A volta dos dragões
12 A Princesa Dragão
Notas iniciais
A única iluminação que possuíam era uma tocha que um dos guardas entregara para Lyanna. A princesa podia sentir a respiração um pouco ofegante e quente de Sansa, cada vez mais perto, em sua nuca. A ruiva parecia mais ansiosa enquanto se aprofundavam mais nas masmorras, muito embora Lyanna estivesse perfeitamente calma.
–Chegamos. — Lyanna parou abruptamente, fazendo Sansa esbarrar levemente em seu corpo.
–Chegamos onde? — A ruiva questionou, a testa com a mesma ruga de dúvida que nascera em sua testa quando Lyanna começou a guiá-la pelo castelo.
A princesa não respondeu, em vez disso, lançou a Sansa um olhar enigmático, os lábios se contendo para não desenharem um sorriso. Lyanna encarou a prima por alguns momentos, para então se afastar alguns passos dela, acendendo outras tochas presas na parede com a que tinha em mãos. À medida que o lugar foi se iluminando, Sansa apertou os olhos um pouco, até que estivesse acostumada com a claridade. Uma silhueta começou a se formar no chão, um pouco mais além de onde elas estavam.
–Oh… — A ruiva tinha uma expressão de choque.
Retalhos do que um dia fora um lindo vestido carmesim, enfeitado com fios de ouro e estampas detalhadas e belas, cobriam o corpo daquela… Criatura. Os cabelos não tinham brilho algum, e estavam visivelmente cheios de nós, desgrenhados, até com algumas falhas, e de onde Lyanna podia observar, com alguns fios brancos que se disfarçavam entre os dourados. Cersei Lannister não era mais nem uma sombra da mulher que fora um dia. A beleza, que um dia fora comentada pelos Sete Reinos, parecia ter desaparecido, consumida pela loucura e pela idade da antiga rainha.
–Sabe por que eu a trouxe aqui? — Lyanna perguntou, voltando para o lado de Sansa e deixando a tocha de lado. Os olhos de dragão analisavam a prima com bastante atenção, gravando cada uma das reações que ela estava tendo, e que ainda teria durante aquele encontro.
–Não… — Sansa respondeu, a voz um pouco tremula, e sem conseguir afastar os olhos da figura de Cersei, cerca de vinte passos adiante.
–Você vai ter que ser uma loba, Sansa. Já está na hora de se lembrar de onde vem. — Explicou com bastante paciência. -Ela assustava você… Não estava errada em ter medo. Ela era rainha, tinha poder, e você foi um alvo fácil, mas esses tempos acabaram. É você quem está por cima agora…
–Trouxe-me aqui para me dar vingança? — A ruiva perguntou, virando o rosto na direção de Lyanna com uma expressão que variava entre confusa e receosa.
–Não… Por mais que ache que ela deve morrer, ainda precisamos de um julgamento. — Respondeu com bastante calma. -Trouxe-a aqui para que compreenda que “esse” medo não é mais necessário. Você vai precisar se livrar dele para poder seguir sua vida, então, essa é sua chance… — E olhou para Cersei, que não parecia ouvir as duas mulheres conversando naquele tom. -Todo o veneno que ela jogou em você, precisa por para fora.
–Eu… O que eu… Eu não entendo. — Sansa hesitou, olhava para Lyanna com uma expressão incerta, e a princesa podia perceber que evitava olhar novamente para Cersei.
–Para deixarmos um medo de lado, precisamos enfrentá-lo. — Lyanna explicou, colocando as duas mãos sobre os ombros de Sansa, e prendendo a atenção da ruiva ao seu olhar de dragão. -Estou dando essa chance para você. Você será senhora de Casterly Rock, esposa do senhor do Oeste. — Lyanna olhou de lado para Cersei quando ouviu o leve tilintar das correntes, mas logo voltou a olhar para Sansa. -Traições, armações… Isso nunca vai acabar, e você precisa estar preparada para ajuda-lo a defender sua casa, seu marido, os filhos que ainda pode ter. Não pode viver com medo, ainda mais de pessoas que não podem mais machucá-la…
–Mas…
–Sansa… — Lyanna não a deixou falar, erguendo as mãos e segurando delicamente o rosto dela. -Lady Catelyn foi uma mulher incrível… Poucos Lordes tiveram a sorte de ter uma esposa tão capaz, uma administradora tão preparada para questões domésticas de um castelo, uma mãe tão dedicada aos seus herdeiros… Ela criou você da melhor maneira que conseguiu, eu tenho certeza disso. — Lyanna abriu um leve sorriso, internamente se enchendo de compaixão pela ruiva, uma vez que ambas padeciam do mesmo infortúnio em relação a seus progenitores. -Mas ela criou você como uma truta… Uma orgulhosa truta, mas ainda assim, uma truta… Cuja vida se resume a ser fisgada e servida ao bel prazer de outros. — A mulher soltou o rosto da prima, assumindo uma postura um pouco mais severa. -Mas você tem o sangue dos Primeiros Homens correndo em suas veias. Sangue real dos reis do inverno. Sangue de lobo. — Ela ficou ao lado da ruiva mais uma vez, olhando agora para Cersei e fazendo Sansa imitá-la. -Ela enganou você para que você traísse seu pai, ela a humilhou na frente de toda Westeros… O filho dela torturou você, bateu em você, lhe fez ameaças, arrancou a cabeça do seu pai… Ela ajudou a matar sua mãe, Sansa… Seu irmão Robb, sua irmã Arya. Entregou sua casa, seu lar, as terras do seu pai, para o homem que os traiu… — Lyanna segurou Sansa pelos ombros, com mais delicadeza, mantendo-se atrás dela. -Você foi ensinada a vida inteira a ser uma truta… Mas agora você sabe que tem garras. Vai assumir seu lugar como uma loba, ou vai continuar a ser “servida” aos outros?
Lyanna não precisava estar na cabeça de Sansa para saber o que estava acontecendo lá. A respiração da ruiva pareceu um pouco mais pesada, e a princesa pode percebê-la fechar os olhos por um momento. Ouvira muito a respeito de Sansa, enquanto estava em Dorne. Lorde Varys a mantinha bem informada, e a cada novo “tropeço” que a Stark cometia, Lyanna ponderava se tirá-la do caminho não facilitaria seus planos. Mas Sansa era a chave para o Norte, se não encontrassem Rickon Stark, e quando conhecera a prima pessoalmente, mesmo observando-a apenas de longe, pode ver que se tratava apenas de uma garotinha que não tinha sido preparada para aquele jogo como Lyanna fora. Longe de ser motivada por qualquer sentimentalismo barato, por um parentesco que se expressava tão pouco entre elas duas, não podia esquecer de que ela era sua prima, a única ponte que tinha com a família da mãe, e mesmo que não admitisse, Lyanna Targaryen pensava em Lyanna Stark com mais frequência a cada dia. Durante anos encontrara muitas pessoas e muito a ser dito sobre seu pai, mas quase nada sobre a mãe… Se já decidira que Sansa não seria um dos efeitos colaterais daquele plano, poderia ao menos tentar fazer dela uma aliada útil. Primeiro passo, deixá-la mais forte.
A resposta para a pergunta chegou alguns minutos depois. Sansa afastou-se do toque de Lyanna quando começou a caminhar em passos firmes na direção da prisioneira, ao que a princesa a seguiu de perto, prontamente, alcançando a tocha com uma das mãos e terminando de acender as outras ali perto, até que o lugar em que Cersei fora jogada estivesse totalmente iluminado. Ela não estava em uma cela… Aquele era um lugar diferente, um espaço vazio, frio, escuro, jogada ao chão em cima de uma esteira repleta de pulgas, e com os pulsos acorrentados ao chão, assim como os tornozelos, de forma que ela conseguia ficar de pé, porém sem dar nenhum passo.
A Lannister ergueu os olhos para as duas mulheres assim que ouviu a aproximação e a iluminação foi se tornando mais forte em volta dela. Seu olhar foi primeiro para Sansa, os olhos verdes com um brilho de dúvida e desprezo. Tão logo Lyanna largou a tocha e voltou para o lado da prima, Cersei dirigiu sua atenção para ela. Aparentemente, a leoa não ia dispensar mais do que um rápido olhar para a acompanhante de Sansa Stark, mas tão logo visualizou sua figura, o rosto da mulher se distorceu em uma expressão de choque, surpresa, e Lyanna podia até mesmo jurar ter visto, medo.
–Quem é você? — A loira foi a primeira a falar, a voz rouca fazendo a princesa se perguntar qual a ultima vez que haviam mandado água ou comida para ela. O bem estar de Cersei e Jaime Lannister, ainda que fossem prisioneiros bem nascidos, não era algo que estivesse preocupando qualquer um naquele castelo, no momento.
–Quem acha que eu sou? — Lyanna perguntou depois de algum tempo de silêncio, enquanto Sansa, ao seu lado, parecia ainda intimidada pela presença de Cersei.
A loira começou a colocar-se de pé, deixando clara a dificuldade que aquelas correntes lhe infligiam. Com Cersei erguida, Lyanna pode constatar, assim como Sansa de certo o faria, o quão suja, desgrenhada e machucada, a ex rainha se encontrava. Definitivamente não era uma figura que assustasse ninguém, a não ser uma criança ainda de peito.
–Isso é algum tipo de brincadeira? — Cersei olhou para as duas mulheres com o nariz ligeiramente empinado. Mesmo naquela situação, ela ainda não perdera completamente a pose.
–Eu sou a irmã de Aegon, da casa Targaryen, sexto de seu nome. Senhor dos Ândalos, Roinares, e dos Primeiros Homens. O renascido. — A princesa falou, olhando de lado para Sansa, que continuava silenciosa. -Você não deve conhecê-lo, é claro… Mas estou certa de que conheceu minha mãe, Lady Lyanna Stark. — A princesa teve que admitir, ao menos para si mesma, que ver a expressão de espanto surgir no rosto de Cersei a divertiu como poucas coisas.
–Você está mentindo! Aegon morreu no saque de Porto Real… — A loira rebateu depois de algum tempo. -Podem me manter aqui o tempo que quiserem, em breve meus vassalos vão me libertar, e vocês vão se arrepender.
–Seus vassalos? — Lyanna debochou com um risinho. -Você não tem vassalos, Cersei Lannister.
–Eu sou a senhora de Casterly Rock!! — A mulher se exaltou, puxando as correntes que prendiam seus pulsos e olhando ameaçadora para Lyanna.
–EU sou a senhora de Casterly Rock! — Sansa enfim se manifestou ao lado de Lyanna, fazendo a princesa abrir um sorriso sincero para ela e então erguer uma das sobrancelhas para Cersei, voltando a olhá-la com deboche. -Você é uma louca, prisioneira do rei Aegon, e muito em breve será apenas uma cabeça enfeitando os muros do castelo.
–Ora, parece que a cadelinha enfim está mostrando as presas... — Cersei debochou, abrindo um sorriso doentio, enquanto os olhos verdes miravam Sansa e Lyanna. -O Oeste nunca vai aceitar meu irmão parricida! Eles amavam Lorde Tywin…
–Eles temiam Lorde Tywin… — Lyanna a corrigiu, os braços ainda cruzados, e o olhar de desprezo sobre a loira.
Tinha ouvido a história de Cersei Lannister pelo menos umas cem vezes. A começar pela tentativa frustrada de se casar com Rhaegar, e depois a união miserável que fez com Robert Baratheon. Aprendera a odiar os Lannister com Oberyn, mais ainda quando ele lhe lembrava, constantemente, que os leões estavam massacrando a outra parte de sua família, os Starks. Mas naquele momento, olhando o estado de decadência e loucura da loira, Lyanna a achava apenas um ser digno de pena, não valia o esforço de odiá-la.
–Você me torturou… Deixou o monstro do seu filho fazer o que queria comigo… Como alguém pode ser tão terrível? — Sansa olhava para Cersei com nojo, as mãos fechadas, apertando com força o tecido da manga do vestido.
–Ora, não me venha com suas choradeiras! — A loira revirou os olhos, os cabelos loiros muito sujos, quebradiços. -Você estava louca para entrar para a família real… Ao menos tenha decência de assumir sua parte da culpa! — Cersei gargalhou, e por instinto, Lyanna deu um passo a frente, colocando-se um palmo a frente da prima. -Atirou-se a Joffrey assim que teve a chance, como uma vadiazinha louca para ser rainha… Eu nem precisei me esforçar para você trair o seu pai… Pelos Sete, existe alguém tão estúpido quanto você? — A Lannister debochou, e começou a rir novamente, pintando o perfeito quadro de uma prisioneira louca.
Sansa pareceu congelar ao lado de Lyanna. A princesa pode sentir a Stark ficar trêmula, e embora ela tentasse balbuciar algo, as palavras pareciam tê-la abandonado. Os olhos de dragão se viraram com um brilho de preocupação, na direção de Sansa, a tempo de ver o rosto da nortenha ser tomado por lágrimas, a cabeça baixar em uma expressão de tristeza. Lyanna foi pega de surpresa por um aperto no peito, talvez Sansa não estivesse de fato pronta para aquilo.
–Ele sufocou, Cersei? — Lyanna aproximou-se da ex rainha, as mãos unidas nas costas e olhando para a prisioneira com uma calma peculiar. -Joffrey, quero dizer… Eu adoraria estar lá para assistir. Pedi tanto a Oberyn para me deixar vir, mas ele teve medo de que alguém pudesse me achar familiar… — E abriu um sorriso para Cersei, tão inocente, que chegava a assustar a capacidade que ela tinha de moldar a expressão que desejava em sua face.
–Não ouse falar do meu filho… — Cersei começou a dizer, olhando para Lyanna como uma leoa, os olhos verdes se estreitando.
–Oh, desculpe… — E num piscar de olhos, Lyanna agarrou a loira pelo queixo, apertando-o com força, até sentir as unhas machucando a pele da Lannister. -O que você vai fazer? — Perguntou, agora pressionando-a contra a parede, apertando a cabeça dela contra a pedra fria. Cersei, mal alimentada e jogada para dormir ali acorrentada, não tinha qualquer força para se defender ou revidar. -Seu filho era um monstro… Vê-lo sufocar até morrer deve ter sido o ponto alto da vida de muitas pessoas naquele casamento. — A loira tentava empurrar Lyanna, mas as correntes estavam pesando.
Cersei caiu sentada sobre a esteira na qual dormia, quando Lyanna a soltou e então se afastou, dando as costas para ela e olhando firme para Sansa, que erguera o olhar assim que percebeu a prima avançar contra a Lannister. Os olhos de dragão de Lyanna eram bastante incisivos, intensos, mas agora, em vez de tentarem intimidar Sansa, tentavam encorajá-la.
–Ap… — Cersei tossiu, agarrando-se nas próprias correntes e usando-as como apoio para colocar-se de pé. -Aproveite seu momento ao sol… Pombinha! — Falou com a voz grave, rouca, olhando de Lyanna para Sansa. -Como vai o casamento com o monstrinho do meu irmão? — E com aquela pergunta, ela gargalhou.
–Você é o monstro! — A jovem Senhora do Oeste respondeu. Lyanna olhou de lado para a prima quando esta pareceu se encher de coragem novamente. -Você é a mulher mais desprezível que já existiu! E ela está certa! Ver Joffrey sufocar até morrer, chorando feito uma garotinha, foi uma das coisas mais prazerosas da minha vida! — Sansa ainda tinha o rosto úmido pelas lágrimas, e os olhos ligeiramente avermelhados, mas começava a avançar em Cersei com uma postura ameaçadora. Lyanna quase conseguia ver toda a raiva da ruiva transbordar para fora e se direcionar para a loira à sua frente. -Quase tanto quanto será apagar totalmente a sua existência desse mundo!!
–Haha! Você está começando a delirar, pombinha! Quem está pensando que é? — Cersei debochou, rindo para Sansa e tentando manter a pose, ainda apoiada nas correntes.
–Eu sou a Senhora de Casterly Rock! Meus filhos serão senhores do Oeste! — Ela falou, agora com mais segurança. A ruiva fez Lyanna abrir um sorriso, que foi se alargando a medida que a via assumir uma postura mais confiante, o peito estufado e o nariz levemente empinado, combinados com o olhar de desprezo e superioridade que ela lançava para Cersei. -Em breve estarei indo embora para meu novo castelo… Deve levar algumas semanas para chegar, já que os vassalos do senhor meu marido desejam recebê-lo com esplêndidos banquetes em seu caminho de volta!
–Devan não permitirá que tomem Casterly Rock!! Ele é o protetor...
–Você é surda?!! — Sansa a interrompeu, agora aparentando ser uma pessoa totalmente diferente da menina assustada de instantes atrás. -Tyrion já é senhor de Casterly Rock! Ele tomou o castelo liderando dois mil homens! — Sansa falou, soltando uma risada forçada de desdém. -Seu primo Devan já se rendeu, Cersei! Você não tem aliados! — A ruiva aproximou-se mais um passo. -A primeira coisa que farei quando chegar a Casterly Rock, e isso eu lhe prometo, será apagar qualquer sinal da sua existência! Eu vou me livrar de tudo que pertenceu a você! Qualquer tecido, lençol, colchão que tenha seu perfume, ou que tenha sido contaminado pelo seu toque, será doado para as prostitutas de Lannisporto, e espero que elas não se incomodem por receber algo que pertenceu a alguém tão asqueroso… — As lágrimas estavam secando, e o único brilho que havia no olhar de Sansa agora era de desprezo e ódio. -Depois disso, qualquer servo, soldado, comerciante que seja, que ousar pronunciar seu nome, será mandado embora, e os que tentarem defendê-la irão apodrecer em uma masmorra, parecida com essa em que você está! Até mesmo Tommen e Myrcella, pobrezinhos… Tão jovens e já órfãos.
–NÃO OUSE SE APROXIMAR DOS MEUS FILHOS!! — Cersei avançou em Sansa, mas foi parada pelas correntes. Era a visão, de fato, de alguém descontrolado, os olhos arregalados e a expressão ameaçadora.
–Ah, não se preocupe, eu tenho experiência em ser órfã tão cedo, ou será que você já se esqueceu? — Sansa desenhou um sorriso sem vontade nos lábios, um sorriso com um ar de malícia, um sorriso que fez até Cersei se retrair um pouco. -Não farei nada contra eles, eles não tem culpa de terem uma mãe como você… Mas… E essa é outra promessa que eu vou fazer a você… Quando Tommen tiver idade para ser ungido cavaleiro, e Myrcella tiver seu primeiro príncipe dornês, eles terão tanta vergonha de descenderem de você, que vão deixar que o mundo inteiro esqueça de quem eram filhos. Eu vou fazê-los ver o monstro que você é, e eles vão desprezá-la para sempre. Não que faça muita diferença, em breve você não vai ter mais cabeça!
E então Cersei perdeu completamente o bom senso. Começou a debater-se com suas correntes, puxando os pulsos com força, embora fosse inútil, e em seguida parando para olhar para Sansa. Mais se assemelhava a uma fera acorrentada, rangendo os dentes e babando em uma tentativa vã de se libertar. Sansa olhou para Lyanna, e quando voltou a encarar a loira, acabou levando uma cuspida que fez a princesa e a ruiva darem um passo para trás. A Targaryen ia voltar-se para Cersei e segurá-la pelo pescoço, mas Sansa fora mais rápida, virando uma bofetada bem dada na face da loira, obrigando-a a virar o rosto de lado.
–Quem você… — Cersei não terminou de falar, porque Sansa virou outro tapa, agora com tanta força que Lyanna pode ouvir o som ecoar, e uma marca vermelha se desenhar no rosto de Cersei com o contorno perfeito da mão de Sansa.
–Você nunca mais vai me humilhar, sua louca! Você não é mais rainha! Não é mais uma Lady! Você... Não é mais nada!! — Sansa trovejou, aproximando-se um passo de Cersei e lhe dando outro tapa, esse parecendo ainda mais forte, e dessa vez fazendo a ex rainha cair no chão com o peso do tapa e das correntes.
A ruiva afastou-se massageando a própria mão e em seguida olhando os dedos com certa atenção. Cersei estava encolhida com a mão a lhe cobrir o rosto, mas quando ela finalmente voltou a olhar para as duas mulheres, Lyanna pode ver que as unhas de Sansa haviam deixado uma marca perfeita no rosto da loira, três arranhões quase do mesmo tamanho, no meio de um perfeito desenho de mão.
–Acho que já podemos ir. — Lyanna falou para a prima, abaixando-se para pegar a tocha e lançando um rápido olhar na ruiva. -Não vamos querer perder a execução do regicida. — Acrescentou enquanto desenhava um sorriso em seu rosto.
Ouvir aquilo, como Lyanna previra, tirou o controle de Cersei mais uma vez. Sansa lançou para Lyanna um olhar confuso que a princesa não permitiu que Cersei visse, passando uma das mãos pelas costas da prima e começando a guiá-la para fazerem o caminho de volta.
–Esperem! ESPEREM!! — Cersei gritou, havia se colocado novamente em pé. -Não!! NÃO!! Me deixem ver o Jaime!!! Por favor!!! ME DEIXEM VÊ-LO!!! NÃO!! ESPEREM!! QUERO VER MEU IRMÃO, ANTES… NÃO!! NÃO FAÇAM ISSO!!! NÃO PODEM FAZER ISSO!! VOCÊS VÃO ME PAGAR!!! JAIMEEE!!!
A medida que elas se afastavam, fazendo o caminho de volta pelos muitos níveis das masmorras da Fortaleza Vermelha, os gritos de Cersei foram ficando mais baixos, até finalmente desaparecerem. Quando parecia que já estavam longe o bastante, Sansa, que aceitara o braço da prima, e caminhara agarrada a ele até ali, virou-se para a mulher com uma expressão um tanto surpresa.
–Jaime Lannister foi condenado? — Ela quis saber, um tom em sua voz que Lyanna só pode identificar como preocupação, muito embora não parecesse ser preocupação com Jaime.
–Não… O julgamento será nos próximos dias, estavam esperando a chegada do meu irmão. A não ser que ele pretenda esperar por Daenerys. — Lyanna respondeu dando de ombros. Não estava a par de todos os planos do rei. -Mas Jaime é um dos pontos fracos dela. Não pode negar que gostou de cutucá-la.
–Bom… — Sansa baixou a cabeça, e Lyanna pode perceber a força que ela fazia para não abrir um sorriso, mesmo que o mesmo estivesse brincando em seus lábios.
–Eu sei, eu sei… Torturar pessoas é errado… Mexer com a cabeça delas dessa forma não é honrado… Blá, blá, blá… — Lyanna revirou os olhos, e então olhou para Sansa com seriedade. -De que adianta passar por tudo que passou, conseguir mais poder do que seus inimigos, se não vai, ao menos, confrontá-los pelo que fizeram a você? — Perguntou com uma das sobrancelhas erguidas. -Você finalmente colocou sua raiva para fora. Isso é bom. Se continuasse a contê-la dentro de si, ia acabar se envenenando. Enfrentou um dos seus medos, Lady Sansa, agora precisa vencer os outros.
–Eu sei, é só… — A ruiva parecia um pouco relutante. -Minha mãe… O senhor meu pai, eles… Eles não iriam gostar de me ver agindo assim. — Explicou virando o rosto para Lyanna com um olhar um tanto culpado.
–Não precisa agir como acha que seus pais queriam, Sansa. Você passou por muita coisa, mas sobreviveu. Tenho certeza de que Lorde Eddard e Lady Catelyn estariam orgulhosos de como você conseguiu se virar em todas essas situações. — Lyanna insistiu, e instintivamente apertou a mão de Sansa que segurava a sua. -E agora você está aqui, e está lutando para que os culpados pela morte deles paguem. Não precisa se sentir culpada por apreciar o sofrimento daqueles que destruíram a vida que você conhecia. Isso não faz de você uma má pessoa. Acredite em mim…
–Você também sente isso? — A pergunta da ruiva pegou Lyanna de surpresa.
–Isso o que? — A princesa perguntou, olhando-a com uma expressão confusa, para ganhar tempo para pensar se deveria ou não falar algo a respeito.
–Também há alguém que você apreciaria ver sofrer? — Sansa explicou-se melhor.
–Sim… — Lyanna respondeu, agora com um sorriso quase inexistente, enigmático, desenhando-se em seu rosto. -Mas esse alguém ainda não começou a sofrer.
–O que lhe fizeram? — Ela perguntou imediatamente, os olhos claros bastante intensos enquanto aguardava a resposta.
–A mim, nada… — Lyanna respondeu, sem aparentar qualquer constrangimento em confessar aquilo. -Pelo menos não diretamente. Mas nesse caso, sou eu ou eles... — Lyanna completou dando de ombros, e então abriu um sorriso conformado. -...e não pretendo que seja eu.
Fale com o autor