A viagem do tigre - Pov dos tigres
29 Tempestade - Ren
Eu estava com Kadam na casa do leme, quando ouvi os gritos de Kelsey:
—Ren! Senhor Kadam!
Corri em direção a porta e ela entrou, batendo de cara no meu peito. Eu a segurei pelos ombros perguntando o que havia acontecido.
—É Kishan. Ele está no modo de oráculo. Está parado na proa, dizendo que uma tempestade se aproxima. Acho que ele vai nos guiar através dela.
—Tudo bem. Ajude Nilima. Vou lá ver como ele está.
Corri até a proa mas não vi meu irmão. Nuvens escuras se aproximavam. Voltei à casa do leme para avisar a todos que iria tentar farejá-lo e adverti Kelsey para que não saísse de lá, pois a tempestade se aproximava.
A tempestade havia chegado e estava muito forte. Encontrei Kishan em cima da casa do leme. Chamei por ele, mas ele não respondeu. Subi rápido as escadas e chamei-o novamente, mas era como se ele não pudesse me ouvir. Toquei em seus ombros mas ele não virou o rosto. Me aproximei dele de forma que consegui ver seus olhos totalmente negros, fixos no horizonte.
O iate balançava com força, e Kishan estava em pé, sem se segurar. Tentei convencê-lo a sair dali, tentei arrastá-lo, mas ele não se mexeu. Estava em transe.
Desci para avisar à Kelsey que o havia encontrado, antes que ela saísse para procurá-lo. Eu avisei que precisaríamos prendê-lo e Kelsey me disse que iria buscar o lenço em seu quarto. Eu a impedi de sair.
A tempestade era intensa e fazia o iate tombar de um lado para o outro. Subi rápido temendo que Kishan caísse no mar. Quando cheguei ao alto da casa do leme, Kelsey estava lá. Ela estava toda molhada e segurava Kishan pela cintura, enquanto se agarrava à amurada. Os pés dela estavam travados em uma barra de metal, mas ela estava tendo dificuldades em se segurar. Kishan nem se dava conta da presença dela. Eu corri até eles e a agarrei pela cintura. Irritado, falei em seu ouvido:
—Achei que tivesse dito a você que não era para sair de onde estava. Por que sempre tem que fazer exatamente o oposto do que eu peço?
—Ele ia cair no mar!—gritou em resposta.
—Antes ele que você!
Kelsey enfiou o cotovelo em minha barriga, irritada. Eu pedi ao lenço que se amarrasse a Kishan e o prendesse na amurada. O lenço obedeceu imediatamente. Kelsey olhou aliviada.
—Pronto. Agora, vamos voltar para dentro.—Falei para Kelsey.
—Não!Alguém precisa tomar conta dele!
—Eu faço isso. Mas deixe-me levá-la de volta primeiro.
—Será que você não pode simplesmente me amarrar à amurada como fez com Kishan?
Ela espirrou e eu a olhei com raiva.
—Não tem discussão. Você vai voltar para a casa do leme agora, nem que eu precise carregá-la como um saco em cima do ombro! Venha!
Eu a puxei pela mão, depois a abracei e a levei até a cassa do leme, fechando a porta atrás de mim. Pedi ao lenço que me prendesse ao lado de Kishan. A tempestade se intensificava. O vento e as ondas balançavam o iate. Estava frio. Mas Kishan não parecia se importar. Ele estava imóvel. Então ele disse:
— Devemos seguir o caminho dos relâmpagos.
Em seguida, começou a relampejar. Me soltei das amarras do lenço e fui até à casa do leme. Kelsey estava lá com Kadam e Nilima. Avisei a eles para seguirmos os relâmpagos e voltei para perto de Kishan.
A tempestade era intensa e fria. Eu estava completamente molhado, assim como meu irmão. Kishan não parecia perceber. Ainda estava catatônico, olhando para o horizonte. Eu estava com muito frio. Meu corpo tremia tanto, que eu não conseguia me controlar. Estava me sentindo cansado, fraco. Meu corpo doía. Kishan não tremia e parecia não estar sentindo nada. Seu corpo estava rígido e firme, como uma estátua.
Eu achava que ele estava seguro, que poderia ficar sozinho lá. Mas eu sabia que Kelsey não o deixaria e que se eu não permanecesse com Kishan, ela iria no meu lugar, e isto eu não poderia permitir.
O mar se acalmou e a chuva foi diminuindo, até parar. O corpo de Kishan desabou. Eu estava com muito frio e me sentia fraco. Ainda assim, eu peguei o corpo inconsciente de meu irmão e o apoiei em meus ombros, descendo com dificuldades até à casa do leme. Abri a porta e entrei, caindo no chão e levando Kishan comigo.
Eu estava semiconsciente. Podia ver o que acontecia a meu redor, mas não conseguia reagir a nada. Nilima arrastou o corpo de Kishan para dentro e Kelsey fez o mesmo comigo. Eu queria dormir, meu corpo estava gelado.
Senti Kelsey esfregando uma toalha em meus braços, senti tecidos se enroscando em meu corpo, mas não conseguia compreender o que era. Kelsey levantou minha cabeça e colocou algo na minha boca. Eu engoli o liquido quente e senti um pouco de alívio. Tentei reagir, mas ainda estava frio demais. Tentei dizer a ela, mas não sei se minha voz saiu.
De repente, senti um calor na minha pele. Percebi que as mãos de Kelsey tocavam as minhas, e elas estavam quentes. Senti suas mãos subindo pelos meus braços. Onde ela tocava, o frio era substituído por calor. O calor que emanava das mãos de Kelsey aqueceu meu coração e eu recuperei toda a minha consciência. Eu não sabia ao certo o que estava acontecendo. Mas era bom.
Senti quando ela tocou meu peito e desceu pela barriga. Suas mãos quentes desciam pelo meu corpo, de uma maneira que ela nunca tinha feito antes. Era reconfortante. Era gostoso. Era íntimo. Despertei completamente ao sentir suas mãos em meu rosto.
Abri os olhos e vi seu rosto à minha frente. Ela tinha os olhos fechados. Senti uma alegria imensa por ela estar ali. Senti ternura, mas mais do que isso. Meu coração estava cheio do amor que eu sentia por ela. Eu toquei e acariciei seu rosto. Ela abriu os olhos surpresa.
—Como está se sentindo?—perguntou a mim.
—Como se tivesse morrido e ido para o paraíso—Respondi sorrindo—O que você está fazendo?
—Uma massagem profunda para aquecer o seu corpo. Doeu? Foi quente demais?
—Doeu de um jeito bom. Para falar a verdade, não iria me incomodar se fosse um pouco mais quente.
Ela ficou sem graça e desviou rapidamente os olhos para o lado. Olhei por debaixo de seu braço e vi que não estávamos sozinhos. Nilima nos observava curiosa, enquanto Kishan ainda estava desacordado à sua frente. Kelsey pigarreou e disse que iria cuidar dele. Ela me entregou um copo de bebida quente e pediu que eu o tomasse. Eu a obedeci enquanto observava.
Kishan estava deitado, inconsciente e parecia imóvel. Seus lábios estavam roxos, mas ele usava roupas de flanela. Então eu percebi que eu também usava roupas semelhantes e fiquei pensando em como as meninas tinham trocado as nossas roupas.
Kelsey colocou as mãos sobre as de Kishan. Vi que as mãos dela começaram a brilhar e os símbolos apareceram. Em Seguida. Kelsey tocou os braços de meu irmão. Senti um pouco de ciúme, já que eu mesmo tinha experimentado o toque quente de Kelsey e sabia o quão íntima era aquela sensação. Eu não disse nada, pois sabia que meu irmão precisava desse toque naquele momento.
Kelsey colocou as mãos nas pernas de Kishan, mas elas pararam de brilhar e os símbolos desapareceram. Kelsey fechou os olhos, tentando se concentrar, mas nada mudou. Ela havia ficado sem energia e precisava descansar. Mas se ela não ajudasse Kishan, ele poderia não sobreviver. Eu sabia que ela se recusaria a descansar antes que ele estivesse bem. Eu sabia o que eu tinha que fazer.
Levantei-me e me ajoelhei ao lado de Kelsey. Toquei seus ombros e desci minhas mãos por seus braços até as suas mãos. Segurei-as e as esfreguei entre as minhas, então pedi para que ela tentasse outra vez. O calor saiu, mas voltou a falhar logo. Então e me aproximei e coloquei as mãos sobre seus ombros, mantendo-as ali.
Em pouco tempo, senti o calor de Kelsey penetrar em meu corpo, depois voltar para ela. A chama dourada ficou visível. Ouvi os murmúrios surpresos de Nilima e Kadam atrás de nós. Kelsey deu de ombros e continuou deslizando as mãos pelo corpo de Kishan, cuja respiração, antes fraca, aprofundou-se e todos notamos seu peito subir e descer.
Kishan agora dormia profundamente, mas estava bem. Eu o peguei no colo e o levei ao seu quarto. Kelsey me acompanhou mas estava muito cansada. Eu a acomodei em sua própria cama, então sussurrei em seu ouvido:
—Obrigado por me aquecer, iadala.
Ela sorriu e caiu no sono.
Na manhã seguinte, encontrei Kishan e Kelsey juntos na casa do leme. Ele dizia a ela como os relâmpagos do dia anterior tinham saído de dentro dos seus olhos e que por isto eles coçavam. Kelsey o ouvia atentamente enquanto ele lhe fazia carinho, alheio ao que tinha acontecido antes. Ele era o único que não sabia do raio dourado de Kelsey, fruto da ligação especial que havia entre nós dois. E Kelsey continuava mantendo a ilusão de que ela ainda era dele.
Irritado com a proximidade dos dois, pedi a Kelsey que guardasse o fruto e o lenço em outro lugar, apenas para tirá-la de perto dele. Ela suspirou, mas saiu sem reclamar. Talvez ela quisesse se afastar. Talvez ela ainda não tivesse coragem para dizer a ele.
Eu encarei meu irmão, que me devolveu o olhar, depois se virou, sem dizer uma palavra. Ficamos calados por alguns minutos, então Kishan me disse:
—Sei o que você está tentando fazer e não o culpo. Mas quero que saiba que não vou abrir mão de Kelsey. Eu a amo.
— Pois eu também sei o que você está tentando fazer Kishan. Você fica se fazendo de coitadinho para que ela tenha pena de você e não termine tudo. Certamente você já percebeu que é a mim que ela quer.
Kishan virou-se irado, prestes a me dizer algo. Mas Kelsey entrou depressa na casa do leme, interrompendo nossa discussão.
—Fala sério! Este não é o momento. Nós temos um encontro com Jīnsèlóng em menos de uma hora.
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