossa graça. — Tyrion lhe respondeu prontamente.

—Acha que posso ter perdido o juízo na Patrulha da Noite? — O rei do Norte voltou a perguntar, ainda encarando o outro sem piscar.

—Acho que todas essas pessoas, lordes, cavaleiros e selvagens não seguiriam um louco. — Tyrion devolveu.

—Então sente-se, lorde Tyrion, eu tenho muito a dizer a você e seus homens. Ouçam atentamente, quero que sua rainha receba cada uma de minhas palavras…

Notas finais
=B here we go