Notas iniciais
Vai pra frente sim!

— Affy, tente melhorar a segunda parte, que tal? Dedilhe suave e depois faça essa posição dos dedos. – Alek me mostrou como fazia e eu juro que tentei imitar, mas parecia que meus dedos duros nunca fariam o mesmo. — Não, assim não. – Ele bufou com ar de “você não aprende nunca” e resolveu sentar do meu lado. Segurou minha mão e prensou meus dedos contra as cordas com certa força para que ficassem logo depois que ele os soltasse. — Vão ficar? – Perguntou, e um “não” convincente seguiu de mim, fazendo perder sua esperança em minha pessoa aos poucos. Rimos bastante, ele ficou bravo e me deixou sozinha na mesa. Matt me achou e riu da minha cara de gato abandonado.

— Nem Celine faz uma expressão como essa, garota – Celine era o nome da minha gata; por dentro meu ser achou aquela piada muito sem graça, mas por fora eu sorri, mostrando certo descontentamento. — Desculpe.

— Ê, CHEGUEI! – Anunciou o baterista, se agarrando no pescoço do vocalista. Meu sorriso aumentou, as coisas sempre ficavam animadas quando Chad aparecia. — O que ‘tá rolando entre o casal do ano? Estão discutindo quem vai tirar a próxima menor nota do bimestre e não concluir o ano?

Eu olhei semicerrado para Matt que sorriu de volta para mim. Havia algo naquele sorriso. — Claro, respondeu, estávamos em dúvida entre você e Alek.

Ele fechou o punho, dando um “cascudo” em Matt, que fechou os olhos enquanto sorria de desconforto.

— Por que vocês não incluem o Nishi nessa parada?

— Porque eu, ao contrário de vocês, estudo.

Do nada, aquele japonês com cabelo desarrumado chegou puxando o nosso outro guitarrista – aquele que havia desistido mais cedo. Ele se surpreendeu ao ver que eu ainda segurava a guitarra do jeitinho que me ensinara antes. Não deu muita bola, apesar, uma vez que estava sendo puxado pelo baixista.

— Esse aqui estava voltando para a aula, mas parece que se perdeu e foi parar na quadra.

Seu rosto corou de tal forma que Nishimura não segurou uma risada alta.

— Ué. Não ‘tá tendo ensaio das líderes de torcida agora? Virou uma Blackcheers, Alek? – Eu retruquei. Blackcheers era como as garotas que participavam da torcida eram chamadas. Garotas atraentes, geralmente todas loiras e de seios fartos. Mas eram como sereias: sua beleza encantava até a hora de dar o bote. Medonhas.

— Deixem o garoto, ‘tá na fase da puberdade. – Protestou Chad, dando pouca bola para o que havia acabado de falar. — Aliás, falando delas, viram aquela Alice, a aluna transferida? Meu Deus, que garota mais...

Faltava-lhe até palavras para nomear a menina. Todas elas eram extravagantemente lindas e nós sabíamos disso, mas provavelmente todas acabariam como dois filhos nos braços de um namorado da semana passada, ou garotas ricas com uma casa grande pra caramba, sorrindo para paparazzi e dizendo o quão felizes estavam (por favor) por ajudar crianças com câncer. Mas tudo isso não pelo fato delas serem loiras e bonitas – minha análise não passava de algo externo, inveja feminina –, mas sim por sua personalidade vazia e comportamento fútil. A maioria dos alunos ali pagavam seus cursos (e aulas extras), ou seja, eram ricos o bastante para isso, assim como nosso futuro advogado. Já eu e Nishi entramos com bolsa de prova (e, graças aos nossos estudos acirrados, 100%) e não tínhamos problema nenhum com isso. Entretanto, como o dinheiro faz a cabeça das pessoas, as Blackcheers faziam questão de esfregar sua riqueza na cara de todos, mesmo que fossem ignoradas 50% do tempo. Só mesmo sua beleza chamava a atenção.

Ao contrário do colegial, não tocava sinal no horário das aulas ou algo parecido. Cada um tinha um calendário completo com aulas e suas durações. Cada um era responsável por suas próprias notas e comparecer ou não era uma opção própria.

Em pouco tempo, percebi que Alek ainda parecia babar junto de Chad. Matt havia tirado uma folha da bolsa para anotar as coisas aleatórias. Nishi tirara um 3D do bolso e provavelmente jogava Pokémon ou Bravely Default. Eu me via perdida entre um grupo de garotos, segurando uma guitarra.

— Os novatos já vão chegar. Parem de falar de garotas ou... Desviar a atenção. Os ajudem com as matérias caso precisem. Vou vazar. Deu minha hora.

Joguei minha bolsa nas costas (em um dos ombros) e a guitarra encapada (e outro) por igual, sem dar rodeios de “tchau” individuais. No caminho, encontrei com uns dois calouros – Aileen e Thomas – e cumprimentei-os com a mesma animação. Como sempre, perguntaram “onde vocês estão?” e eu respondi “na mesma dos secundários”. Iam sempre direto para lá. Minha aula começara 09:52, terminara 14hrs. O horário de saída era 19hrs.

Dias como aquele, em que ficávamos todos juntos não era raro. Aliás, depois de um tempo sentíamos que caso faltasse um, estaríamos incompletos para sempre. Claro que levávamos (e acho que ainda levam) o fator “maturidade exagerada” a sério, então nunca dizíamos “fulano me faz falta”, mas no meio das conversas sempre existiam vãos nos quais cada um deles completavam automaticamente. Na falta de tal, o vão se mantinha vazio e o assunto mudava ou acabava. Esse era o nosso tipo de amizade. E ficaríamos naquela por até quatro anos, que era o tempo de curso de todos nós.

Detetive. Uma profissão não tão cobiçada assim, mas me parecia deveras interessante. Como oficial da lei, eu passaria por aulas iguais às de Chad, nosso advogado. Eram diversos professores e tenho de admitir não decorar o nome de nenhum. Sempre que tínhamos de apresentar alguma coisa, os outros membros do grupo (que eu montei) se dedicavam em fazer a parte estética completa enquanto eu tomava conta de ir lá à frente e explicar tudo. Mas se não me engano, o nome dessa professora em comum era Kat. Ela era responsável por regras, leis, códigos penais, essas coisas todas. Até que as aulas eram legais, mas em tempos de trabalho...

13:40. Eu senti um empurrão. Ou vários.

— Affy, acorde. Affy. Affy! Tá dando a hora! – E em pouco tempo, desistia. — Eu vou deixar ela aí. Que sono de pedra.

As duas afirmações eram sérias. A garota era Radja, minha melhor amiga. No final das minhas aulas, ela aparecia na minha sala e ficava lá sentada apoiando os pés numa mesa. Rad era o tipo de garota normal-mas-superpopular que qualquer um conhecia e gostava. Então era óbvio que sempre que ela aparecia em qualquer lugar conversas animadas começavam e só paravam quando a professora nos mandava calar a boca ou até que fôssemos embora. Eu gostava dela por ser tão igual e diferente de minha pessoa em vários aspectos. Eu gostava de sua coragem, de sua ousadia e de seu modo duro de viver. Éramos diferentes nisso por eu ser uma banana. Rad era uma garota forte no geral. Eu sabia dos problemas da família que ela carregava nas costas. Apesar de não gostar de desabafar, eu sempre dava um jeito de puxar dela seu íntimo, e em algumas vezes ela até chegou a chorar. Todo final de semana era nosso. Víamo-nos, curtíamos juntas, conversávamos e aproveitávamos para colocar esses assuntos para fora. Comparada a ela, os problemas que eu carregava pareciam fichinha. Não podiam ser chamados mesmo de “problemas”.

No quesito de sermos iguais, era bem fácil de saber: nossos gostos e personalidades distintas (o que nos fazia iguais, ironicamente). Eu também fiquei conhecida como a legal por ter uma banda e sempre tentava ser a mais simpática com todo mundo. No meio de “amizades por fama”, eu acabei por conhecê-la. Isso mesmo. Mas ao contrário de querer ser minha amiga, Rad queria meter a porrada na minha cara. Eu supostamente tinha roubado seu título de ser popular e legal ao mesmo tempo, mas não tinha sido isso que a aborrecera. Espalharam uns boatos de que eu estava me achando a maioral e que ela era uma Zé-Ninguém problemática que só queria saber de encher a cara e bater nas pessoas para drenar a raiva. Esse ponto foi fácil de confirmar, mas entenda: naquela época (um ano depois de eu ter entrado na faculdade; hoje contando três anos de amizade) eu mal sabia quem ela era. Para falar a verdade, dois anos depois de ter entrado, eu ainda não tinha decorado o caminho para o banheiro.

Dia desses, em que a minha locomoção (aka van particular) atrasou, ela apareceu e aproveitou para vir tirar satisfações comigo. Eu estava em pé na frente do portão quando ela apareceu. Incrivelmente, todos da banda já tinham partido.

— Ou, você.

Eu tive que parar de bocejar para olhá-la.

— Affy, não é?

Eu confirmei com a cabeça.

— A metidinha da nova banda local. Prazer, Affy. Zé-Ninguém – ou melhor, Radja, mas você já deve me conhecer. – Ironicamente, fez uma reverência. Depois, me olhou dos pés à cabeça, fez uma cara de nojo e cuspiu no chão. — Você é um saco de ossos. Nem vai dar graça te bater.

Sem entender muito, eu virei todo o meu corpo para ela e dei um passo para trás. Eu não conseguia entender como ela chamava que alguém como EU espalharia boatos de alguém como ELA – no maior respeito, uma brigona sem rumo. — Tem alguma coisa errada?

Radja riu de deboche.

— Otária eu até já vi, mas esquecida pra mim é um novo tipo. – Ela estralou os dedos e pendeu a cabeça de um lado. — Eu queria esclarecer isso da melhor maneira, mas pode ser do seu jeito.

O modo no qual ela começou a andar para perto me assustou de tal forma que meu coração disparou e eu comecei a suar automaticamente. — Ei, você está me confundindo!

— Ah, você não sabe do que eu ‘tô falando? – E deu uma paradinha.

— Não faço ideia!, eu gritei. A resposta foi breve.

— Quem sabe assim você se lembra.

Eu estava perdida. Numa rua deserta, já escura e a mercê de um problema vivo. Coloquei os braços na frente do rosto e um pé para trás a fim de manter o equilíbrio do corpo, mas com a minha força de recém-nascido isso nunca iria funcionar. Rad puxou meus braços num só movimento, deixando meu rosto desprotegido e me deu um soco no meio da cara. Notem que eu nunca fui literalmente socada na vida, nem antes disso e (GRAÇAS) nunca depois. Então, naquela minha única vez, eu posso afirmar que foi a mais doída e que ninguém nunca teria mais força do que ela.

— Isso, é pelos boatos.

Naquela hora, a certeza bateu. Não havia sobrado nenhum dente na minha boca e nenhuma dignidade sobrando no bolso. Eu cambaleei sem pestanejar e dei um gemido baixo. Ela me esperou “voltar”, ainda sem rumo, para me dar outro presente. Andou até mim, segurou minha cabeça e bam! Se Rad tivesse me beijado, teria sido melhor, muito melhor. Porém, o que ela me dera fora uma cabeçada com gosto, que me obrigou a cair no chão.

— E isso é por tocar Fall Out Boy. O gosto de vocês sobre música é nojento.

Mesmo ali, caída, cuspindo sangue e querendo desmaiar, eu tive que concordar com ela. Entretanto, eu tinha sido a única que votara contra tocar aquilo. A maioria vence e eu não era a maioria.

Como num toque de mágica, a van chegou e uma garota que morava no mesmo condomínio que eu me levou para dentro. Foi fácil enxergar Radja se apoiar na mesma parece no qual eu estava antes e passar os dedos na testa. Depois de virarmos amigas, ela confessou de nunca ter batido em alguém tão “testa dura” como eu antes.

Isso, claro, só foi possível com a ajuda dos rapazes da banda. Contaram-me que ela foi empurrada dentro quatro paredes e Chad quase saiu nos socos com ela para fazê-la acreditar. Durante uma semana, a minha ausência se fez presente (ué) e tenho certeza de que a vida deles perdeu o sentido durante as conversas; mas só enquanto eu cuidava dos dentes que me faltavam e das tonturas constantes (para ser sincera, um dente ficou mesmo quebrado). Depois desse dia, eu nunca mais andei sozinha por aí caso tivesse a chance de ter a companhia de alguém. Na mesma época, um cara invadiu o condomínio e Alek quase socara um bêbado na minha presença em uma festa. Eu sou contra qualquer tipo de violência e nunca presenciara tantas em tão pouco tempo.

Antes de morrer, eu percebi que algo estava errado e fui consultar um médico, que me encaminhou para um psicólogo, e quase fui encaminhada pra um psiquiatra.

Eu havia desenvolvido síndrome do pânico.

Ter ataques de ansiedade não era lá aquela coisa mais confortável, mas nem tive tempo para curar também. O incômodo fora algo passageiro, assim como minha existência.

Rad tocava violino e costumava praticar Box. Vez ou outra eu era convidada para ir à casa dela e eu sempre rezava para que fosse para ouvi-la tocar e não ser seu saco de pancadas.

Eu a definia como uma “bomba-relógio”.

De começo, eu achava que aparências a moviam. Aquela carinha de simpática brigona se desfez depois que a conheci de verdade. A história dela daria um belo drama. Seu pai frequentava a alcoólicos anônimos e pelo visto tinha uns contatos com alguns traficantes – uns bons (os que eu conheci e arrumavam uns shows) e uns ruins (os que eu nem pensava em conhecer). A parte de baixo da casa dela (um porão gigante, ou um esconderijo de bombas da segunda guerra mundial) servia como local de treino de Box. Um saco preso no teto, um frigobar repleto de água, luvas de todos os jeitos guardadas num armário de madeira bem polida. Em um cantinho escondido da sala, eu percebi uma gravura que dizia “Fight Club!” e tive um acesso de riso. Levei um cascudo por isso, mas valeu a pena. Até aí tudo bem. O quarto dela foi o que mais me intrigou...

Era normal. Um quarto normal.

Ficava no segundo andar da casa, ao lado de um banheiro, um quarto de visitas e o quarto do irmão dela. Tudo num corredor enorme. Seu irmão se chamava Yan, e era um hacker de segunda que deixava muita gente no chinelo. Costumávamos falar que qualquer dia desses, ele seria chefe de Nishi, e isso o deixava puto. Com onze anos, dera baixa no sistema da Sony. Fiquei sabendo que agora, com quatorze, conseguiu dar baixa no sistema do governo. Isso encantou (e preocupou) tanto os caras que o FBI enviou um convite de trabalho. Deve ter alguma coisa aí que não foi realmente contada.

Mas, voltando. Entendam. Rad não gostava de padrões. Ela tinha o cabelo tingido de um aquamarine escuro e forte. Usava roupas rasgadas e seria impossível vê-la num vestido. Ela gostava de ouvir rock e quase nunca rap. Seu corpo era bonito, ela estava sempre de regata ou camisa de bandas desconhecidas. Coturnos nos pés em qualquer ocasião. Toda essa aparência não era nada comparada a quem ela era de verdade. Se a observássemos com um microscópio, a compararíamos com seu computador e quarto. A imagem bagunçada que ela transparecia era seu computador, com arquivos jogados por toda a parte. Mas a Rad de verdade era alguém organizada e suave, com algumas oscilações de humor iguais às minhas, contudo, clara como o bege que pintava suas paredes. Isso sendo rude, já que o mais importante eu deixei por último. Mais talentosa que milhares de Lindseys Stirling juntas (ela ficava brava quando eu falava isso, já que é sua inspiração atual). Quando ela toca... É como enviar anjos direito aos ouvidos, dependendo da música. Ela pode te fazer querer chorar ou dançar. E o que ela mais conseguia fazer era aumentar minha vontade de aprender Box e bater nela até fazê-la pegar aquele violino e apresentar para toda Washington. Por algum motivo que eu não tive tempo de descobrir, esse era o seu maior segredo. Tocar para alguém ou deixar que alguém a visse tocando era impossível. Nunca. Nem em sonho, nem pesadelo.

E lá estava ela, falando dos fins de semana em casa e em jeitos de sair de fininho sem ser notada. Essa era minha melhor amiga.

— Já acordou, preguiça? – Me foi perguntado. Eu sorri e balancei a cabeça negativamente. — Você tem trinta segundos para arrumar o cabelo. A mochila eu já arrumei.

Enquanto eu fazia um esforço para me manter acordada e levantar, Rad pegou minha bolsa e colocou nas costas feito uma mãe.

— Vou indo. Tchau, galera. Tchau, Affy. Dou um oi pra Keefe.

E simplesmente saiu da sala. Eu observei, observei, me levantei e suspirei. Quando cheguei até a porta, quase morrendo, com a guitarra nas costas, coloquei a boca para fora.

— Permissão para sair.

— Concedida.

Depois de um ano, eu aprendi algumas coisas.

Se eu demorasse muito, perderia carona. Rad sabia dirigir, eu não. Entre longos períodos entre aulas, ela passava em nossas casas e voltava trinta minutos antes. Eu não ia gostar de ficar lá o dia todo caso não precisasse.

Se ela saísse antes de mim e eu não fosse atrás logo, ela me deixava pra trás mesmo, sem dó nem piedade. Já havia feito antes, nada a impediria de fazer isso de novo.

Se ela saísse antes de mim e eu não demorasse, mas não pedisse permissão antes de sair da sala, ela me dava um tapa na cabeça sem pensar duas vezes. Era uma maneira de me incentivar a deixar de ser preguiçosa. Só que não estava dando certo.

Parecia idiota, mas era o nosso jeito de se comunicar. Gostávamos desse jeito único de tratar uma a outra, então estava tudo bem. Se alguma coisa estava errada, ela me falava e vice-versa. Éramos irmãs. Caso esse laço um dia se quebrasse, eu me sentiria incompleta.

Mesmo agora, isso me causa um desconforto.

É bom vê-la, é bom saber que está bem. Mas é diferente. Nosso laço nunca se quebrou. Laços que eu fiz jamais se quebraram. E eu temo que tenham de se desfazer para que eu fique bem de verdade.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.