Lucas sempre teve dúvidas sobre a sua sexualidade, parecia algo complicado de se falar. Ouvia histórias de garotos que se descobriram homossexuais e foram punidos pelos pais, “não era algo certo”. Isso só colocava mais pressão em sua cabeça, não saber quem era parecia tão errado.

Já se relacionou com meninas e foram boas sensações, mas também se sentia atraído pelo sexo masculino e aquilo o atormentava — a dúvida era um incômodo. Não é como se ser bissexual fosse um problema, mas a forma como tudo era retratado (nos filmes, nas histórias) o pressionava a nunca experimentar.

Morava só com a mãe, ela e seu pai se divorciaram. Pouco o encontrava por aí, normalmente ele só cuidava das pensões, mas sabia que a opinião de ambos não era diferente. Sua mãe sempre ficava feliz quando ele convidava algumas amigas ou as duas outras namoradas que teve para ir em sua casa, porém, quando a mesma se deparava com novelas que apresentavam personagens homossexuais ouvia-se alguns murmúrios negativos.

Ela não apoiava.

Seu primeiro beijo com um garoto foi escondido e suas relações seguintes também. Sentia-se melhor com eles do que com as outras garotas. Podia sentir atração por ambos, por que não? Mas acreditava que era a hora de se dar uma chance diferente.

Conheceu um menino chamado Eduardo. Eles se aproximaram muito em questão de semanas já que tinham muitos gostos em comum (desde programas televisivos até lojas de shopping). Eduardo e Lucas sempre se deram muito bem. Apaixonaram-se.

Lucas nem sabia como contar pra sua mãe, mas o coração sempre batia forte ao pensar no garoto que conhecera, queria entrar em um relacionamento com ele, queria tentar construir algo, não queria ser como os casais homossexuais de filmes que sempre se envolvem em alguma tragédia, queria ser apenas normal e se preocupar com outras coisas (sei lá, se a gasolina tá muito cara).

Quando teve coragem de contar pra sua mãe, sentiu um alívio e, ao mesmo tempo, uma pressão enorme. Ela e seu pai não conversaram durante anos, mas depois disso voltaram a se falar. Mesmo que ela não apoiasse, algum amor pelo seu filho ela tinha e não interviu em nada.

O clima em casa era complicado, não gostava muito de levar o Eduardo pra lá, não era um bom ambiente. Mas se opondo a isso, os pais do seu namorado aceitavam completamente sua decisão, pois sabiam que ela só pertencia a ele.

Lucas gostava muito de ir para lá, sentia que podia ser mais livre, era um ambiente repleto de positividade. A sua criatividade fluía mais naquela casa, sentia-se mais inspirado para fazer os trabalhos do ensino médio, ler alguns livros de ficção ou, até mesmo, para aprender a cozinhar com a sua sogra, Sônia.

Quando a notícia de que começou a namorar se espalhou, as pessoas faziam algumas perguntas como se estivessem rotulando-o, como se existissem pré-requisitos para ficar com algum garoto e não se tratava do sentimento. Os gostos pessoais não influenciam na sua sexualidade. Lucas gostava muito de assistir as competições de basquete na NBA e gostar de esportes não parecia se enquadrar nesse tal perfil que as pessoas falavam. Ele também gostava muito de filmes de ação, jogar online, fazer churrasco com amigos e assistir Discovery Home&Health e, sabe… tá tudo bem!

As piadas que contavam e a pressão envolvida incomodavam. Ao longo do tempo começou a se cercar de outras pessoas, criou um círculo social mais positivo, mesmo sabendo que nem todos têm essa sorte.

Seu único desejo se tornou ser abraçado pela sua mãe e por todos aqueles outros que conhecia, da mesma forma que era abraçado pelos pais do Eduardo.

Descobrir quem era se tornou libertador em sua vida e com essas asas ele passou a sorrir mais pra quem ele mesmo é.