A vida que a morte traz
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Após a primeira carta aparecer, o novo motivo que impulsionava o rapaz a visitar o túmulo da avó o fazia sentir como se estivesse traindo sua memória. Claro, ainda cuidava dos vasinhos de flores — vivas como Dona Virgínia gostaria, — às vezes trocando por alguma nova plantinha decorativa. Porém, uma chama tinha despertado em seu interior, dando-lhe alguma força e vontade para passar os dias. Dedicava-se mais na escola e conversava mais com o pai, torcendo para quando fizesse sua visita diária encontrar a continuação da história que vinha acompanhando e os devaneios que a entremeavam.
No entanto mesmo isso era um conflito para Arthur: não só estava relacionando o lugar de descanso da avó à expectativa de saciar sua curiosidade, como invadia a privacidade da solitária e estranha pessoa que se pusera a falar com os mortos. De uma forma ou de outra, continuava a fazê-lo. Como alguém que começa a ler um diário sem se dar conta da sua natureza, quando entendeu o que estava fazendo já era tarde demais para parar.
Lia e relia as folhas pautadas em azul, que guardava bem dobradas na carteira, em uma vã busca de esclarecer as dúvidas que rondavam sua cabeça. Entre o luto e as divagações que ele compreendia bem, a última carta deixara-o num frenesi por descobrir mais a respeito. Mas o que poderia fazer? Apenas lia, relia e de novo, fantasiando todas as possíveis causas da morte de Mirela, que descobriu ser o nome que não fora capaz de decifrar e Aninha.
“Cara Virgínia”, dizia, “a senhora morreu com 78 anos. É uma informação óbvia, inclusive está belissimamente escrita em dourado no seu túmulo, mas só a digo pra não começar de cara a falar de mim e de tudo que venho pensando.
Mirela tinha 24 anos recém completos, acho que a Aninha era um pouco mais nova. Seu aniversário foi maravilhoso, acho que nem tinha como não ser, com Mila tão linda e solta: os cabelos cacheados iguaizinhos aos meus quase vivos (como ela costumava ser) e ela sorrindo como raramente se atrevia a fazer. Borbulhante de alegria (talvez pela perspectiva de beber a cachaça que a namorada lhe deu mais tarde, junto a ela), lembro que a mãe comentou comigo. É difícil de acreditar que tudo isso se perdeu tão rápido.
Borbulhante demais, talvez tenha sido isso. Transbordou, chamando o olhar de todos, até que alguém decidisse que não ela merecia ter toda aquela alegria. Se elas não tivessem saído com os amigos depois, estaria tudo bem. Eu podia ter pedido que ela ficasse esperando mais um pouco pra comer a sobremesa que não tínhamos conseguido deixar pronta a tempo e, então, tudo continuaria doce, e a frágil bolha que era a sua vida não teria se perdido. Não pedi, queria que se divertissem, então nada mais está bem.
Já não sei se ainda existo por completo. Você sabe?
T.L”
Chorou, da primeira vez que a leu. Não compreendia realmente a maior parte daquilo, pois como o remetente disse, Virgínia tinha 78 e estava longe do seu melhor estado. Todos no fundo sabiam que uma hora iria morrer, o máximo que algum acaso poderia ter feito seria estender seu suplício por dois ou três anos. Mirela, ao contrário, tinha toda a vida. Porém o que o fazia se sentir próximo de T, seja lá quem T fosse, era a última afirmação: ele também não sabia.
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