Notas iniciais
Um pouco mais sobre Alex...

Após alguns dias, cansado de esperar, Alex decide ligar para Alice.

– Olá! — disse rapidamente o mágico.

– Oi, quem é? — perguntou Alice

– Alex. O mágico, se lembra?

– Oh, claro!

– Então, pensou sobre a proposta que te fiz?

– Bem...não tive muito tempo, estou tentando colocar a minha vida no lugar ainda...

– Entendo. Vamos dar uma volta no parque hoje? Assim você se distrai um pouco, me conhece melhor e pensa sobre o assunto.

– Tudo bem. Vou até o teatro mais tarde para te encontrar.

Alice se arrumou. Ao chegar, se deparou com o mágico logo na entrada do teatro. Não era mais O Grande Hoffmann, e sim Alex, apenas Alex. Agora ele aparentava ter 20 anos, a idade que realmente tinha.

Após algumas conversas e histórias, Alice já havia contado sobre sua infância, seu diário, sua paixão por mágica e seus pais. Confessou também que estava pensando seriamente em aceitar a proposta, mas queria saber um pouco mais sobre ele.

– Não tive uma infância muito boa. Aos 5 anos eu iria para um orfanato, mas o tio Lud me salvou.

– E os seus pais?

– Não sei deles. — Alex parecia um pouco nervoso.

– Algo mais? Você parece estar omitindo alguns fatos... — retrucou Alice, com um tom brincalhão.

– Não, não estou! — mas estava.

– Vamos! Conte-me! Por favor! Aliás, eu tenho que conhecer as pessoas com quem trabalho.

– Está bem. — Hoffmann parou por um minuto e suspirou — É difícil pra mim. Nunca contei a ninguém, nem a Emma.

– Todos nós temos algo a esconder, mas pode confiar em mim. Não contarei a ninguém. — disse Alice, num tom amigável.

– Então...eu tinha 5 anos...não sabia como o mundo funcionava direito e...bem...eu via meu tio fazendo mágicas e achava isso o máximo. Um dia eu fui tentar fazer mágicas em casa. Todos estavam dormindo, minha mãe, meu pai e minha irmazinha. Ela tinha 6 meses. — ele olhou para o lado, depois para o céu. Não conseguiu mais olhar nos olhos de Alice — eu causei um incêndio.

– Por isso o orfanato?

– Bem...é... — mas ele ainda não havia terminado, tinha algo mais para contar.

– Só isso?

– Na verdade, não. Minha irmã não resistiu às queimaduras... — Alice ficou na dúvida se o que brilhava no rosto dele era uma lágrima ou apenas um grão de purpurina que refletia ao sol.

Por um momento, os dois continuaram andando, sem falar nada. Ela resolveu quebrar o silêncio.

– Não foi culpa sua. Você era pequeno, não sabia o que poderia acontecer. — tentou consolá-lo, o que pareceu não dar certo — Lembre-se, você mesmo me falou: o que passou, passou.

– Obrigado. — Alex deu um sorriso forçado.

Ficaram no parque por mais alguns minutos e voltaram. Cada um para o seu lar. Ela para o apartamento de Rosa. Ele para o Trailer, estacionado atrás do teatro.

"Depois de ficar um tempo longe de você, resolvi tirar uma noite para escrever. É difícil perder os pais tão de repente. Passei noites sem dormir. Ainda dói, mas assumo que não tanto quanto antes. Conheci alguém especial que tem algo em comum comigo: ele gosta de mágicas. Pensei que fosse impossível se apaixonar assim, tão repentinamente, mas provei a mim mesma que estava errada.

Ele quer que eu o acompanhe em seus shows. Basicamente, disse que Emma, sua atual assistente, não é suficientemente boa, portanto precisa de mais alguém para ajudá-lo no palco. Ele me chamou!

Hoje, no passeio que fizemos, conversamos muito. Falei muito sobre mim, acho até que falei demais. Também descobri algumas coisas sobre ele. Seu passado é negro. Mas o que realmente importa é nosso futuro, juntos. Sim, estou realmente apaixonada por ele.

Não me importo em passar anos num trailer, viajando pela Alemanha. Acho até uma ideia interessante. Poderei conhecer Hannover! Aliás, não tenho mais nada a perder...tenho apenas a casa do papai, mas já dei um jeito nela. Com o que eu ganho de aluguel, posso comprar meus objetos pessoais e me manter bem. Está decidido, vou aceitar a proposta."

Assim, Alice fechou o diário e o guardou.

"Oh, meu Deus! Como eu não pensei nisso antes! Ele trabalha com Emma a anos, os dois, num trailer. Ela é bonita, ele também. Será que existe algo entre os dois? Não, Steiner, não pense nisso. Não agora."

Enquanto ela escrevia, do outro lado, Hoffmann conversava com Emma.

– E agora você chama aquela vadia, sem falar comigo?! — Finkler estava nervosa.

– Não fale assim dela! Alice poderia te substituir nos números que não lhe agradam. — argumentou o mágico tentando acalmá-la.

– Não, não! Não irei aceitá-la conosco. Sei que você não quer ela apenas como assistente. E eu? Como fico? Depois de tudo o que tivemos?

– Emma, o que houve entre nós já acabou. A muito tempo. Você é apenas minha amiga e assistente agora.

– Tudo bem. A escolha é sua.